Marx e o quarto “golpe no narcisismo humano”


Por Maurício Vieira Martins

Em texto bem conhecido pelos psicanalistas, Sigmund Freud escreveu que “o narcisismo universal da humanidade, seu amor-próprio, sofreu até o presente três duros golpes por parte das pesquisas científicas”1. O ano de publicação do escrito era 1917. O primeiro golpe a que se referia havia sido desferido pela derrubada da teoria geocêntrica, evidenciando que nosso planeta, longe de ser o centro proeminente do sistema solar, na verdade é apenas um dentre vários que orbitam uma estrela maior. O segundo golpe foi dado por Charles Darwin, ao demonstrar que nossa espécie humana, ao invés de ter uma procedência divina, tem suas raízes profundamente cravadas no mundo animal e natural, dele não podendo ser separado. Já a terceira afronta ao narcisismo humano Freud atribui à disciplina que ele próprio fundou, a psicanálise, que evidencia que a consciência humana, atributo tão celebrado por filósofos e cientistas, é apenas uma parte de uma esfera maior, o inconsciente, que tem sua lógica própria e insiste em se manifestar mesmo quando não desejamos que isso ocorra.  

Diríamos que Freud bem poderia ter incluído Marx em sua relação daqueles pensadores que imprimiram uma modificação duradoura na autoimagem que possuímos de nós mesmos. Com efeito, ao longo da leitura dos textos marxianos, ao invés do sujeito autônomo celebrado pelos liberais de sua época (por sua emancipação em face da opressão feudal), o que Marx nos apresenta é a radiografia de um sistema econômico impessoal, que funciona subordinando e oprimindo os diferentes agentes humanos. No Prefácio à primeira edição de O capital, podemos ler uma declaração transparente a esse respeito: 

De modo algum retrato com cores róseas as figuras do capitalista e do proprietário fundiário. Mas aqui só se trata de pessoas na medida em que elas constituem a personificação de categorias econômicas, portadoras de determinadas relações e interesses de classes. Meu ponto de vista, que apreende o desenvolvimento da formação econômica da sociedade como um processo histórico-natural, pode menos do que qualquer outro responsabilizar o indivíduo por relações das quais ele continua a ser socialmente uma criatura […] (Marx, 2013, p. 80). 

De fato, vire-se e revire-se uma obra como O capital, nela não encontraremos vestígios do sujeito autônomo nem da vontade livre, tão celebrada por um filósofo da magnitude de Immanuel Kant. Pois ao invés do livre arbítrio incausado, Marx nos apresenta o enraizamento da ação humana numa complexa rede de relações objetivas, que antecede nossa entrada individual no convívio intersubjetivo. 

Contudo, o entendimento preciso das engrenagens da economia capitalista não foi obtido logo ao início da obra marxiana. Num momento inicial de seu trajeto (localizável na primeira metade da década de 1840), nosso autor parte de uma crítica da especulação filosófica, que abre caminho para dissipar vários equívocos então vigentes. Isso é visível em textos como a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844ou em A sagrada família (este último escrito em parceria com Engels). Chama a atenção nesses textos o fato de Marx invocar o “ser humano individual e verdadeiro”2 como o motivo que orienta sua divergência, por exemplo, com o hegelianismo. Numa passagem célebre da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, de modo consistente com esse procedimento, podemos ler que “Hegel parte do Estado e faz do homem o Estado subjetivado; a democracia parte do homem e faz do estado o homem objetivado”3

A formulação desse texto de 1843 apresenta sua produtividade: ela retira do Estado hegeliano sua olímpica pretensão de ser “a efetividade da ideia ética”i4. Mas forçoso é também reconhecer que o entendimento marxiano do Estado como homem objetivado se revelará insuficiente para uma melhor visualização das relações econômicas e sociais do modo de produção capitalista. O encontro de Marx com a economia política foi precisamente um esforço de imergir nessa disciplina que busca decifrar a lógica objetiva (ainda que alienada) da sociedade civil.  

Os biógrafos de Marx enfatizam que seus estudos de economia política começaram já em meados da década de 1840, atingindo maior intensidade com sua mudança para Londres – então o principal centro do capitalismo internacional – e prosseguem de modo particularmente intenso a partir da década de 1850. Momento importante da autoconsciência de Marx nesse seu processo de investigação é uma carta endereçada a Ferdinand Lassalle de 1858, onde ele enuncia, de modo muito explícito, um dos objetivos de sua pesquisa:   

O trabalho que me ocupa atualmente é a crítica das categorias econômicas ou, if you like, uma exposição crítica do sistema da economia burguesa. É ao mesmo tempo uma exposição e, pela mesma razão, uma crítica do sistema (Marx, 2010b, p. 270). 

Isso significa que a exposição do sistema da economia burguesa deve ser internamente estruturada de tal forma que ela consiga também tornar evidente uma crítica a esse sistema que aliena e objetifica os seres humanos. Neste sentido, a crítica imanente se diferencia de uma outra, que procede de um modo mais externo ao seu objeto de análise, como por exemplo aquela realizada pelos socialistas utópicos. Estes últimos se esmeravam em contrastar a sociedade capitalista sob exame a um parâmetro ideal de análise: uma sociedade de indivíduos livres. No contraste, atestava-se a distância existente entre o modelo ideal proposto e a sociedade efetivamente existente. Contudo, é preciso admitir que, por essa via, não são preenchidos os requisitos lógicos e científicos de se elaborar uma crítica da economia política que opere no interior das categorias que presidem a organização da própria sociedade capitalista. 

Curioso é notar que, quando Marx finalmente atinge sua almejada exposição crítica, aquele ser humano individual e verdadeiro anteriormente invocado deixa de ser a pedra angular de sua análise5. Concordamos neste aspecto com o filósofo Hans-Georg Flickinger: é também nesse momento que se desvanece o sujeito humano como o motivo organizador da teoria marxiana. Desvanece não por uma deficiência de Marx, e sim como o espelhamento – duro, mas necessário – da realidade cotidiana de uma sociedade burguesa: “O reprimido pelas razões sistemáticas da análise é o excluído da nossa sociedade através da constituição histórica do poder do capitalismo”6. Em seu lugar, o que emerge é a lógica objetificadora do capital, que progressivamente subordina homens e mulheres em seu devir e em sua reprodução7.  

Recordemos: o primeiro capítulo de O capital dedica longas páginas à análise da forma de valor: x mercadorias A = y mercadorias B8. Marx persegue os desdobramentos simultaneamente lógicos e históricos da equação de valor, investigando as determinações não aparentes que subjazem a essa relação. E os resultados de sua investigação são surpreendentes. Apenas como exemplo: no extraordinário capítulo 22 (“Transformação de mais-valor em capital”), Marx enuncia com todas as letras que a relação de troca entre capitalista e trabalhador, que se iniciara como uma troca de equivalentes, perde esse caráter ao longo de seus sucessivos desdobramentos: “A relação de troca entre o capitalista e o trabalhador se converte, assim, em mera aparência pertencente ao processo de circulação, numa mera forma, estranha ao próprio conteúdo e que apenas o mistifica” (Marx, 2013, p. 659). Dito de outro modo: na produção capitalista avançada, há uma exploração em curso que beneficia o capitalista na mesma medida em que expropria o trabalhador.  

Tais considerações não significam, por óbvio, que o projeto político socialista de Marx – uma humanidade emancipada – foi abandonado: ele prossegue firme durante toda sua vida. Sua atividade política, que remonta à década de 1840, prossegue muitos anos depois, basta pensarmos em seu papel crucial na fundação, juntamente com Engels, da Associação Internacional dos Trabalhadores em 1864. Mas o que se deseja colocar aqui em evidência é que o modo teórico de apresentar a justeza de tal projeto político sofreu modificações ao longo do trajeto marxiano. Ele passa a ser o resultado de um extenso percurso argumentativo, que se põe como tarefa imergir em profundidade na lógica própria da sociedade capitalista. É só depois de um minudente trajeto interno ao objeto sob exame, só depois da exposição das contradições insuperáveis que uma economia capitalista desenvolve, que o texto enunciará de modo mais explícito seu projeto político (tal como ocorre no capítulo 24 de O capital, “A assim chamada acumulação primitiva”). Foi a construção desse argumento que consumiu os esforços de Marx por décadas: se hoje, no nosso século XXI, sua obra continua nos interpelando, isso se deve a seu mergulho em profundidade na lógica contraditória da economia capitalista. 

O procedimento argumentativo de Marx foi mal compreendido, para dizer o mínimo, pelos seus críticos liberais, que afirmaram não existir um espaço para a subjetividade humana na obra marxiana. Autores como Isaiah Berlin e Karl Popper – atingidos em seu narcisismo? – protestaram com veemência, sustentando que nosso autor teria realizado uma espécie de recalcamento das potencialidades criativas dos diferentes agentes sociais. Mas, na verdade, tal crítica deve ser dirigida, sem hesitação, ao funcionamento da economia capitalista, que cotidianamente monta equivalências monetárias entre os sujeitos e os produtos dos seus trabalhos, e não ao pensador que fez o registro conceitual da subordinação humana aos imperativos do valor em expansão. A análise de Marx pode ser lida a contrapelo como uma reivindicação emancipatória para todas aquelas capacidades humanas, qualitativamente diversas, que foram reprimidas e subordinadas à lógica quantitativa do valor de troca.   

Neste 14 de março de 2026, completam-se 143 anos do falecimento de Marx. Sabemos que a situação do marxismo e de seu projeto político nos dias de hoje é muito adversa – alguém duvida disso? Quem ocupa o primeiro plano da cena política é a extrema direita internacional, com seu ideário racista e xenofóbico, com sua exploração impiedosa da força de trabalho e ímpeto de devastação ambiental que ameaça a vida humana no planeta. De modo muito sintomático, entretanto, a referência ao “comunismo” persiste como uma das categorias acusatórias mais difundidas nos ambientes povoados por essa mesma direita. Vários artigos já foram escritos, inclusive por autores distantes do marxismo, apontando para a recorrência sistemática nos discursos de Donald Trump da acusação de comunistas dirigida a seus adversários. Em 2024, perguntado pelos jornalistas em seu luxuoso clube de golfe sobre qual era sua estratégia para derrotar a então candidata Kamala Harris – a quem ele chamava pejorativamente de “Camarada Kamala” –, Trump respondeu com crueza: “Tudo que precisamos fazer é definir nosso oponente como sendo um comunista ou um socialista.”i9 

Não deixa de ser irônico que a obsessão em se opor ao comunismo – Kamala Harris comunista, que piada – nos diga alguma coisa não só sobre as dificuldades que o marxismo enfrenta, mas também sobre sua permanência como o adversário mais consistente, não epidérmico, da barbárie contemporânea que o trumpismo representa de modo emblemático.  


Referências 

Flickinger, Hans-Georg. “O sujeito desaparecido na teoria marxiana”. Filosofia Política 1, p. 9-24, Porto Alegre: L&PM Editores, 1984. 

Freud, Sigmund. ‘A Difficulty in the Path of Psycho-Analysis’, in The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, vol. XVII. London: The Hogarth Press, 1981. 

Hegel, G. W. F. Linhas fundamentais da Filosofia do Direito. São Leopoldo: Ed. UNISINOS, 2010.  

Kellman, Laurie. “Trump brands his opponents as ‘communists,’ stirring up an American history of fear”. Los Angeles Times, May 4, 2025. Disponível em: https://www.latimes.com/politics/story/2025-05-04/trump-brands-his-opponents-as-communists-a-label-loaded-with-the-baggage-of-american-history 

Martins, Maurício Vieira. Marx, Spinoza and Darwin: Materialism, Subjectivity and Critique of Religion. Palgrave Macmillan, 2022.  

Marx, K. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010a. 

________. “Glosas marginais ao Manual de economia política de Adolph Wagner”. Verinotio – Revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas, Rio das Ostras, v. 23, n. 2, pp. 252-279, ano XII, nov./2017. 

_______. ‘Letter to Ferdinand Lassalle, February 22, 1858’. In: Marx & Engels Collected Works, vol. 40. London: Lawrence & Wishart, 2010b. 

________. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2010c 

_______ . O capital, vol 1. São Paulo: Boitempo, 2013. 

Marx, K e Engels, F. A sagrada família. São Paulo: Boitempo, 2011. 

Notas

  1. Freud, 1981, p. 139. ↩︎
  2. Marx e Engels, 2011, p. 15. ↩︎
  3. Marx, 2010a, p. 50. ↩︎
  4. Hegel, 2010, § 257, p. 229. ↩︎
  5. Reconhecer, como está sendo feito neste artigo, que existem diferenças relevantes no interior da obra de Marx (como ocorre, a rigor, com todo grande filósofo), não nos leva a endossar a hipótese althusseriana da existência de um corte epistemológico ao longo da referida obra. Problemático nesta hipótese é o descarte da inegável produtividade de vários temas presentes nos textos da juventude de Marx. Apenas a título de ilustração: autores espinosistas contemporâneos – como Franck Fischbach e Jason Read – vêm revalorizando os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 (anterior ao suposto corte epistemológico), apontando para a relevância da fundação da espécie humana na Natureza claramente demonstrada já neste texto de juventude. Também desenvolvi a importância destes Manuscritos – principalmente dos elementos que eles oferecem para uma teoria da subjetividade – no capítulo 6 do meu livro Marx, Spinoza and Darwin: Materialism, Subjectivity and Critique of Religion.  ↩︎
  6. Flickinger, 1984, p. 17. ↩︎
  7. Confirmando esta hipótese, pode-se citar também as palavras tardias de Marx em 1879: “meu método analítico, […] não parte do homem, mas de períodos sociais economicamente dados” (Marx, 2017, p 267). ↩︎
  8. Marx, 2013, p. 125-146 ↩︎
  9. Kellman, 2025. ↩︎

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Maurício Vieira Martins é doutor em Filosofia e professor da Universidade Federal Fluminense. Membro do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e o Marxismo (NIEP-Marx/UFF).

"A leitura ilumina o espírito".

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