Territórios e linhas especulativas do capital: o neoliberalismo de Trump e uma nova periferização da Europa

Imagem: Wikimedia Commons

Por Felipe Castelo Branco
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Pouco tempo depois de o nacionalismo restritivo de Donald Trump e de seu MAGA (Make America Great Again) assumirem a forma de um conjunto de tarifas comerciais praticadas pelos Estados Unidos contra o resto do mundo, uma série de análises, muitas delas oriundas da esquerda, vieram a público decretar que o presidente estadunidense estava prestes a inaugurar uma nova era, que seria responsável pela implosão do neoliberalismo e de seu sistema concorrencial de livre-mercado.1

Logo nas primeiras horas do ano de 2026, a tese de um antiliberalismo de Trump voltou a ganhar corpo com a nova demonstração de força estadunidense expressa na invasão da Venezuela, no sequestro de Nicolás Maduro e no explícito interesse em estabelecer um governo remoto liderado, efetivamente, por companhias petrolíferas norte-americanas. Para alguns, tal política viria selar definitivamente aquilo que já se havia previsto desde o “tarifaço”, a saber, um processo de ruptura do governo estadunidense em relação ao modelo da livre-concorrência de mercado em âmbito internacional. Se tal premissa fosse verdadeira, os novos movimentos de Trump seriam responsáveis por abrir as portas de uma nova era internacional de conquistas territoriais brutais e do império da “lei do mais forte”.  

Esse tipo de interpretação não se equivoca ao assumir o neoliberalismo como coextensivo à ideia de concorrência. É conhecida a elaboração de autores como Pierre Dardot e Christian Laval, que interpreta as linhas mestras do neoliberalismo como a disseminação sistêmica do modelo econômico da concorrência de mercado para todos os âmbitos da vida coletiva. É o transbordamento da concorrência capitalista, para fora do estrito âmbito do mercado, que em partes explica as transformações que o mundo do trabalho tem testemunhado há mais ou menos quarenta anos, em que trabalhadores, dessolidarizados como classe, passam a enxergar a si mesmos como indivíduos que devem concorrer entre si, como se empresas capitalistas fossem. Esse processo está igualmente na base das transformações enfrentadas pelas empresas públicas estatais que, desfiguradas, perdem sua função social, passando a ser governadas segundo os mesmos padrões de lucro, concorrência e de metas de distribuição de dividendos que orientam as empresas privadas. Os próprios Estados nacionais, segundo essa leitura, têm sido privados daqueles meios de arbitragem e regulação social que acumularam desde a vigência do modelo do Estado social, comportando-se atualmente como entes concorrenciais orientados para a captação dos investimentos de capital de que dependem para financiar suas próprias despesas públicas, além de se ocuparem em criar um ambiente de negócios favorável às empresas privadas nacionais e transnacionais – invariavelmente em desfavor de sua própria população nacional. O neoliberalismo se manifesta, em seus traços essenciais, como uma sobreposição entre estratégias concorrenciais de mercado e práticas de governo, em uma fusão total que permite tudo governar segundo as regras de mercado.  

Não é difícil perceber, nesse cenário, que a eleição de Donald Trump como líder da maior potência econômica e militar do mundo – eleição que veio acompanhada de um desfile de empresários e milionários assumindo postos de governo e de consultoria em sua administração – representa a realização de um sonho neoliberal. O governo Trump é talvez sua acentuação mais profunda, representando a decantação mais perceptível e grosseira do processo generalizado de disseminação da forma-empresa capitalista e da concorrência de mercado como métrica própria às ações políticas estatais. Em última instância, Trump ostenta, no cargo de maior impacto político e econômico do planeta, algo que tem se verificado também em outros países: a fusão deliberada, em uma mesma figura, do megaempresário e do político, ou, mais precisamente, do governante e do negociador em incessante busca de vantagens.  

O fato de o presidente dos Estados Unidos governar agressivamente o ambiente político, da mesma forma que um executivo ou um especulador financeiro tradicionalmente faria no ambiente de negócios, tem causado delírios de prazer nas elites do capitalismo financeirizado: finalmente um político chega à mais alta escala do poder governando como um negociador impiedoso, subjugando agressivamente seus adversários e concorrentes (sejam eles empresas ou nações) como um executivo ou especulador faria. Trump impõe aos povos ao redor do mundo um paradigma de governo que é tributário da pantomima típica às mesas de negociação que têm moldado as estratégias concorrenciais travadas entre grandes capitalistas.2

É essencialmente nesse ponto que erram as previsões a respeito do colapso do neoliberalismo, com a ascensão de Trump ao poder. Ao contrário daqueles que enxergam no atual mandatário estadunidense o responsável por um processo drástico de ruptura com a ordem neoliberal, eu proponho que Trump é talvez o passo mais decisivo e radical no processo neoliberal de cristalização do modelo da concorrência de mercado no interior da forma-Estado. Aqueles que associam a violência avassaladora de Trump ao colapso da ordem neoliberal se equivocam precisamente por acreditar que a forma concorrencial do livre-mercado se estabelece forçosamente entre entes dotados de iguais condições de disputa. Segundo essa perspectiva, a concorrência capitalista diria respeito a um dispositivo autônomo, capaz de integrar uma miríade de produtores que se engajariam na melhoria de seu próprio produto frente à ação de seus rivais (ou de países que negociam pacificamente segundo regras internacionais claras). O resultado desse processo seria a melhoria coletiva das mercadorias produzidas, elevando a qualidade dos produtos através da especialização dos melhores concorrentes e da eliminação espontânea dos concorrentes mais frágeis – em um processo que seria tão impessoal quanto pacífico. Ao aderir a essa visão fantasiosa do mercado capitalista, aqueles que buscam analisar os recentes acontecimentos oriundos dos Estados Unidos se colam a uma versão da história que o Ocidente neoliberal não cessa de narrar para si mesmo, a fim de ocultar suas próprias formas de violência.  

A concorrência monopolista 

A despeito da associação direta entre capitalismo e concorrência de mercado que o liberalismo se esforçou por produzir, Karl Marx nos legou uma lição que me parece fundamental recuperar aqui. Em sua obra, Marx demonstra que a formação de uma economia capitalista depende não do estabelecimento de um mercado concorrencial, mas da combinação entre forças produtivas e relações de produção, segundo a forma que essas relações assumem em determinado momento histórico. Ao contrário do que preconizam as filosofias liberais, na qualidade de um modo de produção em que uma classe explora outra classe, o capitalismo não se caracteriza pelo sucesso da liberdade de empreender no seio de um sistema de mercado concorrencial capaz de interpor, de maneira impessoal, um conjunto de obstáculos às tentativas deliberadas de exploração e de dominação entre concorrentes. Para Marx, a tendência à formação de monopólios não acontece à revelia do processo concorrencial, mas se desenvolve efetivamente no interior da estrutura concorrencial capitalista, a partir de suas próprias condições.  

Nesse sentido, para que sejamos efetivamente marxistas, é preciso abandonar o uso do termo monopólio em um sentido puramente restritivo. Como se “monopólio” fosse um termo apropriado exclusivamente para descrever um mercado falho, dotado de um único concorrente, que corrompeu a ordem neoliberal. Os economistas marxistas Paul Baran e Paul Sweezy, fiéis à leitura de Marx, adotaram o termo concorrência monopolista para caracterizar a forma assumida pelos mercados concorrenciais na era do neoliberalismo, em que toda disputa concorrencial tem sido povoada por grupos empresariais que possuem características que tradicionalmente eram atribuídas exclusivamente aos grandes monopólios. Para esses autores, a concorrência de mercado não foi eliminada do atual estágio do capitalismo, mas sendo majoritariamente dominada pela centralização e concentração de capital, ela introjetou ao processo concorrencial um conjunto de empresas e produtores transnacionais de porte colossal. Nesse cenário, uma vez que duas ou mais empresas monopolistas passam a atuar em um mesmo setor, elas tendem a abandonar o modelo de concorrência clássica, reduzindo a rivalidade de mercado e estabelecendo uma forma de cooperação tácita que consiste em se utilizar de seu próprio tamanho e de sua própria posição de mercado, a fim de erigir barreiras, visíveis ou invisíveis, à entrada de novos competidores.  O que uma empresa monopolista visa, em última análise, não é efetivamente disputar mercados com outros concorrentes monopolistas, mas compartilhar com esses concorrentes uma parcela estável de mercado através de um acordo silencioso em torno da prática de um preço de mercado comum, que não apenas mantenha os preços praticados sistematicamente superiores aos custos de produção, mas igualmente utiliza os preços praticados como instrumento de perpetuação da posição de mercado desses grupos empresariais frente aos concorrentes mais frágeis. Ao fim e ao cabo, os riscos concorrenciais acabam quase sempre por pesar significativamente apenas para empresas menores, que não desfrutam dos mesmos recursos que os conglomerados monopolistas, de modo que sua entrada ou permanência em um mercado dominado pela concorrência monopolista se torna excessivamente cara e arriscada. 

Nesse sentido, a estrutura monopolista da concorrência de mercado neoliberal opera como uma espécie de maquinário produtor de relações de desequivalência entre entes econômicos. Soma-se a isso o fato de que, desde o fim da Primeira Guerra Mundial, o capitalismo tem traduzido politicamente tais relações de desigualdade econômica monopolista naquilo que ficou conhecido como imperialismo.  

Imperialismo, território e financeirização 

Foi Vladimir Lênin quem, com grande originalidade, sublinhou pela primeira vez que o modo de organização do capitalismo ao longo do século XX não marcou uma interrupção no desenvolvimento dos grandes impérios históricos e do modelo de conquista colonial e territorial que dominou a paisagem política desde o mundo antigo. Ao contrário disso, o desenvolvimento capitalista se constituiu como um novo capítulo na história dos grandes impérios e nas relações de dominação territorial, oferecendo um fôlego sem precedentes às práticas imperialistas. Após as grandes guerras mundiais, se estrutura uma nova partilha do mundo que recorta a superfície do planeta em domínios coloniais e regiões de influência de uns Estados sobre outros. A novidade dessa nova partilha territorial capitalista, além de ser eminentemente orientada pelo capital, é seu caráter fundamentalmente instável, precisamente porque não conduz a uma distribuição ordenada e isonômica do mundo entre Estados soberanos, mas implica em um arranjo concorrencial que conduz a uma luta violenta por territórios partilhados.  

A estruturação da forma imperialista do capitalismo, no entanto, depende de um ingrediente indispensável: a fusão do capital bancário ao capital industrial monopolista, formando o que ficou conhecido como o capital financeiro. Trata-se de uma forma de organização do capital que passa a fomentar e controlar, não apenas os grandes grupos monopolistas, mas também os próprios Estados, integrando ambos à circulação internacional do capital. A aceleração desimpedida dos processos de acumulação capitalista dependia e continua a depender da superação dos limites dos Estados nacionais. A nova partilha do mundo permitiu que empresas monopolistas e Estados tivessem o caminho pavimentado para sua busca incansável por espaços que permitam maior dinamização do processo de valorização de capital, fora das amarras territoriais das fronteiras nacionais. É precisamente a partir desse elo financeiro que a partilha imperialista do mundo passou a recortar a superfície do planeta em dois espaços heterogêneos: um espaço periférico que se constituiu em intrínseca relação de dependência em relação aos espaços centrais do capitalismo – em uma relação de dependência que é mútua, mas não simétrica

O marxismo latino-americano, que tem se dedicado a estudar tais relações de dependência entre centro e periferia, aportou uma contribuição incontornável ao modelo leninista de análise do imperialismo. Deslocando o foco de investigação para os países periféricos, esses autores demonstraram que não é possível compreender efetivamente o capitalismo, limitando o escopo de análise à forma assumida pelos processos de acumulação capitalista que acontecem nos países centrais. Dito de outro modo, não é possível compreender a produção de valor e os processos de acumulação se não levarmos em consideração as relações entre a periferia e o centro. É preciso ter claro, no entanto, que a análise dos países periféricos não limita o escopo de investigação ao desenvolvimento de um estudo sociológico sobre a realidade particular de cada um desses países. Ao contrário, tal estratégia consiste em evidenciar, a partir das margens, como as relações de dependência, que atravessam os fluxos internacionais do capital, permitem identificar em operação aqueles elementos que estruturam a assimetria constituinte do capitalismo internacionalizado. Essa perspectiva permite demonstrar, em última instância, que a chamada condição de “subdesenvolvimento” dos países dependentes se revela, não exatamente como uma etapa transitória da corrida concorrencial entre países, mas como uma condição estrutural do próprio sistema capitalista

São os espaços periféricos da economia mundial que permitem a fácil instalação das indústrias monopolistas, oriundas dos países centrais, em sua busca por valorização do capital. Esses espaços têm igualmente sua economia local moldada no atendimento às necessidades das linhas de produção e das cadeias de valor internacionalizadas, oriundas dos países centrais, em um processo em que os excedentes de valor produzidos na periferia do capitalismo são sistematicamente transferidos para as regiões centrais. É nesse sentido que a situação dependente dos países periféricos bloqueia a formação de um mercado nacional autônomo, na medida em que sua estrutura produtiva se organiza integralmente voltada à demanda dos mercados oriundos dos países ditos desenvolvidos. Por fim, os espaços periféricos se mantêm igualmente porosos à exploração de matérias-primas, razão pela qual suas economias nacionais permanecem eminentemente dependentes de atividades extrativistas de baixo valor agregado, mas de alto impacto ambiental.  

Eu gostaria de dar destaque a outro traço diferencial entre centro e periferia que, a meu ver, não é menos importante do que os listados acima. A partilha imperialista do mundo é igualmente responsável por uma distribuição heterogênea e qualitativamente desigual da violência e da guerra territorial. Enquanto a violência exercida nas regiões centrais do capitalismo permanece intermitente, intercalada por armistícios, regida e limitada por certos marcos “civilizatórios”, a violência e a guerra de domínio que ocorre na periferia se tornam indiscerníveis em relação à barbárie. Nesses espaços, a violência é atroz, desenfreada e permanente, mesmo que sob a forma de uma ameaça constante de sua eclosão repentina. Essa perspectiva de leitura não nos deixa esquecer que, pelo menos para os países periféricos do capitalismo – e, particularmente, para os países latino-americanos –, o mercado concorrencial capitalista e a integração dos países “subdesenvolvidos” a esse mercado jamais se construíram em oposição à “lei do mais forte”. O que ocorreu foi precisamente o contrário. Nunca é demais lembrar que, como forma de governo pela concorrência, o neoliberalismo dá seus primeiros passos nesse cenário de distribuição desigual da violência entre centro e periferia, através de um golpe de Estado – que contou com o planejamento e o apoio dos Estados Unidos – que derrubou o governo socialista democraticamente eleito de Salvador Allende, alocando em seu lugar uma ditadura militar-empresarial liderada por Augusto Pinochet, e gerida pelos pupilos neoliberais de Milton Friedman apelidados de Chicago boys.  

Seria ingenuidade, e uma leitura dos acontecimentos históricos de caráter francamente idealista, acreditar que a relativa pacificação da violência territorial em espaços periféricos ocorrida nos últimos anos – insisto, relativa pacificação, porque o domínio territorial nunca deixou de ser uma alternativa nesses espaços – tenha sido efeito de uma abstrata evolução do direito internacional e de sua suposta capacidade de domesticar a pulsão imperialista. A contraditória evolução histórica da financeirização neoliberal permitiu, nos anos mais recentes, que o modelo de domínio territorial imperialista assumisse uma face “abstrata”, isto é, se automatizando e tornando obsoleto, em alguma medida, o modelo de dominação territorial direta. Os espaços periféricos não possuem tanto a consistência de limites territoriais fechados – como Estados nacionais dotados de fronteiras definidas –, mas são tomados pelo capital enquanto espaços abertos. É nesse sentido que a financeirização neoliberal se interessa por esses espaços periféricos, não tanto como espaços de domínio direto, mas como mercados submetidos às condições internacionais de circulação de mercadorias e de capital. Assim, os recursos essenciais aos mercados financeirizados – como recursos agrícolas e energéticos (como petróleo e gás), recursos minerais (lítio, cobalto, diamante, ouro) e recursos humanos (transferências internacionais de valor, através da superexploração do trabalho) – permanecem sendo extraídos dessas regiões, sem que seja forçosamente necessário um controle territorial sistemático desses espaços. Na maior parte das vezes, a circulação de tais recursos em espaços “virtuais” será preferível à custosa dominação direta sobre os espaços territoriais. Em última instância, a economia neoliberal financeirizada promoveu condições para que a exploração e a circulação dos recursos naturais monopolizáveis pudessem se diluir na forma da circulação de commodities pelas linhas especulativas dos mercados financeiros, permitindo que os mercados de futuros substituam em parte a custosa agressão imperialista direta a esses países, cujas riquezas permanecem inevitavelmente fincadas ao chão.  

Entre Venezuela e Irã, as ameaças à Groenlândia 

Contudo, não podemos nos iludir. Aos olhos de Trump, recorrer ao tradicional domínio territorial imperialista nos espaços periféricos do capitalismo – em invasões territoriais como aquela praticada na Venezuela ou ainda mais recentemente no Irã – nunca deixou de ser uma opção, desde que seja possível ganhar algumas jardas frente a seu verdadeiro rival: a China. As declarações de Trump a esse respeito decepcionaram profundamente as análises acostumadas a buscar identificar aquilo que estaria oculto por trás de movimentações políticas internacionais como esta. Ao que tudo indica, inclusive as declarações do próprio presidente americano, o interesse de Trump é o petróleo, a ponto de seu cinismo não mais exigir se esconder por trás de grandes discursos, a fim de mascarar seus interesses imperialistas.  

Sabemos, no entanto, que uma operação de tal dimensão nunca é determinada exclusivamente por um único fator. Não há espaço neste breve artigo, no entanto, para considerar em profundidade a sobredeterminação de fatores que possivelmente mobilizaram a tomada do território venezuelano e as ações subsequentes. Tampouco é meu interesse aqui adentrar em um terreno de hipóteses especulativas. Gostaria apenas de lançar luz sobre um aspecto particular que me interessa explorar brevemente a seguir: o lugar territorial da Europa nesse cenário. 

Tal como acontece em um processo de concorrência monopolista, no âmbito dos mercados globais e dos fluxos internacionais de circulação do capital, a China joga o mesmo jogo que os Estados Unidos sem desvantagens concorrenciais. Enquanto os europeus estão em larga defasagem em relação à fronteira tecnológica atual, a China não apenas alcança os Estados Unidos em diversos setores, como até mesmo ultrapassa os estadunidenses em domínios em que os chineses se tornaram pioneiros. Em linhas gerais, os Estados Unidos estão sendo derrotados no campo da concorrência “abstrata”. 

No entanto, apesar de planejar uma progressiva independência em relação aos combustíveis fósseis e de dominar o mercado de veículos elétricos, a China possui uma significativa dependência estrangeira em relação ao petróleo. Talvez esse ainda seja um dos pontos mais sensíveis de sua planificação econômica. Sendo atualmente os maiores importadores de petróleo cru do mundo, os chineses dependem de petróleo estrangeiro para suprir cerca de 74% de seu consumo.  

Entendendo que o petróleo pode significar um dos principais pontos de vantagem dos Estados Unidos sobre a economia chinesa – considerando que os norte-americanos, sendo autossuficientes em termos de produção, não têm grandes inquietações a esse respeito –, Trump parece não ter hesitado em se utilizar do recurso à apropriação territorial, não apenas visando obstaculizar (ou ao menos dificultar) a tendência chinesa de buscar acesso ao petróleo latino-americano; mas projetando um possível – embora talvez improvável – controle estratégico do preço do barril cotado em bolsa, caso os Estados Unidos consigam ampliar seu controle sobre a oferta global de barris, através da apropriação da maior reserva conhecida de petróleo do mundo. Um ato que permitiria aos americanos lançarem barris ao mercado visando a queda dos preços, ou forçar uma valorização da cotação do petróleo, retendo sua disponibilidade no mercado. Uma estratégia que foi praticada no passado, por exemplo, pela OPEP, na crise mundial do petróleo de 1973 e 1974. 

O mais notável, no entanto, é que a possessão territorial de um país periférico como a Venezuela não representa, aos olhos de Trump, algo mais significativo do que um ponto de vantagem concorrencial, que apenas a dinâmica imperialista clássica poderia oferecer atualmente aos Estados Unidos. Nos moldes de uma concorrência monopolista, Trump não vislumbra efetivamente derrotar a China. Os norte-americanos sabem que o mundo unipolar chegou a seu fim. Alguns até mesmo reconhecem que, na realidade, um cenário monopolista e imperialista internacional, liderado por uma única potência, representou um período anômalo da história mundial, que não poderia durar indefinidamente. O interesse de Trump, afinal, é assegurar seu espaço de poder frente a seu rival efetivo. 

Não é segredo para ninguém que se o domínio territorial estadunidense se limitasse à Venezuela ou ao Irã, seus efeitos desestabilizadores sobre a chamada “comunidade internacional” seriam diminutos. Trata-se de países que, na partilha desigual da guerra, fazem parte de regiões em que a condução de políticas deliberadamente violentas e frequentemente militarizadas não apenas é naturalizada pela comunidade de países, mas constituiu a própria formação colonial do capitalismo. Precisamente por isso, o poderio estadunidense conta com o fato de que, do ponto de vista de sua repercussão internacional, derrubar um governo liderado por alguém acusado de usurpar o poder na América Latina, através de um ato de usurpação do poder naquele mesmo país, por parte de um governante que já tentou usurpar o poder nos Estados Unidos, até preocupa, mas não choca. O mesmo parece valer para a execução de um mandatário no Oriente Médio.  

Mas Trump não se limita a esses ataques. Lembremos que menos de um mês após a invasão venezuelana, Trump já voltava seus olhos para a Groenlândia, ensaiando um novo ato imperialista que se utilizava, contra uma região da Europa, da mesma linguagem de domínio territorial que havia sido praticada contra a Venezuela semanas antes. Me parece que é nesse ponto, precisamente, que Trump franqueia um limite inédito desde a Segunda Guerra Mundial. Trump direciona contra a Europa uma linguagem que a comunidade internacional só é capaz de tolerar quando direcionada a países periféricos. Com isso, o governo norte-americano desorganiza os hábitos mais cristalizados do capitalismo global e deixa os países capitalistas centrais, até então seguros de sua blindagem em relação a este tipo de agressão, completamente desconcertados. 

Os europeus têm clareza a respeito do amplo alcance desse gesto de Trump. Um ataque ao território groenlandês não representaria apenas uma ameaça limitada àquela região. Tampouco se limitaria a um ataque à Dinamarca. Na qualidade de um País ou Território Ultramarino (PTOM) associado a um membro da União Europeia, a Groenlândia é protegida pelo artigo 42.7 do Tratado da União (TUE), que se configura como um dispositivo de solidariedade territorial que obriga todos os membros europeus a prestarem assistência militar à Dinamarca em caso de agressão armada. Portanto, não é à Groenlândia que Trump direcionou uma forma de violência tradicionalmente reservada aos espaços periféricos do capitalismo mundializado, mas a toda a Europa! As consequências dessas ameaças se mostram ainda mais desconcertantes se considerarmos que a França, para nos limitarmos a apenas um caso, possui um número significativo de territórios ultramarinos (PTOM) com o mesmo estatuto da Groelândia, e que muitos desses territórios, como a Nova Caledônia, a Ilha Clipperton e Saint-Pierre-et-Miquelon, no passado, foram reivindicados pelos Estados Unidos como territórios estratégicos. Caso os Estados Unidos colocassem suas mãos sobre a Groenlândia, o que impediria uma ofensiva mais agressiva posteriormente contra a França ou outros países europeus? 

Trump obriga a Europa a vivenciar uma amarga situação: demonstrando não considerar a Europa como um concorrente real, ele leva os europeus a experimentarem a sensação de ocupar uma condição periférica. Ao se olhar no espelho, hoje, os europeus enxergam a si mesmos em uma condição de instabilidade típica à um país periférico. Com isso, Trump força a Europa a experimentar um veneno que eles se acostumaram a utilizar – sobretudo em suas conquistas coloniais –, mas para o qual eles não têm um antídoto. Até mesmo ao longo do período colonial, a preservação do solo europeu foi frequentemente reafirmada: a disputa entre as potências coloniais europeias se traduzia em conflitos abertos nos territórios colonizados – sobretudo em África –, mas geralmente não respingava sobre as fronteiras entre esses países em solo europeu. Essa “provincialização” da Europa – para utilizar, em sentido teórico distinto, a expressão de Dipesh Chakrabarty – implica em reconhecer que os Estados Unidos não hesitarão em se utilizar de diferentes formas de domínio territorial sobre o solo europeu sempre que esta alternativa for útil para confrontar os verdadeiros grandes concorrentes do capitalismo atual.  

Basta folhear os jornais para se dar conta de que o efeito desnorteador dessa experiência sobre a Europa foi imediato. Em uma União Europeia francamente fraturada, alguns poucos países clamaram por uma demonstração desesperada de força militar frente aos Estados Unidos, apostando em sua capacidade de confrontar Trump nos moldes dos conflitos bélicos tradicionais. Outros membros da União, por outro lado, evitaram se opor diretamente a Trump, enxergando mais complicações do que vantagens em confrontá-lo. Agora, diante do ataque ao Irã, a hesitação britânica em permitir o uso de suas bases militares pelas forças norte-americanas e a recusa da Espanha em ceder suas instalações contrastam com a rápida disponibilidade francesa e alemã em se abrir ao uso de sua aparelhagem militar pelos Estados Unidos. Em uma coreografia ensaiada, Emmanuel Macron anuncia uma retomada do poderio atômico francês, quase como um contrapeso à porosidade francesa frente à pressão de Trump. O novo investimento militar da França deixa a impressão de temer mais as investidas de Trump do que um eventual ataque iraniano.  

Na nova Europa periferizada e fraturada, o resultado tem sido uma proliferação de diagnósticos a respeito da situação atual que não permite deduzir uma linha de ação clara. Até mesmo uma grande figura da esquerda europeia como Jean-Luc Mélenchon, em um debate televisivo contra o ministro macronista Jean-Noël Barrot, veiculado em 20 de janeiro, chegou ao ponto de defender que a resposta europeia a Trump deveria ser a reintegração da Rússia, do instável Vladimir Putin, ao Conselho Europeu, a fim de assegurar, com esse gesto, um contrapeso de forças face à ameaça norte-americana. Parece que, com a radical aceleração do neoliberalismo que Trump representa, a Europa experimenta uma ferida narcísica tão profunda que tem obrigado os europeus a se reconhecerem como perdedores em um jogo cujas regras eles mesmos criaram. Restou à Europa, até o momento, uma melancólica alternativa: decidir a qual senhor ela deseja servir. 

Notas

  1. Destaco abaixo uma pequena lista, que não tem a intenção de ser exaustiva, de artigos e entrevistas que sustentam essa tese: POLYCHRONIOU, C. J. Trump’s tariffs buck the global neoliberal order – but still serve the 1 percent. Truthout, vol. l., 2025. Disponível em: 
  2. Dentre todas as demonstrações desse teatro que chegaram ao grande público, talvez a atuação mais drástica da performance do empresário/presidente negociador, seja a reunião televisionada entre Trump, J. D. Vance e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em 28 de fevereiro de 2025, na Casa Branca. Após Zelensky manifestar desconfiança em relação à participação de Putin no acordo de paz que Trump desejava selar, o presidente estadunidense endurece a pressão sobre o ucraniano, o acusando de ser desrespeitoso e questionando sua postura diante das negociações de paz. A partir daquele momento, Trump insiste em lembrar ao ucraniano que ele não estava em “boa posição” e que Zelensky “não tinha as cartas na mão”. A resposta de Zelensky é comovente: “eu não estou dizendo… porque nossos cidadãos estão morrendo. Esta não é uma negociação comercial”. Visivelmente desnorteado, Zelensky ainda nutre a vã esperança de retorquir o presidente estadunidense, a fim de distinguir uma negociação comercial de uma negociação política. Mas bastaria subtrair algumas das palavras que circularam naquela reunião, como “Ucrânia”, “Rússia”, “povo” ou “mortes”, e substituí-las por palavras como “empresa”, “concorrente”, “capital” ou “falência”, para se dar conta do caráter essencialmente indistinto entre a agressiva performance de negociação política do governo Trump e uma performance de negociação econômica entre uma grande empresa capitalista e um concorrente de menor peso.  ↩︎

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Felipe Castelo Branco é professor de Filosofia Política no Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFF e do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise da UERJ. 


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