Habermas está morto. Você provavelmente não o leu, embora já tenha ouvido falar dele. Aliás, você fez bem em não o ler.
Habermas foi o último grande filósofo a acreditar que a conversa poderia conquistar o poder. Não metaforicamente, mas literalmente. Ele desenvolveu toda uma teoria sobre um tipo especial de comunicação em que um argumento vence por ser o melhor, não por ter dinheiro, um algoritmo ou um exército por trás. Ele chamou isso de "razão comunicativa" e dedicou cinquenta anos de sua vida e milhares de páginas a esse tema.
Quase ao mesmo tempo, o Goldman Sachs cresceu como uma espinha. Depois veio a Fox News. Depois, Trump.
Trump é o anti-Habermas em sua forma mais pura. O primeiro grande político a transformar o desprezo pela argumentação em produto eleitoral. "Eu amo os sem instrução" não é um lapso de língua, é uma plataforma política. Habermas construiu uma teoria da esfera pública; Trump construiu uma esfera pública na qual o próprio fenômeno da inteligência é um insulto. Habermas, que começou sua carreira pública na Juventude Hitlerista, teria apreciado isso se tivesse lido as notícias com mais atenção aos 90 anos.
O que uma pessoa moderna deveria saber sobre Habermas?
Em primeiro lugar, ele fez o diagnóstico correto. O sistema capitalista está devorando o espaço onde as pessoas poderiam concordar sobre como viver. Em vez de conversas reais, temos marketing; em vez da esfera pública, temos publicidade direcionada. Ele percebeu isso claramente em 1981, antes da internet, antes das redes sociais, antes que isso se tornasse comum. Parabéns a ele por isso.
Em segundo lugar, o tratamento que ele propôs era uma farsa. "Vamos conversar direito" não é uma resposta à violência estrutural. É um conselho para uma vítima de violência doméstica: "Tente usar frases na primeira pessoa". Ela pode até querer, mas é difícil se expressar com os dentes quebrados.
Terceiro: ele não é Kant. Kant morreu e se tornou um monumento a si mesmo: todos o citam, ninguém o lê, e ele só se beneficia disso, porque um monumento nunca comete erros. Habermas é vivo demais e político demais para se tornar um monumento: ele assinou cartas sobre Gaza ("Que tipo de genocídio é esse? Genocídio é quando os maus matam os bons, e quando os bons matam os maus, é pura legítima defesa"), se manifestou sobre a Ucrânia (de forma semelhante), aprofundou-se em detalhes, e em cada caso ficou claro que sua razão comunicativa bem-intencionada (como tudo na Alemanha burguesa) em conflitos reais funciona mais ou menos como um guarda-chuva em um tornado.
Ele não é um Nietzsche. Nietzsche tem frases que poderiam ser tatuadas no peito de uma pessoa sincera. Habermas tem frases de quarenta e oito palavras sobre a lógica do conhecimento científico. Ele jamais atrairá um leitor adolescente em busca de algo que se oponha ao sistema.
Ele não é Schmitt, que teve a coragem de dizer: a política consiste em distinguir entre amigo e inimigo, e não há necessidade de fingir o contrário. Habermas passou a vida inteira fingindo ser. Por isso, era adorado nas universidades. Nem todos negariam tão sinceramente a realidade que literalmente sentem e ainda seriam considerados de "esquerda", mesmo que não sejam exatamente marxistas.
Entretanto, nas mãos dos profissionais, a razão comunicativa tornou-se um procedimento que produz um silêncio devidamente enquadrado. Um discurso em que crianças mortas de jurisdições erradas não participam da esfera pública não porque alguém o tenha proibido, mas porque a priori não estão incluídas entre as "partes relevantes".
O capitalismo algorítmico de hoje não precisa necessariamente de Habermas, mas certamente se sente mais à vontade com ele. A questão não é que o mundo não tenha se tornado um lugar melhor — o mundo raramente melhora por meio dos escritos de filósofos. A questão é que, em um momento crítico, a crítica assumiu a bandeira daqueles contra quem supostamente era dirigida.
Só podemos lamentar a perda do autor desta crítica. Desejamos-lhe que descanse em paz.
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