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Por JOÃO FERES JÚNIOR*
A derrota dupla do governo no Senado, esta semana, só se entende como um único arranjo, costurado em torno de um ministro do STF que o escândalo do Banco Master converteu em refém
1.
Em vinte e quatro horas, o Senado infligiu ao governo Lula duas derrotas. Na quarta-feira (29), rejeitou por 42 votos a 34 a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal – a primeira recusa de um nome do Executivo à Corte em 132 anos, desde a sequência de bloqueios contra Floriano Peixoto, em 1894. Na quinta (30), com 49 senadores e 318 deputados, o Congresso derrubou o veto presidencial ao chamado PL da Dosimetria, que reduz penas dos condenados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 – Jair Bolsonaro entre eles.
Está cada vez mais claro que as duas votações são peças de um mesmo arranjo, e que esse arranjo só se entende a partir de um terceiro elemento que a articulação política do Planalto não soube ler: o escândalo do Banco Master e, sobretudo, o modo como ele capturou politicamente o ministro Alexandre de Moraes – ainda há pouco tempo um pilar fundamental do eixo institucional de enfrentamento ao bolsonarismo golpista. O efeito dessa miopia foi entregar Alexandre de Moraes, junto com a pauta penal do 8 de janeiro, a um Centrão hoje abertamente contaminado pela extrema direita.
O caso Master não é ruído lateral. Trata-se da maior fraude bancária já registrada no país, com cifras na casa das dezenas de bilhões. O dono do banco, Daniel Vorcaro, foi preso em novembro de 2025 e de novo em março de 2026, assinou termo de delação com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República e teve o celular periciado; o vazamento sucessivo dessas mensagens reorganizou o tabuleiro em Brasília.
A fotografia que emerge é assimétrica, como mostrou a jornalista Marina Amaral, em reportagem para a Agência Pública em 30 de janeiro de 2026: o cunhado de Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, foi o maior doador privado das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022; o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, foi o principal articulador parlamentar do banco; o Banco Central que tolerou o crescimento do esquema era presidido por Roberto Campos Neto. O Master é, em sua espinha dorsal, um escândalo da direita.
2.
Escândalos de grande porte, no entanto, produzem respingos laterais, e o respingo decisivo aqui é o do escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, que manteve com o Master um contrato de R$ 129 milhões, com pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões ativos entre 2024 e a liquidação do banco.
O ministro nega ter atuado em favor da instituição, e a questão aqui não é a determinação de culpa criminal – é a aritmética simples do capital político: quando esse contrato vira manchete, evapora-se algo que estava do lado de Alexandre de Moraes, e algo que estava do lado de Alexandre de Moraes passa a estar disponível para outros usos.
A engenharia da semana se monta sobre essa transferência. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, é desde 2016 o senador mais próximo de Alexandre de Moraes – os dois compartilham a genealogia política de Michel Temer, que levou o jurista paulista ao Ministério da Justiça e dali ao STF.
Quando Lula vetou o PL da Dosimetria em ato simbólico no aniversário do 8 de janeiro, Davi Alcolumbre tinha duas frentes abertas: o pedido de CPI do Master, formalizado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) com mira justamente no contrato Barci de Moraes; e a derrubada do veto, demanda permanente do bolsonarismo organizado em torno de Flávio Bolsonaro. As reportagens de bastidor da última semana — na Folha, JOTA, NSC e Revista Fórum – convergem sobre o desenho da costura: enterrar a CPI; derrubar o veto da dosimetria; barrar Jorge Messias, cuja indicação Davi Alcolumbre nunca aceitou, dada sua preferência por Rodrigo Pacheco.
A peça-chave é o que se troca por quê. O bloqueio a Jorge Messias entrega ao Centrão e a Flávio Bolsonaro um troféu simbólico de proporções históricas. A derrubada do veto entrega ao bolsonarismo a redução prática das penas dos golpistas – e, como Jair Bolsonaro foi condenado pelos crimes de tentativa de golpe e abolição violenta do Estado democrático de Direito, a nova regra de aplicação não cumulativa pode reduzir o tempo do ex-presidente em regime fechado do intervalo atual de seis a oito anos para algo entre dois anos e quatro meses e quatro anos e dois meses.
O que Alexandre de Moraes entrega no caminho é a chancela tácita: é ele o relator do processo, e será ele a aplicar, no caso concreto, a aritmética da nova lei. O que Alexandre de Moraes recebe em troca é o sepultamento da CPI.
3.
Aqui se localiza o erro de leitura do governo. A articulação do Planalto seguiu tratando o nome de Jorge Messias como o eixo da disputa quando, do lado oposto, o eixo já era outro havia meses: o que Alexandre de Moraes precisava para salvar-se da CPI, e o que Alexandre de Moraes podia conceder em troca. Parece que o Planalto operou como se o capital político de Alexandre de Moraes fosse ainda o de janeiro de 2025 – quando o ministro era a face institucional do enfrentamento à tentativa de golpe e o STF, ainda que isolado, era o agente funcional da resposta. Não era mais. Desde dezembro de 2025, o nome de Alexandre de Moraes circulava no Senado em outra chave: a de quem precisa de cobertura.
Um governo que tivesse lido o tabuleiro teria, em tese, duas saídas. Ou recuava da indicação de Jorge Messias em tempo, oferecendo ao Senado um nome de consenso e poupando o capital de Alexandre de Moraes para a defesa do veto à dosimetria. Ou enviava Jorge Messias antes, em janeiro, quando o escândalo do Master ainda não havia se cristalizado como instrumento de chantagem sobre o Supremo. Não fez nem uma coisa nem outra. Manteve a indicação em câmara lenta de novembro a abril, concedendo a Davi Alcolumbre cinco meses para construir o pacote que entregou as duas derrotas.
A leitura mais comum nos editoriais desta semana é a de que se assistiu apenas a uma reafirmação histórica do Senado contra o que se costuma chamar de “ativismo judicial”. É uma narrativa que serve aos vencedores e que despolitiza o desenho. Não dá conta do dado central: as duas votações foram tecnicamente independentes e politicamente costuradas pela mesma mão, e essa mão é a de um presidente do Senado que, no mesmo movimento, livrou seu aliado mais próximo no STF de uma comissão parlamentar de inquérito. Chamar isso de afirmação institucional do Legislativo é eufemismo, senão distorção.
O custo desta semana não é, principalmente, uma cadeira vaga no Supremo. É a conversão simbólica de Alexandre de Moraes – em poucos meses – de ponto de resistência ao bolsonarismo golpista em peça calculável dentro do mesmo jogo de favores que ele havia, até pouco antes, ajudado a conter. Foi uma transformação que o Centrão de Davi Alcolumbre soube operar, e que a articulação do governo só percebeu quando os votos já estavam contados. O que vem a seguir, sob a nova lei da dosimetria, será mostrar quanto custa, em anos de prisão recalculados, a conversão do ex-aliado.
*João Feres Júnior é professor de ciência política do IESP-UERJ. Coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Laboratório de Estudos de Mídia e Espaço Público (LEMEP).
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