Tarifas contra o Brasil: Quais são as opções do Brasil?

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Rafael Machado
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As vulnerabilidades comerciais do Brasil só podem ser sanadas por meio da diversificação – um dos pilares necessários para a multipolaridade econômica.

Em meados de julho de 2026, o governo dos Estados Unidos formalizou a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, com vigência a partir de 22 de julho. A medida decorre de uma recomendação do Escritório do Representante Comercial dos EUA em relação a práticas comerciais consideradas desleais, incluindo questões envolvendo a Pix e o etanol, mas também acusações altamente duvidosas de danos ambientais e uso de trabalho semelhante à escravidão.

O departamento em questão compilou um dossiê contendo inúmeras acusações, todas com o objetivo de demonstrar que o comércio entre o Brasil e os EUA tem sido marcado por práticas desleais por parte do Brasil, o que levaria à redução de custos. Como resultado, os EUA ficariam em desvantagem na competição com o Brasil. É nesse contexto que, por exemplo, entram em cena o sistema brasileiro Pix e os supostos prejuízos causados ​​à Visa e à Mastercard. Da mesma forma, o alegado uso de trabalho escravo e práticas agroindustriais prejudiciais ao meio ambiente colocariam o Brasil em uma posição mais vantajosa no comércio com os EUA.

O governo brasileiro e a comunidade empresarial, naturalmente, tentaram se defender, inclusive participando de uma audiência realizada nos EUA para tratar do dossiê produzido pelo Escritório do Representante Comercial. Na prática, além das falsas acusações e do fato de que a Pix representa um serviço de pagamento instantâneo que em nada concorre com a Visa e a Mastercard, os EUA mantêm um superávit comercial crescente e ininterrupto com o Brasil há 15 anos. Atualmente, esse superávit gira em torno de US$ 42 bilhões, o que torna difícil justificar essas tarifas por razões econômicas.

Em âmbito político interno, sabemos que essa nova imposição de tarifas representa uma resposta à decisão da Suprema Corte dos EUA, que considerou ilegais as primeiras rodadas de tarifas por insuficiência de autoridade para impô-las, bem como pela falta de justificativas necessárias. Nesse sentido, o Escritório começou a produzir dossiês sobre países como o Brasil, visando justificar novas tarifas.

Em um plano político externo, esse ataque comercial ao Brasil ocorre em um momento em que a Ibero-América vive uma onda de vitórias eleitorais de aliados, aparentemente coordenadas por Marco Rubio. É possível que a Casa Branca interprete esse momento como oportuno para garantir o alinhamento total da região, neste caso por meio de uma medida econômica que, ao prejudicar a economia brasileira, poderia levar empresários e parte da classe trabalhadora a aderirem à campanha de Flávio Bolsonaro em prol de “mudanças”.

Assim, embora a maioria dos economistas aponte que essas tarifas não terão um impacto significativo na economia brasileira como um todo, é necessário observar que elas podem, de fato, prejudicar alguns setores industriais importantes.

Embora produtos como café, carne bovina, petróleo, suco de laranja e componentes aeronáuticos tenham sido isentos, graças a fortes lobbies setoriais – diferentemente da primeira onda de tarifas imposta em meados de 2025 – a tarifa afeta aproximadamente três mil itens e representa um dos maiores aumentos tarifários impostos pelo governo Trump ao Brasil desde seu retorno ao poder. A primeira pergunta feita pelos exportadores é: para onde redirecionar a produção, agora que exportar para os EUA ficou mais caro? Geralmente, a primeira resposta é “China”.

Embora a China seja atualmente o principal destino das exportações brasileiras, representando aproximadamente 30% do nosso volume exportado, em comparação com os 11% destinados aos EUA, a capacidade de redirecionar integralmente os produtos brasileiros afetados para esse mercado é limitada pela própria estrutura produtiva da China. Lembremos que os setores mais afetados pelas tarifas de Trump são: máquinas, equipamentos industriais, papel, vestuário, calçados e etanol.

Como é sabido, o perfil das vendas brasileiras para os dois países é distinto: os EUA recebem uma parcela significativa de bens manufaturados e produtos industriais, graças à sua avançada desindustrialização, enquanto as exportações para a China são dominadas por commodities como carne, soja, minério de ferro e petróleo. Muitos itens impactados pelas novas tarifas americanas não encontram demanda equivalente ou imediata no mercado chinês, seja por diferenças nas preferências do consumidor ou pela forte concorrência de produtores locais.

Não se deve jamais esquecer que a China possui uma capacidade industrial extremamente elevada, de modo que, quando falamos em redirecionar as exportações de máquinas, equipamentos industriais e bens de capital em geral, bem como vestuário, mobiliário, etc., a realidade é que a China simplesmente não precisa de importações nesses setores. Pode-se considerar que ela é autossuficiente.

Como já mencionado, a China responde por cerca de 30% das exportações totais do Brasil e não possui capacidade de absorção ilimitada sem pressões de preços ou saturação setorial. Custos logísticos mais elevados, barreiras regulatórias e possíveis tarifas ou cotas chinesas – como as recentemente implementadas em relação à carne – dificultam uma transferência rápida e completa da produção. Nos setores industriais, em particular, os fabricantes brasileiros muitas vezes não podem simplesmente redirecionar sua produção para a China sem ajustes significativos em escala, qualidade ou certificações, resultando apenas em uma compensação parcial dos mercados perdidos nos Estados Unidos.

Os setores em que é possível afirmar que sim, que as exportações podem ser redirecionadas para a China, são os de produtos agrícolas processados, especialmente etanol e papel. A China tem uma demanda significativa por açúcar e biocombustíveis, e o Brasil, sendo um dos maiores produtores mundiais nessa área, poderia realocar suas exportações para lá. Em relação ao papel, trata-se também de outro item com alta demanda na China que o Brasil poderia suprir. Mas observe que aqui estamos falando de casos excepcionais, bem como de itens de menor valor agregado em comparação com outros itens afetados pelas novas tarifas de Trump.

É preciso considerar também que o momento da imposição dessas tarifas é desfavorável para a indústria brasileira. As perspectivas em relação ao acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia não são positivas para a indústria brasileira.

Diante desse cenário, torna-se essencial para o Brasil intensificar a diversificação de seus mercados de exportação. A Rússia, por exemplo, devido às sanções, deve ser melhor investigada como possível destino das exportações industriais brasileiras. A Rússia importa hoje da China, por exemplo, muitos bens de capital necessários para as operações do setor energético, assim como importa muitos outros bens industriais. Análises econômicas apontam para a possibilidade de um aumento da dependência econômica da Rússia em relação à China.

Se o Brasil também se tornar um exportador industrial para a Rússia, tanto o risco de dependência russa em relação à China quanto o risco de uma crise setorial na indústria brasileira poderão ser reduzidos.

Naturalmente, também faz sentido explorar oportunidades na Índia, nos Balcãs, nos países do Oriente Médio e nas nações da ASEAN, bem como voltar a concentrar-se no próprio continente ibero-americano e na África, como o Brasil já fez em outras épocas.

As relações comerciais com a China são estratégicas e desempenharam um papel fundamental na redução da nossa dependência dos EUA. Ao mesmo tempo, não é possível, nem mesmo desejável, simplesmente substituir os EUA pela China, de modo que as vulnerabilidades comerciais do Brasil só podem ser sanadas por meio da diversificação – um dos pilares necessários para a multipolaridade econômica.

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