De 'Fúria Épica' a 'Vitória Falsa'


Trump está tentando encontrar uma saída digna para o atoleiro da guerra, fazendo afirmações irrealistas sobre os resultados das negociações com o Irã.

Por Hossein Amiri
TEERÃ - O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou mais uma vez que Washington está perto de chegar a um entendimento com o Irã, enquanto fontes iranianas rejeitaram suas declarações como uma mistura de "verdade e exagero" com o objetivo de criar uma falsa impressão de vitória para os Estados Unidos.

Em uma série de declarações publicadas no Truth Social, Trump afirmou que o Irã "deve concordar que jamais possuirá uma arma nuclear ou uma bomba nuclear", e também pediu a reabertura imediata do Estreito de Ormuz "sem quaisquer taxas de trânsito em nenhuma das direções".

Trump afirmou ainda que as restrições navais impostas ao redor do Irã seriam suspensas e declarou que os navios retidos no Estreito de Ormuz poderiam começar a retornar aos seus destinos. Ele também alegou que as minas marítimas na área seriam removidas, afirmando que as forças americanas já haviam destruído muitas delas e que o Irã removeria as minas restantes.

O presidente dos EUA afirmou ainda que qualquer extração do que descreveu como "poeira nuclear enterrada" seria realizada em coordenação com o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Ao mesmo tempo, porém, ressaltou que "nenhuma transação financeira com o Irã" ocorreria "até segunda ordem".

Trump também anunciou que convocaria uma reunião na Sala de Situação da Casa Branca para tomar uma “decisão final” em relação aos desdobramentos em curso.

Fontes iranianas, no entanto, refutaram veementemente várias das afirmações de Trump. Fontes citadas pela agência de notícias Fars disseram que as declarações do presidente americano eram “uma combinação de realidade e falsidade” com o intuito de criar a impressão de um triunfo diplomático para Washington.

Segundo as mesmas fontes, Trump afirmou falsamente que o Irã desmantelaria ou destruiria seu material nuclear, insistindo que tal disposição não existe no memorando de entendimento atualmente em discussão.

Autoridades citadas pela mídia iraniana enfatizaram que Teerã não avançará para a próxima fase de negociações sobre o alívio das sanções ou questões nucleares até que todos os assuntos pendentes descritos no memorando sejam resolvidos.

Eles enfatizaram ainda que qualquer acordo final seria redigido estritamente com base nas "linhas vermelhas" do Irã e na longa desconfiança de Teerã em relação aos Estados Unidos.

Autoridades iranianas também ressaltaram que qualquer acordo potencial incluiria mecanismos para uma “resposta recíproca imediata” caso Washington viole novamente seus compromissos.

Um funcionário iraniano citado pela agência de notícias Mehr disse que as últimas declarações de Trump "refletem mais o que ele deseja do que a realidade no terreno".

Apesar da retórica renovada de Washington, as autoridades iranianas afirmam que ainda não se chegou a um entendimento final e alertam que declarações americanas semelhantes sobre estarem "perto de um acordo" já foram repetidas muitas vezes antes sem produzir resultados concretos.

As tensões entre o Irã e os Estados Unidos entraram em uma nova fase após os confrontos dos últimos dias no Golfo Pérsico e os ataques militares americanos ao sul do Irã.

Um oficial americano não identificado disse à Reuters que as forças armadas dos EUA realizaram ataques na madrugada de quinta-feira contra um alvo próximo ao Estreito de Ormuz. O oficial afirmou que o local representava uma ameaça às forças americanas e à navegação marítima nessa via navegável estratégica.

Embora Washington tenha tentado justificar suas ações como medidas destinadas a "proteger as forças americanas e a segurança marítima", autoridades iranianas descrevem os ataques como uma violação flagrante do cessar-fogo e uma continuação das políticas hostis americanas na região.

JD Vance, vice-presidente dos EUA e chefe da equipe de negociação americana, descreveu a situação do cessar-fogo como "complicada", reconhecendo implicitamente possíveis falhas de coordenação entre as forças americanas. Ele afirmou que os comandantes de campo às vezes não estão totalmente alinhados com os altos escalões e que "erros" podem acontecer.

Entretanto, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) acusou o Irã de violar o cessar-fogo, alegando que Teerã lançou um míssil balístico em direção ao Kuwait e implantou vários drones de ataque perto do Estreito de Ormuz. Contudo, a declaração dos EUA não mencionou se as supostas ações iranianas ocorreram após os últimos ataques americanos contra território iraniano.

Teerã rejeitou a versão de Washington e insiste que as ações do Irã foram uma resposta direta à repetida agressão dos EUA. Em um comunicado, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) anunciou que, após as forças americanas atacarem uma área próxima ao Aeroporto de Bandar Abbas na madrugada de quinta-feira, a base aérea americana (no Kuwait) usada para lançar o ataque foi alvo de retaliação.

Ao mesmo tempo, o vice-ministro das Relações Exteriores para Assuntos Jurídicos e Internacionais, Kazem Gharibabadi, afirmou que a resposta da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) às "provocações americanas" demonstrou a plena prontidão das forças armadas iranianas e alertou que Teerã responderá proporcionalmente caso tais ações continuem.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã também emitiu uma declaração condenando os recentes ataques dos EUA como uma clara violação do cessar-fogo e contrários ao Artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas, enfatizando que o Irã “não deixará nenhum ato de agressão sem resposta”.

O comunicado acrescentou que as ações americanas, que ocorrem em meio a esforços diplomáticos em curso, expuseram mais uma vez a “má-fé e a falta de confiabilidade” de Washington e reforçaram a profunda desconfiança da nação iraniana em relação ao comportamento dos EUA, com base na “experiência e na realidade no terreno”.

Ao mesmo tempo, as forças armadas do Irã anunciaram recentemente a destruição de um drone hostil sobre o Golfo Pérsico usando o novo sistema de defesa “Arash Kamangir”. Autoridades iranianas descreveram o sistema como uma mensagem de que nenhum drone furtivo seria mais capaz de dominar os céus sobre o Golfo Pérsico.

Em nível estratégico, um número crescente de analistas e centros de pesquisa ocidentais reconhecem a considerável influência geopolítica e a capacidade de dissuasão do Irã no Estreito de Ormuz.

David Roberts, analista do Royal United Services Institute (RUSI), argumentou que os Estados Unidos ainda não possuem uma estratégia clara para "garantir totalmente" a segurança do Estreito de Ormuz e que a hidrovia não pode ser gerenciada de forma realista sem levar em consideração a influência do Irã.

Da mesma forma, Christian Emery, do University College London (UCL), afirmou que o recente conflito demonstrou como a própria geografia do Irã se tornou uma das ferramentas de dissuasão mais importantes de Teerã, acrescentando que os EUA e seus aliados não conseguiram impedir que o Irã exercesse influência sobre o Estreito, apesar da intensa pressão militar.

John Mearsheimer, renomado especialista em relações internacionais da Universidade de Chicago, também argumentou que a Marinha dos EUA é incapaz de controlar totalmente o Estreito de Ormuz e que "o Irã detém a vantagem geográfica na região".

Em outra reportagem, o Navy Times citou diversos analistas militares ocidentais afirmando que, ao contrário do que alegam alguns oficiais americanos, manter o Estreito de Ormuz aberto está longe de ser uma “operação simples”, já que as forças navais ocidentais permanecem vulneráveis ​​a mísseis, drones e capacidades de guerra assimétrica do Irã.

O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) também observou, em uma análise recente, que o atual confronto evoluiu para além de um conflito puramente militar, tornando-se uma arena mais ampla de “pressão geopolítica”, com o Irã utilizando com sucesso sua posição estratégica no Estreito de Ormuz como uma ferramenta eficaz de dissuasão.

Alguns analistas ocidentais chegaram a se referir ao Estreito de Ormuz como a "carta na manga" do Irã, com o Al-Monitor descrevendo-o como um dos instrumentos de dissuasão mais eficazes de Teerã contra a pressão estrangeira.

O Estreito de Ormuz parece agora, mais do que nunca, ter se tornado a arena central do confronto estratégico entre Teerã e Washington — um confronto com implicações significativas não apenas para a segurança do Golfo Pérsico, mas também para os mercados globais de energia, o comércio internacional e a estabilidade regional.

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