
Declínio econômico. Índices de popularidade em queda. Desespero político. A guerra tem sido, há muito tempo, a resposta. Ela oferece um inimigo contra o qual se unir, um espetáculo de poder, uma exigência de obediência inquestionável e uma distração imediata. Contudo, o cálculo político por si só não explica a persistência da guerra. O impulso é mais profundo.
Em "Síndrome da Superpotência: O Confronto Apocalíptico da América com o Mundo", o psiquiatra americano Robert Jay Lifton oferece uma análise psicológica e histórica da política de poder moderna. Ele descreve a síndrome da superpotência como "uma mentalidade nacional — fortemente defendida por um grupo de liderança coeso — que assume um senso de onipotência, de uma posição única no mundo que lhe concede o direito de influenciar todas as nações". A orientação não é simplesmente política; é psicológica. Segundo Lifton, a superpotência americana não busca apenas a dominação; busca moldar e controlar a própria história. Por trás disso, reside menos uma estratégia do que uma disposição psíquica. Tal ambição cósmica é acompanhada por um senso igualmente expansivo de direito, uma crença em um mandato especial para perseguir seus objetivos. Lifton escreve: "Uma superpotência tem o direito de dominar e controlar precisamente porque é uma superpotência". Uma fantasia circular, egoísta e solipsista, profundamente hipnótica em seu apelo.
Lifton observa que a experiência psiquiátrica com indivíduos revela um padrão: por trás de grandes alegações de onipotência, muitas vezes se escondem profundos sentimentos de impotência, vazio e insegurança. A megalomania frequentemente mascara uma profunda vulnerabilidade. A síndrome do superpoder contém a mesma contradição. Sua ostentação de poder absoluto é impulsionada por um medo subjacente de fraqueza, um medo tão intolerável que precisa ser eliminado a todo custo.
Uma nação assombrada por tamanha insegurança precisa provar continuamente sua força e demonstrar sua autoridade. A força militar torna-se o instrumento dessa afirmação. O resultado é o que o autor Tom Engelhardt descreve em seu livro "Os Estados Unidos do Medo" como um "estado permanente de guerra", no qual o conflito militar deixa de ser a exceção e se torna a norma, sustentado pela corporatização das forças armadas, pela militarização da economia e, em última instância, pelo lucro capitalista da guerra.
As culturas antigas compreendiam a guerra com mais honestidade. Nos mitos, a guerra pertencia aos deuses, não a presidentes, departamentos de estado ou corporações. Não a um punhado de homens a portas fechadas. Para os gregos, o deus da guerra era Ares; para os romanos, Marte. Ele não prometia libertação, democracia ou segurança. Não representava uma nobre luta do bem contra o mal, nem a paz. O deus da guerra representava uma coisa e somente uma: a própria guerra.
Os atributos associados a esse antigo deus eram inconfundíveis: cego, furioso, selvagem, indomável, avassalador, excessivo, insano, sanguinário, amaldiçoado, horrível, veemente, repugnante, detestável, obsceno, vergonhoso, rude, desordenado, inarticulado, selvagem.
A mitologia não tentava disfarçar a guerra como fazem os estados modernos. Departamento de Defesa. Forças de segurança. Missões de paz. Tudo serve como camuflagem linguística para a guerra e suas brutais realidades de sangue, destruição e perda. O poema de Wilfred Owen, “Dulce et Decorum Est”, remove a máscara para revelar as imagens terríveis da guerra:
O rosto do soldado moribundo expõe a mentira. Não há nada de honroso, nobre ou glorioso em tal morte. A noção de uma guerra civilizada desmorona no instante em que se observa atentamente. Desmorona nos olhos brancos do soldado moribundo de Owen, e desmorona novamente quando surgem imagens de corpos sem vida de meninas do ensino fundamental soterradas sob os escombros no sul do Irã. Nenhuma doutrina ou cálculo pode explicar tais cenas. Nenhuma teoria, nenhuma estatística, nenhuma retórica secular pode justificá-las. Diante dos mortos, as abstrações se dissipam, as ilusões se despedaçam.
Enquanto soldados e civis continuam a morrer em todo o mundo em guerras intermináveis, os cidadãos têm a obrigação moral de imaginar e lembrar a guerra em toda a sua violência e devastação. Isso exige recusar sua higienização, rejeitar sua racionalização. A guerra não é heroica, não é redentora, não é civilizadora. O psicólogo americano James Hillman argumentou que a guerra é, acima de tudo, uma tarefa psicológica, algo que deve ser imaginado e compreendido antes que possa ser resistido. A tarefa exige enxergar além da retórica do orgulho e do poder, abandonar as ilusões de onipotência e confrontar o medo e a vulnerabilidade subjacentes. Só então a verdade da guerra se torna impossível de ignorar.
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