
A luta de classes na Colômbia não desapareceu nem diminuiu sob o governo progressista. O que mudou foi sua forma de manifestação, seu modo de inscrição na realidade social e política e, sobretudo, a perspectiva a partir da qual pode ser observada sem recorrer a simplificações excessivas. Ela não se apresenta mais como um confronto aberto entre sujeitos claramente definidos, nem como um choque frontal entre projetos mutuamente exclusivos, mas sim como uma densa teia de disputas que permeia o Estado, estruturando-o e, simultaneamente, transbordando-o. Nesse sentido, o erro mais persistente na interpretação da situação atual reside em enxergar os conflitos como meras diferenças políticas, divergências institucionais ou falhas de gestão, quando, na realidade, eles expressam a forma concreta que a luta de classes assume hoje em uma formação social marcada por profundas mediações.
Partir dessa premissa implica aceitar uma consequência teórica inevitável. O Estado não é a arena onde a luta de classes se desenrola, mas sim uma de suas formas de organização. Na medida em que condensa as relações de poder entre as classes, como argumentou Poulantzas, o Estado não apenas reflete essas relações, mas as estabiliza, hierarquiza e traduz em mecanismos institucionais que possibilitam sua reprodução. Isso significa que toda política pública, toda decisão judicial, toda negociação territorial, longe de ser um ato técnico ou administrativo, constitui um ponto de materialização de uma correlação de forças historicamente determinada. O Estado, nesse sentido, não é uma ferramenta a ser tomada nem um aparato a ser ocupado. É uma estrutura permeada por lutas que não se resolvem em seu interior, mas que também não podem ser compreendidas fora dele.
Dessa perspectiva, o governo progressista não pode ser interpretado como uma entidade externa que intervém no Estado para transformá-lo de fora para dentro, mas sim como uma forma específica pela qual essas relações de poder são reorganizadas internamente. Os paradoxos que explorei até agora, e que fundamentam esta reflexão, não são anomalias do processo nem desvios de um curso que deveria ter sido diferente. Eles constituem a sua própria lógica. A tensão entre reformas redistributivas e a continuidade do modelo econômico, entre a negociação do conflito armado e a persistência da violência, entre o discurso transformador e as práticas de manutenção da ordem, não expressa uma inconsistência política, mas sim a maneira concreta pela qual o Estado capitalista processa, incorpora e limita as demandas que o permeiam.
A luta de classes como uma disputa sobre a reprodução social.
A primeira dimensão em que essa dinâmica se torna visível é a da reprodução social. As reformas promovidas pelo governo nas áreas da saúde, previdência e tributação foram apresentadas como tentativas de corrigir desigualdades estruturais e ampliar direitos historicamente restringidos. No entanto, sua implementação concreta permite uma observação mais precisa da natureza da disputa. Essas reformas não se desenrolam em terreno neutro, mas sim dentro de um modelo de acumulação que mantém características fundamentais da ordem neoliberal, incluindo a centralidade do capital financeiro, a dependência de economias extrativistas e a integração subordinada ao mercado global.
Nesse contexto, o conflito em torno das reformas do sistema de saúde ou do sistema previdenciário não pode ser reduzido a um debate técnico sobre eficiência, cobertura ou sustentabilidade fiscal. Trata-se de um confronto entre diferentes formas de organizar a reprodução da força de trabalho. De um lado, estão setores do capital que transformaram a intermediação dos serviços sociais em um espaço privilegiado de acumulação, vinculando lógicas financeiras às necessidades básicas da população. De outro, estão setores sociais que buscam desmercantilizar parcialmente essas áreas e garantir condições de acesso menos dependentes da capacidade contributiva. O Estado não resolve essa contradição, nem mesmo a equilibra em um sentido abstrato. Ele a organiza de modo que sua resolução não altere as condições gerais de reprodução do sistema.
A resistência institucional encontrada por essas reformas permite-nos observar claramente esse processo. Decisões judiciais que suspendem ou limitam a implementação de políticas, reinterpretações normativas que restringem seu alcance e negociações parlamentares que as diluem não podem ser entendidas apenas como expressões de um sistema de freios e contrapesos. Elas constituem a forma pela qual certas facções dentro do bloco governante conseguem inscrever seus interesses na estrutura do Estado. A luta de classes, aqui, se traduz em conflito jurídico, uma disputa sobre legalidade e uma interpretação de normas que parecem universais, mas são permeadas por interesses específicos.
A ideia de um governo de esquerda avançando linearmente na expansão dos direitos encontra um limite que não é meramente circunstancial. Reformas que buscam modificar aspectos da distribuição social entram em conflito com um Estado cuja estrutura foi configurada para garantir a reprodução de certas relações de propriedade e acumulação. Essa tensão dá origem ao que anteriormente conceituei como progressismo regressivo. Não se trata de uma traição ou um desvio, mas sim de uma forma de governança em que a inclusão social ocorre sem alterar substancialmente as condições que geram a exclusão.
A luta de classes como meio de gerir conflitos armados
Uma segunda dimensão na qual a luta de classes se manifesta com particular intensidade é a do conflito armado e sua gestão. A política de paz total tem sido apresentada como uma tentativa de encerrar um ciclo histórico de violência por meio da negociação com diversos atores armados. Contudo, seu desenvolvimento revela que o conflito não pode ser reduzido a um problema de vontade política ou a uma questão de diálogo entre lados opostos. O conflito armado na Colômbia está profundamente entrelaçado com formas de acumulação, com disputas pelo controle territorial e com economias que estruturalmente combinam o legal e o ilegal.
Nesse sentido, a paz não pode ser entendida como a mera ausência de conflito armado. Ela implica uma reconfiguração do poder em territórios onde o Estado teve uma presença fragmentada e onde atores armados desempenharam um papel na regulação social, no controle econômico e na administração da vida cotidiana. Negociações com grupos armados, estratégias de subjugação e operações militares em curso fazem parte do mesmo processo, combinando mecanismos de cooperação e coerção. A luta de classes se expressa aqui como uma disputa por território, controle de recursos e a capacidade de impor normas que organizam a vida social.
O recente ressurgimento da violência em regiões específicas do país, longe de ser um mero revés ou uma anomalia no processo, revela a persistência das condições que tornam o conflito possível. A expansão das economias ilegais, a fragmentação dos atores armados e a incapacidade do Estado de monopolizar efetivamente a violência demonstram as limitações de uma estratégia que tenta transformar o conflito sem modificar as estruturas que o sustentam. A paz torna-se, assim, um processo de reorganização da ordem existente em vez de superá-la, uma forma de gestão de conflitos que não consegue desmantelar suas causas profundas.
A luta de classes como disputa hegemônica
Uma terceira dimensão, menos visível, mas não menos decisiva, é a luta pela hegemonia. A luta de classes não se trava apenas no nível da produção ou da violência organizada. Ela também se desdobra como uma luta por significado, pela definição de problemas e pela delimitação do que é possível. No caso colombiano, essa luta se evidencia na construção de narrativas sobre segurança, governança e crise. Discursos que enfatizam a deterioração da ordem pública, que apresentam as reformas como ameaças à estabilidade ou que descrevem o governo como incapaz de gerir o país não são meras opiniões. Constituem intervenções em uma luta pela direção política da sociedade.
A centralidade que a questão da segurança adquiriu nas últimas semanas ilustra esse processo. A insistência na necessidade de respostas mais duras, a deslegitimação das estratégias de negociação e a criação de uma atmosfera de incerteza contribuem para remodelar o panorama politicamente aceitável. A hegemonia não é imposta apenas pelo aparato estatal, mas o Estado desempenha um papel decisivo em sua articulação. Ele define quadros de interpretação, estabelece prioridades e legitima certas formas de intervenção. A luta de classes se manifesta aqui como uma disputa sobre a construção do senso comum, sobre a capacidade de definir o que constitui um problema e quais soluções são legítimas.
A aproximação de um novo ciclo eleitoral intensifica essa disputa. Diferentes forças políticas buscam capitalizar o descontentamento, redefinir alianças e construir narrativas que orientem o comportamento do eleitorado. O governo progressista se encontra em uma posição complexa, tendo que sustentar um projeto que enfrenta resistência estrutural enquanto, simultaneamente, tenta contestar o significado de suas próprias ações. A luta de classes, então, se apresenta como uma luta pela interpretação da realidade, como um confronto entre diferentes maneiras de nomear e compreender o presente.
A luta de classes dentro do próprio governo
Existe, contudo, uma dimensão adicional relacionada às tensões internas dentro do próprio governo. A esquerda no poder não constitui um bloco homogêneo; nela convergem projetos, interesses e estratégias que nem sempre são compatíveis. Algumas dessas orientações buscam ampliar direitos e transformar as relações de poder. Outras visam garantir a estabilidade do sistema por meio de ajustes parciais que não alterem seus fundamentos. Essa heterogeneidade não é uma falha no processo. É a expressão da maneira como o Estado organiza a unidade de forças que não são idênticas, mas que precisam ser coordenadas para governar.
As modificações no escopo das reformas, as alianças com setores tradicionais e as decisões econômicas que respondem a restrições estruturais não podem ser interpretadas meramente como concessões táticas. Elas expressam como o Estado impõe limites à ação política, ao mesmo tempo que possibilita certas margens de intervenção. O governo, portanto, aparece tanto como produto da luta de classes quanto como um de seus mecanismos de contenção. Essa condição dual não é transitória nem excepcional, mas sim constitutiva da forma estatal no capitalismo.
Compreender essa dinâmica exige abandonar interpretações que reduzem o problema a uma oposição entre um governo que tenta se transformar e elites que resistem a essa transformação. A relação é mais complexa. O Estado não é um campo vazio onde atores externos se confrontam; é uma estrutura que organiza esses confrontos de maneiras que tendem a reproduzir a ordem existente. Isso não significa que a transformação seja impossível; significa que ela não pode ser concebida como um processo linear ou como resultado direto da vontade política.
A luta de classes na Colômbia contemporânea manifesta-se como uma série de processos interconectados que permeiam a reprodução social, a gestão do conflito armado, a construção da hegemonia e as tensões internas da esquerda. Esses processos não são independentes. Estão inseridos em uma dinâmica na qual o Estado desempenha um papel central como organizador das relações de poder. Compreender essa dinâmica exige reconhecer que o problema político fundamental não se limita à luta pelo governo, mas se estende às condições estruturais que o tornam possível e que definem sua esfera de atuação.
Neste ponto, a questão da transformação assume um significado diferente. Não se trata simplesmente de modificar políticas ou expandir direitos dentro dos limites existentes. Trata-se de intervir nas relações de poder que o Estado concentra e reproduz. Isso implica uma articulação entre a ação estatal e a ação social que não pode ser substituída por nenhuma delas isoladamente. Implica também reconhecer que o Estado, como forma histórica de organização do poder, não pode simplesmente ser usado sem ser transformado.
O poder desta abordagem não reside em oferecer respostas imediatas ou propor soluções prontas. Reside em possibilitar uma compreensão mais precisa da realidade, em deslocar a análise da superfície dos fenômenos para as estruturas que os produzem. À medida que a luta de classes se torna menos visível, compreendê-la exige um esforço maior. Não basta identificar conflitos. É necessário reconstruir as formas como esses conflitos se organizam, se transformam e se inscrevem na realidade social. Somente a partir dessa reconstrução é possível pensar a política para além da gestão do presente e abrir a questão das condições para uma transformação que não se limite a gerir as tensões existentes, mas que vise modificá-las na sua raiz.
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