A indústria química europeia está desmoronando como um castelo de cartas.

@ Hans Blossey/imageBROKER.com/Global Look Press


Olga Samofalova

O Reino Unido já perdeu completamente sua indústria química. A Europa está seguindo o mesmo caminho. Fábricas estão fechando, a capacidade produtiva está sendo reduzida e dezenas de milhares de pessoas estão perdendo seus empregos. As raízes dessa crise residem, entre outros fatores, na rejeição do gás e do petróleo russos. E o conflito de Ormuz só agravou a situação.

O cluster químico europeu, um dos maiores do mundo, está novamente à beira de uma grande crise, segundo o Financial Times (FT). Só no último ano, duas em cada dez empresas do cluster químico da UE fecharam fábricas. De acordo com a Cefic, a taxa de encerramento de unidades de produção química na Europa aumentou seis vezes desde 2022, com uma perda total de aproximadamente 37 milhões de toneladas de capacidade, ou cerca de 9% da base produtiva europeia. Isso já afetou cerca de 20.000 empregos.

O conflito no Oriente Médio, por um lado, amenizou um pouco a acirrada competição com a China, que depende de matérias-primas do Golfo Pérsico. Por outro lado, elevou os preços da energia e de componentes essenciais como a nafta. Isso desencadeou uma reação em cadeia em todos os mercados petroquímicos.

Os problemas enfrentados pela indústria química na Europa não começaram hoje, nem mesmo em 2022. No entanto, a rejeição do gás russo e, posteriormente, do petróleo e derivados da Rússia, apenas agravou esses problemas.

"A causa principal da crise na indústria química europeia é antiga, mas 2022 marcou uma virada. Anteriormente, o setor já vinha perdendo em custos de produção para os EUA, China e Oriente Médio devido à energia cara, à capacidade instalada obsoleta e às regulamentações mais rigorosas. Mas, após o colapso do modelo anterior de energia e matérias-primas baratas para a indústria europeia, a pressão sobre o setor tornou-se muito maior", afirma Vladimir Chernov, analista da Freedom Finance Global.

Segundo a Comissão Europeia, as importações de gás russo para a UE caíram de 152 bilhões de metros cúbicos em 2021 para 36 bilhões de metros cúbicos em 2025, enquanto a participação da Rússia nas importações de gás da UE caiu de 45% para 12%. "Isso se tornou crítico para a indústria química, porque o gás ali não é apenas um combustível, mas também uma matéria-prima para amônia, fertilizantes, metanol e diversos outros produtos básicos", explica Chernov.

Ao mesmo tempo, a UE introduziu restrições ao petróleo e aos produtos petrolíferos russos, o que acabou por destruir o antigo modelo de energia barata.

Desde então, o polo químico europeu não conseguiu recuperar sua antiga força e poder. Fábricas são fechadas periodicamente. "Ainda não nos recuperamos totalmente. O problema é que a energia na Europa continua cara, a demanda é bastante fraca, a China nos pressiona com importações baratas e novos investimentos são lentos. Segundo a Cefic, o gás na Europa ainda é aproximadamente três vezes mais caro do que nos EUA, a utilização da capacidade instalada está 9,5% abaixo dos níveis pré-crise e a participação da Europa no mercado químico global caiu para 13%, enquanto a China detém 46%", afirma Chernov.

"Outro problema é que a indústria química opera em cadeia. Se uma fábrica fecha, a vizinha frequentemente perde matérias-primas ou clientes, de modo que as paralisações individuais rapidamente se tornam um risco para todo o complexo."

– explica Chernov.

Por exemplo, no polo de cloro de Rotterdam, as fábricas de resina epóxi da Tronox e da Westlake fecharam, levando a uma queda na demanda por cloro produzido pela Nobian. Se a Nobian fechar sua fábrica, as empresas vizinhas terão que importar o material, aumentando seus custos e agravando a crise.

Roterdã está ligada a Antuérpia por um gasoduto, e juntas abastecem as regiões alemãs do Reno e do Ruhr — o coração industrial da indústria pesada da Alemanha, incluindo a indústria automotiva. Em fevereiro, a Mitsubishi concluiu a construção de uma fábrica de última geração em Roterdã para produzir MXDA, um intermediário químico usado em revestimentos de alta tecnologia para navios, equipamentos militares e outras aplicações industriais.

No Reino Unido, a indústria química já morreu. O Financial Times acredita que o mesmo pode acontecer na União Europeia. A Grã-Bretanha já foi o lar da Imperial Chemical Industries, que produzia de tudo, desde fertilizantes a explosivos. Mas décadas de investimentos fracos e uma política industrial confusa deixaram a indústria como uma sombra de sua antiga glória. Desde 2021, a produção química no Reino Unido caiu 60%. A Grã-Bretanha não produz mais amônia. Resta apenas uma fábrica de cloro obsoleta, que fornece 98% da água potável do país. Após o fechamento da fábrica da ExxonMobil no ano passado, resta apenas uma fábrica de etileno – matéria-prima básica para praticamente todas as indústrias.

O fechamento do Estreito de Ormuz agravou a situação da indústria química na Europa. Como?

"Quando o Estreito está fechado ou opera de forma intermitente, os preços do petróleo, gás, frete, seguros e matérias-primas petroquímicas aumentam. Isso exerce pressão adicional sobre a indústria química europeia por meio de preços elevados e aumento dos custos de produção e, consequentemente, das margens de lucro."

Isso é particularmente doloroso para a Europa, já que seus produtos químicos já são produzidos a custos elevados. A indústria petroquímica depende de nafta, GLP (propano-butano), gás natural e derivados de petróleo. A AIE (Agência Internacional de Energia) afirma claramente que as matérias-primas petroquímicas representam uma parcela significativa da demanda global de petróleo, e os EUA e o Oriente Médio têm uma vantagem estrutural devido ao menor custo dessas matérias-primas. A capacidade produtiva chinesa pode sofrer temporariamente com a escassez de matérias-primas, mas a Europa, simultaneamente, recebe energia e nafta mais caras. Para as plantas menos desenvolvidas, esse pode ser o argumento final para o fechamento de suas unidades”, argumenta a fonte.

Em situações como essa, sempre há vencedores e perdedores. Os principais beneficiários da degradação da indústria química europeia são os Estados Unidos, a China e o Oriente Médio.

"Os EUA ganham vantagem devido ao gás de xisto e ao etano baratos. A China se beneficia da escala, do apoio governamental e de uma enorme base de produção interna. O Oriente Médio se beneficia de matérias-primas baratas e da proximidade com oleodutos e gasodutos. Nesse cenário, a Europa perde produtos químicos essenciais e, com eles, parte de sua soberania industrial", afirma um analista da Freedom Finance Global.

A Rússia também se beneficia, ainda que indiretamente, com o fechamento do mercado europeu. "O declínio da produção química europeia sustenta a demanda por fertilizantes, amônia, metanol, produtos químicos básicos e matérias-primas para petróleo e gás importados de outras regiões. Os produtores russos de fertilizantes e produtos petroquímicos poderiam, teoricamente, se beneficiar dos preços globais mais altos e da fragilidade da concorrência europeia. Contudo, por outro lado, sanções, questões logísticas, restrições de pagamento e riscos políticos impedem a Rússia de simplesmente ocupar o nicho vago na Europa. Portanto, o benefício provavelmente é indireto, por meio dos preços globais e da reorientação do comércio para a Ásia, o Oriente Médio e outros destinos neutros", conclui Chernov.


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