
A ideia é corroer a governabilidade atual para favorecer o retorno da direita nas próximas eleições brasileiras. (The Economist Horsefly)
Existe um paradoxo que permeia toda a nova ofensiva tarifária dos EUA contra o Brasil. Washington decidiu punir um país com o qual não perde, mas sim ganha. A contradição desaparece quando se abandona a contabilidade comercial e se observa a geoeconomia. A tarifa adicional de 25%, que entrará em vigor em 22 de julho, não visa primordialmente equilibrar importações e exportações.
Funciona como instrumento de coerção, aumentando o custo da autonomia regulatória brasileira, alterando os incentivos de suas elites econômicas e impondo um custo visível às decisões de um governo que Washington considera excessivamente independente. O comércio é o instrumento; a disciplina política, tecnológica e estratégica é o objetivo.
Isso não significa que Washington dite o resultado das eleições, mas sim que está tentando influenciar o ambiente competitivo. A tarifa serve como uma mensagem para líderes empresariais, exportadores e elites políticas: o custo de manter certos níveis de autonomia pode aumentar se o Brasil não se alinhar à arquitetura preferida pelos EUA.
Críticos americanos e brasileiros concordam que o superávit comercial histórico dos EUA torna a punição ainda mais surpreendente. Por que punir um parceiro com quem se lucra? A resposta reside em algo mais profundo: controle das cadeias de suprimentos, acesso a recursos estratégicos e, sobretudo, o temor de um Brasil que ousa construir infraestrutura soberana sem pedir permissão. É aí que reside o verdadeiro problema para a elite financeira americana: o PIX.
Segundo dados oficiais, os Estados Unidos acumularam um superávit comercial de bens com o Brasil de US$ 14,4 bilhões somente no último ano (um aumento de 112,8% em relação ao ano anterior). Nos últimos 15 anos, o superávit comercial acumulado dos EUA com o Brasil atingiu US$ 424,5 bilhões.
A narrativa oficial fala em proteger o trabalhador americano, mas os corredores de Washington e os escritórios do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) revelam uma verdade muito mais sombria: trata-se de punir a autonomia estratégica de um país que ousou construir infraestruturas de energia fora do oligopólio financeiro de Wall Street e do Vale do Silício.
Para entender a magnitude dessa agressão, é imprescindível olhar além do aço e da soja e voltar nosso olhar para o campo de batalha mais sensível e sofisticado dessa disputa: o sistema PIX, que não é apenas um sistema de pagamento instantâneo, mas uma obra-prima da engenharia financeira pública que, desde seu lançamento em 2020, transformou radicalmente o mercado interno brasileiro.
Desenvolvida pelo Banco Central do Brasil (BCB), a tecnologia permite transferências gratuitas ou com custo mínimo 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem intermediários dispendiosos. Hoje, processa bilhões de transações mensalmente, desde pagamentos no supermercado até grandes operações corporativas. Sua ampla adoção — com quase 200 milhões de usuários — democratizou as finanças, reduziu a exclusão financeira e, nesse processo, desbancou os grandes vencedores do sistema antigo: Visa, Mastercard, Google Pay e outros intermediários privados.
A disputa não se limita à Visa ou à Mastercard. Os Estados Unidos reuniram em um único caso as ações judiciais relativas a pagamentos eletrônicos e ao Brasil contra a X, a Meta, o Google e outras plataformas. São conflitos distintos, mas que compartilham um elemento comum: a resistência dos EUA à imposição, por um Estado periférico, de regras para infraestruturas digitais historicamente dominadas por corporações americanas.
A PIX é problemática não apenas pelo mercado que já ocupa, mas também pelo precedente que estabelece. Ela demonstra que um banco central pode construir uma rede pública eficiente, reduzir os lucros dos intermediários e organizar a economia digital sem entregar toda a sua arquitetura a empresas estrangeiras. Se esse modelo for replicado em outras economias emergentes, a perda potencial para as redes privadas será muito maior do que no mercado brasileiro.
Este ataque econômico contra o PIX e o sistema financeiro brasileiro não é um fim em si mesmo, mas sim combustível para uma intervenção eleitoral sem precedentes na história recente das relações hemisféricas. Ao estrangular setores-chave da economia brasileira a poucos meses das eleições de outubro de 2026, o governo Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, estão executando um plano de condicionamento político.
O objetivo é gerar sofrimento econômico suficiente para que o eleitorado o atribua à inépcia diplomática do governo Lula, mas sem provocar um colapso sistêmico que desestabilize a região. É a criação de uma profecia autorrealizável. Os Estados Unidos impõem tarifas para prejudicar a economia e, em seguida, apontam para os danos econômicos como prova de que o governo atual é um desastre e precisa ser substituído.
No entanto, a verdadeira genialidade cínica dessa medida reside em seu desenho seletivo. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) não impôs uma barreira tarifária indiscriminada; excluiu cirurgicamente certos agentes. A lista de tarifas de 25% não atinge todos os setores. Produtos-chave — carne bovina, café, peças de aeronaves, metais raros, petróleo e certas commodities — estão isentos. Essa seleção de quase 2.000 itens (com base em estimativas de impacto) revela um cálculo político e econômico preciso. Setores com forte influência em Washington ou alinhados a interesses estratégicos dos EUA são poupados. Enquanto isso, bens manufaturados, máquinas e produtos mais expostos ao mercado interno brasileiro sofrem o impacto mais severo da medida.
A elite agroexportadora e financeira (bolsonarista ou pragmática), o setor da carne bovina (JBS, Marfrig, Minerva) e o setor cafeeiro (grandes cooperativas em Minas Gerais e Espírito Santo, e exportadoras como a Cecafé) formam a base eleitoral e financeira do bolsonarismo (a bancada rural ). Figuras como Wesley Batista (JBS) e Marcos Molina (Minerva), e políticos como Tereza Cristina, atuam com pragmatismo implacável. Embora sejam o núcleo duro da direita, sua lealdade está com os negócios, não com uma ideologia rígida. Uma parcela significativa da elite agropecuária brasileira sente maior afinidade política, cultural e empresarial com os Estados Unidos, mas não aceita uma ruptura com a China.
Ao conceder uma isenção, o governo dos EUA envia uma mensagem clara: “Protegeremos seus negócios se vocês mantiverem a estabilidade e não se radicalizarem contra Washington ”. Isso neutraliza qualquer pressão que o agronegócio pudesse exercer sobre o governo Lula para romper relações com os EUA e valida a narrativa de Flávio Bolsonaro em Washington de que “o Brasil real e produtivo” é um aliado dos EUA. Petróleo (Petrobras, 3R Petróleo, Enauta) e aviação civil (Embraer) são setores de elite que transcendem a divisão Lula-Bolson. São atores sistêmicos. A Embraer (com Francisco Gomes Neto como CEO e a família Batista como acionista) e o setor petrolífero dependem de tecnologia, financiamento e cadeias de suprimentos dos EUA.
As tarifas não são aleatórias; elas visam atingir o cerne do projeto de "reindustrialização" do atual governo e a classe trabalhadora organizada. Os setores siderúrgico (Gerdau, Usiminas, CSN), de autopeças, máquinas, calçados, têxteis e certos produtos de madeira processada e móveis são os alvos. Trata-se da burguesia industrial tradicional (representada pela FIESP em São Paulo ou pela CNI) e do sindicalismo organizado (federações historicamente alinhadas ao PT e ao Lulaísmo).
O golpe na reindustrialização, com o aumento de 25% no custo das exportações de valor agregado, impossibilita a competição da indústria brasileira nos EUA, paralisando qualquer tentativa do Brasil de ir além da mera exportação de matérias-primas. Essas indústrias empregam milhões de pessoas no ABC Paulista e no sul do país (importantes redutos eleitorais). O fechamento de fábricas ou a redução da jornada de trabalho devido à queda nas exportações geram desemprego e descontentamento social, o que é diretamente atribuído às políticas econômicas de Lula.
É nesse campo que se manifesta a ambivalência estratégica do Brasil, uma doutrina histórica de autonomia que agora enfrenta suas limitações mais formidáveis. Da era de Getúlio Vargas ao moderno Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores), o Brasil cultivou o "não alinhamento ativo": negociar com todos, não se alinhar com ninguém, posicionando-se como líder do Sul Global. Lula atualizou essa abordagem com o BRICS, o G20 e sua ênfase no multilateralismo. "Queremos negociar com os EUA e com a China", reitera. O problema surge quando a neutralidade deixa de ser crível ou quando uma das grandes potências interpreta essa ambiguidade como um alinhamento secreto com seu adversário.
Se a Lei de Reciprocidade Tarifária for aplicada simetricamente e sem uma estratégia de desescalada, o Brasil poderá acabar pagando mais do que recebe, os custos de importação aumentarão, as cadeias produtivas ficarão sobrecarregadas e a incerteza empresarial crescerá. Além disso, a retaliação poderá impulsionar ainda mais o comércio com a China, reforçando o "efeito rebote" já descrito por diversos analistas: Washington pune e o Brasil compensa, mas o principal beneficiário estrutural acaba sendo Pequim. Nesse sentido, a ambivalência deixa de ser um instrumento de autonomia e se torna um canal de subordinação indireta a uma nova dependência.
O Brasil mantém sua dimensão, capacidade diplomática e centralidade econômica, embora sua liderança regional se enfraqueça quando sua política externa é percebida como mais reativa do que estratégica ou quando se vê dividido entre o conflito com os EUA e a crescente dependência da China. A hegemonia regional não se perde simplesmente pelo comércio com a China; ela se deteriora quando os países vizinhos concluem que o Brasil não oferece mais bens públicos regionais claros, previsibilidade ou um projeto de integração crível.
Os casos da Venezuela e de Cuba, onde a influência brasileira se reduziu à mera gestão de crises humanitárias e migratórias, atestam essa perda de soberania regional. O Brasil deixou de ser o arquiteto da integração sul-americana e tornou-se um ator reativo, apanhado no fogo cruzado das grandes potências.
A ambivalência estratégica, que originalmente servia de escudo para proteger a soberania nacional em um mundo hostil, tornou-se o calcanhar de Aquiles da potência regional. Ao tentar não escolher entre o império tecnológico americano e o império industrial chinês, o Brasil acaba sendo punido pelo primeiro e subordinado ao segundo. A lição que emerge deste julho de 2026 é amarga e reveladora: no século XXI, a soberania não pode ser negociada por meio da equidistância. Ou se constrói infraestruturas de poder inexpugnáveis e fortificadas, como o PIX, e se está preparado para defendê-las a todos os custos políticos e econômicos envolvidos, ou se acaba sendo mero espectador no leilão dos próprios recursos nacionais.
Desde 2025, o Brasil conta com a Lei da Reciprocidade Econômica, que permite a suspensão de concessões comerciais, de investimento e de propriedade intelectual em resposta a medidas estrangeiras que prejudiquem o país. Sua aplicação não é automática: requer avaliação técnica, participação da Câmara Brasileira de Comércio Exterior (Camex) e definição dos produtos ou concessões afetados.
Uma tarifa retaliatória simétrica e indiscriminada de 25% sobre todas as importações americanas seria politicamente impressionante, mas economicamente imprudente. O verdadeiro campo de batalha é o PIX, porque ele transforma soberania em infraestrutura. Os Estados Unidos não veem apenas um sistema de pagamentos; veem um modelo replicável que enfraquece os lucros de seus intermediários financeiros e reduz sua capacidade de disciplinar as economias emergentes. Para o Brasil, defender esse sistema de pagamentos não se trata apenas de defender uma ferramenta tecnológica, mas de preservar a autonomia regulatória, a inclusão financeira e uma alavanca de poder na transição para uma arquitetura econômica mais multipolar.
Fonte: https://eltabanoeconomista.wordpress.com/2026/07/19/ee-uu-aranceles-e-ingenieria-politica-en-brasil/
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