A América Latina na estratégia imperial

"Os Estados Unidos podem tolerar que a China mantenha laços econômicos estreitos com a América Latina, mas não podem aceitar relações militares, pois isso minaria a Doutrina Monroe." Foto/arquivo da AFP


John Mearsheimer é considerado o analista geopolítico mais importante nestes tempos de caos e colapso sistêmico, oferecendo análises tão claras e simples quanto profundas. Vale muito a pena ouvi-lo. Em uma entrevista recente, ele argumenta que, desde 2017, entramos em um mundo multipolar com os Estados Unidos, a China e a Rússia emergindo como grandes potências (Infobae, 9 de maio de 2026).

Essa transição da unipolaridade para a multipolaridade tem profundas consequências para o cenário global e abre um período de grande instabilidade, embora ele não a mencione nesses termos. Como latino-americanos, estamos interessados ​​em sua perspectiva sobre o papel do nosso continente na estratégia de Washington. "A América Latina é a área mais importante do mundo do ponto de vista estratégico para os Estados Unidos", afirma Mearsheimer.

“A questão crucial é que os Estados Unidos são uma potência hegemônica no Hemisfério Ocidental. São, de longe, o Estado mais poderoso do hemisfério: dominam todos os países da América Latina militar e economicamente. Portanto, não enfrentam ameaças à segurança por parte de seus vizinhos latino-americanos e gozam de notável segurança dentro do Hemisfério Ocidental. Isso lhes permite concentrar-se na Ásia Oriental, na Europa e no Golfo Pérsico”, conclui.

Os Estados Unidos podem tolerar que a China mantenha relações econômicas estreitas com a América Latina, mas não podem aceitar que esses países mantenham relações militares, pois isso prejudicaria a Doutrina Monroe.

Do sul, a brasileira Carolina Silva Pedroso, especialista em relações entre os Estados Unidos e a América Latina, argumenta que, segundo a Estratégia de Segurança Nacional divulgada em 2025, “a América Latina assume uma posição prioritária na política dos EUA, substituindo o Oriente Médio como região de interesse central” (IHU, 23 de junho de 2026, grifo meu).

Embora Nicholas Spykman já tivesse formulado essas ideias nas primeiras décadas do século passado, é necessário atualizar esses lembretes: o continente latino-americano é vital para que os Estados Unidos mantenham uma posição dominante no sistema internacional. Além disso, convém acrescentar que isso é especialmente verdadeiro agora que a potência hegemônica está em declínio e, por vezes, à beira do colapso como nação.

Com base nessas análises, acredito ser necessário e urgente compreender como essa realidade afeta e afetará os movimentos populares e os povos em movimento em nossa região. Não se trata de mais do mesmo, não é apenas uma repetição da longa história de sermos tratados como um "quintal", mas sim de mudanças estratégicas que devemos considerar.

A primeira é a militarização permanente e profunda do continente. O que antes era temporário e circunstancial tornou-se agora estrutural. A militarização de todas as facetas da vida, das relações sociais à natureza, veio para ficar; é o cerne da economia e a pedra angular da acumulação de capital. Ninguém deve acreditar que isso seja um desvio da norma (como foram os golpes de Estado), mas sim a própria norma por um período impossível de determinar, mas que não será breve. Portanto, devemos refletir sobre como resistiremos a essa nova realidade.

O segundo ponto é que a militarização não depende de quem governa, precisamente porque é uma questão estrutural do capitalismo contemporâneo. Nesse sentido, não existem fronteiras geográficas ou políticas. Observe os governos progressistas e verá que eles deram passos substanciais rumo à militarização em todos os países.

O terceiro ponto é que o patriarcado e o colonialismo também funcionam dentro da lógica militarista, o que os torna muito mais perigosos. Daí a expansão brutal dos feminicídios, com seus métodos extremamente predatórios que destroem as vidas e os corpos de mulheres e pessoas de cor.

O quarto ponto é que o militarismo se apresenta de muitas maneiras diferentes: do crime organizado aos programas sociais, incluindo a “cultura” que emana da mídia e as formas como os esportes comercializados são praticados.

Diante dessa situação, não surpreende que figuras como Keiko Fujimori, Bukele e agora De la Espriella, que compartilham o desprezo pela vida e a aliança com o crime organizado e paramilitares, tenham chegado ao poder. São esses os tipos de pessoas que o capitalismo precisa neste momento.

É urgente mudar de estratégia agora que os Estados-nação foram fortalecidos para servir ao capital e os Estados de bem-estar social foram desmantelados. A estratégia de duas etapas, que Wallerstein denunciou como um erro da velha esquerda (primeiro tomar o poder e depois mudar o mundo), nunca funcionou, mas agora apresenta um viés perigoso porque aprisiona o povo.

As novas estratégias são aquelas que alguns povos e movimentos vêm implementando nas últimas três décadas: defesa do território, autogoverno e autodefesa, ou seja, construção de autonomias.

"A leitura ilumina o espírito".

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