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Lorenzo Maria Pacini
strategic-culture.su/
A dimensão comunicativa tornou-se parte integrante do conflito, não menos importante que as operações militares ou a dinâmica econômica.
Contexto
No cenário contemporâneo das relações internacionais, a dimensão comunicativa tornou-se parte integrante dos conflitos, tão significativa quanto as operações militares ou a dinâmica econômica. Nesse contexto, a República Islâmica do Irã vem aprimorando progressivamente uma estratégia midiática que, à primeira vista, parece contraditória e desconexa, mas que pode ser interpretada como uma forma sofisticada de ambiguidade estratégica — uma abordagem que permite a Teerã multiplicar os níveis do discurso político, confundir seu adversário e manter margem de manobra tanto no âmbito nacional quanto internacional.
Um dos elementos mais evidentes dessa estratégia é a coexistência de diferentes — e por vezes divergentes — registros comunicativos entre os principais componentes do sistema de poder iraniano. Por um lado, o governo civil e as instituições diplomáticas adotam uma linguagem relativamente cautelosa, aberta à negociação e cuidadosa para não fechar completamente os canais com o Ocidente, particularmente com os Estados Unidos e, indiretamente, com Israel. Por outro lado, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) mantém uma postura retórica decididamente mais assertiva, senão abertamente confrontativa, enfatizando a legitimidade da resistência armada e a necessidade de continuar o confronto.
Essa aparente dicotomia, convém notar, não deve ser interpretada apenas como um sinal de disfunção interna, mas sim como uma possível estratégia deliberada. A presença de múltiplas vozes permite ao Irã se comunicar simultaneamente com diferentes públicos: interlocutores internacionais, seus aliados regionais e a população interna. Em termos de teoria das relações internacionais, poderíamos falar de uma forma de “mensagem em duas vias”, na qual a diplomacia e a dissuasão são exercidas em paralelo por meio de canais distintos, porém complementares.
Estrategicamente, essa abordagem oferece vantagens significativas. A ambiguidade reduz a previsibilidade das ações iranianas, complicando os processos de tomada de decisão dos adversários. Os Estados Unidos e Israel, de fato, se veem obrigados a interpretar sinais frequentemente conflitantes, sem conseguir identificar com certeza qual linha é dominante dentro do sistema iraniano. Isso gera um efeito de "ruído informacional" que pode retardar ou distorcer as respostas políticas e militares ocidentais.
Note-se que, no Ocidente, essas táticas são bem conhecidas; o Irã não inventou nada de novo. A questão é que ninguém esperava um engajamento tão forte, preciso, oportuno e eficaz por parte do Irã — o suficiente para mudar rapidamente a percepção coletiva. Talvez os ocidentais tenham subestimado o potencial do Irã, ou talvez as próprias regras da comunicação já não sejam bem compreendidas pelos ocidentais, que estão percebendo a disfuncionalidade de certos "produtos culturais" que introduziram no mundo.
Estratégia mais ampla
Ao mesmo tempo, a narrativa iraniana faz parte de um embate discursivo mais amplo com o Ocidente. Enquanto Washington e Tel Aviv continuam a apresentar suas ações como uma defesa da ordem internacional e dos valores democráticos, Teerã se posiciona como uma força de resistência a uma forma de imperialismo percebida como agressiva e desestabilizadora. Nesse sentido, a comunicação iraniana não se limita a reagir, mas constrói ativamente uma contranarrativa que encontra eco em diversos contextos no Sul Global e entre atores críticos da hegemonia ocidental.
Um elemento crucial dessa dinâmica é a percepção de vantagem estratégica. Segundo algumas análises, o Irã encontra-se atualmente em uma posição relativamente favorável, não tanto em termos de superioridade militar convencional, mas sim devido à sua capacidade de sustentar um conflito prolongado e assimétrico. A rede de alianças regionais, a resiliência econômica desenvolvida sob as sanções e a capacidade de conduzir operações indiretas contribuem para reforçar essa percepção. Nesse contexto, a mensagem assertiva da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) pode ser interpretada como um reflexo de crescente confiança, enquanto a atuação diplomática do governo mantém em aberto as opções de negociação para consolidar os ganhos obtidos.
Contudo, essa representação externa corre o risco de obscurecer a complexidade da situação interna do Irã, visto que o sistema político da República Islâmica é caracterizado por uma diversidade de centros de poder, cujas relações são frequentemente marcadas por competição e tensão. As diferenças entre pragmáticos e conservadores, entre instituições civis e aparatos militares, e entre as diversas visões do futuro do país geram uma dinâmica interna que está longe de ser monolítica.
Nesse sentido, a comunicação divergente não é apenas uma ferramenta para o engajamento externo, mas também reflete um verdadeiro conflito interno. As escolhas relativas à política externa e à gestão das relações com o Ocidente tornam-se um campo de batalha entre facções que propõem estratégias diferentes: por um lado, a integração controlada no sistema internacional; por outro, o fortalecimento de um modelo de resistência autônoma e antagônica.
As implicações dessa competição interna são difíceis de prever. Ela pode levar a um reequilíbrio de poder entre as instituições ou a uma redefinição mais profunda da identidade política da República Islâmica. Em qualquer caso, a dimensão comunicativa continuará a desempenhar um papel central, tanto como ferramenta de legitimação interna quanto como meio de projeção internacional.
O Irã demonstra ao mundo inteiro uma notável capacidade de operar simultaneamente em múltiplos níveis de comunicação, explorando suas divisões internas como um recurso estratégico, e não como uma fraqueza. Essa capacidade permite que o país se mantenha firme, ao menos no nível narrativo, contra um Ocidente que continua a se basear em estruturas de comunicação mais lineares e menos flexíveis. Compreender essa dinâmica exige ir além de interpretações simplistas e reconhecer a complexidade de um ator que, apesar de estar dividido por tensões internas, consegue transformá-las em uma alavanca de poder no contexto da competição global. E, acima de tudo, compreender esse aspecto é essencial para entender o que o Irã está preparado para fazer no futuro, lutando em todas as frentes — inclusive as híbridas — para alcançar a vitória.
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