Efeitos migratórios da ação militar dos EUA

Imagem: Alfred Quartey

Por ALEXANDRE FAVARO LUCCHESI*

A militarização da segurança no continente redefine rotas do crime e da migração, deslocando vulnerabilidades para dentro da América Latina

Em março de 2026, Washington iniciou uma operação militar conjunta com o Equador voltada ao combate a organizações ligadas ao narcotráfico, com coordenação do Comando Sul dos EUA. O apoio estadunidense inclui inteligência, planejamento operacional e suporte logístico às forças equatorianas, enquanto as operações terrestres permanecem sob comando das forças locais. O contexto é a crescente transformação do Equador em corredor estratégico do tráfico internacional de cocaína.

Quase simultaneamente, o Senado do Paraguai aprovou um acordo que autoriza a presença temporária de militares e pessoal do Departamento de Defesa dos EUA no país, com facilidades operacionais, imunidades diplomáticas e realização de exercícios conjuntos. Embora o acordo não estabeleça bases permanentes, cria as condições jurídicas para uma cooperação militar ampliada.

Tomados isoladamente, esses acontecimentos poderiam ser interpretados como iniciativas convencionais de cooperação em segurança. Entretanto, quando analisados à luz das transformações recentes do sistema migratório latino-americano, da economia política regional e da geografia das rotas ilícitas e migratórias, esses movimentos revelam implicações mais amplas.

A crescente militarização da política antidrogas na América Latina, combinada ao fechamento parcial das rotas migratórias para os EUA, pode produzir uma nova crise migratória regional. Diferentemente das crises anteriores, orientadas majoritariamente para o eixo sul-norte, a tendência emergente é a consolidação de um sistema migratório intra-latino-americano caracterizado por deslocamentos multidirecionais, pressões sobre Estados intermediários e crescente vulnerabilidade social.

O presidente dos EUA, Donald Trump, recebeu no dia 7 de março líderes latino-americanos para o evento batizado como “Escudo da América”, reuniu líderes alinhados à direita no resort do republicano em Doral, na região de Miami. Elemento articulador crucial, o evento deixa claro que os episódios do Equador e do Paraguai são parte de uma estratégia regional de segurança hemisférica.

Os efeitos migratórios da ação militar estadunidense

A presença militar estadunidense na América Latina possui uma longa trajetória histórica, frequentemente associada a doutrinas de segurança hemisférica e à contenção de ameaças percebidas à ordem regional. Durante a Guerra Fria, esse papel esteve ligado à contenção do comunismo. Nas últimas décadas, passou a ser articulado sobretudo em torno do combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional.

A operação conjunta com o Equador insere-se nessa tradição estratégica. Desde o início do século XXI, a região andina tornou-se uma das principais áreas de atenção da política antidrogas dos EUA, especialmente após o lançamento do Plano Colômbia em 1999. O que se observa atualmente é uma possível extensão desse paradigma para novos espaços logísticos do tráfico.

Nos últimos anos, o Equador passou por uma transformação significativa em sua posição dentro da economia ilícita global. O país tornou-se um dos principais pontos de saída da cocaína produzida na região andina para mercados da América do Norte e da Europa. Essa mudança está relacionada à expansão das redes criminosas transnacionais, à crescente utilização de portos equatorianos como plataformas logísticas e à intensificação das disputas entre organizações criminosas.

A resposta governamental tem sido marcada pela militarização da segurança pública. Essa estratégia não é inédita na América Latina, mas sua eficácia permanece amplamente debatida. Diversos estudos[i] indicam que políticas de segurança baseadas predominantemente na repressão militar podem acarretar efeitos colaterais significativos, como a fragmentação das organizações criminosas, o deslocamento territorial das rotas ilícitas e o aumento da violência local.

Esses efeitos têm implicações diretas para os padrões de mobilidade humana. A literatura contemporânea sobre migrações[ii] enfatiza que os fluxos migratórios não são determinados apenas por fatores econômicos, como salários e emprego, mas também por transformações territoriais associadas à violência, à instabilidade institucional e às redes ilícitas. Nos últimos vinte anos, a América Latina passou por uma transformação significativa em seu sistema migratório. O número de migrantes na região praticamente dobrou, impulsionado por crises econômicas, colapsos institucionais e conflitos associados ao crime organizado.

Esses processos produziram uma nova configuração espacial das migrações. Historicamente, a migração latino-americana esteve fortemente orientada para os EUA. Entretanto, nas últimas décadas, a região passou a experimentar fluxos migratórios cada vez mais complexos, incluindo deslocamentos Sul-Sul, migração circular e mobilidade intrarregional.

A crise venezuelana constitui um exemplo emblemático dessa transformação. Mais de sete milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015, e a grande maioria permanece na própria América Latina, especialmente em países como Colômbia, Peru e Chile. Esse processo evidencia que a América Latina está se tornando um sistema migratório regional relativamente integrado.

Uma das mudanças mais relevantes do cenário recente está relacionada à política migratória dos EUA. Após 2025, o endurecimento das políticas de asilo e o aumento das restrições à entrada de migrantes provocaram uma redução abrupta do fluxo migratório rumo ao norte.

Dados recentes indicam que mais de 14 mil migrantes interromperam ou reverteram suas jornadas após mudanças administrativas no sistema de entrada estadunidense[iii]. Um dos efeitos mais visíveis desse processo ocorreu na região do Darién, corredor migratório que conecta a América do Sul à América Central. A travessia nessa rota caiu cerca de 97% em 2025.

Esse fenômeno produziu uma dinâmica relativamente nova da migração reversa intrarregional. Migrantes que antes tinham como destino final os EUA passaram a permanecer ou retornar a países intermediários, como Colômbia, Panamá, Costa Rica e México. Esse processo cria novas pressões socioeconômicas sobre países que historicamente atuavam apenas como territórios de trânsito.

E é preciso notar que a expansão das operações militares na região pode amplificar essas pressões. Experiências anteriores demonstram que estratégias de segurança baseadas na militarização frequentemente produzem deslocamentos populacionais indiretos.[iv] O combate intensivo a organizações criminosas pode gerar disputas territoriais, fragmentação de redes ilícitas e aumento da violência local.

Esses processos tendem a afetar particularmente comunidades vulneráveis situadas em áreas periféricas urbanas ou em regiões de fronteira. No caso equatoriano, a escalada da violência associada ao narcotráfico já produziu um aumento significativo da insegurança em bairros periféricos de grandes cidades e em áreas portuárias estratégicas. A reorganização territorial das redes criminosas frequentemente produz novos corredores logísticos, que podem coincidir com rotas migratórias. Migrantes tornam-se, nesse contexto, particularmente vulneráveis a redes de tráfico humano e exploração.

Outro elemento frequentemente negligenciado na análise das migrações é o impacto das políticas econômicas e comerciais. Choques econômicos como crises financeiras, sanções ou mudanças abruptas nas políticas comerciais podem produzir efeitos significativos sobre o emprego e as condições sociais nos países de origem. Escaladas tarifárias ou conflitos comerciais podem gerar perdas significativas de emprego em setores exportadores, especialmente entre trabalhadores menos qualificados, como aqueles na América Latina, economias fortemente dependentes de exportações de commodities ou produtos agrícolas são particularmente vulneráveis a essas flutuações.

O Equador oferece um exemplo importante dessa dinâmica. Nos últimos anos, o país consolidou-se como um dos principais exportadores mundiais de camarão,[v] setor que passou a superar inclusive o petróleo em importância econômica. Entretanto, a concentração em poucos setores exportadores pode aumentar a vulnerabilidade econômica diante de choques externos.

As migrações também possuem implicações macroeconômicas importantes. Em diversos países da América Central e do Caribe, as remessas enviadas por migrantes representam, em El Salvador e Honduras, por exemplo, mais de 20% do PIB nacional. Mudanças nas políticas migratórias estadunidenses podem alterar drasticamente esses fluxos financeiros.

Quando deportações aumentam ou oportunidades de trabalho diminuem, as remessas tendem a cair, afetando diretamente o consumo doméstico e a estabilidade econômica em países de origem. Ao mesmo tempo, o temor de deportações pode levar migrantes a enviar grandes quantidades de recursos de uma só vez para seus países de origem, provocando flutuações inesperadas nesses fluxos.

A combinação desses fatores aponta para a consolidação de um novo sistema migratório regional na América Latina, de modo integrado. Esse sistema possui três características principais. A primeira é a crescente importância das migrações intrarregionais. A segunda é a multiplicação de rotas migratórias alternativas, muitas vezes associadas a redes informais e economias ilícitas.

A terceira é a crescente interdependência entre políticas migratórias, segurança regional e economia política internacional. Nesse contexto, decisões tomadas fora da região, particularmente nos EUA, podem produzir efeitos imediatos sobre a mobilidade humana dentro da América Latina. Tradicionalmente considerada uma zona de influência estratégica dos EUA, a América Latina passou a experimentar maior diversificação de parcerias internacionais, especialmente com a China nas últimas décadas.

Consumação da estratégia hemisférica no “Escudo das Américas”

Esses movimentos bilaterais não ocorreram isoladamente. Um novo marco político ocorreu com a realização do encontro “Escudo da América”, iniciativa com autoridades militares e de segurança de diversos países do continente com participação direta de representantes do Departamento de Defesa dos EUA e do Comando Sul.

O encontro foi apresentado como um espaço de coordenação regional para o enfrentamento do narcotráfico, do crime organizado transnacional e de ameaças híbridas associadas à circulação de drogas, armas e pessoas. A cúpula de um dia recebeu o presidente Javier Milei, da Argentina, o presidente Nayib Bukele, de El Salvador e os líderes de Bolívia, Costa Rica, Chile, República Dominicana, Equador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago. Países do Caribe e da América Central como Bahamas, Belize, Guatemala e Jamaica, e ainda o Peru, também compareceram.

Embora formulado em linguagem de cooperação técnica, o encontro corrobora um movimento mais amplo de reorganização da arquitetura de segurança no hemisfério ocidental. Em termos estratégicos, o “Escudo da América” sinaliza a tentativa de reconstruir uma rede regional de coordenação militar capaz de integrar inteligência, vigilância territorial e operações conjuntas em múltiplos países latino-americanos.

A iniciativa dialoga com experiências anteriores de cooperação securitária como o Plano Colômbia e os mecanismos de coordenação do Comando Sul, mas apresenta uma diferença importante pela sua escala regional e por sua vinculação direta com o combate às rotas transnacionais do narcotráfico.

A intensificação da vigilância militar em determinados corredores territoriais tende a deslocar simultaneamente as rotas do tráfico de drogas e as rotas migratórias. Na prática, políticas de segurança que visam restringir a circulação de redes ilícitas frequentemente produzem um efeito de “balão territorial”, deslocando fluxos para áreas menos controladas.[vi] A literatura sobre segurança e mobilidade demonstra que essas reconfigurações territoriais costumam afetar particularmente populações vulneráveis, estimulando deslocamentos internos e internacionais.

O aumento da cooperação militar dos EUA com governos latino-americanos pode ser interpretado como parte de uma estratégia mais ampla de reafirmação da presença estadunidense no hemisfério, em linha com a tradição geopolítica que remonta à Doutrina Monroe e que ficou expressa em documento oficial dos EUA em novembro de 2025.[vii] Essa dinâmica pode influenciar tanto a política externa regional quanto os processos de integração latino-americana.

Organizações como o Mercosul, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) têm historicamente defendido a América Latina como zona de paz. A expansão de operações militares externas na região pode gerar tensões diplomáticas e debates sobre soberania.

A convergência entre militarização da segurança, fechamento das rotas migratórias para os EUA e transformações econômicas regionais cria condições propícias para uma nova crise migratória. Entretanto, essa crise provavelmente não assumirá a mesma forma das anteriores. Em vez de grandes fluxos direcionados exclusivamente ao norte, é provável que a região experimente um aumento de deslocamentos internos e intrarregionais.

Países como Colômbia, Panamá, Costa Rica e México podem tornar-se pontos de retenção migratória. Esse processo pode gerar pressões sobre sistemas de saúde, educação, mercado de trabalho e infraestrutura urbana. Além disso, a presença crescente de redes criminosas nas rotas migratórias aumenta os riscos de exploração, tráfico humano e violência.

Diante desse cenário, torna-se essencial que governos latino-americanos, organizações regionais e instituições internacionais antecipem os impactos potenciais dessas transformações. A articulação militar expressa em iniciativas como o “Escudo da América” indica que a gestão da mobilidade humana pode tornar-se cada vez mais subordinada a estratégias de segurança hemisférica.

Sem coordenação regional, a combinação entre militarização, desigualdade e mobilidade humana pode se transformar em um dos principais desafios geopolíticos da América Latina nas próximas décadas.

*Alexandre Favaro Lucchesi é professor visitante no curso de Relações Internacionais na UFABC. Autor, entre outros livros, de Integração financeira e regulação bancária na zona do euro entre 1999 e 2016 (Editora Dialética). [https://amzn.to/4nL03hO]

Notas


[i] CHAVES-GONZÁLEZ, Diego; LACARTE, Matias; SELEE, Andrew; SOTO, Ariel G. Ruiz. El aumento de la migración en América Latina y el Caribe ha marcado el comienzo de una nueva era volátil. Washington: Migration Policy Institute, Oct 2nd, 2025. Disponível em: https://www.migrationpolicy.org/article/america-latina-caribe-nueva-era-migratoria.

[ii] SASSEN, Saskia. Guests and Aliens. New York: The New Press, 1999.

[iii] JANETSKY, Megan. 14,000 US-bound migrants have returned south since Trump border changes, UN says. AP News, World, Sep. 2nd, 2025. Disponível em: https://apnews.com/article/migration-venezuela-darien-gap-trump-colombia-dc7eab62980c98eba5c65ed591a2836f.

[iv] HIRATA, Daniel; ALMEIDA, Jordana; ROCHA, Lia de Mattos; MIRANDA, Maria Júlia; SANTOS JUNIOR, Orlando dos; RIBEIRO, Tarcyla Fidalgo; BARBOSA FILHO, Utanaan Reis; COLI, Priscila; PIRES, Lenin. Da militarização à milicialização das cidades: efeitos de uma política nacional. Le Monde Diplomatique Brasil, Direito à Cidade, 5 set.2022. Disponível em: https://diplomatique.org.br/da-militarizacao-a-milicializacao-das-cidades-efeitos-de-uma-politica-nacional.

[v] REUTERS. Ecuadorean shrimp sales rebound in 2025, surpass oil exports-producers’ association. World, Americas, Feb 16th, 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/ecuadorean-shrimp-sales-rebound-2025-surpass-oil-exports-producers-association-2026-02-16.

[vi] MORA, Frank O. Victims of the Balloon Effect: Drug Trafficking and the U.S. Policy in Brazil and the Southern Cone of Latin America. The Journal of Social, Political, and Economic Studies 21.2 (1996): 115–22. York University Libraries. 22 Oct. 2011. Disponível em: https://api.semanticscholar.org/CorpusID:150886504.

[vii] ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. National Security Strategy of the United States of America. November, 2025. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf.


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