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O Brasil não pratica mais o “futebol artístico”, nem consegue alcançar resultados apelando para a “consciência tática” e a “eficiência”.
Não passou um dia sequer no último mês sem que brasileiros em todos os meios de comunicação e redes sociais debatessem as causas do declínio nacional. O declínio do futebol nacional, mais especificamente. Pode parecer uma questão menor ou trivial, mas quando nos voltamos para a dimensão psicossocial da nação, que engloba seu senso de identidade, vemos que costumes, práticas, objetos ou passatempos que podem parecer triviais para outros povos podem, para certos grupos, ser elementos determinantes de seu orgulho, de sua autoestima e de sua percepção de seu lugar no mundo.
E parece-me inegável que, no caso brasileiro, o futebol faz parte desses aspectos culturais determinantes que moldam sua dimensão psicossocial, bem como o imaginário estrangeiro a respeito do Brasil. O principal responsável pela imagem, tanto interna quanto externa, do futebol brasileiro foi, obviamente, Pelé, o “Rei”, o único atleta a conquistar três Copas do Mundo (1958, 1962 e 1970). Com Pelé e seus companheiros das gerações de jogadores entre meados da década de 1950 e meados da década de 1980, o “futebol-arte” e o “futebol pelo futebol” se consolidaram internacionalmente, onde o prazer estético do jogo, mais do que o “resultado”, é o Santo Graal a ser alcançado.
Com Pelé, o Brasil conquista o mundo — especialmente o Terceiro Mundo. Na África e na Ásia, em particular, o Brasil se torna amado graças à magia do “futebol-arte” oferecida ao mundo, primeiro por Pelé e, depois, por seus herdeiros em gerações sucessivas.
Essa narrativa tem dimensões práticas. No âmbito interno, o triunfo do Brasil em 1970 ajudou a consolidar o país, que na época vivia sob a ditadura do General Médici. Internacionalmente, a dimensão do futebol brasileiro se mostra imensamente maior, a começar pelo próprio Pelé, que acabou se tornando o principal diplomata do Brasil. Através do seu clube, o Santos, Pelé conheceu boa parte da África e da Ásia, e ainda hoje Líbano, Bangladesh, Índia, Indonésia e Jamaica estão entre os países mais fanáticos pela seleção brasileira. Pelé chegou a negociar um cessar-fogo em meio à Guerra de Biafra para poder participar de um amistoso em Lagos, na Nigéria. Anos depois, foi recrutado pelo próprio Henry Kissinger para jogar no New York Cosmos com o objetivo de popularizar o futebol nos Estados Unidos e aproximar o país do Brasil, em um momento em que o novo presidente, General Geisel, se voltava contra Washington.
Mais recentemente, com o Brasil como pentacampeão mundial, governos como o do Partido dos Trabalhadores também souberam usar o futebol como ferramenta diplomática e meio de projeção de influência. A seleção brasileira jogou contra o Haiti em Porto Príncipe, durante a própria missão da MINUSTAH, com o objetivo de mostrar à população uma imagem positiva da operação militar liderada pelo Brasil. A própria realização da Copa do Mundo de 2014 foi concebida como forma de fortalecer a imagem do Brasil como destino turístico e de investimentos.
Existe algo como uma “simpatia inata” que os turistas brasileiros encontram em outros países — quando o simples fato de descobrirem que você é brasileiro provoca um sorriso sincero — e, em grande parte, isso deriva do futebol, já que o fenômeno ocorre principalmente se estiverem vestindo a camisa da seleção nacional com um dos “grandes nomes” nas costas (Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Neymar, etc.). Essa “boa vontade” é útil do ponto de vista da estratégia nacional, pois, ao apresentar a imagem de um país amigável e alegre, alimenta a percepção do Brasil como um mediador ou interlocutor capaz de transpor as barreiras da burocracia e da formalidade.
Não vivemos, porém, na era de Pelé, e o Brasil já não é um país triunfante.
Na Copa do Mundo de 2026, o Brasil perde para a Noruega por 2 a 1 nas oitavas de final, seu pior resultado em décadas. O futebol brasileiro nunca mais foi o mesmo.
O debate sobre o declínio do futebol inclui explicações que vão desde a substituição do catolicismo popular pelo neopentecostalismo até o problema da exportação precoce de jogadores para a Europa. O que é certo, porém, é que o Brasil não pratica mais o “futebol artístico”, nem consegue alcançar resultados apelando para a “consciência tática” e a “eficiência”. Será que isso poderia diminuir a simpatia e o respeito que o mundo nutre pelo Brasil?
Pelo menos por enquanto, a resposta parece ser não. Jogadores e torcedores do mundo todo continuam a venerar o Brasil e esperam uma recuperação iminente do futebol brasileiro. Um otimismo surpreendente, mas que demonstra o impacto que o futebol brasileiro teve até meados dos anos 2000.
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