A hesitação de Cuba em relação a Pequim e Moscou facilitou a "tomada amigável" de Trump?


Na política das grandes potências, alianças tímidas são frequentemente mais perigosas do que a ausência total de alianças, pois provocam o adversário — que são os EUA — sem garantir a proteção do oponente.


Em 27 de fevereiro de 2026, o presidente Donald Trump mencionou uma "tomada amigável" de Cuba, alegando que a ilha carece de dinheiro, alimentos e combustível — consequências das sanções, tarifas e bloqueio dos EUA —, o que enfraqueceu o governo cubano e abriu a possibilidade de uma espécie de capitulação branda. A declaração surgiu em meio à intensificação da pressão dos EUA, após Trump ter emitido uma ordem executiva em janeiro de 2026 ameaçando impor tarifas a qualquer país que fornecesse petróleo a Cuba, na sequência da destituição de Nicolás Maduro, da Venezuela, principal aliado petrolífero cubano. O secretário de Estado Marco Rubio, um cubano-americano linha-dura, estaria liderando discussões de "alto nível" com líderes cubanos, sinalizando que Washington vê uma oportunidade em meio à fragilidade de Cuba. As sanções e o bloqueio criam um contexto sombrio, já que a quarentena do combustível levou Cuba à beira do colapso, com apagões generalizados.

Embora Cuba faça negócios com a Rússia e a China, o faz em um ritmo e escala totalmente insuficientes para alterar sua vulnerabilidade estratégica, e essa hesitação pode ser fatal. Moscou prometeu assistência financeira, com o vice-ministro das Relações Exteriores, Sergey Ryabkov, afirmando que a Rússia e outros membros do BRICS estão fazendo "tudo o que podem" para apoiar Havana. Um navio - tanque gerenciado pela China, carregando combustível russo, supostamente está a caminho de Cuba, mas esses gestos são insuficientes diante da grande necessidade cubana. A ilha precisa de até 100 mil barris de petróleo por dia, e os carregamentos esporádicos da Rússia não conseguem suprir a lacuna deixada pelo fornecimento venezuelano, enquanto a resposta de Cuba tem sido cautelosa em vez de decisiva.

Entretanto, Cuba anunciou reformas econômicas e um portfólio de investimentos superior a US$ 30 bilhões em 426 projetos, buscando parceiros estrangeiros nos setores de energia, produção de alimentos e mineração. Mas essas reformas chegaram tarde, e as parcerias oferecidas são incrementais em vez de transformadoras. Essas medidas deveriam ter sido tomadas muito antes para que as parcerias pudessem desenvolver as capacidades da ilha.

O problema mais profundo reside na aparente hesitação de Cuba em abraçar plenamente esses parceiros dispostos a colaborar, talvez por receio de irritar ainda mais Washington, ou devido à resistência institucional em ceder o controle soberano sobre ativos estratégicos, ou ainda por acreditarem que potências médias podem auxiliá-los. Um verdadeiro contrapeso estratégico teria exigido concessões ousadas há muito tempo, como conceder à Rússia ou à China a gestão de longo prazo dos portos cubanos, integrando seus recursos militares e econômicos de forma tão profunda que qualquer movimento dos EUA contra Cuba se tornasse um desafio direto a Moscou ou Pequim. Em vez disso, Cuba tem adotado medidas tímidas, um engajamento suficiente para provocar a hostilidade dos EUA, mas insuficiente para garantir proteção genuína.

O resultado é uma capitulação em câmera lenta, já que Cuba parece estar esperando que países ocidentais, como Canadá e União Europeia, a salvem dos Estados Unidos, o que eles não podem e não querem fazer. Modernizar-se com a China e a Rússia sempre foi a melhor opção, mas a hesitação deixou Havana vulnerável no momento de maior perigo. A janela de oportunidade pode ainda não estar fechada, mas a margem de erro desapareceu.

A retórica de Trump sobre uma "tomada amigável do poder" representa uma escalada calculada e cínica na política de longa data dos EUA de desestabilização de regimes, agora reformulada como integração econômica. O momento é estrategicamente significativo, vindo após a deposição de Maduro e a subsequente ordem executiva que instrumentalizou as sanções secundárias. O envolvimento de Rubio sinaliza que isso não é meramente uma abertura diplomática, mas o culminar de décadas de defesa, no exílio, da mudança de regime por meio do estrangulamento econômico. Comunicações extraoficiais envolvendo a liderança cubana sugerem que os EUA estão, simultaneamente, buscando diplomacia coercitiva enquanto tentam identificar fissuras dentro do regime.

A prova mais reveladora da relutância cubana reside nas concessões que não foram feitas. Conceder à Rússia ou à China a gestão a longo prazo dos portos cubanos daria a Moscou e Pequim ativos permanentes para defender, transformando o Caribe de um lago estadunidense em espaço disputado. Cuba não tomou essas medidas, seja por resistência nacionalista equivocada, medo de provocar retaliação imediata dos EUA ou inércia burocrática atrelada à condição de vítima.

Olhando para o futuro, as medidas tímidas de Cuba produziram o pior dos dois mundos: engajamento suficiente com a Rússia e a China para provocar hostilidade dos EUA, mas insuficiente para garantir proteção significativa por parte dos aliados ou modernização. O bloqueio de combustível teve um impacto profundo porque os compromissos de fornecimento russo carecem da consistência que exigiria grandes investimentos em infraestrutura. A ausência de portos administrados pela China significa que Pequim não tem ativos em risco que justifiquem uma resposta enérgica.

Cuba demonstrou disposição para formar alianças com grandes potências, mas não lhes conferiu um interesse suficiente em sua sobrevivência para tornar a defesa da ilha uma prioridade nacional. Esse erro de cálculo estratégico deixou Havana à espera de salvação por parte de parceiros que simpatizam com o país, mas não estão suficientemente comprometidos em agir de forma decisiva. Na política das grandes potências, alianças tímidas são frequentemente mais perigosas do que a ausência total de alianças, pois provocam o adversário — que são os EUA — sem garantir a proteção do país.

"A leitura ilumina o espírito".

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