Guerra na Ucrânia – um duelo sem vencedore

Imagem: reprodução Telegram

Por EURICO DE LIMA FIGUEIREDO*

O conflito que deveria ser relâmpago virou atrito eterno, onde vidas são o preço que nenhuma planilha consegue calcular

1.

Toda guerra implica em mortes e destruição entre Estados que se contrapõem. Quanto maior o poderio militar dos entes políticos envolvidos – sempre uma função de varáveis econômicas, científicas e tecnológicas –, maior a tragédia. A guerra na Ucrânia se dá entre países de natureza e pesos distintos, tanto em termos políticos e militares como também econômicos e tecnológicos.

A maioria dos analistas internacionais, deflagrado o conflito, em 22 de fevereiro de 2022, supunha que seria uma guerra relâmpago, de relativa curta duração, dada a disparidade de forças entre o país que atacava (a Rússia) e o que se defendia (a Ucrânia). Isso não aconteceu por vários e complexos motivos. Pode-se tentar indicar alguns. Do lado russo, o erro do cálculo estratégico e a subestimação das capacidades ucranianas.

Do lado ucraniano, ocorreu o aporte acelerado de recursos por parte dos países europeus e dos EUA, o que equilibrou, em termos relativos, o embate entre os dois países. Isto levou a uma guerra de atrito entre eles, resultando em desgastes prolongados em termos de vidas, na aniquilação de sofisticados e milionários sistemas de ataque e defesa e, no caso da Ucrânia, severos danos na infraestrutura de energia, transportes, habitação.

Nesse contexto, as principais consequências da guerra para as economias da Rússia e da Ucrânia são assimétricas. No âmbito da Rússia, elas são muito menos críticas do que no espaço ucraniano. A Rússia se mostrou capaz de resistir às duras sanções econômicas impostas pelos principais países europeus e pelos americanos. Reciclou sua economia, adensou suas relações com a China, buscou alternativas no campo dos BRICS e mundo afora.

Sua resiliência conta com sólidos alicerces: ela é herdeira das estruturas industriais, militares e sociais edificadas no período soviético. É ainda considerada a segunda maior potência militar do planeta e conta com o maior arsenal nuclear do planeta. O dia a dia da sua população não foi afetado pelo conflito que não ocorre em seu território, a não ser em poucos casos de ataques desfechados pelos ucranianos.

A Ucrânia, por outro lado, tem sido atingida pelos bombardeios russos que ocorrem em várias regiões do país, inclusive em sua capital, Kiev. Os conflitos armados, muitos de alta intensidade, ocorrem em seu solo e não foram poucas as cidades que foram reduzidas a escombro. Há a emigração em massa para países vizinhos, principalmente dos contingentes mais jovens o que, no futuro, criará desequilíbrios demográficos e econômicos.

Quando e se vier a paz, o país precisará contar com a ajuda eficaz e continuada dos europeus e dos americanos. Isso não é certo que ocorra pelo menos em termos suficientes para o soerguimento do país. A curto, médio e longo prazos as consequências econômicas da guerra serão completamente distintas em ambos os países.

A Rússia já ostenta a quarta posição entre as maiores economias do mundo medidas em dólares por poder de compra (PPC). Ela poderá até almejar maior status econômico e preeminência na política internacional quando do encerramento do conflito bélico. Na guerra por procuração que está sendo travada, infelizmente os prospectos do futuro para a Ucrânia não são alentadores. Requererá décadas de reconstrução nacional, seja qual for o desfecho da guerra.

2.

À luz das considerações anteriores, pode-se dizer que a Rússia está não só sustentando suas posições na guerra, como está vendo sua economia prosperar. Mas é claro que não poderá manter uma guerra para sempre.

O desgaste não é principalmente econômico, é humano. São milhares e milhares de soldados russos mortos na frentes de batalha. As famílias e amigos dos que pereceram em combate, ou voltaram mutilados, não param de crescer. Mesmo os que retornam passam a conviver com os traumas psicológicos que um conflito de grandes e continuadas proporções causa. Isso afeta a sociedade como um todo.

Só não ocorrem maiores protestos políticos internos devido à forte repressão e duros cerceamentos impostos pelo regime de Vladimir Putin. Mas tal situação não poderá se prolongar indefinidamente. A pressão pode estar sendo reprimida, mas ela existe, está nos subterrâneos da vida política russa. Pode vir à tona de modo descontrolado com o passar do tempo. Esse é um fator que pode influenciar a busca da paz da parte dos russos.

Uma das principais fontes de recursos da economia russa vinha do petróleo e gás direcionado para a Europa, mormente a Alemanha. Nos anos iniciais da guerra o corte efetuado nas exportações desses produtos provocou um severo baque na economia daquele país. Aos poucos, entretanto, mas persistentemente, a Rússia se mostrou capaz de estreitar seus laços com a China, hoje seu principal cliente, compensando suas perdas devido às sanções que lhe foram impostas.

No entanto, os impactos sofridos na Europa foram até maiores dos que os sentidos na Rússia. Tal situação ocupa o bojo das preocupações das lideranças europeias que estão sendo obrigadas a importar muitas de suas necessidades energéticas dos EUA a preços muito maiores do que eram cobrados pela Rússia.

Já se disse que a parte mais sensível do corpo humano é o bolso. Uma situação de instabilidade como a provocada pela guerra na Ucrânia não convém às principais economias do mundo. Mais cedo ou mais tarde elas ver-se-ão obrigadas a convergir para as conversações diplomáticas que levem à paz. Aliás, parece-me ser esta a postura do presidente Donald Trump em relação ao conflito. Não é interesse humanitário. É econômico.

Toda economia de defesa é essencialmente dual. Veículos lançadores de satélites são potencialmente mísseis de longo alcance. Fábricas de automóveis podem ser adaptadas para a produção de tanques e veículos blindados. A construção de navios de transportes gera tecnologia para a fabricação de belonaves bélicas. E assim por diante.

Por outro lado, a reestruturação mais ou menos acelerada de uma economia para adaptar-se aos tempos de guerra depende de outras variáveis. Por exemplo, de uma cultura de defesa (até que ponto as pessoas estão dispostas a dar suas vidas pelo país?) e também de uma cultura estratégica, isto é, como e com qual intensidade se pensa, em um dado país, nas questões da guerra nas universidades, na mídia, nas instituições de altos estudos militares, na sua história, enfim.

Na pirâmide de defesa cabe o cume às forças armadas, mas a base se assenta na própria sociedade. Assim, a reorganização estrutural da economia para sustentar o esforço de guerra depende do estágio de desenvolvimento econômico e tecnológico, político e social de cada país no plano da defesa e da sua soberania no âmbito do poder global. Todos essas dimensões estão enraizadas no périplo histórico das nações.

No Brasil o debate sobre tudo isso apenas está nos seus primórdios. Dadas as vertiginosas transformações geopolíticas pelas quais passa o mundo, a temática demanda urgência entre nós.

*Eurico de Lima Figueiredo é professor emérito e professor aposentado Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF).



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