Rússia e China na guerra no Irã


Por VALERIO ARCARY*
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No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção

“Só os mortos conhecem o fim da guerra” (Platão).

1.

Três semanas e meia depois do início dos bombardeios em Teerã e do assassinato de Ali Khamenei, e agora de Ali Larijani, a questão central consiste em explicar as razões da guerra contra o Irã. Não há perigo real e imediato de uma Terceira Guerra Mundial. A Rússia não pode e a China não quer uma internacionalização da guerra.

O Irã está isolado e, apesar da resistência militar, e da decisão da nova direção do Estado persa de fechar o estreito de Ormuz, ameaçando uma disparada do preço do petróleo, e uma pressão inflacionária mundial, o perigo é que seja, em mais ou menos tempo, derrotado.

Nesse contexto, embora não haja razões para a esquerda alimentar qualquer ilusão sobre o regime teocrático de Teerã, o dever internacionalista mais elementar é defender o Irã contra a agressão imperialista de Donald Trump e Benjamin Netanyahu. A bandeira “Não à Guerra” deve unir não só todos os socialistas, mas todos aqueles que compartilham a esperança de que o mundo não deve ser dominado pela barbárie da lei do mais forte.

Qual é a estratégia de Israel? O grau de autonomia relativa de Israel diante de Washington foi posto à prova inúmeras vezes desde o início da invasão da Faixa de Gaza, em inúmeras discordâncias com a gestão do partido democrata de Joe Biden. Mas desde a posse de Donald Trump prevaleceram acordos, inclusive, sobre a criminosa intenção de limpeza étnica palestina. Não há dúvidas sobre as afinidades políticas entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, dois líderes mundiais da extrema direita neofascista.

O genocídio em Gaza, a pretexto de aniquilar o Hamas, a expansão dos assentamentos na Cisjordânia que desloca a Autoridade Nacional Palestina, e a invasão do Líbano para expulsar o Hezbollah são indivisíveis da guerra contra o Irã. Estas ofensivas obedecem ao cálculo de que a presença de Donald Trump na Casa Branca abriu uma oportunidade de impor uma derrota histórica à causa palestina. Derrotas históricas são aquelas que estabelecem uma relação política de forças pelo intervalo de uma geração. O objetivo de Israel é destruir a independência do Estado iraniano e a imposição de um regime vassalo em Teerã.

2.

A estratégia dos EUA não é diferente, mas responde, também, a pelo menos outras três necessidades: (a) demonstrar para Moscou e Pequim que há somente um imperialismo no mundo em condições de se impor, política e militarmente, em escala mundial, reafirmando sua supremacia contra o bloco Brics; (b) sinalizar para a Europa que a hegemonia norte-americana está intacta e que, tanto Londres como Paris e Berlim, devem se alinhar, incondicionalmente, sob a liderança de Washington e aceitar a reformulação da OTAN; (c) confirmar para todos os países do Sul Global, em primeiro lugar, para a Índia, Brasil e Indonésia que, na nova ordem mundial em construção depois do ataque à Venezuela e do cerco a Cuba, não haverá lugar para Estados independentes.

O desenlace da guerra contra o Irã dependerá, essencialmente, do papel dos EUA. Israel não pode vencer sozinha. Sem o apoio de Donald Trump, mesmo considerando o apoio popular que o sionismo mantém para fazer a guerra contra Teerã, Benjamin Netanyahu terá que recuar. A superioridade aérea de Israel não é suficiente para uma guerra de média duração contra o Irã.

Não se deve desconsiderar, tampouco, o desgaste de Israel depois do genocídio na Faixa de Gaza. Embora nunca se deva subestimar até onde poderá ir Donald Trump, parece improvável que seja possível uma derrubada do regime somente com uma guerra aérea. Impossível porque o regime demonstrou, em três semanas, que tem uma base social muito maior do que os EUA imaginavam. O que sugere que Washington aposta em reabrir negociações com alguma ala do governo em Teerã depois de castigar, impiedosamente, a nação persa.

Seria ingenuidade descartar a possibilidade de ações subversivas internas da CIA e do Mossad. Não surpreenderia que estejam preparando a deflagração de uma guerra civil apoiada nos rancores e ressentimentos que existem entre os mais de trinta milhões de curdos, árabes e azeris, entre outras minorias que vivem no Irã e não são persas.

O Irã é consciente que a Rússia, depois de quatro anos, está comprometida em uma guerra contra a Ucrânia que não tem solução militar, e só terá um desenlace favorável a Moscou, se os EUA exercerem seu poder de pressão sobra a Grã-Bretanha e a União Europeia. Essa é a prioridade absoluta de Putin. Teerã terá algum apoio técnico-militar discreto e defesa diplomática, mas não mais do que isso.

Enganam-se aqueles que, embalados pela nostalgia da ex-URSS, alimentam ilusões que a Rússia poderia ser uma “retaguarda” estratégica da luta anti-imperialista. O capitalismo foi restaurado há, pelo menos, trinta anos, e surgiu uma nova burguesia com ambições expansionistas.

O regime em Moscou, apesar da legalidade de diferentes partidos, não é somente autoritário, é uma institucionalidade que protege um governo Putin de extrema-direita. A Rússia é um Estado imperialista em posição subalterna, mas independente, inclusive de Pequim. Embora, economicamente mais fraca que os outros três blocos que disputam posições no sistema de internacional – os EUA, as potências europeias, e a China – a Rússia utiliza sua potência militar e energética – inclusive a exportação de capitais – para estender sua influência na periferia do sistema internacional, na Europa Oriental, Ásia Central e África. Não é marginal que Moscou não tenha acudido à necessidade existencial que Cuba tem de petróleo. O Irã está, também, por sua própria conta.

3.

Já a China não tem interesse em precipitar confronto com Washington, e defende uma imediata desescalada da guerra, que só é possível com concessões de Teerã a Tel Aviv. Tudo até aqui sugere que Pequim não será sequer um obstáculo para que o Irã recue, e ceda às pressões de Israel e Washington contra os planos dos Brics.

O Irã se associou aos Bric’s, uma articulação comercial e rede diplomática alternativa, inicialmente constituída por Brasil, Rússia, Índia e China e África do Sul, ampliada com Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, e Indonésia, apresentada como uma expressão econômica do Sul Global, excluída a Venezuela, sem uma plataforma política comum, mas que pode ser o embrião de um espaço de trocas desdolarizadas, se vier a ser constituída uma moeda virtual dos cinco r’s, o renmimbi, rublo, rúpia, real e rand. Na mesa dessas negociações, previsivelmente, estarão ultimatos de Trump contra os investimentos de Pequim na infraestrutura persa, com os planos da Nova Rota da Seda.

Não há qualquer razão para duvidar que a ofensiva nacional-imperialista dos EUA atingiu a Venezuela, Irã e Cuba para isolar a China, o principal inimigo. Mas não porque Pequim seja um Estado do Sul Global. Ao contrário, Washington mira a China porque é a única nação que, potencialmente, pode ameaçar a hegemonia dos EUA no mundo. O alvo é a China porque se trata do único Estado com um PIB com dimensões que se aproximam da superioridade que os EUA mantiveram por três gerações, desde o final da última guerra mundial.

Quais são os critérios que devem ser considerados, na tradição marxista, para definir se um país pertence à periferia da ordem capitalista? Qual é a régua? A China está realizando, desde os anos oitenta, a transição histórica mais vertiginosa do mundo agrário para uma sociedade urbanizada da história. Nesse intervalo, nenhum país contribuiu mais para a erradicação da miséria no mundo que a China. Mas Pequim não é mais somente um importador de capitais e tecnologias.

A China se transformou em uma potência que exporta capitais e tecnologias. Uma potência que defende, aliás, intransigentemente, interesses imperialistas nas relações de troca no mercado mundial com os países periféricos. Uma potência subalterna e em ascensão não é parte do Sul Global, embora possa ser uma aliada contra o imperialismo dominante, os EUA, associado na Tríade com Europa e Japão.

Nesse processo se restauraram relações de mercado que favoreceram a formação de uma burguesia interna que já responsável por algo em trono de 60% do PIB. Um país pode ser considerado socialista, se as relações econômicas-sociais são capitalistas? Mesmo se nenhuma fração da burguesia tem, diretamente, controle do Estado, pode ser socialista uma sociedade em que o governo estimula a formação de gigantescas empresas privadas dirigidas por milionários?

Ou um país pode ser considerado socialista, somente porque o poder é controlado pelo partido comunista, herdeiro de uma das maiores revoluções sociais da história? As façanhas do crescimento econômico espetacular, e a fantástica modernização acelerada seriam provas incontestáveis de que a China é socialista? Seria possível sustentar, indefinidamente, uma vibrante economia capitalista, incentivando o enriquecimento privado, ao longo de gerações, e preservar a estratégia de transição ao socialismo?

Como explicar a relativa estabilidade social e política interna do país, equilibrando a força econômica da burguesia, por um lado, e o domínio do Estado pelo aparelho do partido comunista, por outro? Não é simples.

Mas não é um bom método considerar somente a opinião que os dirigentes da China têm sobre o seu próprio Estado, sua economia e sua sociedade: eles devem sua legitimidade política interna, ou pelo menos uma parte dela, à defesa da revolução e ao prestígio de Mao. Pior ainda seria considerar a opinião que os inimigos da China têm sobre ela, denunciada como uma “ameaça comunista à civilização ocidental”.

Ou seja, o mesmo cenário que envolvia a URSS durante os anos oitenta e a ofensiva dos EUA contra o “Império do mal”. A credulidade diante do fato de que, tanto Brejnev como Reagan, afirmassem que a URSS era socialista só serviu para a desmoralização de gerações do povo de esquerda pelo mundo afora. O que é certo é que a China não é parte do Sul global. O que não deve ser um obstáculo para que os países da periferia, como agora o Irã, procurem uma aliança com Pequim contra Washington. Mas a China precisa também querer.

*Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://amzn.to/3OWSRAc].


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