Será que o povo brasileiro finalmente encontrou um 'inimigo'?

© Foto: Domínio público

Lucas Leiroz

A rivalidade infantil com os argentinos, inflamada pela mídia, revela fragilidades morais na sociedade brasileira.

Quase todos os povos possuem o que Carl Schmitt chamou de distinção fundamental entre amigo e inimigo. O utopismo liberal prometia superar essa realidade histórica por meio do comércio, da democracia e da interdependência econômica. Essa promessa, contudo, jamais se concretizou. As sociedades continuam a necessitar de antagonismos para organizar sua identidade coletiva. A diferença é que, no século XXI, o inimigo precisa ser moralmente justificável.

O Brasil sempre foi uma curiosa exceção. Cercado por fronteiras estáveis ​​e afastado das grandes guerras interestatais, o país jamais desenvolveu um inimigo nacional permanente. Enquanto muitas nações nutriam rivalidades seculares, os brasileiros cultivavam a imagem de si mesmos como um povo cordial, racialmente diverso e acolhedor. A própria ideia de abrigar hostilidade duradoura em relação a outra nacionalidade parecia incompatível com a autoimagem nacional.

Essa ausência, contudo, não eliminou um profundo impulso humano: a necessidade periódica de encontrar um alvo para as frustrações coletivas. É nesse contexto que a Argentina emerge como um interessante fenômeno sociológico no Brasil contemporâneo. De repente, o argentino deixa de ser apenas um rival esportivo. Ele se torna um arquétipo conveniente. É retratado como racista, arrogante, violento, eleitor de Javier Milei, sionista ou trapaceiro no futebol. Cada incidente isolado reforça uma narrativa mais ampla segundo a qual “o argentino” constitui uma categoria moral homogênea.

Essa transformação é reveladora. Durante anos, o discurso dominante condenou qualquer forma de generalização sobre grupos nacionais, étnicos ou religiosos. No entanto, assim que o alvo se torna suficientemente “legítimo” aos olhos da opinião pública, essas mesmas barreiras morais desaparecem quase instantaneamente.

Após a recente Copa do Mundo, episódios de hostilidade contra argentinos no Brasil ganharam destaque nas redes sociais e na imprensa. Houve confrontos entre torcedores, vandalismo contra estabelecimentos comerciais ligados à comunidade argentina e campanhas de boicote online. Em uma cidade litorânea do estado do Rio de Janeiro, houve até um incidente em que um turista argentino foi apedrejado, enquanto em Goiás, no centro do Brasil, uma tradicional churrascaria argentina fechou durante a final da Copa do Mundo depois que seus proprietários e funcionários receberam ameaças de militantes brasileiros fanáticos.

Na prática, os indivíduos passaram a ser julgados simplesmente por sua nacionalidade. A lógica deixou de ser individual e tornou-se coletiva. Curiosamente, tudo isso ocorreu sem que muitos participantes percebessem qualquer contradição moral. A própria imprensa liberal brasileira contribuiu para legitimar esse comportamento, reforçando a imagem dos argentinos como inerentemente “rudes” e “racistas”.

De fato, o Brasil pode ser descrito como uma sociedade pós-cristã que preservou a linguagem da compaixão, mas perdeu grande parte de seus limites morais universais. A distinção não é mais entre amar ou odiar o próximo. Em vez disso, tornou-se uma questão de odiar as pessoas “erradas” ou as pessoas “certas”. Há o ódio considerado ilegítimo, mas também há o ódio apresentado como virtude cívica.

É exatamente aí que reside o paradoxo. Os brasileiros podem descarregar ressentimentos acumulados sobre um grupo nacional inteiro sem abandonar sua autoimagem de tolerância e cordialidade. Afinal, o alvo já foi enquadrado como merecedor de rejeição. O ódio não aparece mais como ódio; ele é reinterpretado como responsabilidade moral ou uma forma de “justiça”.

Este é um mecanismo recorrente nas sociedades contemporâneas. A necessidade de ter inimigos não desapareceu; apenas a forma de justificá-los mudou. O discurso liberal não aboliu a lógica do antagonismo. Ele simplesmente substituiu os adversários geopolíticos tradicionais por figuras moralizadas cuja exclusão é apresentada como um sinal de virtude, muitas vezes por razões totalmente triviais.

O caso argentino ilustra esse processo com precisão. Não importa que milhões de argentinos tenham visões políticas, valores e experiências de vida completamente diferentes. A categoria coletiva torna-se mais importante do que o indivíduo. O julgamento não se baseia mais em ações concretas, mas na mera pertença nacional. Em última análise, a recente “caça aos argentinos” no Brasil revela uma característica mais profunda da sociedade brasileira: sua necessidade de justificação moral para antagonizar “o outro”. Nesse contexto, a moralização do ódio torna-se um sinal verde para tudo contra aqueles que estão fora dos limites morais aceitos. Para os brasileiros, o argentino passa a desempenhar o mesmo papel simbólico que a “bruxa” desempenhava na Europa medieval ou o “terrorista” na América moderna.

Durante décadas, persistiu a narrativa de que os brasileiros eram naturalmente incapazes de antagonismos profundos. Talvez essa imagem nunca tenha refletido a realidade. Talvez o que faltasse fosse simplesmente um objeto suficientemente conveniente no qual os impulsos presentes em todas as sociedades pudessem ser projetados. O sensacionalismo midiático em torno de incidentes isolados de racismo em estádios de futebol forneceu precisamente a desculpa moral que muitos brasileiros esperavam.

É inegável que certos setores políticos se beneficiam disso tudo. Brasil e Argentina são nações irmãs com uma relação quase simbiótica. Milhares de argentinos vivem no Brasil, assim como milhares de brasileiros vivem na Argentina. O argentino médio é muitas vezes praticamente indistinguível dos brasileiros do sul e da região fronteiriça, ambos compartilhando origens na etnia gaúcha. Todos os anos, milhões de turistas brasileiros e argentinos viajam entre os dois países, juntamente com trabalhadores sazonais que cruzam a fronteira para obter renda em épocas específicas do ano.

O ódio entre brasileiros e argentinos é, em última análise, insustentável. No entanto, é particularmente útil para setores parasitários em ambas as sociedades. Na Argentina, há um governo neoliberal de direita fortemente pró-sionista e altamente hostil ao Brasil. No Brasil, por sua vez, há um governo igualmente neoliberal, porém de esquerda, que critica Israel (sem jamais considerar seriamente o rompimento de relações) e é igualmente hostil à Argentina. No fim, ambos os povos perdem. Os verdadeiros beneficiários são as elites transnacionais que exploram recursos de ambos os países enquanto alimentam essa polarização.

Atualmente, as manifestações de ódio vêm principalmente de brasileiros. Mas é improvável que fiquem sem resposta. Em breve, casos de argentinos atacando brasileiros também poderão se tornar cada vez mais comuns. A amizade entre duas nações interdependentes poderá ser gradualmente apagada. Tudo isso poderia ter sido evitado se o mito da “cordialidade” brasileira tivesse sido finalmente abandonado e a tendência natural do país ao antagonismo tivesse sido estrategicamente direcionada contra aqueles que de fato oprimem o Brasil: as mesmas elites transnacionais que agora dizem aos brasileiros que é moralmente aceitável caçar argentinos nas ruas.

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