Assim o Irã surpreende – e quer vencer

Atingido pela maior força militar do planeta, país explora brechas e impõe ao agressor danos econômicos e geopolíticos. Como pretende resistir, apoiando-se em coesão popular, história, mísseis e drones. Fala ex-diplomata britânico


Alastair Crooke, entrevistado por Chris Hedges | Tradução: Antonio Martins

Embora as redes sociais da Casa Branca publiquem seguidas montagens de vídeo intercalando videogames filmes de Hollywood com imagens reais de seus ataques ao Irã, a situação real não poderia ser mais distante da propaganda norte-americana.

Para dissipar a névoa da guerra e oferecer uma análise concreta do que está acontecendo no Oriente Médio, o escritor e ex-diplomata britânico Alastair Crooke, do site Conflicts Forum,a encontrou-se comingo em mais um episódio do The Chris Hedges Report .

A capacidade de resposta militar do Irã já provocou a redução dos mísseis interceptores israelenses, a destruição de sistemas de radar norte-americanos avaliados em bilhões de dólares e a preparação diligente de uma nova liderança iraniana. Crooke explica que essas perdas do Ocidente imperial e de seu aliado em Tel Aviv são o que está moldando a realidade da guerra hoje.

Os iranianos dizem que também possuem mísseis mais modernos, que serão apresentados e revelados em seu tempo. Eles ainda não chegaram a esse ponto, mas esses mísseis estão à espera de serem usados no momento certo. Teerã está bastante confiante de que possui enormes estoques de mísseis, capazes de permanecer ativos em uma longa guerra”, diz Crooke.

Ele também aborda as implicações mais amplas que a guerra produzirá no Oriente Médio, em particular nos Estados do Golfo que têm sido subservientes aos interesses norte-americanos e israelenses, agora sujeitos a ataques. “O Golfo Pérsico costumava ser visto como um lugar seguro para grandes empresários, investidores e assemelhados. Isso – férias, companhias aéreas, turismo, data centers — acabou”, diz Crooke. Eis sua entrevista:

Chris HedgesA incompetência de Donald Trump, Pete Hegseth e Marco Rubio está transformando a guerra contra o Irã em uma versão letal de “A Gangue Que Não Sabia Atirar”. As desculpas e os objetivos da guerra mudam a cada hora. Será que o objetivo é destruir o programa nuclear que Trump insistiu ter sido aniquilado em junho passado? Ou será que os EUA atacaram porque o Irã está a uma semana de produzir material nuclear de grau industrial, utilizável em armas? — uma alegação que Israel os defensores da guerra com o Irã vêm repetindo há três décadas? Será que o objetivo é a mudança de regime? Ou será, como disse Rubio, que a guerra está sendo travada porque os EUA tiveram que se juntar a Israel, que estava determinado a atacar, para evitar ataques preventivos contra alvos americanos?

Os EUA assassinaram os principais líderes do Irã, incluindo o Líder Supremo, e depois mataram o segundo escalão, com quem disseram esperar negociar. “A maioria das pessoas que tínhamos em mente está morta”, admitiu Trump. “E agora, temos outro grupo. Eles também podem estar mortos, segundo relatos.”

Trump exige a rendição do exército iraniano — ou este, diz ele, “enfrentará a morte garantida”. Afirma que ordenará à Marinha dos EUA que escolte petroleiros e navios através do estreito de Ormuz, uma manobra que colocaria os navios americanos em fila um massacre. O chefe do Pentágono, Pete Hegseth, insiste que Trump decidirá quem governará o Irã, enquanto o Kuwait, aliado a Washington, abateu três caças norte-americanos. Os EUA, Israel ou ambos (ainda não sabemos quem, exatamente), destruíram uma escola primária, matando 175 meninas.

Mais de mil civis iranianos foram mortos. Teerã está sendo atingida com milhares de bombas. E, no entanto, Trump e seu homólogo em Israel afirmam que esta é uma guerra “de libertação”. A CIA, que passou décadas fomentando um desastre após o outro no Oriente Médio, passou a apoiar o armamento de milícias curdas para derrubar o regime iraniano.

Se há algo claro, é que Trump e sua trupe de desajustados e bufões não têm a menor ideia do que estão fazendo. Para discutir a guerra no Irã e suas consequências, contamos com a presença de Alastair Crooke, ex-diplomata britânico e membro das equipes de negociação do Reino Unido. Ele atuou por muitos anos no Oriente Médio como conselheiro de segurança do enviado especial da União Europeia para a região, além de liderar os esforços para estabelecer negociações e tréguas entre o Hamas, a Jihad Islâmica e outros grupos de resistência palestinos com Israel. Foi fundamental para o estabelecimento do cessar-fogo de 2002 entre o Hamas e Israel. É também autor de Resistência: A Essência da Revolução Islâmica, que analisa a ascensão dos movimentos islâmicos no Oriente Médio.

Bem, não sei por onde começar. Vou deixar que você aborde este fiasco total que está se espalhando rápido por todo o Oriente Médio. Dê-nos um panorama de onde estamos e do que está acontecendo.

Alastair Crooke: Você listou algumas das supostas razões para o motivo da guerra logo. Mas não foi bem assim, e houve ampla cobertura — na imprensa hebraica, não anglófona –, que monitoramos com bastante atenção.

Quando Benjamin Netanyahu foi à residência de Trump em Mar-a-Lago, em 28 e 29 de dezembro, ele disse algumas coisas um pouco surpreendentes, mas relevantes hoje. Afirmou: “A questão nuclear não é o problema. Não vou dizer que eles estão a um mês de desenvolver uma arma nuclear. Você precisa mudar as prioridades. A primeira é o sistema de mísseis iraniano. Temos que destruí-lo, porque está se tornando muito mais sofisticado. Não é apenas que o substituíram, após a guerra de junho. Criaram um paradigma de defesa completamente novo, com várias camadas. Se você não destruir o sistema de mísseis, não seremos capazes de penetrar essa proteção.”

E acrescentou: “É isso que vocês têm que fazer.” Trump concordou naquele momento, dando sinal verde para um ataque ao Irã. Isso fica claro em vários relatos em hebraico sobre a reunião. Trump concordou em realizar um ataque. Até a data foi mais ou menos definida. Mudou um pouco, mas estava marcada para uma determinada semana, como vimos.

Netanyahu também foi muito claro nesses relatos, ao dizer a Trump: “Você tem que fazer isso. E se tentar fazer um acordo nuclear, veja bem, sou eu quem dá aval para isso.” Ele usou a palavra “aval”.

“De qualquer forma, vocês não vão conseguir aprovação para um acordo nuclear. E sabem que a direita americana vai seguir o meu exemplo. Sem aprovação, vocês vão fracassar. E mais: se não fizerem isso, lançaremos o primeiro ataque e queremos ver se vocês não se juntam a nós. É claro que vocês não têm escolha. Vocês têm que se juntar a nós.”

Em alguns aspectos, pode-se dizer que Trump não tinha outra opção senão atacar o Irã. O pretexto mudou diversas vezes desde então. A questão nuclear ou a busca por armas, por assim dizer, como pretexto para esconder o fato de que ele foi obrigado por Netanyahu a atacar.

É o que o secretário de Estado Marco Rubio admitiu.

A compulsão provavelmente era um pouco maior do que isso. E talvez tenham lhe dito muito claramente que ele não tinha escolha.

Que tipo de mísseis o Irã fabrica ou possui? São mísseis chineses? Você mencionou uma modernização. Explique. Além disso, o que está acontecendo agora, já que eles estão enviando frotas de drones? Minha suposição é que não estão enviando seu armamento mais sofisticado, como seria de se esperar, para que possam esgotar os interceptores.

Você está absolutamente correto. O que iranianos estão usando é o arsenal de mísseis de 2012, 2013. Mísseis muito antigos e drones simples, cujo objetivo é esgotar ou forçar Israel e os Estados do Golfo a esgotarem suas capacidades de interceptação, o que estão conseguindo.

O que vemos agora é que a capacidade do Estados do Golfo para interceptar até mesmo drones é quase nula. Acho que o Catar ainda possui alguma capacidade de interceptação na base norte-americana de Al Udeid. Fora isso, os drones voam livremente. Drones iranianos sobrevoam livremente Doha e Dubai e atacam bases por todo o Golfo, particularmente no Bahrein. O foco está no Bahrein, que abriga a 5ª Frota – o porto, além de diversas instalações de inteligência e outras áreas. O Irã usou drones e mísseis para eliminar os olhos dos Estados Unidos.

Destruíram instalações de radar muito caras. Cerca de quatro ou cinco delas, que às vezes custam mais de um bilhão de dólares cada. Todas estão sendo sistematicamente destruídas. A única instalação de radar que provavelmente resta neste momento é a de Israel, mas os Estados do Golfo perderam todas as suas instalações de radar. Eram radares grandes que podiam enxergar a 800 quilômetros de distância. Faziam parte do elemento mais sofisticado da capacidade americana de, por assim dizer, projetar um cenário de batalha digitalmente, por meio de satélites e sistemas de radar.

Foi para isso que os iranianos usando seus drones, inicialmente. Disseram e avisaram, embora pareçam ter pego o Ocidente de surpresa. O Irã foi muito explícito ao afirmar que o foco inicial seriam as bases norte-americanas no Golfo Pérsico. Em seguida, eles começaram a avançar com cautela, usando ainda, principalmente, mísseis mais antigos.

Esses mísseis foram fabricados há 20 anos, usando tecnologias mais antigas. Agora, passaram a usar modelos mais recentes, devastadores. Estou falando do Khorramshahr-4 , por exemplo, um míssil hipersônico. Ele voa a Mach 14. Possui múltiplas ogivas de submunição, direcionáveis. É como se fossem 80 pequenas ogivas lançadas simultaneamente.

Cada uma delas tem um explosivo de quase 20 quilos. Não são bombas enormes, mas são significativas. Se 80 delas chegarem juntas, mais ou menos agrupadas, elas concentram-se em um raio de cerca de 15 a 16 quilômetros – ou seja, uma área ampla. É como ser bombardeado por 80 canhões ao mesmo tempo. É devastador. E os israelenses, pelo que tudo indica, não conseguem abater mísseis que viajam a uma velocidade superior a Mach 4.

Não conseguem destruir esses mísseis. Podem abater alguns dos mísseis mais lentos, mas esses foram disparados justamente para esgotara a capacidade de tentar derrubá-los com mísseis.

É também muito evidente que Israel usando seus  mísseis em quantidades prodigiosas. É possível ver, em alguns vídeos que ultrapassaram a censura, que, à medida que os mísseis iranianos se aproximam, Israel dispara oito, dez ou doze mísseis de intercepção para tentar abatê-los. Isso não pode continuar por muito tempo.

Os estoques dos mísseis interceptores estavam baixos após a Guerra dos Doze Dias, em junho. Eles não foram totalmente restaurados, porque os Estados Unidos não possuem muitos desses mísseis. Chegará o momento em que eles se esgotarão. É por isso que vemos o Irã usando menos mísseis agora: eles dizem que não precisam usar mais, já que um único míssil disparado por vez elimina o que resta da capacidade de interceptação de Israel.

Os iranianos dizem também que possuem mísseis mais modernos, que serão apresentados e revelados mais tarde. Estão à espera de serem usados no momento certo. Eles estão bastante confiantes de que possuem um enorme estoque, que lhes permitiria manter uma longa guerra.

Quais são as consequências da destruição dessas estações de radar? O que isso significa em termos de capacidade de dissuasão por parte de Israel e dos Estados Unidos?

É algo extremamente importante porque esses radares e satélites estão interligados. É o que, no contexto ucraniano, ficou conhecido como ISR (Inteligência, vigilância e reconhecimento). Foi o fator decisivo para o apoio da OTAN à Ucrânia: inteligência, vigilância e reconhecimento, que coletavam dados de radares, dados de AEW&C (alerta aéreo antecipado e controle) , enfim, de tudo o que estivesse voando. Reuniam tudo e criavam, por assim dizer, um mapa de batalha virtual.

Isso podia ser transmitido diretamente para um piloto. Ele nem precisava ver o avião inimigo ou o sistema de defesa antimíssil em terra. Bastava receber os dados de forma segura e atacar. No contexto do Irã e da Ucrânia, isso fazia a diferença. Sempre ouvimos, quando se trata de disparar mísseis contra a Rússia, que os dados vêm dos Estados Unidos e são altamente confidenciais.

O que aconteceu agora é que aparentemente alguns países forneceram ao Irã as mesmas capacidades de ISR (Inteligência, Vigilância e Reconhecimento). É algo extremamente importante.

Estamos vendo Israel e os EUA atacando o que dizem serem depósitos de mísseis balísticos e locais de lançamento. Você tem alguma ideia de quão bem-sucedidos são esses ataques?

Tenho quase certeza de que não estão tendo sucesso. Os iranianos adotaram um sistema de comando muito descentralizado e um controle descentralizado dos sistemas de mísseis. Os mísseis de longo alcance, estão enterrados em silos espalhados por 57 distritos do Irã. E o Irã tem o tamanho da Europa Ocidental. Não é uma área pequena. E os mísseis estão enterrados profundamente. Os mísseis grandes, os “mísseis de verdade” são disparados do subsolo através de um silo subterrâneo. Saem direto. Não há um lançador móvel. Podem continuar a ser disparados mesmo se o comando e o controle forem perdidos. Foram projetados com essa capacidade de operação, em caso de falha de comando. Sei disso porque certa vez tentei explicar ao Secretário de Defesa americano da época, e também porque havia mísseis enterrados profundamente nos penhascos ao redor do mar.

Essa é a estratégia de dissuasão dos iranianos. Esses mísseis não serão destruídos e poderão continuar disparando, pois são controlados autonomamente por cada distrito, com um plano prévio que define o que farão caso o centro de comando e controle seja destruído. Eles continuariam lutando mesmo se perdessem o controle. Lembro-me de que isso foi testado quando estive em 2006, no Líbano, com o Hezbollah. Essa é a dissuasão completa, que vem sendo preparada há muitos anos. A estratégia de dissuasão deles, essencialmente, é: mesmo que nos destruam, que eliminem Teerã, o comando, o exército, a Guarda Revolucionária Islâmica, a guerra continuaria e Israel seria destruído. Foi isso que alertaram.

Trabalhei no Irã, como você, e uma das realidades da estrutura de poder era a descentralização em pelo menos três camadas. Não havia uma estrutura de poder central estabelecida, porque eles não queriam outro Xá. Eu poderia obter um visto do ministério da Orientação enquanto o ministério das Relações Exteriores me proibia de entrar no país, ou vice-versa. Havia uma multipolaridade em termos de sistemas de poder.

Tenho outras perguntas, mas vamos começar com o assassinato do Líder Supremo,da hierarquia do governo iraniano e, segundo Trump, do segundo escalão. O que isso significa?

Sobre o assassinato do Líder Supremo, você sabe os detalhes. Ele estava em casa e sua família estava com ele. Optaram por cuidar dele e sabiam o que provavelmente aconteceria. Ele estava em sua mesa. Eu estive lá, não dentro da casa dele, mas vi a casa, que fica no norte de Teerã. É um prédio muito humilde e simples. Ele estava trabalhando lá.

Havia dito, pouco antes: “Tenho 86 anos, sou meio inválido, tenho minha dignidade, mas é tudo o que me resta, algo que vocês me deram. Estou feliz em dar minha vida pelo povo iraniano.”

Quer achemos isso estranho, ou mesmo irracional, era assim que ele pensava. Faz parte da cultura do Irã a ideia de sacrifício e a disposição de fazer esse sacrifício pelos interesses do seu povo, pela sua civilização, pela sua religião. Ele era muito popular. Tinha muitos seguidores no islamismo xiita. Eles têm guias, os mujahidin.

São os clérigos mais graduados. Não dão instruções, mas você escolhe qual deles seguir e recebe seus ensinamentos: morais, éticos, relacionados ao casamento e tudo o mais. Ele tinha um dos maiores números de seguidores, não apenas no Irã, mas em toda a região. Sua morte realmente inflamou o islamismo xiita, não apenas no Irã, mas particularmente no Iraque e no Bahrein.

O Bahrein provavelmente está mais perto de uma mudança de regime do que qualquer outro país neste momento. É composto por 70 a 80% de xiitas e governado por um rei sunita que possui uma força de proteção composta inteiramente por sunitas. Há enormes protestos e manifestações para depô-lo.

O assassinato do aiatolá teve grande impacto e houve tentativas de sitiar a embaixada dos EUA em Bagdá. Um grande número de manifestantes se reuniu do lado de fora. Houve protestos no Paquistão, com manifestantes sitiando o consulado. Dois ou três importantes líderes religiosos xiitas emitiram fatwas incitando a jihad, a jihad global contra os Estados Unidos e Israel.

Esses ataques têm uma influência marcante, particularmente sobre as milícias iraquianas. Os grupos Hashd estão atacando em Erbil e alvejando os sistemas de defesa aérea e os radares americanos em todo o Iraque – que provavelmente estão entre os mais importantes, porque é de lá que Israel tem realizado seu ataque de longo alcance, lançando mísseis de cruzeiro de longo alcance contra o Irã.

Devemos observar que pelo menos 60% da população iraquiana é xiita. Quando se fala em ataques a Erbil, estamos falando da área controlada pelos curdos no norte. Talvez nenhum grupo étnico no Oriente Médio tenha sido tão usado e descartado quanto eles, e parece que estão prestes a ser usados e descartados mais uma vez. Já que você mencionou Erbil, por que não fala sobre essa ideia de armar milícias curdas para entrar no Irã?

Não acho que isso vá acontecer. Houve, em junho passado, uma tentativa… Quero explicar o contexto, porque é importante. Faz parte do plano final de Israel para o futuro do Irã: incitar elementos separatistas — curdos balúchis azeris , todos eles. Chegaram a redigir constituições separadas, para que estados independentes pudessem ser construídos no Irã, dividindo o país em grupos étnicos. Ou seja, o objetivo de Israel é provocar um conflito étnico-sectário para deixar o Irã enfraquecido e caótico, incapaz de ameaçar Telaviv de qualquer forma, como vemos na Síria. Esse não é o objetivo de Washington, que quer a mudança de regime.

O objetivo norte-americano neste momento é simplesmente copiar o modelo da Venezuela e se livrar do líder. Presumia-se que haveria um levante e uma tomada de poder popular. Trump faria algum tipo de acordo com alguém mais receptivo e declararia vitória. É por isso que a operação deveria ser rápida.

Trump continua dizendo isso, mas  Maduro, foi uma operação perfeita. Rápida, limpa, curta. “Nós fizemos isso. Então, só precisamos matar o Aiatolá e estaremos na mesma posição, poderemos declarar vitória e fazer isso antes da abertura dos mercados na segunda-feira”. Claro, não foi o que aconteceu. Em vez disso, milhões foram às ruas de Teerã. Quer dizer, é Ramadã lá, depois da festa que marca o fim do jejum, Teerã está repleta de apoiadores do Estado Islâmico.

Seria um exagero dizer que isso desencadeou, aos olhos do mundo xiita, uma guerra contra o xiismo?

Sim, há alguma conotação de jihad, de guerra santa. E isso é sendo amplificado pelo fato de que, nos Estados Unidos, algumas das instruções dadas aos comandantes a suas tropas dizem que esta é uma guerra de Deus, que Trump é o instrumento de Deus para conduzi-la e isso está escrito na Bíblia. Houve muitos protestos entre os militares contra essas instruções. De certa forma, isso representa um elemento escatológico dentro dos EUA e, claro, cada um alimenta os sentimentos escatológicos do outro.

Há uma forte censura militar em Israel. Você trabalhou lá, eu também. É difícil, à distância, avaliar a eficácia dos ataques iranianos. Quais são suas impressões?

Você está absolutamente correto. A censura é extremamente rigorosa. Qualquer pessoa que tente filmar é imediatamente presa ou impedida. É muito difícil obter informações. Mas eu estava ouvindo há pouco o coronel [Lawrence] Wilkerson. Foi o chefe de gabinete de Colin Powell no Pentágono, um militar com muita experiência. Ele disse que viu alguns vídeos reais vindos de Tel Aviv. Comentou: “Sabe, isso não é IA. É coisa real que chegou até nós”. Assistiu a um vídeo de 15 minutos e disse que o que está por vir é absolutamente devastador. É implacável e contínuo, e você vê que no final, nem sequer há mísseis interceptadores sendo disparados num dado momento. Não sabemos a extensão do problema. Foi em Tel Aviv, mas mísseis estão sendo disparados por todo o território de Israel.

Mas parece que os danos são enormes. As consequências para Israel ainda não estão claras. Recebemos mensagens muito contraditórias. Como em qualquer guerra, algumas pessoas podem estar em um lugar e pensar: “Nada está acontecendo. Tudo parece normal”. Mas você anda 500 metros em outra direção e encontra o caos, um desastre.

É difícil ter uma visão geral e abrangente, mas eu diria que os danos já superam em muito os da Guerra dos Doze Dias. Os iranianos pretendem aumentar gradualmente o número de mísseis Khorramshahr e hipersônicos, que serão muito difíceis de abater ou interceptar, tanto pelos Estados Unidos quanto por Israel. Os danos causados ao longo do Golfo foram enormes, com grandes prejuízos para as bases americanas. Não há dúvida de que foram destruídas. Acredito que a intenção do Irã no Golfo esteja particularmente focada nos portos da região.

A razão para isso é que a Quinta Frota, que tem base no Bahrein, criou uma espécie de área que se estende até Ormuz e o Golfo Pérsico e ao largo do Iêmen. Há um ponto de estrangulamento muito pequeno, um ponto de estrangulamento naval, no sul, para controlar os corredores de energia e, consequentemente, os corredores de negócios econômicos. Acho que os iranianos estão em processo de inverter isso, indo até Ormuz para restabelecer uma hegemonia iraniana nessas áreas e impedir o plano americano, que, me parece, foi estabelecido na Estratégia de Segurança Nacional.

Um dos pontos era a ideia de que a China precisava ser coagida a mudar seu modelo econômico, deixando de ser exportadora para se tornar mais consumidora. E isso poderia ser feito por meio de tarifas ou, como vimos na Venezuela, por meio de bloqueios navais, sanções a navios e tentativas de cerco. Mas a Rússia também está cada vez mais sujeita a esse tipo de situação. Sua chamada frota paralela está sendo sancionada e, às vezes, apreendida.

Creio haver uma impressão, tanto em Moscou quanto na China, de que os Estados Unidos estão empenhados em prejudicar a China por meio desses mecanismos, assumindo o controle e estabelecendo uma espécie de hegemonia sobre as rotas marítimas e os pontos de estrangulamento. O mesmo ocorre, é claro, na China, com um primeiro conjunto de ilhas que está sendo militarizado pelos Estados Unidos, presumivelmente para, se necessário, estabelecer um cerco sobre a China, bloqueando a estreita passagem marítima entre a Indonésia e o Mar da China.

Para a Rússia, isso também é importante. Ao contrário da China, eles querem exportar seu petróleo e não querem que isso seja cerceado, restringido ou sufocado. Pode estar em curso uma mudança geopolítica realmente importante. Creio que o principal interesse do Irã seja mudar toda a situação, todo o paradigma do Golfo Pérsico, do Mar Vermelho e das rotas marítimas adjacentes, e retirar essas regiões do domínio norte-americano a que estiveram sujeitas durante todo esse período.

Vamos falar sobre o Estreito de Ormuz. É uma via navegável muito estreita. O Irã a bloqueou. Pelo que entendi, eles podem minar o mar com o simples apertar de um botão, e as minas são meio autônomas. Você pode explicar como funcionam? Eles também têm baterias de mísseis. Um dos comentários mais surpreendentes de Trump foi a ideia de enviar forças navais americanas, o que é praticamente pedir para que todos os navios sejam afundados. E depois, comente também por que, na sua opinião, os Estados Unidos priorizaram tanto a destruição da Marinha iraniana.

Vou responder primeiro à sua segunda pergunta. O objetivo dos Estados Unidos é criar uma dominância no setor energético, que lhes dê condições de controlar a evolução e o desenvolvimento econômico da China e, ao mesmo tempo, reduzir as perspectivas econômicas da Rússia. Isso exige controlar não apenas o petróleo e o gás — e é claro que o Irã possui ambos em abundância — mas também voltar ao antigo sistema do século XIX, de controlar as vias navegáveis e os postos de controle para impor bloqueios e cercos à China e à Rússia.

O Irã é um peão em uma visão maior, que inclui eliminar os BRICS e, se não derrotar militarmente a China, enfraquecê-la retendo tecnologia, petróleo e matérias-primas. A China está retribuindo. De qualquer forma, é isso que estão tentando fazer.

A Marinha iraniana tem alguns navios mais antigos, fragatas e semelhantes. Os Estados Unidos acabaram de afundar dois navios antigos que estavam aportados. O principal trunfo do Irã são embarcações rápidas, lanchas velozes equipadas com mísseis antinavio de curto alcance. Elas possuem cerca de 25 submarinos, mini-submarinos, que podem disparar mísseis antinavio submersos. E esses navios são muito mais perigosos para a navegação do que os grandes navios de guerra tradicionais.

Mas agora a situação se agravou porque, como você provavelmente viu, os iranianos enviaram um navio desarmado para uma visita de cortesia à Índia, um exercício naval para o qual foram convidados pelo governo indiano. Esse navio estava lá quando os Estados Unidos o afundaram. Um submarino o torpedeou e o afundou. Aparentemente, bem mais de cem marinheiros morreram.

Não creio que, depois disso, o Irã vá ser particularmente leniente com navios da marinha americana que tentem proteger um petroleiro, ou uma embarcação que atravessa o Estreito de Ormuz. Navegá-lo será muito mais difícil. Aliás, a largura de Ormuz é de 21 quilômetros, nem é preciso minar. Está dentro do alcance da artilharia. Eles podem simplesmente ficar lá, selecionar um navio, disparar a artilharia e deixar que ele pegue fogo. É simples assim.

Quando ouvi a proposta de Trump, lembrei-me do ataque naval russo de 1905 aos japoneses, que demonstrou o mesmo tipo de desprezo imperial pela “raça inferior” e levou ao afundamento de toda a frota. É preciso presumir que os comandantes navais dissuadirão Trump da loucura de entrar em Ormuz.

Para onde os fatos estão caminhando? O conflito se espalhou muito rapidamente por toda a região. Obviamente, isso afetará os mercados e os preços do petróleo e do gás, mas quais são as consequências que você vê do que aconteceu?

Eu diria que as consequências serão sentidas muito em breve, em particular nos mercados de energia. O gás proveniente do Catar também passa pelo Canal de Ormuz, e esse fluxo foi interrompido. Putin disse que os russos estão analisando a situação, mas possivelmente decidirão não mais fornecer gás à Europa, que nos virou as costas.

Isso terá consequências econômicas muito sérias para a Europa, com suas reservas de gás em níveis historicamente baixos. Além do preço do petróleo, isso afetará muitas outras coisas. Em primeiro lugar, há a mudança nos Estados do Golfo. Eles costumavam ser conhecido e considerados um lugar seguro para empresários, investidores e outros. Isso se refletia em férias, companhias aéreas, turismo, datacenters etc.

Em grande parte, isso acabou. Já se vê que investidores, particularmente asiáticos, estão retirando seu dinheiro de Dubai, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar, repatriando-o para a Ásia. Não sei para onde vão levar o dinheiro, mas imagino que não será para o dólar. Provavelmente será para o iene ou para o mercado de ouro de Xangai, que possui mercados subsidiários não controlados pelo sistema de controle de capitais da China em Hong Kong.

Provavelmente, a China introduziu um sistema de warrants que permite comprar ouro físico – não ouro em papel – e mantê-lo como uma forma de investimento, alternativa aos títulos do Tesouro dos EUA. É muito mais atraente de qualquer maneira. Portanto, acho que veremos um impacto no dólar e certamente veremos um impacto nos mercados de energia. Para as economias da Europa, será um período muito perigoso.

Os mercados, que geralmente são tão complacentes com qualquer evento geopolítico, irão se acalmar? Estavam sendo informados pelos serviços de inteligência de que tudo estaria resolvido em cinco dias. Além disso, há o investimento militar nas bases do Golfo — na casa dos trilhões. Os Estados Unidos vão se recuperar? Acho improvável. De qualquer forma, a segurança que o Golfo tinha desapareceu, porque as bases foram destruídas.

Os Estados Unidos estão cuidando de si mesmos. Não estão cuidando muito da Arábia Saudita. Estão dizendo que querem que todos os mísseis interceptores sejam enviados para Israel. A situação estratégica vai afetar o cenário econômico e, por tabela, o cenário energético, inclusive nos Estados Unidos. Você sabe muito mais do que eu sobre isso, mas acho que isso terá consequências nas eleições de meio de mandato.

Já está claro que esta não é uma guerra popular. Se for prolongada, irá tornar-se ainda menos popular. Trump, me parece, está ficando bastante desesperado com isso. Mas a maneira como está lidando com a situação será contraproducente. Ele continua dizendo: “Fizemos grandes coisas. Sabe, afundamos a Marinha iraniana. Destruímos suas forças. Estamos destruindo seus mísseis”.

Mas a consequência é que o Pentágono não está divulgando detalhes factuais. Estão basicamente mentindo sobre o que realmente está acontecendo no cenário de guerra. Tenho certeza de que sabem, mas mentem. Ok, apenas seis americanos morreram. E todas as aeronaves que caíram foram vítimas de fogo amigo.

Com o tempo, o público americano vai perceber que as coisas foram um pouco diferentes do que foi divulgado e ficará muito irritado. Mas como Trump diz que a vitória está próxima, é claro que o Pentágono pode vir a público e dizer: “Na verdade, não.” Eles precisam dizer: “Nada, realmente. Tudo normal. Sem mudanças.” Mas o tempo dirá, os eventos se revelarão no devido tempo. E haverá consequências políticas, que provavelmente remodelarão grande parte do cenário político americano.

Começando a ver isso na forma como os democratas estão mudando sua posição em relação a Israel e dizendo, “escutem, antes das eleições, precisamos ter uma discussão séria sobre qual é exatamente a relação entre Washington e Telavi”. São mudanças muito importantes, que estão começando. Ainda não se desenvolveram, estão claras. É cedo para saber que rumos prevalecerão. Mas tenho a sensação de que, por baixo dos panos, muitas mudanças estão acontecendo nos Estados Unidos e na Europa.

Tudo isso faz parte do projeto do Grande Israel — Gaza, a anexação de fato da Cisjordânia, a tomada das Colinas de Golã no Sul do Líbano (que eles já ocuparam e avançaram quase até Damasco, forçando dezenas de milhares de libaneses, a fugir). Eu pergunto se essa guerra, que é inquestionavelmente liderada por Israel, representa um exagero por parte de Israel e dos EUA, e se você acha que, em última análise, isso ameaça a existência de Israel.

Sim. Os americanos não previram o que aconteceu no Golfo, mesmo depois dos alertas do Irã. Era público. Não creio que tenham elaborado qualquer plano de contingência para uma crise energética. A reserva estratégica americana está próxima do seu nível mais baixo, enquanto a China tem abastecido a sua assiduamente, com petróleo iraniano.

Portanto, acho que nem Trump nem seu entorno têm ideia do que está acontecendo nesta guerra. É pura ilusão e bravata o que estamos vendo. O presidente ainda acredita, e outros na Europa também, que em algum momento Trump declarará vitória, abandonará a guerra e pronto.

Não vai acontecer, porque o Irã está planejando uma longa guerra. Não está interessado em negociações agora. Certamente isso não vai acontecer depois do assassinato do Líder Supremo. Eles vão prosseguir com seus planos militares. E a guerra, como consequência, está se espalhando e se intensificando. A pergunta que você me fez é: isso é uma questão de vida ou morte para Israel?

Acredito que Israel nunca mais será o que foi até agora. Será fundamentalmente transformado. As divisões internas são realmente profundas. Elas são pouco percebidas pelo Ocidente porque só se lê em inglês ou se consulta a imprensa em inglês. Mas há uma guerra acontecendo em Israel.

Caracterizo-a como uma guerra entre o Reino da Judeia e o Estado de Israel. De um lado, você tem, por assim dizer, o corpo da direita, os [Itamar] Ben-Gvirs e os [Bezalel] Smotrichs , os nacionalistas religiosos e os colonos, que estão armados. Quero dizer, eles são um exército em si mesmos.

Por outro lado, temos os elementos tradicionais do judaísmo asquenazita, que representa uma espécie de judaísmo europeu, como o comando militar, o judiciário e a Suprema Corte, todos praticamente derrotados por Netanyahu durante esse período. Há um ressentimento extremo em relação às consequências. E acho muito difícil imaginar que o país não se autodestrua, por causa do que sempre digo às pessoas: não se pode compreender Israel por uma ótica secular, ou melhor, secular racionalista. É preciso compreendê-lo por uma ótica escatológica ou até mesmo messiânica, porque é isso que impulsiona a direita.

Lembro-me de ter visto um vídeo do Smotrich há alguns anos, em que ele dizia: “Vamos retomar Gaza e a Cisjordânia, etc., etc.”. E acrescentou: “Mas sabem de uma coisa? O que realmente precisamos é de uma grande crise ou de uma grande guerra, e aí sim concluiremos nosso projeto”. Em outras palavras, não dá para dizer: “Olha, isso é ridículo”. Por que Netanyahu iria querer lançar a guerra contra o Irã? Porque eles – muitos de extrema direita — acolhem o Armagedom.

Não é porque tenham um cálculo estratégico. Acreditam que os fatos estão preditos, que as coisas acontecerão de forma que os levará à redenção. É por isso que o Messias virá. Tudo mudará. E é por isso que me surpreendeu tanto ouvir praticamente o mesmo tipo de linguagem sendo usada nas ordens gerais distribuídas aos comandantes do lado de Pete Hegseth, nos Estados Unidos.

Não creio que seja uma visão comum, mas dentro de certo extrato da sociedade, ainda é poderosa. Acho que será uma guerra longa. Os iranianos não estão prestes a se render. Por que deveriam? Eles estão no controle. Cabe aos Estados Unidos perder esta guerra. O Irã a vence por sobreviver e por estar, digamos, na posição simbólica de ter derrotado um exército mítico que era invulnerável, que jamais poderia ser atacado ou derrotado.

Podemos vislumbrar apenas parte das consequências. Ainda não podemos mapeá-las de uma forma estrutural e coerente.

Para finalizar, gostaria de perguntar sobre os palestinos. O que tudo isso significa para os palestinos em Gaza e na Cisjordânia? A guerra dá a figuras como Smotrich e outros uma justificativa para expulsá-los?

É nisso que eles estão pensando. Mas acredito que, à medida que Israel, ou pelo menos seus militares, aproximarem-se da análise de suas reservas de munição e de como elas diminuem, pensarão em como reduzir a escalada do conflito. E se alguém me perguntasse quais seriam as exigências a Israel, caso houvesse algum tipo de entendimento – o que não vejo como possível no momento –, eu diria que, em primeiro lugar, o fim de todas as sanções e tarifas contra o Irã e a devolução de todos os seus ativos congelados. E, em segundo lugar, a retirada das tropas israelenses de Gaza e da Cisjordânia.

Essas seriam exigências iranianas.

Claro, as exigências iranianas. O Irã sempre apoiou os palestinos. Nem sempre de forma tão direta, mas tem sido um elemento fundamental da perspectiva ética iraniana sobre o mundo.

Trabalhamos no Irã por muitos anos. A caricatura do Ocidente sobre os iranianos, incluindo o líder supremo – que era extremamente culto (seu livro favorito, creio eu, era Os Miseráveis, de Victor Hugo) – é parte do problema. Eles foram transformados em personagens de desenho animado, quando estamos falando de uma cultura e tradição persa rica e profunda. Eles não são as pessoas que o Ocidente retrata.

Não poderia concordar mais. Há uma catástrofe de incompreensão. O Ocidente simplesmente não os entende. E o pior é que não há absolutamente nenhuma empatia. Os governantes veem e tratam os iranianos como verdadeiros subumanos.  

"A leitura ilumina o espírito".

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