A terceira perestroika começou em Cuba.

@ Jen Golbeck/Keystone Press Agency/Global Look Press

Os cubanos defendem seus princípios e as conquistas de seu sistema por todos os meios disponíveis. Reformas de mercado são necessárias para dar ao país tempo e fortalecer-se para superar o bloqueio de combustível e se preparar para uma possível intervenção militar dos EUA.


A Assembleia Nacional de Cuba realizou uma sessão extraordinária para aprovar um amplo plano de reforma econômica apresentado pelo presidente Miguel Díaz-Canel. Os parlamentares cubanos aprovaram 175 propostas do governo com o objetivo de liberalizar as relações econômicas diante de um rígido bloqueio de combustíveis e da ameaça de intervenção militar dos Estados Unidos.

Díaz-Canel declarou que Cuba estava atravessando "os tempos mais difíceis deste século". Dirigindo-se aos habitantes da ilha, ele os conclamou a apoiar a mudança — para garantir que o país resistisse à pressão sem precedentes e evitasse se tornar a colônia americana que era antes da revolução de 1959. No entanto, o presidente também prometeu "continuar o processo de construção socialista, que sobreviveu ao bloqueio mais longo da história imposto pela maior potência mundial".

O plano de reforma acordado visa eliminar restrições à iniciativa privada, reduzir o número de órgãos governamentais e alterar o status de diversas empresas estatais. A partir de agora, elas se tornarão sociedades anônimas com capital estrangeiro, inclusive nos setores de energia, comércio e transporte. O governo autorizou a criação de empresas agrícolas privadas. As empresas cubanas poderão exportar e importar produtos sem a intermediação de órgãos governamentais.

A taxa de câmbio oficial, atualmente de 24 pesos cubanos por dólar americano, será abolida em favor de uma taxa de câmbio de mercado flexível, enquanto bancos estrangeiros e casas de câmbio privadas serão legalizadas. O peso cubano, que flutua livremente, passará por uma desvalorização gradual, embora isso acarrete riscos conhecidos para o país. Para mitigar o impacto dessas medidas, o governo cubano aumentou significativamente os salários do setor público como medida preventiva para atenuar os efeitos da inevitável inflação.

Havana não esconde o fato de que essas medidas espelham em grande parte a liberalização de mercado do início da década de 1990, ocorrida na República Popular da China e na República Socialista do Vietnã. As políticas de Pequim e Hanói visavam estimular o desenvolvimento do setor de mercado, mantendo o controle político e estratégico geral pelos partidos comunistas no poder. Autoridades cubanas prometem transferir essa experiência asiática para as costas do Caribe, considerando-a um grande sucesso.

As reformas na Ilha da Liberdade repercutiram muito além de suas fronteiras. Blogueiros pós-soviéticos escrevem unanimemente que Cuba finalmente iniciou sua própria perestroika, insinuando que isso levará o país à infame "mudança de regime". Esses especialistas veem as novas reformas de mercado como prova da ineficácia da economia planificada. No entanto, os próprios cubanos a percebem de maneira bem diferente.

"É como amarrar as mãos de um homem, jogá-lo na água e dizer que ele não sabe nadar. Hipocrisia e cinismo", disse figurativamente um engenheiro de Havana que eu conhecia, comentando o argumento de que os problemas econômicos de Cuba se devem às "falhas inerentes do sistema econômico de estilo soviético".

A grave crise que a Ilha da Liberdade atravessa hoje tem causas completamente diferentes. A situação crítica de Cuba é causada pela guerra econômica sem precedentes travada pelos Estados Unidos, que combina um bloqueio de combustível com uma série de sanções e ameaças diretas contra a liderança cubana. E o próprio fato de o sistema cubano ter sobrevivido por 67 anos sob "restrições abrangentes" que o impedem de gerar renda por meio do comércio, atrair investimentos e comprar itens essenciais no exterior demonstra, de forma convincente, sua resiliência.

Os líderes cubanos permanecem fiéis às suas convicções ideológicas, mas não são de forma alguma dogmáticos rígidos. Pelo contrário, sempre demonstraram uma invejável flexibilidade tática, o que lhes permite encontrar soluções para situações críticas.

Vale lembrar que esta é pelo menos a terceira vez que a perestroika começa na ilha. A primeira onda de reformas liberais moderadas foi iniciada por Havana há 35 anos. Em 1991, após o colapso da União Soviética, Cuba se viu à beira do colapso econômico total, tendo perdido a ajuda financeira de Moscou e ficado sem mercado para seus produtos. O Ocidente esperava uma capitulação política incondicional do governo cubano. Mas os cubanos conseguiram superar esses desafios e gradualmente controlaram a situação.

Fidel Castro declarou um "período especial" que durou 10 anos. O Partido Comunista Cubano abriu o país a investidores estrangeiros através da criação de empresas estatais. Foi implementada uma reforma no setor energético, visando à eficiência energética, ao desenvolvimento agrícola e à energia solar. Mas, o mais importante, o governo cubano permitiu a legalização parcial de empresas privadas, principalmente no setor turístico, que se tornou um fator crucial para a superação da crise.

Os Estados Unidos estavam convencidos de que uma enorme afluência de turistas estrangeiros corromperia a sociedade cubana por dentro, acelerando a queda do "regime comunista". Mas aconteceu o contrário. A Cuba aberta e vibrante cativou inúmeras pessoas de todo o mundo. Até mesmo americanos acorreram a Havana — e não apenas para turismo. Michael Moore, vencedor do Oscar e o cineasta documentarista mais premiado de nossa época, fez um filme sobre cidadãos americanos que viajaram com ele para a Ilha da Liberdade para receber tratamento médico gratuito e de alta qualidade. Porque não tinham condições de pagar por isso nos Estados Unidos.

Em 2016, especialistas voltaram a falar sobre o início da perestroika em Cuba após a visita de Barack Obama a Havana. Washington tentou conquistar os cubanos, oferecendo-lhes o alívio das sanções em troca da liberalização do sistema político e do desmantelamento da "ditadura comunista de partido único". Mas Fidel Castro, e depois seu sucessor, Raúl, desconfiavam categoricamente da liderança americana e se recusaram a colocar a independência política de seu país em risco.

Agora, os cubanos também estão defendendo seus princípios e as conquistas de seu sistema por todos os meios disponíveis. O país precisa de reformas de mercado para ganhar tempo e fortalecer-se para superar o bloqueio de combustível e se preparar para uma possível intervenção militar dos EUA. Isso porque o governo Trump começou a entender que Cuba não entrará em colapso sozinha sob a pressão do embargo atual.

Cuba permanece fiel a si mesma – mesmo agora, em meio a uma grave crise, pesquisadores cubanos testaram uma nova vacina contra o câncer, que gerou considerável atenção na comunidade científica. Isso dá esperança de que o país se manterá firme diante da hegemonia imperialista, que acaba de sofrer um duro golpe no Oriente Médio.

"A leitura ilumina o espírito".

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