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1.
No último final de semana, Verônica Toste Daflon alinhavou uma série de críticas a meu último livro, A ameaça interna: psicanálise dos fascismos globais.
Creio que elas são frutos do que ocorre quando abandonamos a análise de processos estruturais e acusamos quem o faz de se afogar no mar de analogias fracas, de praticar a arte de “esticamentos conceituais”, de usar a história como quem abre um armário e escolhe algumas peças de roupa de acordo com a conveniência do momento ou ainda de operar com conceitos de forma idealista como se fossem sujeitos que agem, andam e produzem realidades.
Há séculos Blaise Pascal costumava insistir na necessidade de saber articular dois tipos de perspectivas: uma a que chamou de “espírito de geômetra” e outra de “espírito de finesse” (fineza, sutileza). Ou seja, enxergar relações e estruturas, como faz um geômetra, e aprofundar-se em casos e articulações regionais, como quem tem um olhar pronto a vislumbrar detalhes e diferenças sutis.
Há toda uma tradição que toma por “rigor” a simples cegueira positivista incapaz de ver processos estruturais de larga duração que influenciam simultaneamente várias dimensões de nossas formas de reprodução material da vida.
Para uma perspectiva dessa natureza, algo como mobilizar, por exemplo, “a lógica de autovalorização do capital” para expor relações entre coisas tão díspares quanto a crise ecológica, o sofrimento psíquico da classe trabalhadora, a destruição colonial nas Américas, a superprodução de mercadorias, as teologias da prosperidade e o sucesso da Beyoncé seria simplesmente um delírio de analogia.
Bem, há décadas tradições críticas do pensamento social denunciam os resultados deletérios dessa forma de amputação do pensamento. Isso que para uns parece uma abstração é, na verdade, o que nossas sociedades têm de mais concreto, pois descreve forças de unificação a operar transversalmente em um tempo longo.
Por exemplo, indignada pela minha descrição de dinâmicas fascistas internas à nossa sociedade, a resenhista afirma: “Algumas analogias apresentadas no livro são tão extremas que chegam a comparar discursos de CEOs a falas de administradores de campos de concentração, ou donos de lanchonetes a agitadores fascistas da Europa entreguerras. Se o conceito de fascismo permite agrupar numa mesma categoria executivos, microempresários de fast-food e agentes do aparato totalitário dos anos 1930, cabe perguntar: o que ele de fato explica?”.
2.
O problema nessa colocação é que eu estava a descrever casos reais. No Brasil, na época da pandemia, um dono de cadeia nacional de lanchonetes realmente gravou um vídeo convocando a população a não se importar com os milhares de mortos e a continuar a trabalhar e se expor a morte, como faria um administrador de campo de concentração. Um dono de loja de departamento fazia continuamente discursos de caça a comunistas dignos de qualquer agitador fascista de província.
Isso me leva a dizer que, quando em certas situações não se “esticam conceitos”, até o que é normal e acontece diante de nossos olhos se torna impensável. Há um núcleo real em nossas sociedades que sempre retorna sob diferentes roupagens. Valeria a pena lembrar, nesse contexto, o que Walter Benjamin escreveu sobre “repetição histórica”.
Da mesma forma, seria o caso de entender tais repetições como algo fundamental na compreensão da temporalidade psíquica que compõe as dimensões inconscientes da vida social e organiza o sistema de ações dos indivíduos. Há uma larga bibliografia que insiste em como atualizamos comportamentos fascistas estruturalmente similares quando o Eu percebe-se enfraquecido e em colapso.
O fascismo depende da atualização de estruturas de segregação, agressividade e dessensibilização imanentes à formação do indivíduo moderno. Isso pode ajudar a entender por que um CEO pode falar como agitador fascista dos anos 1930.
De toda forma, quando escrevi esse livro já esperava por desqualificações dessa natureza. Se setores da academia passaram os últimos anos a cunhar termos meio fantasistas como “populismo de direita”, “ultranacionalismo”, “ultraconservadorismo”, “regimes híbridos”, “democracia iliberal”, “identitarismo de direita”, “soberanismo” e tantos outros que lemos em papers e na imprensa para falar da ascensão das forças conservadoras atuais, não era por uma pretensa precisão conceitual. Era por interesse político de preservar o que chamamos de “democracia liberal” de uma crítica interna.
Mas um pressuposto fundamental do pensamento crítico é nunca fechar os ouvidos para os conceitos que populações nas ruas mobilizam em suas lutas. Ao invés de ver neles apenas uma expressão retórica, devemos entendê-los como fruto maduro e consciente da sensibilidade aos perigos.
3.
Há um saber que nasce das dinâmicas de insurreição popular. Foi por isso que entendi que seria importante analisar a hipótese de estarmos diante de uma ascensão fascista, uma vez que populações nas ruas no mundo inteiro estavam sistematicamente expressando isso.
Nesse sentido, o artigo da resenhista já começa por me imputar uma tarefa que nunca assumi: examinar a “crise das democracias liberais”. Na verdade, esse nunca foi meu alvo porque não acredito haver algo como uma “crise” das democracias liberais.
O que defendi foi que o acirramento atual dos conflitos sociais, o aumento exponencial da violência de Estado e as ações cada vez mais explícitas de vulnerabilização da vida e de segregação fazem parte de um processo de extensão de um traço constituinte e estável do que chamamos de “democracias liberais”. As “democracias liberais” não estão em crise, elas estão generalizando para toda a população a violência que é sua regra na gestão de certas populações e territórios. Elas estão mostrando sua face terrorista.
Creio que muito da confusão da resenhista vem da incapacidade de trabalhar com teorias do Estado moderno que lidam com clivagens territoriais e populacionais. Quando falamos que um Estado-nação é uma democracia, alguns acreditam que as mesmas leis e a mesma forma de aplicação da lei valerão em todo seu território e para todas as populações.
Uma atenção maior à lógica colonial das sociedades liberais lembraria como tais Estados não tiveram dificuldade alguma em serem “Estados duais”, vulnerabilizado a vida em certos territórios enquanto protegiam populações em outros. Essa dinâmica continuou, mesmo depois do fim das relações coloniais explícitas. Ela é o traço normal das democracias liberais.
Por exemplo, se marxistas negros como George Padmore, Walter Rodney, Fred Hampton, Angela Davis utilizavam o termo “fascismo” para descrever os EUA, não era por “retórica” ou imprecisão analítica, mas porque, da perspectiva dessas populações, a dita democracia norte-americana desaparecia para dar lugar a um sistema contínuo de superexploração do trabalho, de segregação explícita, de guerra de raças e de vulnerabilidade estrutural de suas vidas. Com o acirramento das crises terminais do capitalismo, tal dinâmica, como todos estão a ver, muda de intensidade.
É possível dizer que entender as ditas democracias liberais como fascismos restritos impediria a compreensão dos processos históricos de ampliação de direitos civis e sociais. No entanto, tais direitos foram ampliados não graças a um potencial interno das democracias em gerir conflitos através de mediações institucionais, mas pela força da suspensão da ordem produzida pelas mobilizações da classe trabalhadora tendo em vista contestações anti-institucionais.
Foram greves gerais, sequestros de patrões, bloqueios de circulação, insurreições populares que expandiram direitos. Quando essa força se dispersou, tais conquistas foram decompostas uma após a outra.
4.
Por isso, não creio ter muito sentido questões como esta, propostas pela resenhista: “Afinal, se essas democracias já são formas de fascismo, é difícil entender o que ocorre quando aspirantes a autocratas passam a atacar tribunais, restringir liberdades civis, manipular eleições ou violar a separação de poderes”.
Na verdade, não é difícil entender, principalmente quando esses que manipulam eleições e restringem liberdades civis não são “autocratas”, mas os gestores normais. A história da democracia liberal é plena de uso de leis de exceção, de utilização de dinâmicas de guerra contrainsurrecional e casuísmos os mais refinados, para impedir ou paralisar mudanças estruturais.
A questão realmente interessante é: por que atualmente liberdades acadêmicas e de manifestação estão sendo destruídas, eleições estão sendo desconsideradas em países que não são governados por “autocratas”? Os exemplos não vêm apenas da Turquia ou Hungria, mas da Alemanha, Inglaterra e França.
Os próprios defensores das democracias liberais entenderam que ela não precisa mais fingir existir, pois a ilusão de que seria possível gerir conflitos sociais tendo em vista a ampliação irrestrita de direitos saiu de cena. A questão fundamental agora é gerir uma era na qual não haverá mais sociedade para todos. E isto exige generalizar níveis extremamente elevados de violência e dessensibilização. Por isso, a alternativa fascista se generaliza.
Por fim, duas precisões. O texto me acusa de não falar sobre Rússia, China, a guerra do Sudão e “outros conflitos devastadores”. A razão não é difícil de entender: não quis fazer uma teoria geral das formas atuais de autoritarismos, mas uma reflexão sobre a decomposição sócio-política de nós mesmos. Esse é meu objeto de estudos desde um livro chamado Cinismo e falência da crítica.
Era fundamental mostrar como o que acreditamos ser a cura para nossas desagregações sociais (a democracia liberal, o indivíduo moderno) são partes do problema. Sei muito bem que nem todos autoritarismos são fascismos. Mas quis mostrar que o fascismo que julgamos estar longe do funcionamento normal de nossas sociedades liberais é uma ameaça interna criada por elas mesmas.
Nesse sentido, falar do autoritarismo na China, por exemplo, não acrescentaria em nada na argumentação central do livro, embora seja algo extremamente relevante a ser feito por quem conhece a língua do país, tem experiência de terreno e interação com seus debates internos.
Por outro lado, em certa altura de seu texto, a autora diz que o diagnóstico de um mundo em insurreição constante não encontra sustentação nos dados. Eu poderia fazer uma lista das insurreições populares no século 21, começando pelo México zapatista e indo para Tunísia, Egito, Irã, Síria, Turquia, Espanha, Equador, EUA, França, Brasil, Chile, Colômbia, Sérvia, Peru, e ainda assim a relação não estaria completa. Todos esses casos foram marcados por insatisfação econômica e exigência de reinvenção política.
Tenho dificuldades em saber de qual mundo Verônica Toste Daflon está a falar e que dados tão decisivos ela tem em mãos. Que tais insurreições não tenham passado de força destituinte a força constituinte, isso não muda em nada o fato de o fascismo ser convocado atualmente como uma contrarrevolução preventiva, visando impedir que o descontentamento social profundo de nossa época acabe por produzir uma mudança política e econômica real.
Mas há quem ache que tudo isso não passe de uma crise momentânea da “democracia liberal”. Da minha parte, creio ser melhor deixar os mortos carregarem seus mortos.
*Vladimir Safatle é professor titular de filosofia na USP. Autor, entre outros livros, de Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação (Autêntica) [https://amzn.to/3r7nhlo]
Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo [https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/04/safatle-professora-usa-rigor-conceitual-como-desculpa-para-ignorar-fascismo-hoje.shtml]
Referência

Vladimir Safatle. Ameaça interna: psicanálise dos fascismos globais. Ubu Editora, São Paulo, 2026, 240 págs. [https://amzn.to/4bIB75G]
"A leitura ilumina o espírito".
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