- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Por FELIPE CORRÊA*
aterraeredonda.com.br/
O pensamento bakuniniano articula uma teoria da revolução que concilia o rigor da análise materialista com a defesa intransigente da autogestão e da liberdade coletiva
Mikhail Bakunin (1814-1876) foi uma figura central do movimento revolucionário do século XIX na Europa. Nascido na nobreza russa, ele percorreu um caminho intelectual e político que o levou dos estudos da dialética hegeliana à militância ativa e à participação, entre 1848 e 1849, em levantes armados como a Primavera dos Povos (França), a Insurreição de Praga (1848) e a Insurreição de Dresden (1849).
Foi vítima de uma duríssima repressão, passando 12 anos preso em diferentes países e, depois, exilado na Sibéria. Depois de uma fuga cinematográfica pelo Japão e Estados Unidos, retornou à Europa e retomou a militância política.
A partir de 1868, ao converter-se ao anarquismo e ingressar na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), fundada em 1864, sua atuação ganhou contornos definitivos. Mikhail Bakunin fundou a Aliança, primeira organização anarquista da história, e consolidou o que chamava de “unidade real de pensamento e ação”. Suas reflexões teóricas nasceram atreladas à prática organizativa, influenciando a Internacional – e sua posterior ala antiautoritária, que durou até 1877 – e impulsionando levantes como a Comuna de Lyon, em 1870.
Abaixo, destaco três legados do anarquista russo que oferecem ferramentas analíticas e estratégicas essenciais para a militância contemporânea, reafirmando que o revolucionário russo não foi apenas um homem de ação, mas um teórico de substância e fôlego.
Legado metodológico – o materialismo científico-naturalista
O materialismo científico-naturalista (ou método realista) bakuniniano oferece um quadro de referência potente para a compreensão da realidade, ao romper com a cisão entre natureza e sociedade – e, assim, fornecer bases para repensar as relações entre humanidade e meio ambiente.
Ao definir a natureza-matéria como uma totalidade autoefetivável que cria e recria o universo, Mikhail Bakunin estabelece as bases de um método científico que se contrapõe às abordagens que negam a ciência e também ao cientificismo. Esse método é, ao mesmo tempo, experimental, compreensivo e crítico; ele pretende conciliar o particular e o geral, a história e a teoria.
Diferente das visões liberais, o anarquista russo concebe a liberdade como um fato social, indissociável da igualdade. A liberdade individual só se realiza na liberdade coletiva, pois o ser humano é um produto da solidariedade e da socialização, e não um átomo isolado anterior ao contrato social. Essa perspectiva permite superar o individualismo metodológico e o determinismo estruturalista, reconhecendo que, embora condicionados natural e socialmente, a vontade racional e a ação humana possuem um potencial transformador real e consciente.
Legado teórico – teoria política e análise da realidade
A teoria do conflito bakuniniana entende a sociedade como um jogo permanente de forças, em que a realidade é o resultado temporário do enfrentamento entre opressores e oprimidos. O aumento dessa força social depende de organização, recursos e instrução, sendo o monopólio do conhecimento uma ferramenta crucial de dominação.
Para Mikhail Bakunin, o sistema estatista-capitalista é um modo de dominação, no qual o Estado não é um mero reflexo da economia, mas possui uma natureza dominadora própria, com vocações imperialistas e escravistas. Estado e capitalismo são, assim, indissociáveis. O estatismo-capitalismo possui formas de dominação que lhe estruturam: imperialismo, coerção física, dominação burocrática, exploração do trabalho, além de formas de legitimação religiosas e educacionais.
Além disso, a teoria das classes sociais de Mikhail Bakunin é multicausal, definida pelas propriedades econômica (terra, meios de produção, capital), política (administração, controle e coerção) e cultural (conhecimento). A luta de classes contrapõe a minoria dominante (latifundiários, burguesia, burocracia, clero e sábios) às massas oprimidas (proletariado, campesinato e marginalizados).
Ao posicionar a burocracia estatal como classe dominante, o anarquista russo antecipou a crítica aos desvios autoritários do século XX: a tomada do Estado não liberta, apenas cria novos opressores. Por fim, a centralidade da luta de classes na sociedade capitalita eestatista fornece subsídios não apenas para uma análise de classe da realidade, mas para uma concepção classista das lutas nacionais, de mulheres e povos racializados, contrapondo-se a abordagens liberais e pós-modernas, que fragmentam as opressões e ignoram ou minimizam o papel das classes sociais.
Legado programático – revolução socialista e dualismo organizacional
No campo programático, contrariando as posições reformistas, Mikhail Bakunin defende uma revolução social que rompa com o capitalismo e o Estado, que construa o socialismo coletivista-federalista, de baixo para cima, garantindo a autogestão das associações industriais e agrícolas.
Como estratégia organizativa, Mikhail Bakunin preconiza o dualismo organizacional como contraponto às posições antiorganizacionistas e/ou espontaneístas. Reivindica a necessidade de organização em dois níveis complementares. O primeiro é a organização de massas (Internacional), que une os trabalhadores pela luta econômica e pela educação prática da luta de classes, utilizando a greve como ferramenta pedagógica e preparatória, e prefigurando a sociedade futura no presente. Seu programa para as organizações de massas formaliza a nascente estratégia do sindicalismo revolucionário.
O segundo é a organização de quadros (Aliança), uma organização anarquista de minorias que atua no seio das massas como “parteira da revolução” para impulsionar o programa socialista e impedir a burocratização, atuando como um motor que não substitui, mas reforça e garante o protagonismo popular.
Em termos de princípios organizativos, o anarquista russo sustenta que essa organização se apoie em três pilares: pensamento comum, ação comum e compromisso entre membros. Pilares que evidenciam que a Aliança é a precursora das tradições plataformista e especifista do anarquismo.
Os legados de Mikhail Bakunin para o presente residem na capacidade desse anarquista de oferecer elementos de pensamento e ação capazes de conciliar a compreensão rigorosa da realidade com a perspectiva revolucionária, igualitária e libertária de transformação.
Ele demonstra que a emancipação real exige o fim concomitante do capital e do Estado através da socialização da riqueza e do poder – uma emancipação que deve ser capaz de construir uma nova sociedade, baseada na igualdade e na liberdade. Tais legados deixam evidente que a obra bakuniniana é uma ferramenta viva para as lutas populares e para o anarquismo do mundo contemporâneo.
*Felipe Corrêa é professor universitário, pesquisador e editor; coordena o Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA). É autor, entre outros livros, de Liberdade ou morte: teoria e prática de Mikhail Bakunin (Faísca). [https://link.amazon/B0cvWkPwD]
"A leitura ilumina o espírito".
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário
12