
Uma nação que enfrenta um desastre de proporções épicas pressiona por respostas sobre sua transição democrática, escreve um especialista.
CARACAS — Dois terremotos atingiram a Venezuela há uma semana, matando quase 3.000 pessoas. Enquanto equipes de resgate internacionais e locais continuam vasculhando os escombros em busca de 40.000 desaparecidos, 11.000 pessoas foram dadas como feridas e muitas ainda estão desaparecidas. Uma devastação dessa magnitude seria dolorosamente trágica para qualquer nação, e na Venezuela de hoje, está se mostrando insuportável.
O governo interino liderado por Delcy Rodríguez foi duramente criticado pela lentidão na resposta e pela falta de coordenação no enfrentamento do caos subsequente, bem como pela forma como lidou com a tentativa frustrada de María Corina Machado — uma líder política com amplo apoio — de retornar ao país. O regime fechou o espaço aéreo nacional para impedir sua chegada, e a Casa Branca se recusou a apoiá-la, enquanto altos funcionários americanos classificaram sua ação como “oportunismo político grotesco”.
Para todos os efeitos práticos, o incidente pode simplesmente marcar o rompimento formal entre o laureado com o Prêmio Nobel e o governo Trump — uma ruptura que muitos já previam desde a captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro.
Apesar da tragédia e da incerteza que envolvem este momento, John Barrett, encarregado de negócios dos EUA em Caracas, reiterou publicamente que os planos para a Venezuela permanecem em grande parte “intactos”. Os EUA aliviaram algumas sanções contra o regime e forneceram assistência humanitária substancial durante este período difícil. Mas não compreender a gravidade e as repercussões dos eventos recentes pode ser custoso, e os EUA não podem mais ignorar uma questão premente: qual é o nível de comprometimento da Casa Branca com a democracia na Venezuela?
Normalização econômica
Para responder a essa pergunta, precisamos voltar a 3 de janeiro, quando as forças americanas capturaram Maduro para ser julgado em Nova York. Uma grande maioria dos venezuelanos comemorou a irrupção. Uma pesquisa publicada pela The Economist mostrou o presidente Donald Trump como a figura política mais bem avaliada na Venezuela, com 55% de aprovação. Após 26 anos de regime autocrático, quase 8 milhões de exilados e a eleição fraudada de 28 de julho de 2024, os venezuelanos não viram uma invasão — viram a libertação. No entanto, essas mesmas pesquisas revelaram um claro mandato. Sessenta e sete por cento exigiam eleições dentro de um ano, e 68% disseram que votariam em Machado.
Os venezuelanos comemoraram a deposição do ditador porque acreditavam que isso marcava o início da democracia, e não uma mudança na gestão da ditadura. Mas, desde então, a Venezuela tem assistido à normalização econômica ser priorizada inequivocamente em detrimento da abertura política e da restauração democrática.
Os venezuelanos comuns continuam a sofrer com apagões, desvalorização da moeda e aumento do custo de vida. Os cargos mais importantes do Estado são preenchidos segundo um único critério — a confiança pessoal de Rodríguez — e não por qualificações profissionais ou reputação moral. Seis meses após a prisão de Maduro, não há um cronograma definido para as eleições, e o plano do Secretário de Estado Marco Rubio relega as eleições para o final da agenda, sem datas ou metas divulgadas publicamente.
Antes dos terremotos de 24 de junho, uma pesquisa da empresa de pesquisas local Meganálisis revelou que 71,2% dos entrevistados acreditavam que Trump se importava mais com o negócio do petróleo do que com a liberdade deles, enquanto Rodríguez obteve 93% de desaprovação. Alguns argumentam que, em apenas seis meses, Trump passou de libertador a parceiro do regime.
Derrubando uma parede
A questão mais ampla é se os princípios que fizeram dos EUA uma grande nação ainda perduram. Woodrow Wilson levou os EUA à guerra para tornar o mundo “seguro para a democracia”. Franklin Roosevelt proclamou as Quatro Liberdades para todos os povos, em todos os lugares. Harry Truman prometeu apoio aos povos livres que resistissem à opressão. Essa tradição nunca foi pura; os EUA toleraram autocratas quando isso lhes convinha. Mas a Venezuela é categoricamente diferente.
Trump depôs um ditador que era um adversário, mas depois optou por preservar a ditadura. Isso não é a Doutrina Kirkpatrick, o conceito de política externa da época da Guerra Fria que justificava o apoio dos EUA a ditaduras de direita se estas fossem anticomunistas. É a doutrina dos despojos. É realmente essa a base sobre a qual os Estados Unidos desejam construir seu futuro relacionamento com a Venezuela?
Em 1987, diante do Portão de Brandemburgo, o presidente Ronald Reagan proferiu as palavras que definiram o fim da Guerra Fria: "Sr. Gorbachev, derrube este muro". Reagan instou o líder soviético Mikhail Gorbachev a desmantelar o Muro de Berlim e, dois anos depois, ele caiu.
Hoje, ergue-se outro muro: os remanescentes do chavismo que Trump escolheu manter intactos e proteger. Esse muro separa 30 milhões de venezuelanos da democracia pela qual votaram. A dolorosa diferença reside nisto: o Muro de Berlim foi erguido pelo adversário dos Estados Unidos. Este está sendo erguido pela Casa Branca.
Enquanto a Venezuela atravessa um dos momentos mais sombrios de sua história recente, muitos se perguntam se o presidente Trump será capaz de derrubar o terrível muro político que ainda separa esta nação de um futuro promissor.

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