
Fontes: Rebelião
A imprensa escrita dominou até meados do século XX, mas foi suplantada por outros meios de comunicação. Seu papel na vida latino-americana tem uma longa história, sujeita a diversas condições.
Embora os primeiros jornais tenham surgido em diferentes cidades durante o período colonial, os movimentos de independência e a fundação das repúblicas foram decisivos para o surgimento dos jornais durante o século XIX. Estes não eram estritamente informativos, mas sim partidários, defendendo conservadores ou liberais, federalistas ou centralistas, e também apoiadores ou opositores do governo. Caracterizavam-se pelo debate e pelo posicionamento político. Eram jornais locais, de baixa circulação, voltados para as elites em países com uma esmagadora maioria de populações analfabetas, rurais e marginalizadas.
Foi durante o século XX que os jornais adquiriram crescente importância em cada país latino-americano. Tornaram-se informativos e orientados para as notícias (as estações de rádio dependiam deles), utilizaram maquinário moderno (como a impressora rotativa), definiram linhas editoriais, cresceram com as mudanças sociais "populistas" e desenvolvimentistas e progressivamente se tornaram mais difundidos. O jornalista profissional também surgiu, inicialmente por meio da profissão e não por formação universitária. Ao mesmo tempo, seu modelo de imprensa “livre e independente” foi inspirado em grandes veículos de comunicação norte-americanos, como The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post e The Los Angeles Times. A grande maioria dos jornais da região tinha alcance apenas nacional, estando sempre sujeitos aos caprichos de confrontos políticos internos, ora questionando o governo, ora alinhando-se a ele. Contudo, alguns jornais adquiriram importância internacional: Clarín e La Nación na Argentina, O Globo e Folha de S. Paulo no Brasil, El Tiempo e El Espectador na Colômbia, El Universal e Reforma no México, El Mercurio no Chile e El Comercio no Peru. Consolidaram verdadeiros impérios corporativos. A maioria dos jornais nos diversos países focava mais em questões nacionais, pois as notícias internacionais vinham das gigantescas redes de notícias: Associated Press (AP) e United Press International (UPI) dos Estados Unidos, Reuters da Grã-Bretanha e Agence France-Presse. (AFP) da França. Dessa forma, a informação internacional moldou a cultura e a visão de mundo dos cidadãos enquanto leitores, mas a partir de uma perspectiva ocidental, especialmente norte-americana. Esse fenômeno foi denominado pela sociologia de “colonialismo informacional”.
Essa situação tornou-se particularmente visível na segunda metade do século XX com a ascensão da Guerra Fria. Os principais veículos de comunicação corporativos da América Latina afirmavam a perspectiva ocidental, alegando representar os valores de uma “imprensa livre”. Identificavam-se, assim, com a luta contra o “comunismo”, sistema sobre o qual reportavam de forma distorcida. A situação era semelhante em Cuba, onde a cobertura da imprensa refletia os interesses ideológicos dos Estados Unidos. Mas Cuba foi o único país a criar um veículo de comunicação alternativo com uma perspectiva de “Terceiro Mundo”: a Prensa Latina (1959). A grande imprensa latino-americana também se submeteu aos caprichos do poder e cultivou interesses comerciais. As ditaduras militares que devastaram a região nas décadas de 1960 e 70 não foram contestadas, pois a grande mídia preferiu manter-se em silêncio ou evitar confrontá-las devido aos riscos envolvidos. No Chile, a resistência foi clandestina, e os boletins do Vicariato da Solidariedade desempenharam um papel importante, assim como a revista "Humor" na Argentina.
A institucionalização das democracias na América Latina teve início na década de 1980. Nesse contexto, e como alternativas às grandes corporações de mídia, surgiram publicações como La Jornada no México (1984) e Página/12 na Argentina (1987), oferecendo objetividade, uma perspectiva social e uma análise crítica das realidades da região. Esse posicionamento coincidiu com um longo período histórico que teve início com a crise da dívida externa em 1982, no qual a polarização entre as classes sociais em torno de dois “modelos” econômicos tornou-se cada vez mais evidente: por um lado, o modelo empresarial neoliberal que postula a “liberdade econômica” e é defendido pelas elites do poder; e, por outro, a economia social do bem-estar ou da boa vida.Esse processo, iniciado pelos governos da "onda rosa" latino-americana no início do século XXI, testemunhou uma mudança nas tecnologias de comunicação. Enquanto a mídia tradicional se alinhou ao modelo elitista, o apoio à economia social veio de veículos de mídia alternativos. Além disso, esse conflito de interesses e projetos é atualmente moldado pelo Corolário Trump e pela Doutrina Donroe, que exigem que todos os governos latino-americanos se alinhem aos Estados Unidos. Essa tensão histórica é evidente nos caminhos trilhados por Argentina, Chile e Equador, com suas economias corporativas, em contraste com México e Brasil, com suas economias sociais. As recentes eleições na Colômbia e no Peru são marcadas de forma semelhante por esses conflitos de interesse geopolíticos e de classe.
A virada do século XX trouxe uma transformação completa das tecnologias de comunicação devido ao desenvolvimento da internet, sites e redes sociais: Facebook, X, Instagram, YouTube, TikTok e WhatsApp. Embora a imprensa tenha sido hegemônica no passado, desde a década de 1960 ela vem sendo impactada pela televisão, que se tornou o meio de comunicação mais influente. Mas ambos os meios foram suplantados pelas tecnologias modernas do século XXI, às quais se adicionou recentemente a inteligência artificial. O grave problema é que esses avanços também generalizaram as notícias falsas e alimentaram a pós-verdade . Assim, a fundamentação de ideias baseadas em pesquisa rigorosa e no estudo da realidade fica a cargo de centros acadêmicos, intelectuais críticos e setores sociais que lutam pelo desenvolvimento genuíno dos direitos humanos. Por sua vez, tornou-se difícil alcançar as massas com ideias bem fundamentadas, pois estas competem com o posicionamento da grande mídia, a instantaneidade das redes sociais e a proliferação de opiniões e informações que tendem a sufocar o pensamento crítico e a atenção objetiva aos conflitos sociais e políticos na América Latina. Felizmente, veículos de mídia alternativos com uma clara orientação social e popular, utilizando tecnologias modernas, também se disseminaram em cada país. Internacionalmente, a Telesur (2005) possui uma presença inegável.
Outro exemplo histórico pode servir: em “ Por Onde Começar? ” (1901) e “ O Que Fazer? ” (1902), V.I. Lenin considerou o jornal como um “organizador coletivo”, propagandista e agitador, criador da consciência de classe e instrumento para a construção do partido e a conquista do triunfo da revolução. Essa visão, correta e bem-sucedida nos estágios iniciais do processo revolucionário na Rússia, foi desmantelada pelas novas tecnologias. Até mesmo a imprensa tradicional teve que se adaptar a elas. Mas as mídias sociais dominam os círculos sociais, especialmente os juvenis, onde parece que as definições ideológicas não importam mais, mas sim as emoções e as imagens. E, o que é mais grave, as conquistas dos governos progressistas não garantem seu sucesso eleitoral diante do ressurgimento de projetos oligárquicos que apelam ao sentimento popular. Esses são fenômenos que as forças políticas que buscam a mudança social são obrigadas a estudar e aproveitar se quiserem alcançar ou manter uma presença relevante e efetiva, a fim de obter o poder político que lhes permita transformar a sociedade.
História e Presente – blog
Comentários
Postar um comentário
12