O plano delirante e riscos de Trump e Netanyahu


EUA buscam estrangular energeticamente a China, que os derrotou em seu próprio jogo. Tel Aviv deseja ver o Irã transformar-se num Estado falido. Mas se Teerã resistir, os dois mafiosos terão diante de si um pesadelo político, econômico e eleitoral

Rafael Poch em entrevista a Sergi Picazo, no Critic | Tradução: Rôney Rodrigues

Trump já prescinde da retórica do direito internacional. A chave para definir as relações internacionais é a força. Os Estados Unidos podem sequestrar ou matar dois líderes de países inimigos: Maduro, na Venezuela, e o aiatolá Khamenei, no Irã. Acabou-se a legislação internacional? A ONU? Os limites mínimos da política internacional?

A pergunta, obviamente, é retórica. A guerra começou no sábado com o assassinato do líder do país adversário e vários membros de sua família. Esta guerra começou – e é a segunda vez desde junho – no meio de negociações classificadas como “bem-sucedidas” pelos mesmos personagens (Witkoff e Kushner) que estão negociando, também, com os russos o fim do conflito na Ucrânia. Quem pode confiar em tais “negociadores”? “As garantias e os documentos assinados por este presidente não têm valor algum”, disse em Moscou o analista Dmitri Trenin sobre Trump. “Não é possível manter negociações com este governo”, afirma de Nova York o economista Jeffrey Sachs.

A crise do hegemonismo acarreta a crise de suas instituições. A ONU foi uma boa ideia, mas refletia o mundo de 1945. Hoje o mundo é diferente, e diferentes são também as correlações de forças em seu interior. Naquela época, chineses e indianos não contavam para o mundo e hoje pesam muito. Mas, curiosamente, não são os emergentes que estão derrubando as instituições internacionais e o direito internacional, mas sim seus inventores, os governos daqueles países que desenharam todas essas instituições sob medida para seus interesses. Se a ONU era o desigual “parlamento da humanidade” no qual alguns mandavam mais que outros por seu direito de veto, hoje seus inventores se tornaram extraparlamentares e promovem o banditismo e o gangsterismo mais cru. Assistimos à conversão da ONU numa espécie de reedição daquela impotente “Liga das Nações” dissolvida em 1946. Se naquela época aquela organização foi incapaz de impedir a invasão italiana da Abissínia, a japonesa da China e o desastre da Segunda Guerra Mundial, a ONU de hoje se mostra igualmente impotente diante do genocídio em Gaza. Seu Tribunal Penal Internacional condena os criminosos, mas são seus magistrados que estão sendo violentados e chantageados, enquanto seus indiciados gozam de total impunidade no Ocidente. Sem falar da relatora Francesca Albanese, alvo de sanções e meio refugiada na Tunísia… Em relação à UE, seu papel não poderia ser mais vergonhoso: cooperação militar com o agressor, inclusive a partir da base de Rota, e condenação da resposta do agredido por parte da Alemanha, França e Inglaterra. “Instamos o Irã a pôr fim imediatamente a estes ataques imprudentes. Tomaremos medidas para proteger nossos interesses e os de nossos aliados na região, talvez adotando medidas defensivas proporcionadas para destruir a capacidade do Irã de lançar mísseis e drones”, destacava no domingo seu comunicado.

A situação do novo mundo multipolar exige novas instituições, certamente também na Europa, mas a experiência histórica sugere que estas só aparecem após grandes desastres.

Você escreveu no Ctxt que os casos da Venezuela, Irã e Ucrânia são, na realidade, a mesma guerra e que “o objetivo é impedir militarmente o ocaso da hegemonia americano-ocidental no mundo, ameaçada principalmente pela punjança chinesa“. Pode explicar isso?

O dado central é a reação ocidental à ascensão da China. Esse é o fato que unifica a maior parte da situação e há muito tempo. Há trinta anos, esperava-se que a integração na globalização, entendida como pseudônimo do domínio mundial dos Estados Unidos e seus satélites, transformaria a China num membro subordinado e dependente do sistema mundial. Esperavam que a integração das elites chinesas na globalização acabaria por dar origem a uma forma de governo subalterno mais aceitável para o Ocidente do que a do Partido Comunista Chinês. Mas um quarto de século depois, surpreenderam-se ao ver que, jogando no campo por eles desenhado, a China ganhou a partida: tornou-se muito mais forte, continuou autônoma e soberana, e projeta-se para o exterior mediante uma estratégia mundial integradora, não militarizada, de redes e vínculos comerciais vantajosos que desvalorizam qualquer tentativa de contrapô-la militarmente.

A ameaça ao hegemonismo ocidental liderado pelos Estados Unidos é o grande perigo que veem em Washington, e assim o proclamam e explicaram, de todas as formas, muitos políticos, militares e estrategistas de lá. Com a desindustrialização, a deslocalização e a economia de cassino que fomentaram em busca do maior e mais rápido benefício de seu capitalismo rentista e de especulação financeira, a única resposta que têm à mão é a da força. Primeiro, em 2012, inventaram o “pivot to Asia” de Obama, ou seja, desdobrar no Leste Asiático o grosso de sua força aeronaval. Depois, tentaram redefinir as normas de sua globalização proclamando novos protecionismos e tarifas, onde Trump se destacou. A cena que melhor ilustra a situação é a do jogador que, ao ver que está perdendo a partida, dá um chute na mesa de jogo e saca a pistola.

Um dos seus erros crassos foi ignorar e maltratar os interesses russos na Europa durante trinta anos. Desconsiderando os avisos de pessoas como Kissinger ou Kennan contra a expansão da OTAN, estimularam a estreita integração eurasiática entre a Rússia e a China, algo que nem Moscou nem Pequim buscavam inicialmente. Depois, quando após múltiplos avisos a Rússia reagiu militarmente à tentativa de expulsá-la definitivamente do Mar Negro, anexando a Crimeia, continuaram com uma escalada militar na Ucrânia, injetando recursos militares no novo regime pró-ocidental de Kiev e apoiando sua “operação antiterrorista” contra as regiões russófilas do leste do país. A suposta participação “mediadora” da França e da Alemanha nas negociações de Minsk foi uma farsa para “ganhar tempo e preparar a Ucrânia” para a guerra, conforme admitiram a ex-chanceler alemã Angela Merkel e o ex-presidente francês François Hollande, e corroborou o ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko. Nos dois anos anteriores à invasão russa, os sinais emitidos contra a Rússia foram claros. Em 2019, um extenso documento da RAND Corporation, o principal think tank do Pentágono, intitulado “Overextending and Unbalancing Russia” (Sobrestimar a capacidade e desestabilizar a Rússia), propunha um catálogo detalhado para estressar Moscou, cujo primeiro e principal cenário era o de “fornecer ajuda letal à Ucrânia”, coisa que vinha sendo feita desde 2014. Uma vez obtida a invasão russa, mobilizaram-se para impedir qualquer acordo entre a Rússia e a Ucrânia nas negociações que começaram logo após a invasão, primeiro em Minsk e depois em Istambul. Quando perceberam que o objetivo proclamado de infligir uma “derrota estratégica” à Rússia por meio de sanções e ajuda militar e financeira à Ucrânia se complicava, optaram por separar as frentes.

Em novembro de 2023, o subsecretário de Estado para a Europa e Eurásia na primeira administração Trump, Aaron Wess Mitchell, disse que os Estados Unidos poderiam perder uma guerra se tivessem que atuar em três frentes simultaneamente, porque nesse caso, “os Estados Unidos teriam que ser fortes em cada um dos três cenários bélicos, enquanto seus três adversários, China, Rússia e Irã, só precisam ser fortes em sua própria região para alcançar seus objetivos”. Assim, optaram por transferir parcialmente a batata quente da Ucrânia para os europeus, concentrar-se no Irã, o mais fraco dos três, e continuar se preparando para lidar com a China mais tarde. Por isso escrevi que na Ucrânia se trata de enfraquecer a Rússia, fundamental parceira da China. Na Venezuela, trata-se de privar a China do acesso a importantes reservas energéticas e recursos latino-americanos. O Irã é o elo fundamental da integração eurasiática, com seus corredores energéticos e de transporte leste/oeste e norte/sul.

O governo do Irã quer realmente ter armas nucleares? O tema nuclear é uma farsa? Há algo a negociar realmente entre Estados Unidos e Irã?

No início dos anos 90, o embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita já alertava que o Irã “está a poucas semanas de obter a bomba”. Se a tivessem obtido, os aiatolás nunca teriam sido atacados, mas os dirigentes iranianos demonstraram ter mais escrúpulos nisso do que os norte-coreanos que, após o fim da guerra fria e o desaparecimento da cobertura proporcionada pelo guarda-chuva nuclear soviético, compreenderam imediatamente que obter a bomba era sua única apólice de seguro contra um ataque dos Estados Unidos.

Lembremos que em 2015 já se alcançou um acordo com o Irã, o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês), pelo qual Teerã concordava em limitar seu enriquecimento de urânio em troca da suspensão de sanções e das inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em suas instalações. Na época, eu estava em Paris e Bernard Hourcade, um dos principais especialistas franceses em Irã, estava entusiasmado com as perspectivas econômicas e comerciais que aquele acordo abria, sobretudo para a Europa. “Trinta e sete anos após a queda do Xá, a República Islâmica foi reconhecida como um ator de pleno direito da vida econômica e política do mundo”, dizia. Ele esperava uma imediata abertura do regime e assegurava que “se abre uma nova página na história iraniana”. Tudo isso não deu em nada: Trump retirou os Estados Unidos do acordo, os europeus não fizeram nada e as inspeções da AIEA serviram para aprimorar os alvos das bombas israelenses contra as instalações e os domicílios particulares dos responsáveis pelo programa nuclear, alguns deles assassinados com suas famílias em junho. Como agora, aquele ataque ocorreu no meio de uma negociação. O decisivo não é a bomba, mas sim o velho plano de 2002 revelado pelo General Wesley Clark, no qual se dizia: “vamos nos livrar de sete países em cinco anos, começando com o Iraque, depois Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e terminando com o Irã”. Cumpriram tudo. Já são mais de quatro milhões de mortos e 40 milhões de deslocados. Só lhes falta o Irã. Querem criar nesse país um buraco negro.

Que interesses têm os Estados Unidos e Israel para atacar o Irã? Não é por recursos naturais, mas sim por interesses geoestratégicos?

Para Israel, trata-se de acabar com o único país do Oriente Médio capaz de impedir o louco projeto colonial “sem fronteiras” de Grande Israel, do Nilo ao Eufrates. Como disse o embaixador estadunidense em Israel, Mike Huckabee, Israel goza de um “direito bíblico” de se expandir por toda a região. E Israel, como se sabe, tem uma grande influência na política dos Estados Unidos. Dos interesses, digamos, geopolíticos dos Estados Unidos já falamos, mas há também um interesse político interno desse Nero narcisista que preside atualmente o regime de Washington e sua administração de amadores. Trump prometeu não envolver os Estados Unidos em novas guerras e está se divorciando de sua base social popular. Em novembro, tem eleições de meio de mandato nas quais se prevê que perderá muito apoio. Se conseguisse derrubar o regime iraniano, iria para essas eleições desde uma posição de força. Mas se as coisas correrem mal para ele, esta guerra impopular, inconstitucional, sem acordo do Congresso e desaconselhada por suas agências de inteligência, poderia desabar sobre ele. Trump e Israel arriscam muito nesta loucura.

Esta guerra é mais uma prova do suposto fim do poder dos Estados Unidos? Não se entende que seja assim quando os Estados Unidos atacam e têm um poder militar indiscutível, não?

Ninguém discute que tenham o poder militar mais forte do mundo, mas a louca e criminosa utilização desse poder é uma verdadeira mostra de fortaleza? Eu creio que o que estão demonstrando ante os olhos de todo o mundo de forma indiscutível, particularmente desde a série bélica que começa com o 11 de setembro de 2001 em Nova York, que vai do Iraque ao Irã, passando pelo Afeganistão, Líbia, Síria, Iêmen, Somália, Ucrânia e Gaza, é que eles são o principal perigo para a paz mundial.

Os Estados Unidos se atreverão a entrar no Irã, um país de 90 milhões de habitantes e com um dos exércitos mais poderosos do mundo muçulmano, com tropas e soldados em campo, como fizeram no Iraque? Ou apenas bombardearão a partir de aviões e porta-aviões? Será uma guerra curta?

Não creio que se arrisquem a entrar com tropas lá. O precedente do Iraque pesa muito, sem contar que o Irã é muito mais forte do que o Iraque. Na guerra dos doze dias de junho, esgotaram-se os estoques dos arsenais de recursos antimísseis dos Estados Unidos e Israel. Aliás, esta guerra é uma péssima notícia para os militares ucranianos, que verão seu suprimento de recursos de defesa antimísseis ainda mais diminuído diante dos ataques russos. A fabricação estadunidense desses recursos é limitada e não parece que possam sustentar uma campanha intensa de ataques e contra-ataques por mais de quatro ou cinco semanas, mas muito dependerá da capacidade de resposta iraniana para esgotar esses arsenais.

Qual é a capacidade defensiva do Irã agora?

É a grande questão militar. Em junho, lançaram primeiro o refugo, drones e mísseis obsoletos para desgastar a capacidade de interceptação israelense e localizar as posições de suas defesas, e depois lançaram mísseis hipersônicos mais sofisticados que causaram muitos danos. Será preciso ver quantos lhes restam agora. Agora há muitos mais alvos, as bases estadunidenses do Golfo e, eventualmente, se tiverem alcance, a frota destacada no Mediterrâneo. O Irã já atacou instalações estadunidenses em cinco países do Golfo. O assassinato do Aiatolá Khamenei não é apenas um assunto nacional iraniano. Há muitos xiitas no Iraque, Paquistão, Arábia Saudita, Bahrein e Líbano, entre outros. Há um risco de guerra regional muito sério no qual também os iniciadores podem sair queimados.

Como é que o ataque ao Irã, ou uma mudança de regime ou o bloqueio de Ormuz, afetam a China e a Rota da Seda? A questão chinesa é fundamental aqui ou apenas um efeito colateral?

É fundamental porque o Irã é um grande parceiro energético da China e porque sem o Irã cortam-se importantes circuitos da Rota da Seda. Não é por acaso que insisto na unidade de todos estes conflitos. Desconhecemos o nível do envolvimento militar da China com o Irã. Receberam os iranianos baterias antimísseis de Pequim, como se disse? Não me parece provável que a China se envolva militarmente; por outro lado, deixar passar um ataque militar tão claro contra ela sem fazer nada também não parece realista… Em relação à Rússia, parece-me que não fez grande coisa em favor do Irã. Estão muito centrados na pressão sobre a ucraniana e nas suas ambíguas conversas com a equipe de Trump e não creio que vão além das declarações e condenações diplomáticas. Minha impressão é que o Irã está bastante sozinho, o que é contraditório com a unidade de conflitos que aponto.

Falemos sobre política interna no Irã. A esquerda tem dúvidas neste assunto porque, por um lado, vê que ocorre um ataque/golpe de Estado/assassinato do neoimperialismo estadunidense, mas por outro, também sabe que o regime dos aiatolás massacrou a esquerda comunista no Irã, ataca os direitos humanos básicos e reprime as mulheres. O que fazer ou o que pensar diante deste dilema?

Parece-me que o país e seu regime não estão sendo atacados por “terem massacrado a esquerda”, nem por “atacar os direitos humanos” ou “reprimir as mulheres”, que são muito mais livres no Irã do que em qualquer monarquia do Golfo. Àqueles que veem um “dilema” neste ataque, só posso dizer uma coisa: todo rei é pai.

Cairá a República Islâmica? Diz Nazanin Armanian que “a república islâmica já terminou” depois dos protestos sociais e da burguesia iraniana, e dos ataques militares?

Desconheço a situação interna do Irã nem sou um especialista nas questões desse país, mas como diz Nazanín, a fragilidade do regime é evidente e maior do que nunca. Suponho que tudo é possível. Diz Trita Parsi, um especialista do Quincy Institute de Washington, que os iranianos “se viram apanhados entre uma teocracia repressiva e atores externos cujas políticas foram deliberadamente desenhadas para criar desânimo. A ironia é evidente: as mesmas vozes que ajudaram a fechar as vias para o desmantelamento pacífico da teocracia apresentam-se agora como salvadores, oferecendo a intervenção militar estrangeira como o único caminho para a libertação, uma oferta que não teria encontrado compradores se a população não tivesse sido levada ao desespero em primeiro lugar”. Parece-me um bom diagnóstico.


RAFAEL POCH


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