Patologias sociais e polarização política

Imagem: Patrick Mardis

Por JACKSON DE TONI*

A convergência entre o contágio psíquico das massas e a arquitetura algorítmica transforma a divergência política em uma cruzada moral de contornos existenciais

A histeria coletiva configura-se como um fenômeno social recorrente ao longo da história, manifestando-se em diferentes contextos culturais e políticos sob a forma de contágio psíquico, mobilização afetiva e produção de comportamentos coletivos irracionais. Este ensaio propõe uma análise da histeria coletiva enquanto expressão das patologias sociais contemporâneas, articulando contribuições da psicologia social, da psicanálise e da ciência política.

A partir de uma perspectiva histórico-crítica, examinam-se tanto suas raízes conceituais quanto suas manifestações modernas, especialmente no contexto da comunicação de massa. Argumenta-se que a histeria coletiva não apenas revela tensões estruturais da sociedade contemporânea, mas também evidencia formas de sofrimento psíquico socialmente compartilhadas, que operam na interface entre o individual e o coletivo.

A história das sociedades humanas é atravessada por episódios em que o comportamento coletivo parece escapar aos parâmetros da racionalidade individual, assumindo formas de excitação, medo ou violência compartilhada. Tais fenômenos, frequentemente descritos como histeria coletiva, constituem momentos privilegiados para a análise das patologias sociais, isto é, das formas pelas quais o sofrimento psíquico se organiza e se expressa no nível coletivo.

A noção de “pandemônio comungado” sintetiza essa dinâmica paradoxal: trata-se de uma comunhão do caos, na qual indivíduos, ao se agregarem em massa, passam a compartilhar estados emocionais intensificados, frequentemente dissociados de processos reflexivos. A histeria coletiva, desta maneira, não deve ser entendida como uma anomalia episódica, mas como uma manifestação estrutural das condições simbólicas, sociais e afetivas que organizam a vida contemporânea.

Historicamente, o conceito de histeria remonta à tradição médica da Antiguidade, inicialmente associado a explicações fisiológicas, como a teoria do “útero errante”, a visão original e equivocada que dominava a medicina do século XIX. No entanto, com o surgimento da psicopatologia moderna e, sobretudo, com a psicanálise, a histeria passa a ser compreendida como uma formação psíquica complexa, na qual conflitos inconscientes são convertidos em sintomas corporais ou comportamentais.

Essa mudança de paradigma desloca a etiologia da histeria do campo orgânico para o simbólico, permitindo compreendê-la como uma linguagem do inconsciente. O sintoma histérico deixa de ser visto como um fenômeno sem sentido e passa a ser interpretado como uma forma de expressão de desejos reprimidos e conflitos psíquicos não elaborados.

A transposição desse modelo para o plano coletivo implica reconhecer que os mecanismos psíquicos individuais podem operar em escala ampliada. A histeria coletiva emerge, assim, como um fenômeno em que emoções, crenças e comportamentos se disseminam rapidamente entre indivíduos, produzindo estados de excitação generalizada.

Nesse contexto, a massa funciona como um espaço de amplificação psíquica, no qual conteúdos inconscientes são compartilhados e intensificados. A massa redefine e captura as subjetividades.

Contágio psíquico e dinâmica de massas

A histeria coletiva pode ser compreendida como uma forma de contágio psíquico, sustentada por mecanismos de identificação, sugestão e imitação. Esses processos atravessam os indivíduos minando sua autonomia crítica, favorecendo a adesão a narrativas coletivas que frequentemente operam por simplificação e polarização.

Do ponto de vista psicanalítico, a inserção do sujeito na massa implica uma regressão a formas mais primitivas de funcionamento psíquico, nas quais predominam afetos intensos e pouco elaborados. A dissolução parcial das fronteiras do ego permite que conteúdos inconscientes sejam projetados e compartilhados, criando uma espécie de “campo afetivo comum”.

Essa dinâmica evidencia que o sujeito não é plenamente autônomo, sendo constantemente atravessado por influências sociais, culturais, políticas e religiosas inconscientes. A experiência coletiva, portanto, não apenas reflete estados psíquicos individuais, mas também os produz e os reorganiza, configurando novas formas de subjetividade.

Na contemporaneidade, a histeria coletiva assume novas configurações, especialmente em função da expansão dos meios de comunicação e das redes sociais digitais. A circulação acelerada de informações, frequentemente desprovida de verificação crítica, favorece a emergência de pânicos morais, teorias conspiratórias e movimentos de mobilização afetiva em larga escala.

Esse cenário pode ser descrito como uma intensificação do contágio psíquico, mediado por tecnologias que amplificam a visibilidade e a velocidade das interações sociais. O espaço digital funciona como um ambiente propício à formação de bolhas afetivas e “câmaras de eco”, nas quais discursos homogêneos são reforçados e divergências são excluídas ou demonizadas. Criando uma falsa sensação de consenso e isolando os indivíduos de visões opostas.

Além disso, a crise das instituições tradicionais e a fragmentação das referências simbólicas contribuem para a produção de um sujeito mais vulnerável à instabilidade emocional e à busca por pertencimento. A histeria coletiva, nesse contexto, pode ser entendida como uma tentativa de restaurar laços sociais por meio da partilha de afetos intensos, ainda que esses afetos sejam (auto)destrutivos.

A relação entre histeria coletiva e violência revela-se particularmente relevante na análise das patologias sociais. Ao longo da história, episódios de mobilização coletiva intensa frequentemente resultaram em práticas persecutórias, exclusões sociais e ações violentas.

Esses fenômenos evidenciam como a histeria coletiva pode funcionar como mecanismo de legitimação da violência, ao construir narrativas que desumanizam determinados grupos – geralmente minoritários ou contrários ao pensamento hegemônico, e justificam sua exclusão. A projeção de conteúdos psíquicos indesejáveis sobre o “outro” permite que o grupo preserve uma imagem idealizada de si mesmo, ao custo da produção de inimigos externos.

Na contemporaneidade, esse processo se manifesta em diferentes formas, incluindo discursos de ódio, cancelamentos e polarizações extremas. A violência simbólica torna-se, assim, um elemento central das dinâmicas políticas coletivas, frequentemente precedendo ou acompanhando formas de violência material.

As dimensões simbólicas e seu impacto político

A compreensão da histeria coletiva exige considerar a dimensão simbólica que estrutura a experiência humana. O inconsciente, longe de ser uma instância puramente individual, possui uma dimensão social-coletiva, sendo constituído e atravessado por discursos, valores e práticas culturais. É por isso que os fenômenos coletivos devem ser analisados como formações simbólicas complexas, nas quais se articulam desejos, medos e fantasias compartilhadas. A linguagem desempenha papel central nesse processo, ao organizar e dar sentido às experiências coletivas.

A construção de narrativas – sejam elas religiosas, políticas ou midiáticas – contribui para a formação de identidades coletivas e para a mobilização de afetos. A histeria coletiva pode ser vista, portanto, como uma manifestação extrema dessa dinâmica, na qual o simbólico se intensifica ao ponto de produzir efeitos concretos no comportamento social. Uma destas dimensões é a produção social de um “inimigo absoluto”.

A figura do “inimigo absoluto” permanece eficaz porque ela opera menos no plano jurídico-institucional e mais no plano simbólico e afetivo. Mesmo em Estados laicos, a cultura política não é neutra: ela herda matrizes religiosas, morais e míticas profundamente enraizadas. Três fatores ajudam a explicar esse mecanismo. A simplificação da complexidade social: em contextos de crise (econômica, moral, identitária), o “inimigo absoluto” oferece uma explicação simples para problemas estruturais complexos.

Ele personaliza o mal e desloca frustrações difusas para um alvo identificável. A religião funciona como um repertório simbólico de fácil reconhecimento, sobretudo para camadas populares; a produção de coesão identitária. Ao definir um “outro” como ameaça existencial, constrói-se um “nós” moralmente puro, precisamente aqui surge o fundamento para uma dimensão religiosa da histeria coletiva. Isso reforça pertencimento, lealdade e disciplina política, especialmente em grupos que se sentem culturalmente ameaçados.

Há uma espécie de fusão entre uma identidade moral religiosa e uma identidade política; e finalmente a suspensão do dissenso democrático: se o outro é visto como inimigo do bem, da nação ou de Deus, o conflito político deixa de ser legítimo. O adversário não é alguém com quem se debate, mas alguém a ser derrotado, silenciado ou eliminado simbolicamente. Há uma confessionalização do espaço público que interdita sua natureza comum e coletiva.

A laicidade formal do Estado não impede uma certa “conversão moral” da política e a politização do fenômeno religioso, sobretudo quando atores religiosos ou moralistas conseguem traduzir disputas políticas em termos de salvação versus perdição. A linguagem religiosa é incorporada por meio de um processo de tradução simbólica: categorias teológicas são deslocadas para o campo político sem necessariamente citar dogmas explícitos.

O capital simbólico religioso é convertido em capital político. A demonização da esquerda, do feminismo, das LGBTQIAPN+, das religiões de matriz africana e da ciência em geral, tem funcionado como arma política da extrema direita, no Brasil e no mundo. A religião passa a ser critério normativo para a cidadania. Uma fonte de legitimidade que não pode – por princípio e a priori, ser contestada racionalmente. Alguns sintomas centrais deste fenômeno coletivo:

(i) Moralização da política: temas como direitos humanos, gênero, laicidade ou pluralismo passam a ser apresentados como sinais de decadência moral. O debate político é substituído por juízos morais absolutos; (ii) Retórica da “guerra espiritual”: lideranças descrevem eleições e políticas públicas como batalhas entre forças do bem e do mal. O voto torna-se um ato espiritual, não apenas cívico.

(iii) Sacralização de lideranças: certos líderes são apresentados como “escolhidos”, “instrumentos de Deus” ou defensores da fé, enquanto adversários são associados ao demônio, ao caos ou à corrupção moral. A política passa a ser uma batalha espiritual (narrativa típica do neopentecostalismo), desumanizando o outro.

Esse tipo de linguagem é altamente mobilizador porque ativa emoções e pulsões primárias (medo, culpa, esperança, salvação) e cria uma disposição para o engajamento político intenso, muitas vezes acrítico. Ao mesmo tempo ela é um gatilho social que legitima discursos de ódio sob a aparência de “defesa da fé”. O pânico moral é normalizado.

O fenômeno da demonização no cenário político contemporâneo exerce efeitos profundamente corrosivos sobre as estruturas democráticas, subvertendo a lógica da pluralidade em favor de um binarismo existencial. Esse processo opera, primordialmente, por meio da deslegitimação do adversário: ao transmutar o oponente político em uma figura “maligna”, “perversa” ou “anticristã”, retira-se dele a condição de interlocutor válido. Sob essa ótica, o reconhecimento da legitimidade mútua – requisito fundamental para o exercício democrático – é anulado, tornando o debate público uma impossibilidade prática.

Concomitantemente, observa-se um sensível empobrecimento do discurso público, no qual o rigor dos argumentos racionais e a análise de evidências são preteridos em favor de slogans morais, acusações ad hominem e pânicos morais. A política, portanto, deixa de ser um espaço de deliberação para se converter em um campo de “cruzadas”, culminando na legitimação da violência, tanto simbólica quanto material, e em uma progressiva erosão da laicidade do Estado.

Esse quadro de polarização moral extrema compromete severamente a negociação institucional. Enquanto a práxis democrática exige o compromisso, a mediação e a concessão, a lógica da demonização interpreta qualquer tentativa de acordo como uma traição moral imperdoável. O conflito político deixa de ser regulado por normas institucionais para ser vivenciado como um confronto existencial, onde ocorre uma convergência perigosa entre a retórica religiosa beligerante e o autoritarismo. É a política como o terreno do “vale-tudo”, sem freios morais ou autocontenção dos competidores.

Nesse contexto, a sacralização de lideranças e a concepção do exercício governamental como o cumprimento de um “chamado divino” transformam a retórica da “guerra santa” em uma estratégia consciente de poder. Tal mecanismo converte divergências programáticas em antagonismos absolutos, bloqueando o diálogo e institucionalizando a exclusão do “outro” como premissa de governabilidade legal esse trecho.

A arquitetura das plataformas digitais e a transposição da política para o campo da “ameaça espiritual” operam em simbiose para reconfigurar o espaço público contemporâneo. No âmbito das tecnologias de comunicação, as redes sociais não apenas intensificam, mas estruturam sistematicamente a retórica da demonização.

Este fenômeno é impulsionado por algoritmos que privilegiam o engajamento através da indignação, premiando conteúdos que evocam medo e ódio sob uma lógica performática de produção de um “inimigo interno”. É a narrativa que orienta o discurso do ódio no campo político e todas suas subculturas: redpill, incel, machosfera, haters, trolls, escola sem partido…

A desintermediação da autoridade permite que lideranças políticas e religiosas contornem filtros institucionais e jornalísticos, consolidando discursos maniqueístas em “bolhas morais” que isolam o indivíduo de perspectivas contraditórias. Nesses ecossistemas, a estética da guerra cultural – materializada em memes e narrativas de consumo rápido – reduz a complexidade do outro a uma caricatura, normalizando a radicalização simbólica e substituindo o princípio democrático da alternância de poder pela lógica da eliminação do oponente.

Quando a divergência política é enquadrada como uma “ameaça espiritual” ou ameaça à identidade/self/ego o conflito transborda os limites da racionalidade e ingressa no campo do sagrado, gerando riscos severos à estabilidade democrática.

Aqui duas camadas operam em conjunto: (a) Uma camada institucional:

Erosão da laicidade: a fundamentação de decisões públicas em dogmas religiosos compromete a neutralidade do Estado e a universalidade das normas. Justificação das práticas autoritárias: medidas de exceção passam a ser apresentadas como imperativos morais necessários para a salvaguarda do “bem” contra um “mal” absoluto. Deslegitimação sistêmica da prática política: as instituições democráticas são frequentemente retratadas como entidades corrompidas por forças malignas, minando a confiança social na burocracia estatal.

(b) Uma camada social: Intolerância e fragmentação: o estímulo ao ódio religioso como estratégia de poder fratura o tecido social, criando comunidades que habitam universos morais incomunicáveis. Normalização da violência material e simbólica: a desumanização simbólica do adversário atua como um projeto pedagógico que naturaliza a exclusão e precede a violência física efetiva.

Alguns exemplos da nossa história recente onde estas dimensões se manifestaram claramente ajudam a compreender o quanto este adoecimento coletivo é perturbador e distópico.

O antipetismo moral-religioso e a construção do inimigo político (2016-2022). A partir do impeachment de Dilma Rousseff e, sobretudo, nas eleições de 2018 e 2022, o campo político progressista, a esquerda e sobretudo o PT, passaram a ser sistematicamente representados como forças do “mal”, associadas à destruição da família, ao comunismo, à “ideologia de gênero” e à perseguição religiosa.

Essa narrativa, amplamente difundida por lideranças políticas e religiosas, transformou a disputa eleitoral em uma batalha espiritual, na qual o voto era apresentado como um ato de fidelidade moral ou religiosa, e o adversário político como um inimigo existencial a ser combatido, e não um interlocutor legítimo.

O pânico moral e demonização de políticas públicas. O caso do “kit gay”, o “Programa escola sem homofobia” foi convertido em símbolo de ameaça espiritual por meio da difusão do termo “kit gay”, mobilizado principalmente a partir de 2011 e intensificado nas eleições de 2018. O material passou a ser descrito como um instrumento de corrupção moral das crianças e de ataque aos valores cristãos, apesar de tais acusações não corresponderem ao conteúdo real da política pública. Esse processo exemplifica como políticas educacionais e de direitos humanos foram demonizadas, deslocando o debate técnico para uma lógica moralizante e emocional, baseada no medo e na indignação.

A demonização das instituições democráticas. O STF como “inimigo de Deus” (2019–2023). As decisões do Supremo Tribunal Federal relacionadas a direitos reprodutivos, diversidade sexual, liberdade religiosa e combate à desinformação passaram a ser enquadradas, por atores políticos e religiosos, como ataques diretos à fé cristã e ao “povo de Deus”.

Ministros do STF foram retratados como agentes do mal ou inimigos espirituais, inserindo o conflito jurídico-institucional em uma narrativa de guerra espiritual. Esse enquadramento contribuiu para a deslegitimação das instituições democráticas, estimulando a desobediência simbólica e o enfraquecimento da confiança no Estado Democrático de Direito.

Considerações Finais

O entendimento da histeria coletiva constitui uma via privilegiada para a compreensão do adoecimento emocional coletivo contemporâneo. Ao revelar a interdependência entre o individual e o coletivo, esse fenômeno evidencia como o sofrimento psíquico pode ser compartilhado, amplificado e institucionalizado.

Na era da comunicação massiva, a intensificação dos processos de contágio psíquico coloca novos desafios para a compreensão e a intervenção nas dinâmicas sociais. A análise das patologias sociais e coletivas permite identificar não apenas seus sintomas e manifestações visíveis, mas também suas condições de possibilidade.

Dessa forma, torna-se fundamental desenvolver abordagens interdisciplinares que articulem psicanálise, psicologia social e ciências humanas, a fim de compreender e enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Mais do que um fenômeno marginal, a histeria coletiva e as patologias do social revelam aspectos centrais da condição humana, convidando à reflexão sobre os limites da racionalidade e as forças inconscientes que estruturam a vida social.

O “ódio religioso” na política não é um subproduto acidental, mas uma estratégia deliberada de poder que visa reconfigurar o imaginário social. Ao transformar o adversário em um inimigo moral absoluto, rompe-se o pilar fundamental da democracia: o reconhecimento da legitimidade da existência do outro no espaço público.

A demonização na política contemporânea não é um resíduo arcaico, mas uma estratégia moderna de poder, potencializada por crises sociais, pelo medo do desconhecido, por linguagens religiosas moralizantes e pelas dinâmicas das redes digitais.

Ao transformar a política em uma luta entre o bem e o mal, ela mobiliza afetos poderosos – mas o faz ao custo da democracia, do pluralismo e da possibilidade da convivência civilizada.

*Jackson De Toni é doutor em Ciência Política pela UnB. Atualmente é Analista de Inovação e Produtividade da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), vinculada ao Ministério da Economia.

Referências


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