
Ex-ministro da Grécia afirma que Donald Trump caiu em uma armadilha estratégica, critica Netanyahu e alerta para alta do petróleo
Ao longo da conversa, Varoufakis sustenta que o conflito revela o esgotamento de uma ordem ocidental baseada na financeirização, na desindustrialização e na ilusão de que cadeias globais de suprimento poderiam substituir a soberania produtiva. Para ele, a guerra mostra que potências não conseguem mais depender apenas de tecnologia, mercados financeiros e superioridade aérea, sem base industrial sólida e sem capacidade de suportar conflitos prolongados.Guerra assimétrica e fracasso estratégico dos Estados Unidos
Logo no início da entrevista, Glenn Greenwald observa que os Estados Unidos entraram no confronto com confiança excessiva, supondo que manteriam pleno controle sobre a escalada militar. Mas, diante da capacidade iraniana de retaliar, atingir Tel Aviv, bases americanas no Golfo e ameaçar o fluxo energético global, essa superioridade passou a ser colocada em xeque.
Varoufakis responde lembrando que Washington já acumulou uma sequência de guerras assimétricas iniciadas sob enorme autoconfiança e terminadas com desgaste e derrota política. Ele cita os casos do Afeganistão e do Iraque como exemplos de campanhas lançadas com senso de invencibilidade e encerradas após longa erosão militar e moral.
Varoufakis resume esse contraste ao afirmar que, em poucos dias, ficou evidente que o “limiar de dor” do governo dos Estados Unidos parece ser menor do que o do regime iraniano. A declaração sugere que Washington pode ter subestimado tanto a resiliência política de Teerã quanto os custos econômicos e militares de uma guerra prolongada.
O conflito revela a falência da desindustrialização neoliberal
Um dos pontos centrais da entrevista é a leitura econômica do conflito. Para Varoufakis, assim como já ocorreu na guerra da Ucrânia, o confronto com o Irã recoloca no centro da história a importância da capacidade industrial, da soberania tecnológica e da segurança das cadeias de suprimento.
Segundo ele, após o fim do sistema de Bretton Woods e a ascensão do neoliberalismo, o Ocidente promoveu um processo profundo de desindustrialização. Ele atribui papel decisivo a Margaret Thatcher, que, em sua visão, abriu caminho para a destruição deliberada da indústria britânica e do poder sindical, ao mesmo tempo em que parte importante da capacidade produtiva era deslocada para China, Vietnã e outras regiões da Ásia.
Em uma das passagens mais marcantes da entrevista, ele diz que “as galinhas estão voltando para o poleiro”, expressão usada para indicar que as consequências das decisões anteriores começaram a recair sobre quem as tomou. O sentido político de sua fala é claro: o modelo neoliberal, que tratava a indústria como peso morto e apostava tudo em finanças e plataformas digitais, estaria sendo desmentido pela realidade da guerra.
Varoufakis diz que Donald Trump caiu em uma armadilha
Ao comentar o papel do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Varoufakis se diz surpreso. Ele afirma que, no primeiro mandato, Trump resistiu com sucesso à pressão de Israel para lançar uma guerra contra o Irã. Agora, no entanto, teria tomado uma decisão “sem qualquer estratégia de saída”.
O economista sustenta que Trump talvez imaginasse repetir fórmulas anteriores de ação rápida, violenta e ilegal, como uma operação cirúrgica, seguida de declaração de vitória e retirada. Mas, segundo ele, isso não ocorreu. Em vez disso, o presidente norte-americano teria sido arrastado para um conflito mais amplo e mais perigoso.
Em uma fala especialmente dura, Varoufakis afirma que esse ciclo de guerras serve para manter os israelenses “viciados no belicismo” e em uma “falsa noção de que estão lutando por suas vidas e por sua sobrevivência”. Segundo ele, esse ambiente seria funcional ao projeto de limpeza étnica contra os palestinos e à continuidade da devastação de Gaza.
A versão da “libertação das mulheres” é rechaçada
Outro eixo forte da entrevista é a crítica à narrativa usada no Ocidente para justificar guerras em nome dos direitos humanos. Glenn menciona que parte do discurso pró-guerra tenta apresentar o ataque ao Irã como forma de “libertar mulheres”. Varoufakis reage com veemência.
Ele afirma: “As mulheres do Irã não precisam de bombas lançadas por F-35s sobre elas”. Em seguida, associa essa narrativa a uma lógica imperialista e racista, segundo a qual homens brancos e poderosos pretendem “libertar” mulheres do Sul Global por meio da destruição de seus países.
Ao recordar os protestos após a morte de Mahsa Amini, Varoufakis faz questão de sublinhar que a luta por “mulher, vida, liberdade” não pode passar, em suas palavras, “pelas ruínas fumegantes do Irã”. Para ele, a libertação das mulheres iranianas não virá de Washington nem de Tel Aviv, mas da superação histórica das forças que impediram o Irã de conhecer paz e democracia, desde o golpe de 1953 contra Mohammad Mossadegh.
Essa passagem dá ao argumento de Varoufakis uma dimensão histórica e feminista. Ele rejeita tanto a teocracia iraniana quanto a instrumentalização ocidental da pauta dos direitos das mulheres como justificativa para bombardeios.
Crítica ao regime iraniano e denúncia da hipocrisia ocidental
Varoufakis faz questão de enfatizar que se opõe ao regime iraniano. Ele se define como “marxista libertário” e feminista, e afirma não ter qualquer simpatia pela teocracia. Ainda assim, insiste que o Irã foi demonizado muito além da crítica legítima ao seu sistema político.
Ele compara o tratamento dado ao Irã com a complacência ocidental em relação à Arábia Saudita. Em um dos trechos mais contundentes, pergunta: “Em qual país você acha que as mulheres são mais oprimidas? Eu diria que é na Arábia Saudita, e ninguém está pensando em bombardear a Arábia Saudita”.
Ao retomar a história da Revolução Iraniana de 1979, Varoufakis afirma que a derrubada do xá foi resultado de uma insurreição popular contra uma ditadura brutal sustentada pela CIA e pelo serviço secreto britânico. Segundo ele, quando Washington percebeu que a revolução triunfaria, apoiou os setores islamistas mais virulentos, que depois exterminaram a esquerda iraniana.
Ele também destaca que, apesar de seu discurso religioso e antiocidental, a República Islâmica adotou, sobretudo a partir dos anos 1990, políticas neoliberais, com privatizações, retirada de subsídios e austeridade. Para Varoufakis, as revoltas mais recentes no Irã, inclusive as ligadas à morte de Mahsa Amini, também expressaram rebelião social contra esse programa econômico.
O povo perde, as elites lucram
Ao ser perguntado sobre quem vencerá a guerra, Varoufakis responde deslocando o foco da geopolítica para a luta de classes. Para ele, os grandes derrotados já são evidentes: os trabalhadores do Irã, os trabalhadores dos Estados Unidos, as mulheres iranianas, os povos do Sul Global e as famílias atingidas pela alta dos preços de energia e alimentos.
Ele afirma: “Os trabalhadores do mundo estão unidos em ser os perdedores desta guerra”. Em sua análise, a elevação do petróleo e do gás natural encarece fertilizantes, alimentos, transporte e combustíveis, agravando a vida cotidiana em escala global.
Varoufakis dirige uma crítica direta aos setores populares que apoiaram Trump. Ele observa que o eleitor médio do trumpismo, dependente de carro para trabalhar e já pressionado pelo custo de vida, sofrerá diretamente com o aumento dos preços dos combustíveis. Assim, sustenta, o conflito atinge em cheio a base social que o atual presidente dizia defender com sua retórica populista.
Enquanto isso, os beneficiados seriam, de um lado, segmentos oligárquicos ligados ao petróleo, ao complexo militar e às finanças e, de outro, a própria cúpula do regime iraniano, que se fortalece internamente diante da agressão externa.
Entre a teocracia e o caos de um Estado falido
Varoufakis considera que o regime iraniano saiu politicamente fortalecido pela guerra. Não porque tenha se tornado mais legítimo em termos democráticos, mas porque a população não está sendo colocada diante de uma escolha entre teocracia e democracia.
Segundo ele, a alternativa apresentada pela ofensiva liderada por Trump e Netanyahu é outra: “A escolha que essa guerra ilegal está impondo é entre a teocracia atual e um Estado falido, uma Líbia, uma Síria”.
Essa formulação sintetiza um dos argumentos centrais da entrevista. Para o economista, muitos iranianos que rejeitam o regime conseguem ver que a destruição do país por potências estrangeiras não abriria caminho para a democracia, mas para o colapso, a guerra civil e a desintegração nacional.
Nesse sentido, a ofensiva externa acaba ampliando a solidariedade interna em torno do Estado iraniano, ainda que esse apoio não seja sinônimo de adesão integral ao regime. O nacionalismo defensivo, combinado ao trauma histórico de intervenções estrangeiras, passa a operar como fator de coesão.
Drones, inteligência artificial e a transformação da guerra
Na parte final da conversa, a análise se desloca para a transformação tecnológica da guerra contemporânea. Varoufakis afirma que os drones mudaram profundamente a economia política dos conflitos.
Ele chama atenção para a assimetria entre o custo de drones baratos e o custo de sistemas sofisticados usados para abatê-los. Cita o caso de um drone de cinco ou seis mil dólares derrubado por um míssil Patriot de 1,6 milhão de dólares. Essa diferença, segundo ele, cria uma lógica insustentável para potências acostumadas a dominar por meio de armamentos extremamente caros.
Mais grave ainda, em sua avaliação, é o avanço rumo a drones autônomos operados por inteligência artificial, sem controle humano direto nas decisões de matar. Varoufakis alerta que a combinação entre enxames de máquinas, algoritmos militares e reação em frações de segundo pode empurrar o mundo para um cenário em que a guerra se torna permanente.
Em uma das imagens mais fortes da entrevista, ele afirma que a humanidade corre o risco de entrar em uma situação na qual “a guerra é o padrão e a paz é um erro do sistema”. A frase condensa seu temor de que a militarização tecnológica, articulada às grandes corporações de software e dados, dissolva as fronteiras entre guerra, vigilância e gestão social.
“Temos o dever de parar nossa própria gangue”
No encerramento, Varoufakis adota um tom pessoal e político. Ele relembra que, ao longo das últimas décadas, condenou regimes como os de Saddam Hussein, Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad, mas também se opôs às intervenções militares lideradas pelos Estados Unidos e pela Otan nesses países.
Agora, diz viver novamente o mesmo dilema: opor-se à devastação do Irã sem, com isso, apoiar a teocracia iraniana. Para resolver essa tensão, recusa tanto a neutralidade passiva quanto a obrigação de “escolher um lado” entre dois polos estatais em guerra.
Sua conclusão é uma das declarações mais incisivas da entrevista: “Quando a gangue que governa o nosso bairro lança um ataque totalmente não provocado contra uma gangue distante que eu também não aprovo, eu me recuso a ficar neutro e, ao mesmo tempo, me recuso a escolher lados”.
Em seguida, ele estabelece o que considera o dever central da esquerda e das sociedades ocidentais: “Temos um dever especial e superior no Ocidente de parar a nossa gangue. São os nossos impostos que financiam as bombas. É o nosso silêncio que lhes concede consentimento”.
Uma crítica ao imperialismo travestido de direitos humanos
A entrevista entre Glenn Greenwald e Yanis Varoufakis expõe uma crítica ampla ao uso da linguagem dos direitos humanos como justificativa para guerras imperiais. Sem poupar o regime iraniano, o economista grego rejeita frontalmente a ideia de que bombardeios estrangeiros possam produzir emancipação, democracia ou libertação feminina.
Sua análise também vai além do campo militar. Ao relacionar guerra, desindustrialização, financeirização, crise energética, sofrimento social e avanço das tecnologias autônomas de destruição, Varoufakis apresenta o conflito contra o Irã como sintoma de uma crise mais profunda do capitalismo neoliberal ocidental.
No centro de sua argumentação está a percepção de que o atual ciclo de guerras não nasce de valores universais, mas de interesses estratégicos, ambições imperiais e cálculos de poder. Por isso, sua advertência final se volta menos para a retórica dos governos e mais para a responsabilidade política das sociedades que os financiam e legitimam.
Comentários
Postar um comentário
12