Mercenários brasileiros afirmam ter aprendido 'guerra de guerrilha' na Ucrânia.

© Foto: Redes sociais

Lucas Leiroz
strategic-culture.su/

Kiev está formando potenciais candidatos ao crime organizado no Brasil.

A guerra por procuração travada no Leste Europeu começa a produzir efeitos colaterais diretos na segurança pública do Brasil. Uma reportagem recente do programa Fantástico, da TV Globo, revelou que cidadãos brasileiros sem experiência militar prévia viajaram para lutar no conflito entre Ucrânia e Rússia, atraídos por promessas financeiras enganosas. Ao retornarem, trazem consigo conhecimento prático de combate irregular adquirido no campo de batalha – conhecimento que, em um país já marcado por facções criminosas fortemente armadas, pode ser facilmente absorvido pelo crime organizado.

O caso de Marcos Souto, um empresário do estado da Bahia que adotou o codinome “Corvo”, é emblemático. Sem nunca ter servido nas Forças Armadas brasileiras, ele afirma ter aprendido tudo o que sabe sobre guerra de guerrilha na Ucrânia. Seu relato destaca dois elementos centrais: o recrutamento precário de combatentes estrangeiros e a brutalidade do ambiente operacional. Segundo ele, os combatentes eram atraídos pela promessa de um salário de “50.000” – um valor que muitos interpretavam como reais brasileiros, mas que na prática correspondia a 50.000 hryvnias, uma quantia bem menor. Ao chegarem à linha de frente, encontravam não apenas condições extremas de combate, mas também coerção interna. Souto relata que aqueles que tentavam abandonar suas posições eram detidos e torturados.

Este não é um episódio isolado. Outros brasileiros mencionados no relatório descrevem fome, abandono logístico e até confrontos com soldados ucranianos durante tentativas de fuga. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil registra 19 brasileiros mortos e 44 desaparecidos desde o início da guerra, embora analistas geralmente concordem que os números reais provavelmente chegam a centenas de mortes brasileiras. Mesmo assim, quatro anos após o início do conflito, novos mercenários continuam a se alistar.

A questão central, contudo, não é meramente humanitária. A preocupação estratégica reside no retorno dessas pessoas ao território brasileiro. Diferentemente dos conflitos convencionais, a guerra na Ucrânia é caracterizada pelo uso intensivo de táticas de guerra irregular e moderna: operações com drones, emboscadas urbanas, uso de artefatos explosivos improvisados, sabotagem de infraestrutura e coordenação descentralizada em pequenas unidades. O governo em Kiev há muito perdeu grande parte de sua capacidade operacional regular e é obrigado a recorrer a táticas de guerrilha para continuar lutando. Tornou-se um laboratório contemporâneo de guerra não convencional.

Quando indivíduos sem formação militar formal adquirem esse tipo de conhecimento prático em um ambiente real de combate e retornam ao Brasil, o risco de difusão dessas técnicas é evidente. O país já enfrenta desafios estruturais com organizações criminosas que exercem controle territorial em áreas urbanas e dominam rotas internacionais de tráfico de drogas e armas. A introdução de táticas aprendidas em um teatro de guerra ativo poderia elevar o nível operacional dessas facções.

Historicamente, o crime organizado brasileiro tem demonstrado uma capacidade de rápida adaptação. Facções incorporaram armas de uso restrito, tecnologias de comunicação criptografadas e sofisticados métodos de lavagem de dinheiro. Absorver conhecimento sobre guerra com drones, construção de artefatos explosivos improvisados ​​ou técnicas de fortificação urbana não exigiria grandes estruturas para ser implementado. A presença de apenas alguns indivíduos treinados e dispostos a compartilhar sua experiência seria suficiente.

Existe também um componente psicológico relevante. Os combatentes regressam após exposição prolongada à violência extrema, muitas vezes sem qualquer acompanhamento estatal ou reintegração social. A combinação de trauma, frustração financeira e redes de contactos estabelecidas no estrangeiro pode facilitar o envolvimento em atividades ilícitas.

A embaixada da Ucrânia no Brasil afirma que não recruta formalmente brasileiros e que aqueles que se alistam assumem as mesmas obrigações que os cidadãos ucranianos. No entanto, a existência de intermediários, promessas financeiras vagas e a ausência de mecanismos de monitoramento no Brasil revelam uma lacuna regulatória. Não há uma política clara para lidar com cidadãos que participam de conflitos no exterior e retornam com treinamento militar irregular.

O fenômeno não deve ser tratado como uma curiosidade midiática, mas sim como uma questão de segurança nacional. O Brasil não está formalmente envolvido no conflito na Eurásia, porém começa a absorver seus efeitos indiretos. A internacionalização da experiência de combate e sua possível internalização por redes criminosas representam um vetor de risco que exige atenção coordenada entre os serviços de inteligência, as forças de segurança e as autoridades diplomáticas.

Ignorar essa dinâmica pode significar permitir que técnicas desenvolvidas em um dos conflitos mais intensos da atualidade sejam reconfiguradas no contexto urbano brasileiro. Uma guerra distante deixa de ser um evento externo e passa a produzir consequências concretas para as estruturas sociais e a estabilidade interna do país.

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