POLÍTICA DOS EUA - Os terremotos na Venezuela estão expondo as falhas na política dos EUA.

Equipes de resgate procuram vítimas em um prédio que desabou em 28 de junho de 2026 em La Guaira, Venezuela.Jesus Vargas/Getty Images

Uma nação que enfrenta um desastre de proporções épicas pressiona por respostas sobre sua transição democrática, escreve um especialista.

CARACAS — Dois terremotos atingiram a Venezuela há uma semana, matando quase 3.000 pessoas. Enquanto equipes de resgate internacionais e locais continuam vasculhando os escombros em busca de 40.000 desaparecidos, 11.000 pessoas foram dadas como feridas e muitas ainda estão desaparecidas. Uma devastação dessa magnitude seria dolorosamente trágica para qualquer nação, e na Venezuela de hoje, está se mostrando insuportável.

O governo interino liderado por Delcy Rodríguez foi duramente criticado pela lentidão na resposta e pela falta de coordenação no enfrentamento do caos subsequente, bem como pela forma como lidou com a tentativa frustrada de María Corina Machado — uma líder política com amplo apoio — de retornar ao país. O regime fechou o espaço aéreo nacional para impedir sua chegada, e a Casa Branca se recusou a apoiá-la, enquanto altos funcionários americanos classificaram sua ação como “oportunismo político grotesco”.

Para todos os efeitos práticos, o incidente pode simplesmente marcar o rompimento formal entre o laureado com o Prêmio Nobel e o governo Trump — uma ruptura que muitos já previam desde a captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro.

Apesar da tragédia e da incerteza que envolvem este momento, John Barrett, encarregado de negócios dos EUA em Caracas, reiterou publicamente que os planos para a Venezuela permanecem em grande parte “intactos”. Os EUA aliviaram algumas sanções contra o regime e forneceram assistência humanitária substancial durante este período difícil. Mas não compreender a gravidade e as repercussões dos eventos recentes pode ser custoso, e os EUA não podem mais ignorar uma questão premente: qual é o nível de comprometimento da Casa Branca com a democracia na Venezuela?

Normalização econômica

Para responder a essa pergunta, precisamos voltar a 3 de janeiro, quando as forças americanas capturaram Maduro para ser julgado em Nova York. Uma grande maioria dos venezuelanos comemorou a irrupção. Uma pesquisa publicada pela  The Economist  mostrou o presidente Donald Trump como a figura política mais bem avaliada na Venezuela, com 55% de aprovação. Após 26 anos de regime autocrático, quase 8 milhões de exilados e a eleição fraudada de 28 de julho de 2024, os venezuelanos não viram uma invasão — viram a libertação. No entanto, essas mesmas pesquisas revelaram um claro mandato. Sessenta e sete por cento exigiam eleições dentro de um ano, e 68% disseram que votariam em Machado.

Os venezuelanos comemoraram a deposição do ditador porque acreditavam que isso marcava o início da democracia, e não uma mudança na gestão da ditadura. Mas, desde então, a Venezuela tem assistido à normalização econômica ser priorizada inequivocamente em detrimento da abertura política e da restauração democrática.

Os venezuelanos comuns continuam a sofrer com apagões, desvalorização da moeda e aumento do custo de vida. Os cargos mais importantes do Estado são preenchidos segundo um único critério — a confiança pessoal de Rodríguez — e não por qualificações profissionais ou reputação moral. Seis meses após a prisão de Maduro, não há um cronograma definido para as eleições, e o plano do Secretário de Estado Marco Rubio relega as eleições para o final da agenda, sem datas ou metas divulgadas publicamente.

Antes dos terremotos de 24 de junho, uma pesquisa da empresa de pesquisas local Meganálisis revelou que 71,2% dos entrevistados acreditavam que Trump se importava mais com o negócio do petróleo do que com a liberdade deles, enquanto Rodríguez obteve 93% de desaprovação. Alguns argumentam que, em apenas seis meses, Trump passou de libertador a parceiro do regime.

Derrubando uma parede

A questão mais ampla é se os princípios que fizeram dos EUA uma grande nação ainda perduram. Woodrow Wilson levou os EUA à guerra para tornar o mundo “seguro para a democracia”. Franklin Roosevelt proclamou as  Quatro Liberdades  para todos os povos, em todos os lugares. Harry Truman prometeu apoio aos povos livres que resistissem à opressão. Essa tradição nunca foi pura; os EUA toleraram autocratas quando isso lhes convinha. Mas a Venezuela é categoricamente diferente.  

Trump depôs um ditador que era um adversário, mas depois optou por preservar a ditadura. Isso não é a Doutrina Kirkpatrick, o conceito de política externa da época da Guerra Fria que justificava o apoio dos EUA a ditaduras de direita se estas fossem anticomunistas. É a doutrina dos despojos. É realmente essa a base sobre a qual os Estados Unidos desejam construir seu futuro relacionamento com a Venezuela?

Em 1987, diante do Portão de Brandemburgo, o presidente Ronald Reagan proferiu as palavras que definiram o fim da Guerra Fria: "Sr. Gorbachev,  derrube este muro". Reagan instou o líder soviético Mikhail Gorbachev a desmantelar o Muro de Berlim e, dois anos depois, ele caiu.

Hoje, ergue-se outro muro: os remanescentes do chavismo que Trump escolheu manter intactos e proteger. Esse muro separa 30 milhões de venezuelanos da democracia pela qual votaram. A dolorosa diferença reside nisto: o Muro de Berlim foi erguido pelo adversário dos Estados Unidos. Este está sendo erguido pela Casa Branca.

Enquanto a Venezuela atravessa um dos momentos mais sombrios de sua história recente, muitos se perguntam se o presidente Trump será capaz de derrubar o terrível muro político que ainda separa esta nação de um futuro promissor.


SOBRE O AUTOR

Benigno Alarcón Deza
Alarcón Deza é analista político, pesquisador e ex-diretor do Centro de Governo e Estudos Políticos da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas.
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