A nova estratégia de desgaste dos Estados Unidos busca asfixiar a Rússia simultaneamente por meio da pressão militar, do isolamento econômico e da instabilidade política interna
1.
Donald Trump já havia intensificado sua postura contra a Rússia em outubro de 2025, o que se manifestou em severas sanções contra as duas maiores empresas de energia do país, no cancelamento de seu encontro planejado com Vladimir Putin e, agora, na declaração de que não se reunirão novamente a menos que seja para finalizar um acordo sobre a Ucrânia.
O Wall Street Journal escreveu sobre as implicações dessa mudança repentina de posição, sugerindo que elas prenunciam uma intensificação da guerra de desgaste por procuração dos EUA contra a Rússia. Este artigo explora brevemente as formas que isso poderia assumir e sua probabilidade de sucesso.
O Wall Street Journal afirma que “a revolução dos drones (…) significa que nenhum dos lados provavelmente conseguirá avanços territoriais significativos tão cedo”, mas omite o fato de que isso também se deve ao apoio contínuo da OTAN à Ucrânia, incluindo a compra, pelo bloco, de armas americanas a preço integral para transferência ao país, conforme o novo esquema implementado no verão passado. Manter esse equilíbrio de fato entre drones e forças convencionais, que se deve ao apoio indispensável da OTAN à Ucrânia, é, portanto, a principal prioridade dos EUA se quiser enfraquecer a Rússia ao longo do tempo.
A segunda parte do que pode ser considerado a estratégia em três fases contra a Rússia, consiste na aplicação rigorosa das sanções mais recentes, especialmente em relação aos parceiros da Rússia, Índia e China, que juntos formam o núcleo do BRICS, a fim de reduzir drasticamente o fluxo de receitas externas da Rússia. O objetivo é criar as condições para o agravamento dos problemas socioeconômicos na Rússia, enquanto se corrói gradualmente seu status de grande potência, caso a Índia, a China e outros países comecem a se distanciar para evitar tarifas punitivas esmagadoras.
Por fim, a última parte visa incitar a agitação dentro da Rússia, exacerbando seus problemas socioeconômicos já mencionados, por meio do provável apoio a novos ataques ucranianos de longo alcance contra refinarias de petróleo e outras infraestruturas críticas, acreditando que a rápida deterioração das condições de vida fará com que a população se volte contra Vladimir Putin. A ideia é que a pressão política vinda de baixo complemente a pressão externa, seja ela econômica, política ou militar, para coagir Vladimir Putin a congelar a frente de batalha sem quaisquer concessões da Ucrânia.
2.
Cada parte da nova estratégia de três fases de Donald Trump contra a Rússia tem suas desvantagens. Começando pela primeira, o ônus financeiro de manter o equilíbrio de poder de fato nesta guerra por procuração recai sobre a Europa, alguns dos quais podem preferir reduzir os gastos com armamentos americanos para a Ucrânia em favor do reabastecimento de seus próprios estoques. Há também um crescente interesse em priorizar o complexo militar-industrial europeu em detrimento do americano. Portanto, não se pode presumir que as linhas de frente permanecerão inalteradas indefinidamente.
Em relação ao segundo ponto, não se espera que a Índia e a China interrompam completamente as importações de energia russa, pois os aumentos acentuados de preços prejudicariam seu crescimento econômico mais do que as tarifas punitivas dos EUA. Além disso, nenhum dos dois países deseja se desfazer de seus produtos russos, correndo o risco de que seu rival fortaleça os laços com a Rússia, o que poderia ser prejudicial para eles. Embora o fluxo de receita externa da Rússia possa diminuir, seus cofres de guerra podem continuar financiando o conflito por pelo menos mais alguns anos, adiando assim o impacto das sanções.
Por fim, o povo russo manteve a calma durante períodos muito mais difíceis na Segunda Guerra Mundial e após o colapso soviético do que qualquer coisa que possa vir a vivenciar com ataques ucranianos em larga escala contra sua infraestrutura crítica; portanto, não se espera que se envolvam em distúrbios graves. Os serviços de segurança também são suficientemente fortes para lidar com qualquer eventualidade. Por essas razões, a intensificação da guerra de desgaste por procuração dos EUA contra a Rússia dificilmente terá sucesso, mas ainda poderá causar alguns danos.
Considerando essa situação, e agora que Donald Trump acaba de sinalizar que planeja “intensificar para desescalar” as relações com a Rússia, conforme os termos da declaração conjunta do G7 que ele assinou sobre armas e sanções, isso pode começar a acontecer. Vale lembrar que o Wall Street Journal noticiou que essa estratégia em três fases envolve ajudar a Ucrânia a superar as capacidades de drones da Rússia, impor novas sanções secundárias e provocar instabilidade na Rússia.
Os ataques de drones de longo alcance da Ucrânia atingiram a infraestrutura energética em São Petersburgo, Moscou e até mesmo em Tyumen. (Este último ataque, possivelmente realizado por drones lançados do Cazaquistão sem o conhecimento de Astana). Na segunda-feira, a Ucrânia atacou uma fábrica de eletrônicos em Voronezh e um centro de comunicações via satélite na região de Moscou. Dois dias antes, no sábado, o chefe da Crimeia suspendeu a venda de combustível para todos, exceto para o governo, destacando as consequências do “bloqueio de drones” da Ucrânia na Crimeia. .
3.
A “guerra de desgaste” que a Ucrânia trava contra a Rússia por meio de ataques estratégicos à infraestrutura energética e outras áreas está planejada para coincidir com as próximas eleições para a Duma, em setembro. O partido Rússia Unida pode não conseguir manter os 49,82% dos votos populares obtidos nas últimas eleições, em 2021, o que poderia forçá-lo a formar uma coalizão com a oposição comunista ou nacionalista, dependendo do volume de votos de protesto. Os opositores estrangeiros de Putin acreditam que isso enfraqueceria a Rússia em vez de revitalizá-la e querem contribuir para que isso aconteça.
Os ataques mencionados são, portanto, acompanhados pelo ultimato de Volodymyr Zelensky a Lukashenko para que retire as defesas aéreas e as estações de retransmissão de drones da fronteira, ou a Ucrânia o fará por ele. Avalia-se que Vladimir Putin agora tem uma chance de restaurar a dissuasão se Volodymyr Zelensky autorizar ataques contra os 500 alvos que um de seus principais comandantes de drones afirmou ter identificado anteriormente na Bielorrússia. Se a dissuasão for restaurada, a Rússia poderá manter o ímpeto para derrotar a Ucrânia, encerrando rapidamente o conflito.
Se as coisas tomarem um rumo diferente, por exemplo, se a Rússia não restabelecer a dissuasão após um ataque ucraniano em larga escala contra Belarus, ou se nenhum ataque desse tipo ocorrer e o conflito se prolongar, então a “guerra de desgaste” de Donald Trump poderia de fato começar e atingir sistematicamente todos os alvos russos, um por um. Andrey Bezrukov, ex-chefe da espionagem russa, admitiu recentemente que “não estávamos preparados” para que o Starlink auxiliasse ataques contra infraestruturas críticas e recomendou a máxima proteção de todos os alvos sem demora.
Isso é difícil de fazer com um país tão grande quanto a Rússia, então, se Donald Trump “escalar para desescalar” de uma forma que reduza drasticamente os ataques estratégicos com drones contra a Ucrânia, a Rússia poderá ficar em desvantagem, já que o tempo não estará mais a seu favor, como muitos em Moscou presumiam anteriormente. A logística da Ucrânia está atualmente sob o guarda-chuva nuclear da OTAN, então, a menos que a Rússia arrisque uma Terceira Guerra Mundial atacando-a e apostando que ninguém (muito menos os EUA) retaliará, poderá enfrentar uma “morte por mil cortes”.[i]
A única alternativa, além de aniquilar a Ucrânia para neutralizar de vez as ameaças da OTAN provenientes de lá, conforme o objetivo da operação especial, seria a Rússia vender participações em seus recursos naturais e outras indústrias críticas aos EUA como uma “garantia de segurança”. Conhecendo Trump, ele provavelmente exigiria que essas participações fossem vendidas por uma ninharia e possivelmente incluíssem ações de controle, o que essencialmente cederia a soberania da Rússia. É por isso que a Rússia precisa derrotar a Ucrânia antes que sua “guerra de desgaste” realmente comece.
*Andrew Korybko é mestre em Relações Internacionais pelo Instituto Estadual de Relações Internacionais de Moscou. Autor do livro Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes (Expressão Popular). [https://amzn.to/46lAD1d]
Tradução: Artur Scavone.
Nota do tradutor
[i]A expressão “death by a thousand cuts” (literalmente, “morte por mil cortes”) significa que um projeto está sendo gradualmente destruído por uma série de pequenos obstáculos, em vez de um único evento catastrófico. O termo deriva de Lingchi, uma antiga forma chinesa de execução e tortura que envolvia cortes lentos e sucessivos no corpo da pessoa até a morte.
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