Eis a Nova Ordem Energética Mundial

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Esboçam-se dois blocos. EUA lideram o dos fósseis, da guerra e da virilidade opressora. Opõe-se a China – que optou por energia limpa, dispõe-se a difundir seu uso e também não abre mão de exercer hegemonia. Há espaço para não-alinhados?


Por Nils Gilman | Tradução: Antonio Martins

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, não compareceu ao Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, em janeiro, para oferecer esperança. Esteve lá para decretar uma morte. A ordem internacional liberal — aquela elaborada arquitetura de instituições, normas e bens públicos garantidos pelos EUA, construída após a Segunda Guerra Mundial — havia chegado ao fim, anunciou ele, e a ruptura era irreversível. Mas o elogio fúnebre de Carney, por mais sóbrio e preciso que fosse, subestimou a profundidade da ruptura.

O presidente dos EUA, Donald Trump, não está simplesmente encerrando um conjunto de acordos diplomáticos ou uma configuração específica de relações entre grandes potências. Ele está comandando o fim do modelo de civilização industrial movido a combustíveis fósseis que tornou a ordem liberal possível, lucrativa e, por um tempo, politicamente sustentável. Trump não iniciou o declínio da hegemonia metabólica global dos combustíveis fósseis; o fenômeno foi instigado pela manifesta instabilidade causada pelas mudanças climáticas e por impedimentos rivais ao acesso ao petróleo, como a guerra entre EUA e Israel contra o Irã. Mas o presidente assegurou uma disputa acirrada, em vez de uma transição tranquila, para substituí-lo.

A substituição da ordem internacional liberal, portanto, não será negociada em Genebra nem julgada em Haia. Ela será determinada por quem controla os fluxos de energia, os depósitos minerais e os sistemas tecnológicos dos quais toda a vida moderna depende atualmente.

Esta é uma guerra fria ecológica, e difere de sua antecessora em aspectos que importam muito. A Guerra Fria original foi uma disputa entre o capitalismo liberal e o comunismo soviético — entre duas teorias sobre como as sociedades humanas deveriam se desenvolver economicamente e se organizar politicamente. A nova guerra fria é uma disputa entre metabolismos concorrentes.

De um lado, a Entente Verde: a China e um bloco eletroestatal emergente, que apostou seu futuro industrial em painéis solares, baterias e vastas cadeias de suprimento de minerais que os alimentam. Do outro, o Eixo dos Petroestados: os Estados Unidos sob Trump, a Rússia e as monarquias do Golfo, que apostaram seu poder e sobrevivência fiscal na extensão da era dos combustíveis fósseis e na instrumentalização da abundância energética contra aqueles que desejam pôr fim a ela.

A ideologia ainda importa nas margens — mas ela atravessa esses blocos em vez de defini-los. Assim como durante a Guerra Fria, o vencedor nessa luta pode muito bem ser determinado não tanto pelas ações das superpotências em si, mas pelas escolhas das nações presas entre elas: o que Carney chamou de potências médias.

eixo dos petroestados é uma coalizão reacionária — liderada de modo notável pelos Estados Unidos, em aliança tácita com outros grandes estados produtores de petróleo e gás, como a Rússia e as monarquias do Golfo — cujos modelos econômicos e narrativas civilizacionais estão inextricavelmente ligados aos combustíveis fósseis. Para esses governantes, o petróleo e o gás são mais do que commodities; são a prova da virilidade nacional, o combustível para um tipo específico de restauração tradicionalista e a alavanca que podem usar para minar a ordem liberal que todos detestam.

Ao retornar ao cargo, Trump efetivamente decidiu hastear a bandeira branca na competição global pela liderança em tecnologia verde, revogando subsídios para as indústrias do futuro. É verdade que, em vez de admitir a derrota de forma direta, partiu para o ataque retórico. Sua Estratégia de Segurança Nacional para 2025 descarta as mudanças climáticas como uma ideologia “desastrosa” e fala de “domínio energético” nacional como um contraponto ao fraco (e com conotações femininas) globalismo verde. Ecoando ansiedades de gênero semelhantes, o presidente russo Vladimir Putin argumenta que as receitas do petróleo podem financiar a busca da Rússia por uma civilização ortodoxa única e autossuficiente, que resista à “decadência ocidental”. E para o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, a riqueza petrolífera da Arábia Saudita promete transformar o reino desértico em um centro global de alta tecnologia, mantendo a liderança entre o mundo islâmico. Em suma, embora difiram em tipo de regime, os três são unidos por uma visão compartilhada de “soberania fóssil” que vê a transição verde como um cavalo de Troia para uma visão de mundo regulatória que ameaça suas formas específicas de poder centralizado e identidade nacional masculinista.

Para garantir que a demanda global por combustíveis fósseis permaneça aquecida, os Estados Unidos estão alavancando as vantagens de sua posição dominante. Ao contrário da Entente Verde, que precisa construir uma infraestrutura de produção, distribuição e consumo de energia completamente nova a partir do zero, o Eixo dos Petroestados está adotando uma postura defensiva em relação à infraestrutura — uma posição estrategicamente mais fácil. O país utiliza seu poderio financeiro e militar para proteger as cadeias de suprimento de combustíveis fósseis existentes — com Trump ameaçando, em meio à guerra contra o Irã, “tomar o controle” do Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo do Golfo Pérsico — e incentivando as nações em desenvolvimento a consolidarem seus modelos de desenvolvimento com usinas termelétricas a carvão e gás e infraestrutura de combustão interna.

Sob o governo Trump, a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (IDFC), que no período do ex-presidente Joe Biden havia sido impedida de financiar projetos de combustíveis fósseis no exterior, redirecionou seus empréstimos para infraestrutura de carvão, gás e petróleo em países em desenvolvimento, subsidiando, na prática, a exportação da dependência metabólica com a própria infraestrutura. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, que levou as nações europeias a buscarem fontes alternativas de gás, Trump pressionou os aliados europeus a comprarem mais gás natural liquefeito (GNL) dos EUA como condição para a manutenção das garantias de segurança. Esses contratos, geralmente com duração de 15 a 20 anos, são compromissos tão vinculativos quanto qualquer investimento em infraestrutura. Os Estados Unidos, portanto, visam criar uma dependência metabólica de longo prazo.

Dentro desse bloco, a Arábia Saudita atua como fornecedora de equilíbrio, não apenas por sua influência diplomática, mas também pela fria matemática da geologia de extração. A visão de longo prazo da Casa de Saud é a de ser a última produtora de combustíveis fósseis a permanecer de pé, mesmo com as mudanças globais. O custo da extração de petróleo no Golfo é o mais baixo do mundo, raramente ultrapassando US$ 10 por barril — muito abaixo do custo do fraturamento hidráulico em xisto nos Estados Unidos (cerca de US$ 62 por barril, segundo o Federal Reserve dos EUA) ou na Rússia (onde os poços mais baratos custam de US$ 25 a US$ 40 por barril para operar). Isso significa que os sauditas podem sobreviver a guerras de preços que levariam seus aliados à falência. Ao manter a capacidade de inundar o mercado e derrubar os preços, Riad pode, simultaneamente, punir os países em transição e garantir que os combustíveis fósseis continuem sendo o caminho de menor resistência para as economias em desenvolvimento.

Essas diferenças ressaltam que, assim como Berlim-Roma-Tóquio na década de 1930, essa nova aliança entre petroestados é um casamento por conveniência, e não um bloco monolítico. Embora Moscou, Riad e Washington estejam alinhados no desejo de manter o consumo global de combustíveis fósseis e de disseminar desinformação sobre as mudanças climáticas para atingir esse objetivo, eles também competem em preço no mercado global de petróleo. Muitas diferenças geopolíticas continuam a dividi-los: os Estados Unidos e a Rússia permanecem em desacordo sobre a Ucrânia, e a Rússia e a Arábia Saudita continuam a apoiar lados opostos em guerras regionais, do Irã ao Sudão e à Síria.

Em oposição aos petroestados estará a Entente Verde, dominada pela China. Enquanto os Estados Unidos e seus novos aliados se refugiam em combustíveis fósseis, Beijing se posiciona para dominar o emergente sistema energético pós-carbono.

Nascida de uma ambição tecnocrática para garantir a legitimidade do regime e liderar as indústrias do futuro, a China domina todos os elos da cadeia de valor da indústria verde: segundo a Agência Internacional de Energia, controla mais de 90% do processamento global de terras raras e 94% da produção de ímãs permanentes (essenciais para motores de veículos elétricos e turbinas eólicas); sua participação na fabricação de painéis solares ultrapassa 80%; e produz mais de 70% de todas as baterias para veículos elétricos, além de responder por mais de 70% da produção global desses veículos. Nove décimos do crescimento do investimento chinês em 2025 foram destinados ao setor de energia verde. O país também desvinculou esse crescimento da demanda ocidental: cerca de 47% das exportações chinesas de tecnologia verde agora se destinam a mercados emergentes, tornando-o um parceiro indispensável para países do Sul Global, da África à América Latina. Em suma, alavancando seu Estado desenvolvimentista centralizador, a China passou, em menos de uma geração, de maior vilã ambiental do mundo à hegemonia em tecnologia verde.

Aqueles que se inclinam para a Entente Verde frequentemente veem a modernização ecológica como um imperativo para sustentar a habitabilidade do planeta. Mas não se trata apenas de ambientalismo. As tecnologias verdes possuem vantagens termodinâmicas fundamentais sobre os combustíveis fósseis, que sofrem com perdas de energia dispendiosas durante a extração, o refino e o transporte. Para a maioria dos usos terrestres, os veículos elétricos, por serem mais simples de fabricar e manter, já são funcionalmente superiores aos motores de combustão interna. Da mesma forma, o custo marginal da produção de energia verde já é menor do que o dos combustíveis fósseis, mesmo se ignorarmos as externalidades ambientais. Até mesmo os céticos quanto à probabilidade de uma transição verde rápida, como Václav Smil, reconhecem que a tecnologia verde está se destacando na produção e no transporte de energia.

A União Europeia, tendo sofrido com sua dependência do gás natural russo e agora enfrentando uma dependência paralela dos Estados Unidos beligerantes (que por acaso também têm dezenas de milhares de soldados estacionados em solo europeu), tem um forte incentivo estratégico para aderir à Entente Verde. A lógica por trás desse alinhamento seria pragmática: a Europa oferece mercados prósperos, enquanto a China fornece a força industrial. O mesmo se aplica a países como a Índia e o Japão, respectivamente a quarta e a quinta maiores economias do mundo, que dependem de importações para a maior parte de seu petróleo.

O problema, claro, é que aderir a esse bloco não é um simples acordo comercial; significa, na prática, entrar em um sistema hierárquico liderado por Beijing. Como a China garantiu uma enorme (talvez até insuperável) vantagem tanto na geração de energia limpa quanto em sistemas de transporte, qualquer país que busque se tornar mais sustentável é essencialmente forçado a adotar equipamentos e padrões chineses. Dessa perspectiva, a Entente Verde pode representar o surgimento do que Joel Wainwright e Geoff Mann denominaram “Leviatã Climático”: um sistema global onde a emergência climática é usada como pretexto para uma nova forma de domínio, em que o tributo é pago com dependência tecnológica e risco de pressão política por parte de um regime não liberal e nacionalista.

A transição da ordem internacional liberal para a nova guerra fria ecoideológica impõe um cálculo estratégico brutal aos países apanhados entre os dois blocos. O que Carney chamou de potências médias — um grupo diverso que vai desde nações ricas e consolidadas como Canadá, França e Japão a gigantes emergentes como Brasil, Índia e Indonésia — enfrenta um dilema iliberal: escolher entre a dependência de um bloco de petroestados militarmente agressivos, cujo conjunto tecnológico preferido praticamente garante a ruína ecológica do planeta, e a submissão ao Leviatã em ascensão em Pequim.

Se a Guerra Fria original foi, em grande medida, uma disputa pelos “corações e mentes” do mundo pós-colonial em torno de modelos concorrentes de desenvolvimento econômico, esta nova era será uma disputa pelas almas metabólicas das potências médias — os alicerces infraestruturais e energéticos sobre os quais seus futuros serão construídos. E, diferentemente da lealdade ideológica, a infraestrutura energética é complexa. Uma vez que um país constrói sua rede elétrica em torno do gás natural, uma vez que povoa suas estradas com motores de combustão interna, uma vez que vincula sua base industrial a insumos petroquímicos, reverter o curso torna-se extraordinariamente caro. O mesmo ocorre se um país optar pelo caminho do eletroestado. Os líderes de ambos os blocos entendem isso e ambos estão usando essa estratégia como arma.

O Eixo dos Petroestados utilizará a energia como alavanca em duas direções simultâneas. Internamente, os Estados Unidos e os produtores do Golfo usarão combustíveis fósseis baratos e facilmente disponíveis como ferramenta de clientelismo, oferecendo aos países em desenvolvimento acesso rápido e acessível à energia em troca de um vínculo de longo prazo com a infraestrutura. A Arábia Saudita poderá inundar os mercados globais de petróleo à vontade, derrubando os preços precisamente quando as alternativas verdes se tornarem competitivas em termos de custo, minando assim a viabilidade do investimento em eletrificação em economias sensíveis a preços.

Externamente, os países produtores de petróleo usarão a energia como instrumento de coerção contra a própria Entente Verde, ameaçando cortar o fornecimento, manipular preços ou desestabilizar economias em transição dependentes de combustíveis fósseis que ainda não concluíram sua mudança para energias renováveis. A Europa, ainda dependente de GNL mesmo após o rompimento com a Rússia, permanece extremamente vulnerável a esse tipo de pressão.

Enquanto isso, a Entente Verde aproveitará seu domínio em equipamentos de energia limpa com igual deliberação. O controle sobre painéis solares, baterias de íon-lítio, cadeias de suprimentos de veículos elétricos e processamento de terras raras confere a Pequim influência infraestrutural sobre qualquer nação que busque modernizar seu metabolismo energético. A vantagem aqui reside menos na queda de preços e mais em padrões, compatibilidade e dependência. Um país que constrói sua rede elétrica com inversores chineses, que utiliza veículos elétricos chineses em suas estradas e que utiliza sistemas de gestão digital chineses para seus dados energéticos, efetivamente aderiu à Entente, quer tenha tido essa intenção ou não.

Embora os porta-vozes do regime neguem, a China também usará o acesso a financiamento verde e transferências de tecnologia como moeda diplomática, recompensando o alinhamento e negando cooperação àqueles que se mostram muito alinhados com o Eixo. Além disso, para países como Alemanha, Japão e Coreia do Sul, trocar a hegemonia petrolífera dos EUA pela hegemonia elétrica chinesa não só entra em conflito com compromissos ideológicos e éticos de longa data com a democracia e os direitos humanos, como também ameaça enfraquecer suas bases industriais já frágeis.

A questão crucial para as potências médias é se a independência genuína ainda é possível ou se a física da infraestrutura energética acabará por forçar uma escolha. A interoperabilidade das redes, os sistemas de compensação financeira, as redes de fornecimento de equipamentos e o aprofundamento dos investimentos em capital humano incentivarão o compromisso em um sentido ou outro. A intensificação da pressão geopolítica aumentará o custo de se manter em ambos os lados — mas também o incentivo para que essas potências criem espaço entre os dois blocos. Podemos chamar isso de um novo movimento não alinhado.

O Movimento dos Não-Alinhados (MNA) original nasceu da Conferência Afro-Asiática em Bandung, Indonésia, em 1955, e foi formalmente estabelecido em Belgrado, Iugoslávia, em 1961. Era liderado por um quinteto lendário: Gamal Abdel Nasser, do Egito; Kwame Nkrumah, de Gana; Jawaharlal Nehru, da Índia; Sukarno, da Indonésia; e Josip Broz Tito, da Iugoslávia. Esses líderes buscavam um “caminho do meio” para os estados que haviam acabado de se libertar das amarras do colonialismo e se recusavam a ser arrastados para a loucura binária da Guerra Fria.

Um dos principais objetivos do NAM era promover a cooperação econômica entre os estados pós-coloniais como alternativa à dependência econômica da União Soviética ou dos Estados Unidos. Sua missão era tanto psicológica quanto política: uma reivindicação de dignidade, autodeterminação e o que Julius Nyerere, da Tanzânia, chamou de “neutralidade positiva”, que impediria que seus territórios se tornassem meros palcos de guerras por procuração entre superpotências.

Enquanto o NAM original visava manter a autonomia ideológica e econômica, à parte da divisão da Guerra Fria entre americanos e soviéticos, o novo agrupamento se concentrará mais no não alinhamento infraestrutural. Diferentemente do NAM original, liderado por estados pós-coloniais empobrecidos, as potências médias atuais possuem significativa capacidade diplomática, militar e econômica. Elas têm os recursos para formar acordos diplomáticos plurilaterais que podem contornar instituições tradicionais e decadentes, como o Fundo Monetário Internacional, as Nações Unidas ou a Organização Mundial do Comércio. Um acordo de energia verde e comércio entre Chile, Nova Zelândia e Singapura, ou um pacto de produtores de minerais entre Brasil e Índia, não requer a aprovação de uma grande potência nem responde a um árbitro hegemônico.

A especificidade material da transição também proporciona a algumas potências médias formas de influência que não estavam disponíveis durante a primeira Guerra Fria. Como o modelo eletroestatal requer vastas quantidades de minerais críticos — lítio, cobalto, terras raras, etc. — os países ricos nesses recursos tornaram-se um trunfo estratégico crucial. Estados como o Brasil, a Indonésia e o Cazaquistão, todos bem dotados tanto de hidrocarbonetos quanto de minerais relevantes para tecnologias verdes, estão implementando com sucesso políticas de multialinhamento para atrair investimentos de ambos os blocos, jogando Pequim e Washington um contra o outro para maximizar sua própria autonomia nacional.

As estratégias que as potências médias estão adotando em relação a outro domínio da rivalidade geoestratégica entre EUA e China – a saber, inteligência artificial e outras formas de computação – fornecem uma pista sobre como o desalinhamento infraestrutural pode se apresentar. Em vez de aceitar um pacote pré-fabricado de qualquer uma das superpotências, muitas potências médias estão buscando uma terceira via. O Vietnã, por exemplo, está desenvolvendo suas próprias instâncias de IA em vez de se comprometer exclusivamente com hardware americano ou chinês. Na África, empreendedores estão se dedicando à “sutura algorítmica”, combinando hardware chinês com software ocidental para criar soluções locais que nenhuma das superpotências controla totalmente. A Índia também está desenvolvendo seu próprio modelo de soberania em IA.

Para além das especificidades materiais da infraestrutura, o que torna este novo movimento de não alinhamento estruturalmente diferente do seu antecessor não é apenas a maior capacidade dos seus membros constituintes, mas sim a sua vontade coletiva de tratar as instituições multilaterais de forma instrumental, em vez de reverente. Enquanto o Movimento dos Não Alinhados original operava em grande parte através do sistema das Nações Unidas — fazendo lobby, apresentando petições e aprovando resoluções em fóruns controlados, em última instância, pelas grandes potências —, as potências médias de hoje estão construindo arquiteturas paralelas. A expansão dos BRICS, o crescente peso diplomático da Associação das Nações do Sudeste Asiático e a proliferação de bancos regionais de desenvolvimento refletem um instinto partilhado: o de que a ordem existente, baseada em regras, foi concebida por e para uma configuração de poder específica que já não existe.

Essas nações não buscam tanto derrubar o sistema, mas sim contorná-lo, construindo acordos bilaterais de swap cambial, pactos regionais de cadeia de suprimentos e acordos de compartilhamento de tecnologia que reduzem sua exposição à influência de qualquer superpotência. Em última análise, a escolha das potências médias se resume ao tipo de modernidade que desejam adotar. O novo movimento provavelmente não terá um secretariado formal ou uma carta de fundação; sua coerência dependerá de fatores externos que emergem não da solidariedade ideológica, mas do interesse pragmático comum em preservar a capacidade de escolha.

Mas, tal como no NAM original, as potências médias também enfrentam profundas divisões internas, divididas entre os produtores de petróleo que beneficiam dos preços elevados e os países em transição que anseiam desesperadamente por segurança energética. Esta linha divisória poderá revelar-se a maior vulnerabilidade do novo movimento. O NAM original fragmentou-se repetidamente precisamente ao longo deste tipo de linhas de interesse material — entre exportadores de matérias-primas e economias industriais, entre nações que procuram investimento estrangeiro e aquelas que procuram a substituição de importações — e a configuração atual acarreta tensões análogas.

Angola ou Nigéria, cujas receitas estatais continuam fortemente dependentes das exportações de hidrocarbonetos, têm incentivos fundamentalmente diferentes de Bangladesh ou Quênia, cujas trajetórias de desenvolvimento dependem de eletricidade acessível e confiável e cujas populações estão extremamente expostas às mudanças climáticas. O primeiro tem todos os incentivos para se alinhar discretamente com o bloco petroestatal, prolongando a era dos combustíveis fósseis que garante sua sobrevivência fiscal. O segundo precisa da tecnologia e do financiamento do bloco eletroestatal, mesmo que se ressinta da dependência que isso acarreta.

Essas não são divergências que podem ser disfarçadas com comunicados diplomáticos. Elas refletem interesses materiais genuinamente incompatíveis, e qualquer nova coalizão de países não alinhados será obrigada a gerenciá-las continuamente, sob o risco de sofrer o tipo de incoerência interna que acabou por corroer sua antecessora. O resultado mais provável é um cenário fragmentado de coalizões focadas em questões específicas: nações se agrupando em torno de interesses comuns em preços de minerais, financiamento climático ou acesso à tecnologia, sem jamais se consolidarem completamente em um terceiro polo coerente.

Em última análise, a escolha das potências médias se resume ao tipo de modernidade que desejam adotar. O bloco petroestatal oferece uma visão retrógrada e intensiva em carbono, na qual os fracos e os pequenos são firmemente subordinados aos fortes e aos grandes — um mundo onde a abundância de energia é instrumentalizada como clientelismo, onde o petróleo barato compra lealdade e onde a dependência infraestrutural de milhares de contratos de fornecimento gradualmente inviabiliza o futuro.

A adesão a uma Entente Verde liderada pela China oferece algo formalmente mais progressista: um modelo pós-carbono voltado para o futuro, que leva a sério as limitações físicas de um planeta em aquecimento. Mas também carrega uma sombra — a potencial subordinação da soberania metabólica nacional a uma arquitetura de cadeia de suprimentos centrada em Beijing. Trata-se de um abismo estratégico: alinhar-se com o passado agressivo e decadente ou com o futuro eficiente e neocentralizador.

O que torna este momento historicamente singular é que a escolha não é primordialmente ideológica. A Guerra Fria original foi, em sua essência, uma disputa entre teorias concorrentes sobre como as sociedades humanas deveriam se organizar — democracia versus comunismo, mercados versus planejamento, liberdade individual versus mobilização coletiva. A nova Guerra Fria transcende todas essas categorias. Petroestados autoritários e nominalmente democráticos convivem confortavelmente no mesmo bloco. A centralização verde da China e o liberalismo climático da Europa competem dentro da mesma Entente potencial. O eixo organizador não é a filosofia política, mas o metabolismo físico — quem controla a energia, os minerais e a tecnologia dos quais a modernidade depende.

É por isso que o novo movimento não alinhado, se conseguir se consolidar, será tão diferente de seu antecessor. Não será impulsionado pela solidariedade da era de Bandung ou pela ideologia terceiro-mundista, mas sim pelo pragmatismo gélido de clubes plurilaterais de compra de minerais e pela integração tecnológica. Seu maior trunfo é a própria materialidade da transição: o lítio sob os salares argentinos, o projeto de níquel-cobalto de Kalgoorlie na Austrália e as terras raras distribuídas pela Indonésia e Cazaquistão conferem às potências médias uma forma de influência que o Movimento Não Alinhado pós-colonial jamais possuiu. Sua maior vulnerabilidade, como o grupo original descobriu às suas custas, é a fratura interna — a tensão irreconciliável entre os produtores de petróleo, cuja sobrevivência fiscal depende da prolongação da era dos combustíveis fósseis, e os países em transição, cujo futuro de desenvolvimento depende do seu fim.

O elogio de Carney à velha ordem em Davos não foi um lamento. Foi o reconhecimento de que a ordem internacional liberal baseada em regras — aquela agradável ficção de normas jurídicas e deferência institucional — já havia sido destruída e que a questão não era mais como restaurá-la, mas como sobreviver à sua ausência. As potências médias são o cadinho onde a resposta será forjada. Seu sucesso depende de sua capacidade de converter sua riqueza mineral, peso demográfico e habilidade diplomática arduamente conquistada em uma genuína terceira via — que rejeite tanto o suicídio ecológico planetário do clientelismo do Eixo dos Petroestados quanto a dependência infraestrutural da Entente Verde.

   

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