
Fontes: Rebelião / Socialismo e Democracia [Imagem: Desfile integralista por volta de 1937]
Neste artigo, o autor aprofunda-se nos antecedentes do Bolsonarismo, que remontam aos movimentos fascistas da década de 1930, como o integralismo, ao Estado Novo de Vargas (1937-1945) e à ditadura militar (1964-1985).
As últimas pesquisas sobre intenções de voto para as próximas eleições presidenciais mostram uma ligeira vantagem para o presidente Lula, que concorre à reeleição, no primeiro turno. De acordo com estudos da empresa Nexus/BTG, o atual presidente obteria 41% dos votos no primeiro turno, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro com 36%. Bem atrás estão os ex-governadores Romeu Zema (Partido Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), com 4% e 3% das intenções de voto, respectivamente.
Em relação a um possível segundo turno, o presidente Lula aparece com uma vantagem muito pequena - praticamente um empate técnico - entre ele (46%) e o filho mais velho de Jair Bolsonaro (45%), percentagens muito semelhantes às obtidas nas sondagens realizadas em fevereiro e março.
Como observamos recentemente (As estratégias da direita para vencer as próximas eleições), é impressionante que o candidato apoiado por Bolsonaro esteja obtendo resultados tão expressivos, especialmente considerando a insistência da mídia em apoiar o que chamam de "Terceira Via", argumentando ser urgente acabar com a polarização tão prejudicial à harmonia interna e à formulação de um projeto nacional para superar a atual crise global. Os esforços para lançar um candidato moderado de direita foram completamente frustrados pela persistência de um eleitorado inclinado ao radicalismo de extrema direita, apesar do desastre do governo Bolsonaro. Para o descontentamento daqueles que continuam a defender e acreditar na possibilidade de uma Terceira Via, o cenário político atual parece, até o momento, ser uma repetição do cenário previsto para 2022, com um eleitorado dividido entre lulaísmo e Bolsonaro.
Para tentar compreender a capacidade do Bolsonarismo de se recompor, após seus principais representantes terem sido processados e presos pelo sistema judiciário brasileiro, pode-se recorrer aos próprios fundamentos da história sociopolítica e cultural do país, que tem sido definida por um eixo estrutural que conecta a escravidão, o movimento integralista (sob influência nazista), as ditaduras militares e os fenômenos contemporâneos do pensamento neofascista cristalizados no Bolsonarismo, com alguns períodos de interlúdios democráticos caracterizados por sua enorme fragilidade e instabilidade.
Ao longo de todo esse processo, o que permaneceu constante foi a marca autoritária do Estado, com uma democracia permanentemente ameaçada por investidas autoritárias. No caso do Integralismo, esse movimento autocrático, conservador e cristão foi fortemente inspirado por elementos do nazifascismo prevalentes na Europa durante a década de 1930, especialmente por uma mistura ideológica representada pelo fascismo italiano, o nazismo alemão, o franquismo espanhol e o salazarismo português. Contudo, a presença de um catolicismo forte aproximou os integralistas, sobretudo, das ideologias de Franco e Salazar, particularmente devido à liderança exercida por seu principal mentor, Plínio Salgado, um católico devoto.
O movimento integralista da década de 1930 parecia definitivamente sepultado com a derrota do Terceiro Reich nazista em 1945. Naquela época, uma grande esperança de avanço da democracia e das liberdades civis e políticas fervilhava no Brasil. Contudo, para surpresa de muitos, o movimento integralista reorganizou-se sob a liderança de Plínio Salgado, que, apesar de tentar ocultar seu passado fascista e apresentar-se como defensor do Estado de Direito democrático, na realidade continuou a defender as bandeiras reacionárias de um projeto retrógrado, autoritário e anticomunista.
As atividades e a ideologia integralistas tiveram efeitos concretos na trajetória política da nação. O mais significativo deles foi a criação das condições que alimentaram o golpe de Estado de 1964. Ou seja, a partir de 1962, quando romperam com o governo progressista de João Goulart, os integralistas contribuíram de diversas maneiras para a sua deposição, acusando-o de ser comunista e traidor através dos seus meios de comunicação. O importante papel desempenhado pelo integralismo durante o período de 1945 a 1964 torna-se evidente quando se observa que o seu discurso anticomunista foi adotado por setores significativos da vida política e, sobretudo, pelas Forças Armadas. Assim, o integralismo expressou, na sua forma mais radical, as restrições a serem impostas à vida democrática do país, restrições essas que foram aprovadas e apoiadas pelos grupos económicos e elites políticas dominantes.
O golpe de Estado de 31 de março de 1964 serviu para consolidar a continuidade da ideologia fascista e autoritária, causando simultaneamente a derrota do projeto político nacional-popular-estatista liderado por João Goulart e pondo fim à experiência republicana iniciada com o fim do Estado Novo em 1945. Como já apontamos, essa tentativa de golpe não foi um evento isolado, mas sim o resultado de um conjunto de condições que se perpetuam ao longo da história do Brasil desde os tempos coloniais.
O processo de redemocratização iniciado em 1985 não se envolveu em uma reflexão histórica para questionar os anos da ditadura. Em vez disso, optou pelo esquecimento e pela manutenção da governabilidade diante da ameaça percebida de caos e desordem. Essas questões persistiriam ao longo do processo democrático, deixando as sementes do autoritarismo e das tendências neofascistas em estado latente. Essas tendências ressurgiriam com a crise sistêmica durante a presidência de Dilma Rousseff, que culminou em seu impeachment como o desfecho mais trágico e concreto.
Em sua declaração a favor do impeachment da presidente Rousseff, Bolsonaro dedicou seu voto a um notório torturador e criminoso que atuou durante a ditadura militar, o coronel Brilhante Ustra. Naquele momento, o deputado Bolsonaro demonstrou inequivocamente sua lealdade incondicional às ideias fascistas. Da mesma forma, o atual bolsonarismo se alimenta dessa matriz despótica e antidemocrática que permeia o cenário sociopolítico brasileiro e declara, aberta e descaradamente, sua nostalgia pelos tempos da ditadura.
Portanto, o grande desafio desta nova disputa eleitoral reside em manter as conquistas sociais que melhoraram a vida da maioria da população e em aprofundar o compromisso democrático dos cidadãos, contendo e confrontando a incessante enxurrada de mentiras disseminadas pelas redes sociais e veículos de comunicação controlados pela direita e extrema-direita. Esses setores aspiram a reimpor um modelo autocrático, representado por mais um membro dessa linhagem nefasta, que, por um lado, se alimenta do descontentamento, da incerteza e do medo do eleitorado, mas, fundamentalmente, se baseia nos fundamentos ideológicos escravizantes, elitistas e discriminatórios dos grupos dominantes e seus desprezíveis e oportunistas lacaios internos.
Fernando de la Cuadra é doutor em Ciências Sociais, editor do blog Socialismo e Democracia, autor do livro De Dilma a Bolsonaro: Itinerário da Tragédia Sociopolítica Brasileira (Editora RIL, 2021) e coeditor do livro E.P. Thompson no Chile: Solidariedade, História e Poesia de um Intelectual Militante (Ariadna Ediciones, 2024).
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