As guerras são ganhas pela economia, não pelos exércitos

Michael Hudson [*]
entrevistado por Ian Proud
resistir.info/Manteiga e canhões, cartoon de Matson.

IP – Estava a recordar o velho ditado:   "as guerras são ganhas pela economia, não pelos exércitos". Acho que a guerra no Irã refinou ligeiramente essa frase, para "as guerras são ganhas pela economia, não pela força militar". Qual é a sua opinião?

MH – A minha opinião está provavelmente de acordo com aquilo que dizem ter sido discutido entre os militares e Donald Trump ontem à noite e nos últimos dias. Todos lhe disseram que a invasão não pode funcionar sem um sacrifício enorme e que os Estados Unidos, desde a Guerra do Vietname, que levou ao fim do serviço militar obrigatório, já não têm um exército terrestre. Têm dependido dos exércitos aliados no Médio Oriente, de Israel e da Al Qaeda na Síria.

Portanto, não será possível invadir nem mesmo a Ilha de Kharg, de que Trump falou[NR]. A Força Aérea também manifestou grande preocupação quanto a tentar repetir um ataque aéreo ao Irão, o qual está agora muito bem protegido por mísseis. Além disso, nos últimos dias o Irão ameaçou afundar navios americanos [isto pode já ter acontecido], pelo que Trump foi aconselhado pelos militares a, pelo menos, "não atacar, é melhor usar outros meios, como continuar a estrangular o comércio de petróleo através do estreito de Ormuz e impor sanções ao Irã". E considerando que o mercado bolsista tem subido nos últimos dias, os mercados internacionais, mesmo na Ásia, têm subido, é óbvio que a maior parte do grande capital institucional em todo o mundo acredita que, de alguma forma, tudo isto vai ser resolvido, que os meios económicos, as sanções, vão conduzir a algum tipo de resolução do conflito, ao invés de uma guerra total que levaria o Irã a responder bombardeando grande parte da capacidade petrolífera dos países árabes da OPEP, especialmente nos Emirados, e também a bombardear intensamente bases militares americanas, especialmente em Israel.

Portanto, o dinheiro que está a ser apostado é em que tudo se resumirá à política económica e não à política militar.

IP – No entanto, não estou convencido de que as sanções económicas e a continuação das sanções económicas contra o Irão, incluindo através de um bloqueio, venham a funcionar. O Irã tem sido alvo de sanções desde 1979. Acumulou algumas reservas próprias a partir dos seus excedentes da balança corrente. A maior pressão recairá certamente sobre os consumidores americanos, europeus, chineses e de todo o mundo. Enfrentaremos preços mais elevados?

MH – Bem, não são apenas os consumidores, são os governos, são os devedores; isso vai provocar o que me parece ser uma nova grande depressão – se Trump continuar com isto. O problema é que as sanções económicas estão a causar imensos problemas ao resto do mundo. Já se está a assistir a escassez de petróleo e, especialmente, de fertilizantes, o que vai reduzir o rendimento das colheitas; de hélio, que, segundo se diz, já está a reduzir o funcionamento das máquinas de ressonância magnética nos hospitais que dele necessitam e, especialmente, na gravação de chips de computador; está-se a interromper o fluxo de nafta para a indústria de plásticos; todas estas grandes indústrias estão a ser afetadas, e a perspetiva económica inicial era de que, bem, o petróleo e a energia representavam apenas 10% do PIB.

Mas, se não houver petróleo e gás e uma economia interligada, então não será perdido apenas o consumo de petróleo e gás, será perdido todo o investimento, o emprego e as indústrias de produção que precisam de petróleo para existir. Portanto, a ameaça é que os países fiquem como a Alemanha após 2022, quando deixou de importar gás russo. Esse é o problema.

Também há os de ordem financeira. Há alguns meses, Donald Trump afirmou que, sim, é verdade que, se bloqueássemos realmente o comércio de petróleo e tentássemos enfraquecer o Irã, ao enfraquecer todo o resto do mundo, o resto do mundo iria sofrer, mas os Estados Unidos iriam sofrer menos do que outros países, porque o nosso país é autossuficiente em petróleo e gás.

Mas o problema é que os Estados Unidos não são apenas um posto de gasolina com bombas atómicas, como dizem da Rússia; são uma economia financeirizada e, se outros países não conseguirem equilibrar as suas balanças de pagamentos por terem de pagar muito mais dinheiro pelas importações de combustível, fertilizantes e tudo o resto, não poderão pagar as suas dívidas externas — que os países do Sul Global têm acumulado e a que têm sido submetidos — e as indústrias do setor privado não terão meios para pagar os seus créditos.

Haverá incumprimentos por todo o sistema financeiro, e os Estados Unidos são a economia mais exposta financeiramente do mundo, tal como em 1929 com o crash da bolsa, e por isso haverá problemas nos Estados Unidos que serão tão graves quanto os que outros países estarão a sofrer. É o que Donald Trump parece não ter tido em conta. E a Reserva Federal não ajuda muito nesta situação. Grande parte da comunidade financeira afirma que os preços mais elevados do petróleo serão inflacionistas, mas o efeito deste aumento de preços, que já se verifica dia após dia, enquanto o Estreito de Ormuz estiver fechado pelos Estados Unidos, está a causar deflação. Sim, os preços do petróleo estão a subir, mas se o resultado for desemprego e cortes na produção na indústria e na agricultura, para toda a economia, isso vai traduzir-se numa enorme economia deflacionária. É isso que são as depressões. É isso que está realmente a revelar-se a grande ameaça, apesar do que dizem os mercados bolsistas e de obrigações.

IP – Acha que, para além do preço do petróleo, dado que os EUA são em grande parte autossuficientes em petróleo, o preço de todas as suas importações não petrolíferas vai subir devido aos efeitos na cadeia de abastecimento daquilo que está a acontecer no Irão?

MH – Parece ser esse o caso. O que está a acontecer é que os EUA têm libertado petróleo das suas reservas a fim de manter baixo o preço da gasolina e também o preço dos combustíveis para aviões, o que já reduziu o volume do tráfego aéreo. Bem, o problema com tudo isto é que o petróleo que está a ser libertado pelas reservas do governo encontra a sua contrapartida num aumento acentuado das exportações de GNL e de petróleo dos EUA nos últimos meses. Assim, na prática, o petróleo que o governo está a vender, alegando ou fingindo que isso vai manter os preços baixos, está a sair do país, enquanto os produtores de petróleo e gás, os frackers, estão a ganhar uma fortuna, uma vez que o aumento dos preços da energia no estrangeiro está a criar uma proteção de preços para o petróleo e o gás produzidos nos EUA.

IP – Qual é o efeito líquido sobre a capacidade de serviço da dívida dos EUA a médio prazo da espiral deflacionária em que podemos estar a começar a entrar neste momento?

MH – não há qualquer problema em pagar a dívida dos EUA porque, ao contrário de muitos outros países, a sua dívida é pelo menos na sua própria divisa e os EUA podem simplesmente continuar a imprimir moeda para pagar a dívida, o que não é necessariamente inflacionista para os preços de bens e serviços, porque quando o dinheiro é pago a detentores de obrigações e outros credores do governo, estes credores e detentores de obrigações não gastam o seu dinheiro principalmente em bens e serviços, mas sim na concessão de novos empréstimos e na compra de ações e obrigações, aumentando a carga da dívida.

Assim, o sistema financeiro está muito isolado da economia real de produção e consumo e é autónomo em relação a ela; é isso que a teoria económica dominante não compreende. A teoria dominante é em grande parte moldada pela mitologia de relações públicas do setor financeiro, que o retrata como se desempenhasse um papel produtivo na economia real. Mas as finanças são independentes da produção, e os bancos não emprestam realmente dinheiro para financiar a formação de novo capital industrial; se há algo que o faz, essa é a função do mercado de ações através de IPOs e ofertas públicas.

O mercado financeiro ganha dinheiro financeiramente, não através da interação com a economia real. E digo isto apesar do facto de, no último ano, metade do crescimento do consumo nos EUA ter sido atribuído aos 10% mais ricos da população. Mas houve uma discussão sobre isto no século XVII por Malachy Postlethwayt e outros escritores que poucas pessoas leem hoje em dia. E Postlethwayt e outros críticos da dívida externa afirmaram que esta dívida externa que estamos a pagar a credores estrangeiros e credores nacionais é um fardo para a economia, porque estes credores não gastam o seu dinheiro na indústria ou na agricultura nacionais; gastam-no na concessão de novos empréstimos ou em imóveis de luxo em Londres, Paris e outros centros financeiros, e compram produtos importados.

Assim, a maior parte deste crescimento no consumo do setor privado dos EUA consiste, em grande medida, em importações de luxo de Itália e Inglaterra — carros e outros bens —, e isto não é reconhecido se se partir de uma suposição simplista de que o que é pago aos credores é reciclado na economia real.

IP – Em suma, os banqueiros vão simplesmente enriquecer novamente com a guerra?

MH – Sim, se olharmos para como enriqueceram até agora neste ano. O Chase Manhattan e outros bancos enriqueceram através da negociação, negociando títulos que já estão em circulação, manobrando grandes negócios e organizando fusões. Não enriqueceram de alguma forma que interaja com o próprio sistema industrial, exceto sobrecarregando o sistema industrial com dívida por parte de empresas de capital privado. O mercado bolsista caiu hoje mesmo (1 de maio) porque a Spirit Airlines faliu devido ao aumento das taxas de juro, que limitaram a sua capacidade de pagar as dívidas que contraira a fim de financiar a expansão de companhias aéreas low-cost como ela.

Assim, já se está a ver o resultado do esmagamento financeiro sobre as indústrias internas dos EUA que se irá ver por todo o mundo, tal como se viu na Europa após 2022. Isso será visto por todo o mundo se os preços do petróleo continuarem [a subir]. Portanto, voltando à sua primeira pergunta, quando Trump tenta resolver o conflito com o Irão por meios económicos, trata-se de uma estratégia de vitória que se autodestrói, porque está a criar um custo tão elevado para outros países que sofrem com estas sanções, altas taxas de juro e com escassez de petróleo, que estão a procurar formas de isolar as suas economias da dos Estados Unidos.

Portanto, o resultado desta guerra, que Trump empreendeu sem falar com os seus aliados europeus, sem falar com os seus aliados da OPEP no Médio Oriente, o efeito disto, em vez de isolar o Irão, parece que vai acabar, se continuar por um ou dois anos, por isolar a própria economia dos Estados Unidos, à medida que outros países se protegem das ações dos EUA.

IP – Concordo a 100%. O meu argumento de que as guerras são ganhas pela economia e não pela força militar não significa que a pressão económica dos EUA sobre o Irã terá êxito. Signfica sim, tal como no caso da Rússia e na Ucrânia – sendo a Rússia o país mais sancionado do planeta – que a Rússia infligiu mais danos económicos à Europa, ou melhor, que a Europa infligiu mais danos económicos a si própria.

MH – A palavra que usa é "ter êxito" e essa é realmente a chave. Os conflitos são ganhos por uma política económica bem-sucedida, e o resultado das sanções ao longo do tempo é quase universal, desde o próprio Irão até à Rússia.

As sanções obrigam outros países a tornarem-se autossuficientes naquilo que já não podem importar. Assim, quando os países da NATO impuseram sanções ao comércio russo em 2022, a Rússia teve de começar a cultivar as suas próprias frutas, legumes e laticínios, pelo que se verificou muito rapidamente, a partir de 2023, 2024, o surgimento de uma indústria de laticínios russa [na verdade, este processo começou em 2014]. A produção de queijo russo, a produção de vegetais russos e as exportações de cereais russos excederam em muito as expectativas, pelo que as sanções são quase sempre contraproducentes a longo prazo.

Causam um sofrimento a curto prazo com o qual outros países enfrentam tornando-se independentes da capacidade dos demais países de utilizarem o seu comércio externo como arma para impor sanções e prejudicar países terceiros. O resultado é que isto leva à autossuficiência dos países atingidos. Por isso, outros países estão agora a discutir — o Financial Times tem debatido isto ao longo de toda a semana — como é que os países podem tornar-se verdadeiramente independentes, não só da guerra de Trump contra o Irão, mas também do petróleo e do gás. Boas notícias para os partidos verdes: terão de desenvolver energia eólica, energia solar e energia nuclear.

Como tornarão independentes da tentativa de Trump de congelar as contas dos depósitos iranianos em bancos ocidentais? O Departamento do Tesouro enviou listas de todos os depósitos iranianos em bancos centrais e em bancos comerciais estrangeiros. "Vocês têm de os confiscar."

Bem, estes bancos estão a perguntar: como é que nos protegemos? Como é que os EUA nos irão punir se não cumprirmos isto? Dizem que nos vão obrigar a não ter acesso ao sistema bancário ocidental dos EUA. Bem, os bancos centrais estrangeiros e os bancos comerciais estrangeiros dizem que vão controlar as contas, e se os EUA disserem aos seus depositantes que terão de retirar todo o seu dinheiro destes bancos designados que concedem empréstimos ao Irão, porque estão a ajudar o Irão a processar os seus pagamentos financeiros e até a conceder-lhe empréstimos, bem, os bancos podem dizer que vão congelar quaisquer contas de grande montante que ameacem ser levantadas, em conformidade com as exigências dos EUA. Teremos um congelamento de todo o sistema financeiro ocidental devido a estas exigências. Se o impuserem, vão causar uma enorme ruptura na cadeia financeira de pagamentos e é difícil dizer neste momento como isto pode ser resolvido sem criar um sistema financeiro alternativo completo para se libertar das sanções bancárias dos EUA.

IP – A outra ironia é o Irã ser mais bem-sucedido em fazer com que o sofrimento económico recaia sobre os EUA e as economias mais vastas da Europa do que, quando acorda qualquer acordo de paz. Uma das coisas em que os iranianos vão insistir é na remoção das sanções.

MH – sim, eles são um caso clássico, mas a Rússia também já foi um caso clássico. Acho que as agências de inteligência dos EUA não gostam de admitir que as políticas decididas pelo presidente não irão funcionar. Porque gostam de ser jogadores de equipa, por isso não há realmente muitas críticas ou discussões sobre o que tu e eu estamos a discutir hoje.

IP – Esse é o problema do pensamento grupal. E é um problema tanto em Londres como em Paris, em Bruxelas como em Washington DC. Não é apenas que as pessoas não queiram apontar o fracasso, é que elas próprias não o conseguem ver, porque estão numa cultura organizacional em que a curiosidade, o pensamento crítico e a análise de evidências reais são ativamente desencorajados devido ao risco de que isso produza resultados que rompam a janela de Overton.

MH – Isso parece ser a mentalidade burocrática aqui, mas provavelmente também na maior parte dos governos.

IP – Estava a ler um artigo muito bom que escreveu para o Counterpunch sobre o debate "armas ou manteiga", um debate importante que não acontece. Recentemente, tivemos no Reino Unido um ex-ministro do governo trabalhista e secretário-geral da OTAN, Lord Robertson, do Partido Trabalhista – o partido socialista – a dizer que o Reino Unido deveria cortar os benefícios sociais a fim de gastar mais com as forças armadas.

Portanto, isto era menos manteiga e mais armas, e foi um socialista a dizer isto. Não há qualquer debate real sobre a questão das armas e da manteiga. Por que acha que isso acontece?

MH – É isso que torna a guerra atual com o Irã e esta nova guerra fria tão diferentes do que foi a Guerra do Vietname. Na Guerra do Vietname, houve uma enorme reação por parte dos estudantes, na sua grande maioria não queriam ser recrutados, e penso que o facto de quererem evitar o recrutamento parece ter sido ainda mais importante para a sua oposição à própria guerra.

Mas havia todo um grupo de economistas – eu fazia parte de um grupo da Columbia – que criticava e dizia:   "Eis os custos da Guerra do Vietname". Acho que por volta de 1971, quando os documentos de McNamara e do Pentágono foram divulgados para que todos pudessem ver, fui chamado a Washington para uma discussão, antes de serem oficialmente debatidos, a fim de dar o meu parecer sobre eles.

E o interessante foi que, em todos aqueles documentos do Pentágono, não há qualquer discussão sobre economia. Nenhuma discussão sobre a balança de pagamentos. E, no entanto, quando eu trabalhava na década de 1960, era o economista responsável pela balança de pagamentos do Chase Manhattan Bank. Todas as sextas-feiras analisávamos o relatório da Reserva Federal sobre moeda e ouro e observávamos a oferta monetária a aumentar e o ouro a esgotar-se, à medida que o General De Gaulle e os alemães também trocavam por dinheiro todos os dólares que os americanos estavam a deitar fora no Sudeste Asiático, Vietname, Laos e Camboja, os quais faziam parte, em grande medida, do sistema do franco como colónias francesas. Todos os dólares estavam a ser enviados para França para serem convertidos em ouro.

Toda a economia estava a registar um aumento nas despesas militares, o que, essencialmente, tal como hoje, estava a excluir as despesas sociais e, na verdade, levou a grande parte da oposição à guerra americana por motivos económicos, porque diziam:   "Bem, o que estamos a ganhar com a guerra no Vietname? Vietname e Camboja, por que estamos a salvar o Império Francês quando, após a Segunda Guerra Mundial, não salvámos o Império Britânico? Por que não tentamos simplesmente comprá-los a todos e matá-los com gentileza, o que provavelmente teria funcionado muito melhor?"

Bem, hoje em dia já não se tem essa discussão de todo. Naquela altura, grande parte do movimento anti-guerra surgiu dentro do próprio Partido Democrata — pessoas como Seymour Millman, que era democrata, fazia parte do nosso grupo na Columbia, e andava por aí; Terence McCarthy, eu próprio, andávamos todos pelo país, a dar palestras, a escrever em revistas.

Havia jornais que davam voz a toda esta crítica económica à guerra do Vietname. Nova Iorque tinha dois jornais diários, o New York Tribune, além do New York Times, e o Tribune publicava a maioria dos nossos artigos. Portanto, havia toda uma discussão sobre quais seriam os custos do reforço militar e como os iríamos pagar sem cortar noutras despesas do governo, o que é que as pessoas realmente queriam?

Bem, as pessoas queriam outras coisas [que não] gastos militares e foi isso que derrotou o presidente Johnson, McNamara e outros em 1968. Hoje não há discussão sobre isso, temos tanto os democratas como os republicanos a apoiar a guerra contra o Irã, a apoiar a guerra contra a Rússia e a preparar-se para a probabilidade de uma guerra louca contra a China. Qual é o sentido de tudo isto? E, no entanto, há muito pouca oposição interna a isto porque os meios de comunicação públicos, as editoras, os jornais e as estações de televisão se tornaram muito mais concentrados nas mãos de um grupo muito restrito que apoia a economia de guerra. É por isso que a discussão sobre os custos económicos da guerra se faz principalmente no YouTube e na Internet.

IP – Isto também revela uma divisão entre política interna e política externa. Uma das minhas convicções é que os governos dedicam demasiado tempo à política externa e esquecem-se dos seus eleitores internos, o que pode ajudar a explicar o atual aumento de popularidade, pelo menos na Europa, dos chamados partidos populistas. Mas também a ascensão de Trump ao poder como alguém que iria romper esse ciclo de guerras intermináveis, apenas para o repetir. Ele parece estar a ir exatamente contra o manifesto com base no qual foi eleito, o que é uma das coisas notáveis.

MH – Isto é notável, da Europa aos Estados Unidos. Todas as sondagens de opinião pública mostram que o público é esmagadoramente contra a guerra contra o Irã e o Médio Oriente, contra a guerra na Rússia, mas isso não impediu Starmer na Grã-Bretanha, ou Macron em França, ou Merz na Alemanha, de apoiarem a guerra, e não há eleições nesses países nos próximos dois ou três anos, tal como nos Estados Unidos, tal como não há eleições nos próximos dois anos. Portanto, há uma incapacidade da população como um todo de eleger um governo que represente o que as sondagens de opinião indicam. Uma democracia não é votar em quais políticas e como as economias vão ser estruturadas, trata-se do que os influenciadores fazem para apoiar uma política sobre a qual não se tem controlo.

IP – Concordo plenamente. Toda esta justificação sobre o que se chama de keynesianismo militar, de que gastar mais nas forças armadas pode reanimar a nossa economia, é um debate comum. No entanto, questiono-me sobre o keynesianismo comum, em que gastamos todo esse dinheiro, mas gastamo-lo nos nossos próprios países. O keynesianismo militar parece ser uma narrativa bastante dominante na imprensa dos governos globalistas na Europa e não tenho tanta certeza se isso ressoa também nos EUA.

MH – O keynesianismo evoluiu para o pós-keynesianismo, em grande parte devido à moderna teoria monetária, que teve o seu centro na Universidade do Missouri, em Kansas City, onde fui um dos professores durante toda a sua ascensão. Toda a ênfase da moderna teoria monetária tornou-se parte da política americana, que pensava que era preciso usar contra a dívida pública e apoiava os devedores contra os interesses dos credores, essencialmente querendo que a tributação progressiva fosse gasta na economia, para ajudar a crescer, para criar o dinheiro, para pagar a dívida. Mas os pós-keynesianos destacam que a chave é realmente "o que é o dinheiro?" E o facto é que os governos não precisam de cobrar impostos para financiar guerras e gerar défices. Podem simplesmente imprimir a moeda, ou melhor, o Banco da Reserva Federal pode criar a moeda, e foi isto que aconteceu nos EUA desde 2008 e 2009, quando a crise das hipotecas de alto risco entrou em colapso, ameaçando os bancos com património líquido negativo, especialmente no caso da City Corp, do Bank of America e de outros grandes bancos.

Assim, o resultado foi que a Reserva Federal revitalizou o setor financeiro, não só os bancos norte-americanos, mas também os bancos franceses e alemães, que estavam envolvidos nisto; simplesmente adotaram esta política de taxa de juro zero, inundaram o mercado com crédito barato da Reserva Federal para os bancos, permitindo que estes baixassem as taxas de juro, o que aumentou os preços do imobiliário acima do ponto de equilíbrio, revitalizou a liquidez bancária e criou o boom do mercado de ações e obrigações, o maior boom do mercado de obrigações da história.

Tudo isto foi pura criação de dinheiro, de uma forma puramente financeira. Bem, na altura em que se teve a guerra de George W. Bush no Iraque, Dick Cheney e Bush disseram: "Bem, não há realmente nenhum limite para o que podemos gastar, podemos simplesmente gastar o que quisermos".

De certa forma, teve-se o partido da guerra a desenvolver a teoria monetária moderna na prática, mas não para os fins sociais que os pós-keynesianos e os teóricos monetários modernos estavam a defender. Bem, é isso que está a acontecer hoje:   temos o banco central essencialmente a inundar o mercado com dinheiro e, recentemente, tivemos o secretário do Tesouro Bessent a propor a criação de novos e enormes acordos de swap com outros países para simplesmente fornecer dólares a outras economias, de modo a que estas não sejam interrompidas e arruinadas pelo aumento dos preços do petróleo. Eles podem dar-se ao luxo de financiar essencialmente o aumento dos preços do petróleo e as depressões através da pura criação de moeda, mas nos termos dos EUA.

IP – Suponho que outro subproduto para os próprios EUA é que não só as pessoas comuns estão a ficar mais pobres, como as empresas comuns estão a ser excluídas, uma vez que o financiamento do governo está a ser canalizado para o keynesianismo militar, ou seja, o setor industrial da defesa, que está muito bem protegido.

MH – Há algo de irónico nesse termo "keynesianismo militar". O que se viu no último ano no Irão é que as armas realmente não funcionam; pensa-se que bombas, mísseis e navios são militares, mas afinal não funcionam nada bem. O facto de o Irão ser capaz de simplesmente atravessar os sistemas de defesa antimísseis para abater os aviões mostra que estas armas não servem realmente para combater, não têm fins militares, servem apenas para fornecer dinheiro ao complexo industrial militar, essencialmente para fabricar produtos de luxo como automóveis Rolls Royce ou roupas de luxo. São para exibição, não servem realmente para combater. Assim, o keynesianismo militar tem se tornado cada vez menos militar na sua essência, simplesmente não funciona, e é isso que é tão irónico nisto tudo.

IP – É uma ironia enorme, enorme. E, voltando ao ponto inicial, as guerras são ganhas pela economia e não pela força militar; os iranianos e, na verdade, os russos, parecem estar a ganhar, apesar de, pelo menos em teoria, serem economicamente muito menores do que o poder coletivo do Ocidente; no entanto, estão a ganhar, e é a economia que lhes está a garantir a vitória, o que constitui a grande ironia de tudo isto.

MH – De fato.

IP – Uma das coisas de que se fala muito são os Estados do Golfo e a sua sustentabilidade a longo prazo, à medida que a presença dos EUA no Médio Oriente fica sob ameaça, à medida que todo o sistema do petrodólar começa a – muito lentamente – perder a sua influência global. Vê alguma consequência económica real para os Estados do Golfo resultante desta mudança de poder que está a acontecer diante dos nossos olhos neste momento, através da guerra no Irão?

MH – Uma mudança de poder em muitas dimensões. O Irão, provavelmente haverá algum ataque militar ao Irão, mesmo que seja apenas o que Trump pretende dizer que é um ataque simbólico, vamos lançar uma bomba, sabe, "Tenho de dizer ao meu povo que tenho algum tipo de vitória".

Assim que houver uma bomba ou um avião, o Irã vai responder com bombardeamentos muito intensos, não só contra as bases militares dos EUA; o problema não é apenas expulsar os Estados Unidos da Ásia Ocidental, trata-se de pôr fim a toda a simbiose dos EUA com os países da OPEP. Portanto, o que vamos atacar não são apenas as bases militares nos Emirados Árabes, vamos atacar todas as empresas americanas que investiram lá, as empresas de inteligência [artificial] automática que planearam todos esses enormes centros de processamento de dados, para usar o petróleo barato dos Emirados e também da Arábia Saudita, para operar os centros.

A única forma de pôr fim ao controlo dos EUA sobre os países da OPEP é acabar com a simbiose política que levou os Emirados a apoiar as forças armadas dos EUA para, por sua vez, estas apoiarem Israel e fornecerem a principal base militar. Neste momento, há relatos de que existem quatro aviões de reabastecimento no aeroporto dos Emirados à espera para ajudar, caso Trump decida lançar um ataque aéreo generalizado contra o Irão. Haverá uma ruptura entre os EUA e os países árabes da OPEP e, provavelmente, os outros países.

Mencionou o petrodólar. O petrodólar é um subproduto do facto de que um elemento central da política externa dos EUA no último século tem sido o controlo do comércio de petróleo no mundo, e os EUA querem controlar o petróleo mundial porque este é um ponto de estrangulamento, e têm conseguido dizer a outros países que, se não seguirem as políticas externas que os EUA apoiam por motivos de segurança nacional, vão cortá-los do petróleo; este é um ponto de estrangulamento.

Especialmente as duas últimas administrações dos EUA transformaram o comércio de petróleo numa arma, tentando isolar outros produtores do óleo que não estão sob o controlo dos EUA. Já há anos que isolaram a Venezuela, desde Chávez em diante, e mais recentemente através do sequestro do seu presidente. Isolaram a Rússia através da imposição de sanções e têm isolado o Irão desde 1979; assim, os EUA estão a tentar isolar estes outros países, basicamente dizendo:   "Se não podemos controlar o vosso petróleo, Irão, vamos destruí-lo". Foi isto que Trump acabou de dizer. Apoiou a apreensão do petróleo iraquiano, afirmando: "Bem, temos de recuperar todos os custos que gastámos ao ir para o Iraque".

Bem, se os EUA vão destruir o petróleo que não controlam, então vão insistir nos seus próprios termos para o comércio de petróleo. E em 1974 isto foi feito quando os países da OPEP — basicamente a Arábia Saudita e outros países, essencialmente amigos dos EUA — negociaram com os EUA a quadruplicação do preço do seu petróleo depois de os EUA terem quadruplicado o preço dos cereais. Portanto, o acordo entre os EUA e estes países — fiz várias viagens à Casa Branca, reuni-me com o Tesouro e os militares para discutir tudo isto na altura —, eles disseram:   "Podem cobrar o que quiserem pelo petróleo, mas, façam o que fizerem, podem ganhar o que quiserem, mas o acordo é que vão investir os vossos excedentes de petróleo em obrigações americanas, não podem comprar indústrias específicas, não podem adquirir o controlo de nenhuma indústria importante; nós podemos comprar indústrias na Europa e noutros países, mas vocês vão ganhar o vosso dinheiro em obrigações e ações dos EUA, vão reciclá-lo.

Podes cobrar o que quiseres, mas tens de manter as tuas poupanças em dólares. Assim, o resultado é que, nos últimos cinquenta anos, os países da OPEP, especialmente os países árabes da OPEP, fizeram enormes investimentos, aquisições de obrigações e empréstimos a bancos norte-americanos, de tal forma que agora o fundo nacional saudita ascende a um milhão de milhões de dólares. Mas mesmo que os países da OPEP tenham reciclado todos os ganhos de exportação de petróleo para os EUA, apoiando a balança de pagamentos dos EUA, estes próprios países contraíram enormes quantidades de dívida, para financiar a sua própria criação interna de uma economia não petrolífera, que tem sido o seu objetivo.

O resultado é que, apesar de todo o dinheiro que têm ganho com as exportações de petróleo, pouparam tudo, investiram no estrangeiro e têm usado estas receitas de exportação para financiar novos empreendimentos imobiliários, desenvolvimento industrial, refinarias e empresas químicas, de que necessitam para levar as suas economias para além do petróleo. Bem, o que aconteceu foi que, agora que a guerra no Irão interrompeu todas estas receitas do petróleo, eles estão em apuros, e é óbvio que os Emirados Árabes, por exemplo, disseram aos EUA:   "Temos um problema. Temos de financiar o dinheiro que muitas das nossas indústrias e os investimentos do nosso governo têm; temos de o financiar vendendo alguns dos títulos dos EUA que temos acumulado ao longo de todos estes anos".

O problema é que muitos desses títulos foram emprestados a muitas dessas indústrias automáticas (artificiais), como as "7 mágicas" do Vale do Silício, por exemplo, que têm investido em capital privado e, neste momento, como a economia dos EUA está tão fortemente sobrecarregada com dívida, muitos fundos como a Blackrock bloquearam a capacidade dos investidores de resgatar os seus fundos. Existe um mercado para estes investimentos, mas os preços de mercado, se vender os investimentos que fez nestes fundos de capital privado, estão agora a ser vendidos com grandes descontos em relação ao preço de compra original.

Bem, os Emirados não querem ter prejuízo com isto, o que não é de admirar, e foi isso que levou aos acordos de swap que o secretário Bessent celebrou com eles. Não terão de vender os investimentos que fizeram em empresas de capital privado, não terão de vender as vossas carteiras de obrigações com prejuízo, uma vez que as nossas taxas de juro subiram, vamos fazer um acordo de swap, vamos emprestar-vos algumas centenas de milhões de dólares, vocês dar-nos-ão a vossa moeda e, dessa forma, poderão usar esses dólares que pediram emprestados para emitir a vossa própria moeda, para as vossas despesas, e não terão de vender quaisquer investimentos dos EUA.

Portanto, o objetivo principal destes swaps é impedir que o mercado financeiro dos EUA sofra de repente um colapso. Essa é, neste momento, a principal preocupação de Bessent. Ele escreveu vários artigos muito bons que explicam bem a situação:   a Reserva Federal, sob a administração Biden, adquiriu uma enorme quantidade de dívida federal dos bancos e concordou em pagar juros sobre as contas da Reserva Federal. Assim, a Reserva Federal emprestou dinheiro aos bancos durante muitos anos a 0,1%; eles podiam investi-lo a 2% ou mais como depósitos na Reserva Federal, apenas reciclando-o, é tudo financeiro.

Ele disse que temos de reduzir esta alavancagem da dívida. Bem, é difícil ver como é que isso pode ser reduzido. O perigo que Bessent via na guerra no Irã, a tentativa de outros países de financiar os seus défices petrolíferos, e a quebra do rendimento petrolífero da OPEP, e outros países a terem de pagar preços mais altos pelo petróleo, para obterem o óleo para alimentar as suas fábricas, aquecer as suas casas, tudo isso vai levar a uma venda massiva de títulos dos EUA, e quando há uma venda, os preços das ações e das obrigações descem.

É isso que esta guerra ameaça causar, quanto mais tempo se prolongar. Se os militares convencerem Trump de que não se pode ganhar uma guerra militar, qualquer tentativa de sufocar o desenvolvimento iraniano ao ponto de, como diz Trump, "eles gritarem “Tio, desistimos”", eles vão dizer "têm de estar a brincar, estamos isolados desde 1979. Se ainda não entramos em colapso, não vamos entrar. Podemos aguentar mais tempo do que vocês".

É essa a dinâmica que estamos a ver neste momento e que vamos ver desenrolar-se ao longo deste ano e do próximo.

IP – Concordo plenamente. É, tem razão, um esquema de reciclagem de dinheiro total, em que, na ironia das ironias, como os EUA estão tão alavancados, precisam de emprestar mais a outros países para evitar o seu colapso financeiro. É uma situação bastante notável.

MH – Essa é a ironia: que as despesas militares não estão a tirar a economia da depressão, estão a causá-la.

IP – De facto. Keynesianismo militar em oposição ao simples keynesianismo.

06/Maio/2026

[NR] No dia 7/Maio militares dos EUA fizeram uma série de ataques a objetivos iranianos próximos do Estreito de Ormuz, atingindo o porto de Qeshm e Bandar Abbas, bem como navios no Golfo de Oman. Ver https://t.me/HispanTVcanal/128473

Vídeo desta entrevista:
  • www.youtube.com/watch?v=tXDKBcGmT1g
  • [*] Economista.

    O original encontra-se em michael-hudson.com/2026/05/wars-are-won-by-economics-not-armies/

    Esta entrevista encontra-se em resistir.info
    Comentários em https://t.me/resistir_info


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