Colômbia na mira de "El Tigre"

O candidato presidencial colombiano Abelardo de la Espriella, do movimento Salvadores de la Patria, gesticula enquanto discursa para seus apoiadores atrás de um vidro à prova de balas durante um evento de campanha em Cartagena, Colômbia, em 9 de junho de 2026. (Manuel Pedraza / AFP via Getty Images)


TRADUÇÃO: PEDRO PERUCCA

Neste domingo, a Colômbia decide entre o Pacto Histórico, de esquerda, e o candidato de extrema-direita apoiado por Donald Trump. O país é o alvo mais recente da "Doutrina Donroe", que defende que a América Latina pertence a Washington para ser governada ou arruinada.

Na segunda-feira, 8 de junho, recebi notícias terríveis da minha amiga Rosa, uma jovem ativista e fundadora de três hortas comunitárias em bairros carentes da zona norte de Bogotá. Vândalos destruíram um dos seus espaços, o Jardim dos Polinizadores, em Suba.

Homens enfurecidos e ousados, munidos de facões, pás e machados, derrubaram abacateiros e tamareiros, bananeiras e árvores frutíferas, destruindo plantações de lavanda, arruda, couve, orégano, manjericão e muitas outras hortaliças e ervas. Chorei ao ver as fotos da terra seca e marrom onde eu costumava caminhar com ela e seus amigos, em meio a toda aquela vegetação exuberante e emaranhada.

“Eles não tiveram medo de nada”, disse-me Rosa (cujo nome foi alterado para proteger seu anonimato). “Fizeram isso em plena luz do dia.” Manifestei minha solidariedade. “É como se o candidato deles já tivesse vencido”, acrescentou ela.

O segundo turno das eleições deste domingo levará o país a um de dois caminhos possíveis: um festival de ódio, exclusão e violência, ou a continuação de uma experiência progressista imperfeita. Após o primeiro turno, em 31 de maio, o senador Iván Cepeda, do Pacto Histórico, de esquerda, obteve 9,64 milhões de votos, enquanto o advogado Abelardo de la Espriella, um novato na política com uma estética neofascista, inesperadamente assumiu a liderança com 10,31 milhões de votos. A candidata que ficou em terceiro lugar, Paloma Valencia, uma conservadora tradicional originalmente apoiada pelo ex-presidente de direita Álvaro Uribe, foi eliminada.

Os resultados abalaram os inúmeros estrategistas e ativistas do Pacto. Cepeda e sua candidata a vice-presidente, a renomada líder indígena Aida Quilcué, também senadora, lideravam as pesquisas com uma margem significativa até o próprio dia da eleição. Na manhã seguinte, todos voltaram ao trabalho: ativistas trabalhistas e climáticos, líderes afro-colombianos e indígenas, feministas, pessoas LGBTQIA+ e todos os seus aliados. A questão agora é se os colombianos que levaram o primeiro governo de esquerda do país ao poder serão capazes de garantir o futuro de seu projeto progressista.

O candidato de extrema-direita, Abelardo de la Espriella, é uma caricatura de uma figura repreensível, um entusiasta e manipulador da mídia com dupla cidadania colombiana e americana. Existem vídeos de De la Espriella se gabando de explodir gatos com fogos de artifício. Numerosas declarações vis, misóginas e homofóbicas de sua autoria são de domínio público. Como advogado, representou figuras duvidosas ligadas ao narcotráfico e à violência paramilitar. Viveu em Miami durante grande parte de sua vida adulta. Em anúncios sofisticados nas redes sociais, apresenta-se como "O Tigre". Compartilha características semelhantes com muitos de sua laia: Nayib Bukele, de El Salvador, Javier Milei, da Argentina, e Daniel Noboa, do Equador.

O candidato do Pacto, Iván Cepeda, é um homem ponderado com ares de professor de filosofia. Foi senador no parlamento colombiano por doze anos. Seu pai, Manuel Cepeda, também foi senador. O patriarca Cepeda foi assassinado em 1994, como parte de uma campanha nacional de assassinatos contra políticos de esquerda que, segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, eliminou cerca de 6.000 líderes e ativistas em menos de uma década. Iván Cepeda tornou-se membro fundador e o ativista mais persistente em defesa das vítimas da violência estatal durante os anos finais da longa e amarga guerra civil. Ele próprio foi reconhecido como vítima em um processo judicial bem-sucedido que, em 2025, levou o ex-presidente Uribe (temporariamente) à justiça. Aida Quilcué também é vítima da violência estatal. Em 2008, soldados do governo atiraram e mataram seu marido. Seis soldados foram posteriormente condenados pelo assassinato.

O Pacto Histórico foi formado em 2021 e venceu as eleições presidenciais um ano depois, levando ao poder, pela primeira vez, um presidente de esquerda. Gustavo Petro, ex-guerrilheiro, provou ser um presidente dinâmico e enérgico, sem medo de confrontar Donald Trump e seus aliados.

Durante os quatro anos de mandato de Petro, houve conquistas significativas: reformas previdenciárias e agrárias, leis que tornaram o ensino superior gratuito em caráter permanente, proteção de biorregiões de importância crítica, especialmente na Amazônia, e o lançamento de um forte movimento internacional para o desinvestimento em combustíveis fósseis. Também houve contratempos decepcionantes: as melhorias na saúde pública foram prejudicadas pela burocracia parlamentar, e a Colômbia continuou a bater recordes de assassinatos de defensores da terra. A promessa de "Paz Total" de Petro permanece distante, já que remanescentes de guerrilhas e inúmeras gangues paramilitares e de narcotráfico continuam a aterrorizar áreas rurais.

Fechando fileiras

O Pacto me convidou para a Colômbia para monitorar as eleições como parte da Missão Unificada de Observação Eleitoral Internacional. Havia grandes expectativas de que a chapa Cepeda-Quilcué vencesse a eleição no primeiro turno, ultrapassando a cláusula de barreira de 50%.

Em 29 de maio, houve um coquetel para a equipe internacional de observadores no subsolo de um elegante hotel. Cheguei atrasado. Meu táxi percorreu lentamente as ruas congestionadas de Bogotá enquanto o sol se punha sobre a cidade imperfeita e repleta de lixo. Ao chegar, encontrei-me em meio a um seleto grupo da elite progressista internacional: um líder do partido Podemos, da Espanha; membros da Câmara dos Lordes e da Câmara dos Comuns do Reino Unido; representantes do Sinn Féin, do Parlamento Europeu e do Partido Comunista Português; e ativistas de esquerda da maior parte da América Latina e do Caribe, incluindo Argentina, Uruguai, Chile, México, República Dominicana e Brasil. Todos sabiam: esta eleição na Colômbia era sobre mais do que apenas o futuro político de um único país. A faca de Trump estava desembainhada, buscando dividir a América Latina, tratando a região mais uma vez como se lhe pertencesse para governar ou arruinar. Ele detestava Petro e estava determinado: a Colômbia seria dele.

No dia 31 de maio, no final da tarde, quando as urnas fecharam, os membros do Pacto se aglomeraram em outro quarto de hotel, um enorme. Estavam agitados, animados. Ainda não havia números, mas relatos indicavam que mais colombianos do que nunca haviam votado. Um dos jovens e entusiasmados voluntários do Pacto me arrastou por uma multidão incrível, me espremeu entre os seguranças e uma porta, colocou uma fina pulseira de segurança em mim e então me soltou no imenso quarto com todos os outros fiéis, para esperar.

A emissora nacional de televisão RTVC transmitia ao vivo. A cada poucos minutos, um gongo grave e sombrio soava. Os analistas faziam uma pausa e o locutor anunciava a última contagem de votos. Ficou imediatamente claro: Cepeda não venceria a presidência no primeiro turno. De la Espriella manteve a liderança e nunca a perdeu, embora nunca tenha ultrapassado os 50%. O clima no quarto do hotel permanecia tenso, mas mais sério, determinado a não se render sem lutar.

Nosso grupo de observadores relatou pouca ou nenhuma violência nos locais de votação (uma melhora significativa). Aproximadamente 600 incidentes menores de intimidação foram registrados — compra de votos, cortes de energia e interrupções no processo eleitoral. Houve irregularidades — uso indevido de cores partidárias por mesários —, mas nenhuma fraude visível em larga escala foi detectada.

Com quase todos os votos apurados, Cepeda e Quilcué discursaram para a multidão entusiasmada. Os ânimos estavam exaltados. Cepeda falou: “É hora de nos unirmos. Temos três semanas para lutar pela Colômbia.” Aida disse: “Esta é uma luta pela Mãe Terra. Por toda a vida.” A multidão aplaudiu fervorosamente e depois se dispersou, energizada e pronta.

Na manhã seguinte, a equipe internacional de observação reuniu-se com representantes do Pacto para uma análise pós-eleitoral do primeiro turno. Na noite da eleição, Petro (e posteriormente Cepeda) denunciaram fraudes em larga escala. Essa questão foi deixada de lado na reunião. O que ficou claro, porém, foi a manipulação em larga escala e a influência indevida de forças externas à Colômbia.

Estávamos testemunhando o desenrolar de um plano meticulosamente elaborado, com raízes profundas no governo Trump. O recém-eleito senador americano Bernie Moreno, de Ohio, colombiano de nascimento e com fortes laços com a classe conservadora rica, estava em campo, orquestrando a imagem pública da posição de Trump.

O Pacto foi vítima de uma campanha massiva de desinformação nas redes sociais e em outros meios. Agitadores de extrema-direita empregaram todas as táticas, recorrendo a estereótipos batidos: os comunistas estão vindo para destruir o país. Eles vão acabar com seus pequenos negócios. Eles são ateus. A equipe de De la Espriella, inspirando-se na maestria de Bukele em manipulação, criou duas fábricas de trolls. Segundo os cálculos do Pacto, mais de 100 mil contas falsas foram rapidamente colocadas em operação, espalhando desinformação e semeando dúvidas.

"Jogamos limpo, fizemos campanha da maneira tradicional", disse o senador Alirio Uribe, do Pacto.

Tínhamos equipes em todos os departamentos, manifestações em todas as principais cidades. Dezenas de milhares de voluntários — jovens, líderes comunitários, ativistas. Mas, no fim, perdemos o fôlego. Não temos os mesmos recursos que De la Espriella. A campanha dele focou em ódio, violência, vulgaridade e ameaças. Nós simplesmente não vamos nos rebaixar a isso.

“A Colômbia é um país que está sentindo o impacto das políticas de Trump em tempo real”, disse Ana Cristina, ativista do Pacto. “O neoliberalismo está morto. Estamos enfrentando o neofascismo. O plano dele foi claramente exposto. Simplesmente não conseguimos acreditar.”

A Doutrina Donroe

Em 2 de junho, o presidente Trump interveio nas eleições colombianas por meio de sua plataforma, Verdade Social. “Abelardo tem meu apoio total e irrestrito”, escreveu ele. Ele não mencionou Cepeda pelo nome, mas chamou o oponente de Abelardo de “marxista radical de esquerda”. Trump disse que estava do lado de “El Tigre” (O Tigre) “por causa de suas tremendas realizações na vida e por seu apoio político a mim, pessoalmente”. Mais preocupante ainda, essa interferência na Colômbia faz parte de um imperialismo estadunidense renovado e revitalizado nas Américas.

Em setembro de 2025, as forças armadas dos EUA iniciaram sua campanha para destruir embarcações na costa da Colômbia, no Caribe e no Pacífico. Simultaneamente, Trump declarou que os cartéis de drogas seriam designados como organizações terroristas estrangeiras. Em seguida, passou a se referir ao presidente Gustavo Petro como um “narco-líder ilegal” (assim como já havia feito com o presidente venezuelano Nicolás Maduro). Depois, em dezembro de 2025, Trump apresentou sua Estratégia de Segurança Nacional (ESN), chamando-a de “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, ou “Doutrina Donroe”.

A Doutrina Monroe de 1823 estipulava que os Estados Unidos — ainda não a potência mais poderosa das Américas — não interviriam nos assuntos europeus. Em troca, a Europa deixaria as Américas em paz. A primeira grande alteração à doutrina, o Corolário Roosevelt de 1904, estabeleceu que os Estados Unidos poderiam interferir quando e onde quisessem nas Américas. E foi o que fizeram imediatamente: invasão ou ocupação aqui, mudança de regime secreta ali, assassinatos e treinamento de assassinos, desaparecimentos, destruição de movimentos populares e de esquerda, da Guatemala ao Chile. Em quase todos os países, em quase todas as regiões das Américas, apoiaram exércitos locais e oligarcas nos últimos 120 anos.

"A política dos EUA deve se concentrar em recrutar líderes regionais que possam contribuir para a criação de uma estabilidade tolerável na região, mesmo além das fronteiras desses parceiros", afirma o novo documento da Estratégia de Segurança Nacional.

O plano rapidamente se transformou em ação: a invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente e sua esposa; o estrangulamento de Cuba; os ataques contínuos a pequenas embarcações. Os aliados de Trump na região se tornaram mais ousados: Milei na Argentina (que recebeu um "pacote de apoio financeiro" de US$ 20 bilhões de Trump), Bukele em El Salvador (que apertou cada vez mais o cerco à pequena nação centro-americana, enviando advogados, jornalistas e ativistas de direitos humanos para o exílio e aceitando US$ 5 milhões dos Estados Unidos para abrigar "hostilidades estrangeiras" em suas megaprisões monstruosas) e Noboa no Equador (que interferiu diretamente nas eleições colombianas, prometendo punir o país com tarifas caso a esquerda vencesse). Entre os políticos mais recentes — também de extrema-direita — estão José Antonio Kast, do Chile, cujo pai era membro do Partido Nazista Alemão e que ostenta com orgulho a bandeira, até recentemente desacreditada, de Augusto Pinochet, e Honduras, onde Trump — também sem a menor vergonha — interferiu nas eleições presidenciais de novembro passado, garantindo a vitória de seu candidato, Nasry Asfura.

Em 7 de março de 2026, esses e outros líderes latino-americanos de extrema-direita — uma reunião nada surpreendente — encontraram-se na Flórida com membros da equipe de Trump, incluindo o Secretário de Defesa Pete Hegseth, o Secretário de Estado Marco Rubio e a recentemente desacreditada e agora transferida Enviada Especial Kristi Noem. Na reunião, Trump assinou a criação do chamado Escudo das Américas, também conhecido como Coalizão Anticartel das Américas. O principal objetivo declarado do escudo: combater o narcotráfico. Os verdadeiros alvos do escudo são os governos progressistas do México, da Colômbia e do Brasil.

O que torna o objetivo declarado da Operação Shield de combater as drogas mais do que uma farsa — uma afronta direta — foi o indulto concedido por Trump a Juan Orlando Hernández em novembro de 2025. Hernández, ex-presidente de Honduras, havia sido condenado por tráfico de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos e sentenciado a 45 anos de prisão. Na época, o Procurador-Geral Merrick Garland afirmou: "Como presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández abusou de seu poder para apoiar uma das maiores e mais violentas conspirações de narcotráfico do mundo, e o povo de Honduras e dos Estados Unidos sofreu as consequências". Esta é a luta de Trump contra o narcoterrorismo.

Um mundo a perder

Colombianos do Pacto e de outros países estão dando tudo de si neste último turno das eleições, neste domingo. Eles também se preparam para resistir caso haja uma reviravolta no cenário político. Passaram a maior parte da vida na oposição. Pela primeira vez, têm muito a perder.

Minha amiga e seus colegas em Suba organizaram uma vigília em homenagem ao seu jardim devastado. As pessoas trouxeram velas e poemas. "Eu consigo entender a organização de ações para combater o crime, para combater os traficantes de drogas. Mas quem organiza uma campanha para destruir comida e flores?", perguntou Rosa.

"Quem é que odeia tanto esta vida?"


EMILIE TERESA SMITH
Escritora argentina, freira anglicana e copresidente da Rede Cristã Óscar Romero (SICSAL). Foi membro das Forças Armadas Rebeldes da Guatemala de 1988 a 1995.

"A leitura ilumina o espírito".
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