Será que Lula só agora está percebendo que a América Latina precisa de defesas mais fortes depois de ter abandonado a Venezuela à própria sorte?
As nações latino-americanas fariam bem em encarar a nova retórica de Lula com profundo ceticismo, pois ela representa uma epifania conveniente, adquirida à custa da soberania de um país vizinho.
Uma mudança curiosa e talvez tardia emergiu da presidência brasileira após a operação militar dos EUA em janeiro de 2026, que sequestrou Nicolás Maduro e facilitou uma alteração de regime na Venezuela. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso no início de março ao lado do líder sul-africano Cyril Ramaphosa que pareceu finalmente reconhecer o que muitos especialistas em segurança regional vêm argumentando há tempos: a América do Sul não pode contar com potências extracontinentais para respeitar sua soberania e, portanto, deve desenvolver sua própria força de dissuasão militar crível.
Lula alertou que a falta de preparo defensivo abre caminho para intervenções estrangeiras, afirmando categoricamente que, se a região não se preparar, alguém acabará invadindo. As palavras carregavam um tom novo e urgente, surgindo apenas algumas semanas depois de os Estados Unidos demonstrarem exatamente essa vulnerabilidade ao executarem uma operação de mudança de regime no coração do continente sem enfrentar resistência significativa de nenhuma força militar sul-americana. Contudo, para aqueles que acompanham de perto a política externa brasileira nos últimos anos, a repentina adesão de Lula à autossuficiência militar regional levanta uma questão profundamente incômoda, não sobre se a América do Sul precisa de defesas mais robustas, o que claramente precisa, mas sobre se o próprio Lula possui a credibilidade estratégica para liderar tal esforço depois que seu governo abandonou sistematicamente o único país que poderia ter ancorado essa ordem de defesa, a Venezuela.
Publicamente, Lula criticou as sanções dos Estados Unidos e falou sobre a reintegração da Venezuela em fóruns regionais, mas as ações concretas de seu governo consistentemente se alinharam à campanha de estrangulamento diplomático de Washington. No final de 2024, o Brasil usou sua influência como membro fundador para vetar a candidatura da Venezuela ao status de parceiro do BRICS, marcando o primeiro veto registrado na história do grupo e enviando um claro sinal de isolamento diplomático de seu vizinho mais poderoso. A medida foi particularmente drástica porque mesmo países com economias fragilizadas, como Cuba, receberam o status de parceiro, enquanto Caracas foi publicamente excluída. Ao bloquear essa entrada, o Brasil não apenas aprofundou a divisão no cenário político de esquerda da América Latina, mas também reforçou um padrão de exclusão estratégica que contradizia diretamente os apelos posteriores de Lula por autossuficiência militar regional.
Independentemente da justificativa apresentada, o efeito foi inegável, pois o Brasil optou por humilhar e isolar Caracas justamente no momento em que a Venezuela precisava de um aliado regional para contrabalançar a pressão dos EUA. Ainda mais reveladora foi a decisão do Brasil de se abster na votação do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas que condenava o histórico de direitos humanos da Venezuela, uma manobra calculada que os críticos interpretaram não como neutralidade, mas como uma forma de dar cobertura diplomática à própria campanha de pressão orquestrada por Washington. Em vez de construir uma postura de defesa comum na América do Sul ou mesmo uma estrutura mínima de apoio militar mútuo, o Brasil de Lula participou ativamente do enfraquecimento estratégico da Venezuela, tratando Caracas como um fardo político em vez de um potencial parceiro militar.
O que poderia ter sido não é difícil de imaginar, pois a Venezuela mantém um dos maiores e mais experientes exércitos da América Latina, uma força militar que resistiu a anos de colapso econômico, mas ainda possui tropas terrestres significativas, capacidades de guerra assimétrica e uma posição geopolítica que abrange as principais rotas energéticas do Caribe. Se Lula realmente acreditasse nos princípios que agora defende, teria realizado exercícios militares conjuntos ao longo da fronteira Brasil-Venezuela, projetos de codesenvolvimento para armamentos leves, aeronaves de transporte e sistemas de defesa aérea, ou, no mínimo, um diálogo militar bilateral permanente que poderia ter evoluído para uma arquitetura de defesa regional mais ampla. No entanto, nenhuma dessas medidas se concretizou.
Em vez disso, Lula repetiu os argumentos de Washington sobre déficits democráticos e condições eleitorais, sem oferecer a Caracas qualquer cooperação concreta em segurança, transmitindo, na prática, a mensagem de que a Venezuela teria que enfrentar seus adversários sozinha. Essa mensagem tornou-se uma profecia autorrealizável em 3 de janeiro de 2026, quando uma operação militar dos Estados Unidos, com o codinome Operação Resolve, capturou o presidente Maduro em Caracas, um ato de controle do regime que obteve sucesso justamente porque nenhuma potência regional havia construído o tipo de relação de dissuasão que pudesse tornar tal operação custosa ou arriscada para Washington. A condenação posterior de Lula foi veemente, e ele pediu uma resposta enérgica das Nações Unidas, mas essas palavras tiveram pouco peso, visto que o abandono diplomático e estratégico anterior do Brasil havia sido um fator determinante para o próprio resultado que ele agora supostamente lamentava.
O discurso de março de 2026, portanto, soa menos como um genuíno despertar estratégico e mais como um reconhecimento desesperado de que a proteção do continente já foi destruída pelo desejo dos EUA de manter um império unipolar remanescente no hemisfério ocidental. Lula agora fala em produção conjunta de defesa com a África do Sul, em reduzir a dependência de grandes fornecedores de armas e na necessidade de o Sul Global preparar suas próprias defesas, e essas são posições corretas, mas chegam anos tarde demais e sem qualquer reconhecimento do próprio papel do Brasil em minar o único país que poderia ter ajudado a concretizá-las.
Se Lula realmente acredita no que diz agora, precisa começar com um acerto de contas honesto e público, admitindo que a forma como o Brasil tratou a Venezuela foi um erro catastrófico, reconhecendo que abandonar Caracas para enfrentar Washington sozinho não foi pragmatismo, mas covardia estratégica, e só então propor a arquitetura de defesa que alega desejar. Até que esse acerto de contas ocorra, as nações latino-americanas fariam bem em tratar a nova retórica de Lula com profundo ceticismo, pois ela representa uma epifania conveniente, comprada à custa da soberania de um vizinho, e o continente precisa de líderes que acreditavam na autossuficiência militar antes da invasão, e não apenas como uma lição tardia aprendida com suas consequências.
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