Imagem: Riku Lu
Por ERICK KAYSER*
Entre a microfísica do poder e a emancipação universal: os distanciamentos intransponíveis e as tensões produtivas no embate teórico entre Foucault e Marx
1.
Em 15 de outubro de 2026, completam-se cem anos do nascimento de Michel Foucault. É uma efeméride irônica: o pensador que dedicou a vida a desnaturalizar certezas ostenta hoje a condição exatamente oposta, convertido no modelo dominante, no mainstream acadêmico incontornável. As métricas de citação, com mais de um milhão e meio de referências, colocam-no como o autor mais citado das humanidades em escala global[i]. Ironicamente, citá-lo tornou-se um paradigma disciplinador: não fazê-lo converteu-se em falha de pesquisa, quase uma heterodoxia, condição que o próprio arqueólogo das disciplinas certamente desaprovaria.
Mas há uma segunda ironia, mais recente e menos comentada. Observa-se, nos últimos anos, um declínio mensurável no interesse por sua obra na acadêmia e no debate público; coincidentemente (ou não), o interesse por Karl Marx cresce de modo contínuo no mesmo período, impulsionado por crises que a épistémè neoliberal, da qual Michel Foucault foi, a um só tempo, diagnosticador precoce e involuntário subproduto teórico,[ii] já não consegue explicar satisfatoriamente.
Essa coincidência me motivou a explorar, em termos teóricos, a relação entre o pensamento foucaultiano e o de Marx e o marxismo; relação marcada muito mais por distanciamentos do que por aproximações, ainda que estas, quando ocorrem, possam produzir resultados intelectualmente fecundos.[iii]
Desde fins dos anos 1960, na “batalha cultural” contra Marx, as ideias de Michel Foucault tem sido mobilizadas: não argumenta que o capitalismo seja bom, mas que o próprio diagnóstico marxista sobre a dominação permanece prisioneiro das estruturas de saber, verdade e racionalidade ocidentais que tornaram o capitalismo possível. Não é um ataque vindo da direita, mas uma radicalidade que pretende ultrapassar a própria esquerda. Ainda que declaradamente avesso a rótulos, o pensamento foucaultiano pode ser enquadrado como uma das teorias antimarxistas mais sofisticadas já elaboradas.
Não se trata de um “desvio” advindo das (re)leituras do discurso foucaultiano, mas fruto de uma distinção epistêmica e metodológica profunda com o marxismo. O método genealógico de Foucault recusa explicitamente a categoria de “totalidade” e, em sua fase madura, a de “ideologia”. Ele argumentaria que o poder não esconde nada, não é uma névoa ideológica que encobre a verdade das relações de produção. Ele é material, positivo, produtor de realidades e subjetividades. A crítica marxista mais recorrente é apontar para a ausência da luta de classes como uma das falhas maiores nesta perspectiva foucaultiana, pois ela perde de vista a hierarquia das determinações.
Ele descreve com maestria as tecnologias de dominação, mas obscurece o sujeito estratégico (a classe) que as aciona e delas se beneficia. A pergunta marxista incisiva é: a serviço de quem e contra quem essas tecnologias são, majoritariamente, postas para funcionar? A resposta, que Foucault evita, aponta para a burguesia e a necessidade de gestão da força de trabalho e dos corpos das classes subalternas.
2.
Temos, portanto, ontologias políticas divergentes. Em Karl Marx, a política organiza-se no eixo exploração/emancipação universal de um sujeito, a classe, cuja tomada de consciência é também um projeto de totalização histórica. Em Michel Foucault, no eixo dominação/sujeição e resistências múltiplas, locais, capilares, sem sujeito unificador que as sintetize; o foco não é a tomada do Estado (instância que sua analítica sistematicamente descentra), mas a recusa cotidiana de formas específicas de subjetivação. São diagnósticos que levam a práticas políticas radicalmente diferentes e, por vezes, francamente conflitantes entre si.
Daí a noção foucaultiana de resistência, que se contrapõe à emancipação marxista. Michel Foucault não usou o termo com frequência em seus primeiros escritos, mas, na fase tardia, colocou a resistência no mesmo plano do poder, que descreve como relação, não como algo que se adquire, arranca ou compartilha: formulação cunhada certamente tendo em mente, e talvez como substituto para o conceito marxista de capital como relação social. O problema é que nem toda resistência é equivalente: são iguais a luta antiaborto de grupos conservadores e a luta das feministas pelo direito ao próprio corpo? Os movimentos antivacina e aqueles que lutam por uma saúde pública e universal? É justamente esse critério hierarquizante que a horizontalidade foucaultiana tem dificuldade em fornecer.
O caso mais eloquente dessa dificuldade não é hipotético, é histórico. Em 1978, como correspondente especial do Corriere della Sera, Michel Foucault viajou ao Irã e testemunhou, com evidente fascínio, o levante popular contra o Xá. Nele reconheceu não uma revolução nos termos ocidentais clássicos, mas o advento de uma “espiritualidade política” capaz de recusar, em bloco, tanto o despotismo local quanto a racionalidade secular que o observava do exterior. O entusiasmo não resistiu ao desenrolar dos fatos: em março de 1979, semanas após a queda do Xá, milhares de mulheres que saíam às ruas de Teerã contra a imposição do véu obrigatório foram espancadas; seguiram-se execuções sumárias de opositores sob o novo regime dos aiatolás.
Michel Foucault, fiel à sua recusa de qualquer critério hierarquizante entre resistências, jamais reavaliou publicamente, de modo consequente, o diagnóstico que fizera.[iv] Um sintoma preciso de como uma teoria política incapaz de distinguir, ainda que provisoriamente, entre resistências que expandem a liberdade e outras que fundam nova servidão, corre o risco de confundir, retrospectivamente, o carrasco com a vítima.
3.
Ainda assim, há pontos de contato, uma complementaridade agonística cuja força está na tensão não resolvida. Apesar das incompatibilidades radicais, o pensamento de Michel Foucault não pode ser lido apenas como um simples “pós-marxismo” que supera Marx. Há um solo comum e um diálogo persistente. Não é muito difícil encontrar exemplos destes diálogos possíveis, ainda que pontuais.
A famosa frase de Marx segundo a qual a anatomia do homem é a chave para a anatomia do macaco ressoa com o método genealógico de Michel Foucault. Ambos fazem uma “história do presente” para diagnosticar a contingência do que somos, abrindo a possibilidade de não mais sermos isso.
Esse corpo a corpo teórico não precisa permanecer no plano da abstração: há um caso em que Karl Marx e Michel Foucault, mesmo sem intenção de diálogo, descrevem literalmente o mesmo objeto histórico sob perspectivas distintas. Em Vigiar e Punir, Michel Foucault mostra como o poder disciplinar fabrica corpos dóceis e produtivos por meio de uma administração minuciosa do tempo: o quadro de horários, a decomposição do gesto em suas fases elementares, aquilo que chama de emprego exaustivo do tempo.
Técnicas que migram do convento para a escola, do quartel para a fábrica. Karl Marx, em O capital, descreve o mesmo edifício disciplinar sob outro vocabulário: ao tratar da jornada de trabalho e da subsunção real do trabalho ao capital, observa que o regime fabril se organiza segundo uma hierarquia quase militar de capatazes, cuja função é extrair do corpo do trabalhador, até seu limite físico, um tempo de trabalho já abstraído de qualquer conteúdo concreto. Onde a teoria do valor explica por que esse tempo precisa se tornar homogêneo e mensurável, substância da própria forma-valor, a microfísica foucaultiana explica como, gesto a gesto, essa abstração se inscreve sobre os corpos que a produzem.
As incompatibilidades entre os dois sistemas são, é certo, maiores do que os pontos de contato: suas premissas fundantes sobre poder, verdade, sujeito e história são, em rigor, antagônicas, e qualquer tentativa de síntese acaba por violentar o núcleo teórico de um dos dois. Mas a maior presença quantitativa das divergências é menos relevante do que a qualidade e a produtividade da tensão que elas geram.
O espaço crítico mais potente não está na síntese impossível, nem na mútua exclusão complacente, mas nesse campo de batalha teórico em que Karl Marx e Michel Foucault, colocados em enfrentamento direto, iluminam reciprocamente zonas de opacidade em suas próprias obras, forçando-nos, no centenário de um e na persistente atualidade do outro, a pensar o presente com e para além de ambos.
*Erick Kayser é doutorando em história na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Notas
[i] Os dados são do Google Scholar (2024), onde ele teria aproximadamente 75% a mais de citações do que qualquer outro autor da história (excluindo as ciências) cf. Gage Greer na revista Medium.
[ii] No polêmico livro Foucault and Neoliberalism (2015), Daniel Zamora e Michael C. Behrent debatem sobre a postura ambígua de Foucault diante do neoliberalismo. Longe de constituir uma nítida crítica à ortodoxia do livre mercado, argumentam que ele teria demonstrado afinidades com certas formulações neoliberais.
[iii] O trabalho dos franceses Pierre Dardot e Christian Laval em A nova razão do mundo (2016) é um bom exemplo de um diálogo frutífero entre algumas ideias de Foucault e o marxismo.
[iv] Sobre o episódio, ver Janet Afary e Kevin B. Anderson, Foucault and the Iranian Revolution: Gender and the Seductions of Islamism (2005).
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