A verdadeira ameaça de Donald Trump no Oriente Médio o liga a JFK.

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Martin Jay
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Uma espécie de desentendimento está começando a aparecer entre Trump e Netanyahu, e está se tornando cada vez mais difícil de ignorar.

À medida que cresce a expectativa em torno da possível assinatura do novo e chamado "Acordo com o Irã", uma espécie de desentendimento começa a surgir entre Trump e Netanyahu, tornando-se cada vez mais difícil de ignorar. Trump não apenas se recusou a permitir que Bibi e seu governo examinassem a versão final do acordo, como também lançou uma bomba na recente reunião do G7 na França, ao mencionar que acreditava que a Síria estaria em melhor posição para enfrentar o Hezbollah no Líbano do que as Forças de Defesa de Israel (IDF). Essa mensagem veio em duas partes. Primeiro, Trump acredita que há uma grande probabilidade de o acordo não se sustentar, já que Bibi não demonstrou nenhuma intenção de cessar as hostilidades no Líbano com suas forças da IDF. Segundo, Trump já está se preparando para o azedamento da relação entre esses dois líderes mundiais. Se Bibi não conseguir parar de combater o Hezbollah após a assinatura do acordo, Trump se sentirá ameaçado e humilhado, e terá que reagir tanto para salvar as aparências quanto para afirmar sua onipotência na região. Isso pode muito bem chegar a um ponto em que ele rompa completamente com Bibi e busque criar uma conspiração com o lobby judaico nos EUA para removê-lo do cargo, possivelmente até mesmo suspendendo o enorme subsídio militar de Israel, de 3 bilhões de dólares, proveniente dos Estados Unidos.

Parece improvável? Talvez, mas não é mais implausível do que os eventos extraordinários dos últimos três meses, em que Trump iniciou uma guerra com o Irã que fez os EUA perderem influência na região, deu ao Irã o controle do Estreito de Ormuz e, efetivamente, transformou Teerã em uma quarta superpotência em formação. As consequências de ter acreditado cegamente nas alegações de mudança de regime no Irã feitas por Israel foram colossais e representam uma das maiores derrotas militares americanas de todos os tempos, deixando Trump preocupado com a forma como os historiadores irão retratar o ocorrido, com ele saindo dessa situação como um homem-criança imaturo e inseguro que quase destruiu toda a economia global apenas para provar um ponto a Obama.

Trump estará preocupado com seu legado, mas, a curto prazo, também está preocupado com os mercados, que não se recuperaram como ele esperava. Ainda existem muitos obstáculos para que o acordo funcione, e muitos analistas céticos argumentam que o Irã já conquistou tanto que será difícil negociar com o país em 60 dias para garantir o acordo rápido sobre armas nucleares que Trump precisa. O próprio presidente americano buscará outras maneiras de recuperar parte de sua credibilidade, especialmente junto às elites árabes do Golfo, que hoje questionam se ainda são aliadas de Washington. Uma maneira de fazer isso seria fortalecer a Síria e usar seu novo ex-terrorista assassino como um aliado na região para atacar tanto o Hezbollah quanto o próprio Israel – que sempre manteve relações cordiais com o presidente sírio, embora Israel alimente ambições de anexar a Síria com seu plano de "Grande Israel". Al Sharaa, ou Al Jolani – ou qualquer que seja o nome que ele use atualmente – sempre manteve Israel sabiamente à distância, ao mesmo tempo que se certificava de não se tornar seu inimigo.

Existem, porém, alguns problemas com a ideia de Trump, já que ela não foi realmente bem pensada, o que leva alguns a especular que pode ter sido apenas uma mensagem para Israel, sem qualquer intenção real. O principal problema é que o exército sírio não é lá essas coisas, e a maioria dos analistas prevê que não seria páreo para os combatentes do Hezbollah no Líbano. O segundo problema é que o Irã e todos os seus aliados na região – em particular no Iraque – estão desesperados para tentar derrubar o regime em Damasco, com o qual lutaram durante anos na Síria, durante toda a guerra civil síria, quando Assad contava com o apoio tanto do Hezbollah quanto do Irã. Assim, se o líder sírio recebesse ordens para atacar o Hezbollah, isso provocaria uma reação explosiva do Irã, que retaliaria, o que deflagraria uma guerra regional, presumivelmente destruindo qualquer acordo de paz que o Ocidente esperasse que se mantivesse com o Irã e mantendo o estreito aberto.

A ideia de Trump de usar grupos regionais por procuração – tradicionalmente extremistas sunitas que poderiam ser colocados na folha de pagamento dos EUA, algo que os Estados Unidos sempre fizeram no passado para realizar seus trabalhos sujos – não é, obviamente, nenhuma novidade. Os Estados Unidos e o Reino Unido fazem isso há décadas, então pagar assassinos para lutar na região a fim de derrubar grupos que representam um problema para o Ocidente não chega a ser algo inovador. Mas o que Trump não percebe é que esse tipo de turbulência seria exatamente o que Bibi desejaria, pois assim ele poderia usá-la para desviar a culpa de si mesmo e impedir que suas ações fossem apontadas como a verdadeira causa do colapso do acordo com o Irã. Cuidado com o que você deseja. A verdadeira guerra que Trump está travando para manter seu acordo de paz vivo não é nem mesmo contra o Irã, mas contra dois poderosos lobbies nos EUA que farão de tudo para garantir que a região mergulhe novamente no caos e que novos acordos de armas possam ser firmados: o lobby judaico e o complexo industrial-militar dos EUA. Este último simplesmente não pode sobreviver sem que o governo em Washington lhe forneça contratos lucrativos, tanto para financiar guerras de seus aliados quanto para alocar tropas americanas. JFK foi assassinado porque queria o fim da Guerra do Vietnã, privando assim o complexo militar-industrial de bilhões de dólares ao longo dos anos. Trump se apresenta, portanto, como alguém que também representa a mesma ameaça, já que conceder tanto poder ao Irã na região não se traduz em vendas de armas. Uma questão que os jornalistas americanos não estão abordando é como os fabricantes de armas dos EUA planejam lidar com o abandono completo dos EUA como protetor e fornecedor de armas pelos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

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