Dormindo com o inimigo: Enquanto a crise se aprofunda, a cooperação militar Brasil–EUA continua intacta
Bandeiras do Brasil e dos EUACRÉDITO: EMBAIXADA DOS EUA/DIVULGAÇÃO
Em meio à maior crise diplomática entre Brasília e Washington da história, uma pergunta estratégica permanece sem resposta
O Brasil aprofunda sua aposta nos BRICS, na multipolaridade e na integração do Sul Global. Ainda assim, exercícios conjuntos, acordos de defesa, interoperabilidade, cooperação espacial e canais militares com os Estados Unidos seguem preservados. Este texto lança uma pergunta incômoda: como essa continuidade se compatibiliza com a estratégia internacional e a soberania do Estado brasileiro?
O paradoxo brasileiro
Enquanto a crise entre Brasil e Estados Unidos ocupa o centro da agenda política, uma dimensão decisiva dessa mesma crise permanece praticamente ausente do debate público. A cooperação militar entre os dois países continua funcionando como se nada tivesse mudado.
Os fatos são públicos. A missão Southern Seas reuniu novamente forças navais brasileiras e norte-americanas. O PANAMAX 2026 manteve exercícios multinacionais sob coordenação do Comando Sul dos Estados Unidos. O SALITRE ampliou a integração regional ao incorporar capacidades espaciais e novos mecanismos de planejamento conjunto. Ao mesmo tempo, autoridades da área de defesa reafirmaram a continuidade da parceria militar em meio ao agravamento das tensões diplomáticas.
Esse contraste não pode ser tratado como rotina administrativa. O Brasil fortalece sua atuação nos BRICS, amplia sua aproximação com a China e assume posições cada vez mais assertivas em defesa de uma ordem internacional multipolar. Washington responde com crescente pressão política, econômica e geopolítica. Ainda assim, a arquitetura permanente de cooperação militar entre os dois países permanece preservada.
Não se trata de defender isolamento nem de transformar toda cooperação internacional em problema. A questão é outra. Como explicar que justamente no momento de maior deterioração das relações entre Brasília e Washington a estrutura permanente de cooperação militar permaneça praticamente inalterada? Mais do que responder a essa pergunta, este artigo pretende demonstrar por que ela nunca deveria ter deixado de ser feita.
A arquitetura que sobrevive às crises
Crises diplomáticas rompem discursos. Arquiteturas estratégicas revelam prioridades.
Enquanto Brasília e Washington aprofundavam sua mais grave deterioração política em décadas, praticamente nada mudou na estrutura permanente de cooperação militar entre os dois países. Exercícios continuaram sendo realizados. Canais institucionais permaneceram ativos. Mecanismos de interoperabilidade seguiram funcionando. A rotina operacional atravessou a crise como se ela não existisse.
Esse talvez seja o fato mais importante de toda esta investigação. Exercícios militares podem ser adiados ou cancelados. Arquiteturas permanentes, não. Elas existem precisamente para sobreviver às mudanças de governo, às crises diplomáticas e às transformações do ambiente internacional. Quanto maior a turbulência, mais elas revelam quais relações um Estado considera estratégicas.
É exatamente por isso que a atual conjuntura exige respostas que o Brasil ainda não ofereceu. Se a política externa identifica uma mudança profunda na posição dos Estados Unidos em relação ao país, por que a política de defesa permaneceu operando segundo a mesma lógica construída em outra realidade geopolítica? Quem decidiu que essa arquitetura não precisava ser revista? Quem concluiu que os pressupostos estratégicos que a sustentavam continuavam válidos? Em nome de quais interesses?
Nenhuma dessas perguntas é retórica. Todas dizem respeito ao núcleo da soberania nacional. Porque uma arquitetura de defesa não se mede apenas pelos exercícios que realiza, mas pela visão de mundo que preserva, pelas prioridades que protege e pelas escolhas estratégicas que decide manter, inclusive quando a realidade já mudou.
Interoperabilidade para quem?
Interoperabilidade costuma ser apresentada como uma virtude técnica. Quanto maior a capacidade de duas forças armadas operarem em conjunto, maior seria sua eficiência. Essa definição, embora correta, esconde a questão essencial. Nenhuma interoperabilidade é politicamente neutra. Toda interoperabilidade pressupõe padrões. E toda definição de padrões pressupõe poder.
Em relações profundamente assimétricas, a pergunta deixa de ser quem coopera e passa a ser quem estabelece as regras da cooperação. Quem define protocolos, doutrinas, sistemas de comunicação, fluxos de informação, requisitos tecnológicos e formas de planejamento não apenas organiza operações conjuntas. Organiza também relações de dependência, prioridades estratégicas e capacidades futuras. Em política internacional, padrões raramente são apenas padrões. São instrumentos de influência.
É exatamente por isso que a continuidade da interoperabilidade militar entre Brasil e Estados Unidos não pode ser analisada como simples rotina institucional. Ela permanece sendo aprofundada no momento em que Washington amplia sua pressão sobre o Brasil, reorganiza alianças regionais, disputa influência sobre a América Latina e procura conter projetos que desafiam sua posição internacional. Diante dessa realidade, preservar a mesma arquitetura sem qualquer revisão pública deixa de ser uma decisão exclusivamente militar. Passa a ser uma escolha estratégica com profundas implicações políticas.
Nenhum país preserva sua autonomia apenas porque possui tropas, navios ou aeronaves. A autonomia começa pela capacidade de definir seus próprios parâmetros estratégicos, revisar permanentemente suas alianças e impedir que mecanismos concebidos para fortalecer a cooperação terminem produzindo dependências incompatíveis com seus interesses nacionais. A pergunta que o Brasil precisa responder não é se deve cooperar. É sob quais condições essa cooperação continua servindo ao projeto estratégico brasileiro e em que momento ela passa a servir, prioritariamente, aos objetivos estratégicos de outra potência.
Quem decidiu que nada precisava mudar?
Crises estratégicas obrigam Estados a revisar suas políticas permanentes. Essa é uma regra elementar da política internacional. Quando o ambiente geopolítico muda, alianças são reavaliadas, prioridades são revistas e mecanismos de cooperação passam por novo escrutínio. É assim que Estados protegem sua soberania. No Brasil, porém, ocorreu exatamente o oposto.
Enquanto a relação entre Brasília e Washington atravessava seu momento mais delicado em décadas, não houve anúncio público de revisão da cooperação militar bilateral, reavaliação dos mecanismos de interoperabilidade, redefinição dos objetivos estratégicos nem qualquer debate institucional compatível com a gravidade da conjuntura. O que emergiu foi uma sucessão de manifestações públicas em defesa da continuidade. José Múcio reconheceu a profunda assimetria militar entre Brasil e Estados Unidos. O comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, reafirmou que a parceria entre as duas forças permanecia sólida e que a crise política não alterava essa relação. Na mesma direção, os clubes militares criticaram a política externa do governo e defenderam a preservação dos vínculos tradicionais com Washington.
Nenhuma dessas manifestações respondeu à única pergunta que realmente importa. Se a principal potência militar do planeta passou a exercer crescente pressão política, econômica e geopolítica sobre o Brasil, quais razões estratégicas justificaram a decisão de preservar intacta a arquitetura permanente de cooperação militar? Essa avaliação foi realizada? Em qual instância? Com quais critérios? Sob quais condicionantes? Até hoje, o Estado brasileiro não apresentou respostas públicas proporcionais à dimensão dessas perguntas.
O problema não está nas declarações. O problema está no silêncio que elas revelam. Em um tema que envolve soberania, defesa e projeto nacional, a continuidade não pode ser tratada como consequência automática da inércia institucional. Ela precisa ser uma escolha consciente, tecnicamente fundamentada e politicamente justificável. Se essa justificativa existe, o país tem o direito de conhecê-la. Se não existe, a ausência de revisão passa a ser, por si só, um fato estratégico que exige explicação.
O Brasil fora do Escudo. O Brasil no centro da disputa
O debate sobre o Escudo das Américas começou pela pergunta errada. A questão nunca foi saber se o Brasil foi convidado, se recusou participar ou se permaneceu fora da iniciativa por decisão política. A questão realmente importante é compreender para que essa nova arquitetura regional foi concebida e quais efeitos ela produz sobre o principal país da América do Sul.
O Escudo das Américas reorganiza mecanismos de segurança, inteligência e coordenação regional sob liderança dos Estados Unidos em um momento de crescente disputa geopolítica no continente. Ao mesmo tempo, governos como os da Argentina e do Paraguai aprofundam sua convergência estratégica com Washington. Buenos Aires amplia acordos de defesa, aproxima-se da OTAN e assume posições alinhadas às prioridades norte-americanas em política internacional. O Paraguai reforça sua cooperação em segurança e inteligência e consolida sua posição como parceiro privilegiado dos Estados Unidos em uma das regiões mais sensíveis da América do Sul, a Tríplice Fronteira. Isoladamente, cada movimento possui sua própria lógica. Em conjunto, compõem uma nova geometria regional de poder.
O Brasil ocupa uma posição singular nesse processo. É o principal formulador sul-americano de uma política externa voltada à multipolaridade, lidera iniciativas no âmbito dos BRICS e busca ampliar sua autonomia internacional. Ao mesmo tempo, encontra-se cercado por uma arquitetura regional que fortalece a presença política, militar e informacional da principal potência que hoje disputa influência sobre esse mesmo projeto. Esse contraste não autoriza conclusões simplistas, mas impõe uma obrigação analítica. Ignorá-lo seria fechar os olhos para uma transformação estratégica em curso.
É justamente nesse ponto que a contradição atinge sua máxima intensidade. O Brasil permanece fora da nova coalizão regional liderada por Washington, mas continua integrado à arquitetura permanente de cooperação militar conduzida pela mesma potência. A pergunta deixa de ser diplomática e passa a ser estratégica. Como um Estado pretende ampliar sua autonomia internacional enquanto preserva, sem revisão pública conhecida, uma estrutura permanente de integração militar com o principal ator que reorganiza o ambiente regional em sentido oposto aos objetivos declarados de sua política externa?
Dormindo com o inimigo
Estados não possuem amigos. Possuem interesses. Essa talvez seja a regra mais antiga e mais ignorada da política internacional. Quando os interesses mudam, alianças são revistas, prioridades são reorganizadas e arquiteturas de defesa são reavaliadas. Permanecer imóvel enquanto o ambiente estratégico se transforma não é sinal de estabilidade. Pode ser sinal de inércia.
É exatamente essa hipótese que a conjuntura brasileira impõe. Os Estados Unidos deixaram de ocupar apenas a posição de parceiro militar relevante. Hoje exercem pressão política, econômica e diplomática sobre o Brasil, disputam sua aproximação com a China, procuram limitar a expansão dos BRICS na arquitetura internacional e reorganizam o espaço estratégico sul-americano por meio de novas alianças e mecanismos de segurança. Nenhum desses movimentos pertence ao campo da especulação. Todos fazem parte da realidade geopolítica contemporânea.
É nesse contexto que o título deste artigo adquire sentido. Dormir com o inimigo não significa transformar toda cooperação militar em ameaça nem sugerir que relações entre Estados devam ser conduzidas pela lógica da hostilidade permanente. Significa algo muito mais simples e muito mais exigente. Significa continuar operando segundo pressupostos estratégicos construídos para uma realidade que deixou de existir. Significa preservar relações de confiança institucional sem demonstrar ao país que elas foram submetidas ao mesmo grau de revisão imposto às demais dimensões da política nacional.
Nenhuma nação perde soberania de um único golpe. A autonomia estratégica costuma ser corroída de forma silenciosa, quando estruturas permanentes deixam de ser questionadas justamente porque sempre existiram. O verdadeiro risco não está na cooperação. Está na incapacidade de distinguir continuidade institucional de interesse nacional. Estados que deixam de revisar suas certezas normalmente descobrem tarde demais que o mundo mudou antes deles.
A pergunta que o Brasil não pode mais adiar
Este artigo não pretende oferecer uma resposta definitiva. Pretende demonstrar que o Estado brasileiro continua evitando uma pergunta que nenhuma democracia madura deveria considerar incômoda. Como garantir coerência entre política externa, política de defesa e projeto nacional em um cenário de rápida transformação da ordem internacional?
Durante décadas, a cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos foi tratada como um dado permanente da realidade. O mundo, porém, deixou de ser permanente. A competição entre grandes potências voltou a organizar a política internacional, novas alianças surgiram, antigas dependências passaram a ser revistas e a disputa por tecnologia, infraestrutura, inteligência e cadeias produtivas tornou-se parte da própria estratégia de poder. Nesse ambiente, nenhuma arquitetura institucional deveria permanecer imune ao escrutínio público.
Revisar não significa romper. Questionar não significa hostilizar. Reavaliar não significa abandonar parceiros históricos. Significa reconhecer que soberania não é uma condição adquirida. É um exercício permanente de atualização estratégica. Estados que deixam de revisar suas estruturas em função das mudanças do ambiente internacional correm o risco de continuar respondendo aos desafios de um mundo que já não existe.
A pergunta, portanto, não é se o Brasil deve cooperar militarmente com os Estados Unidos. A pergunta é muito mais exigente. As condições atuais dessa cooperação continuam servindo integralmente aos interesses estratégicos do Estado brasileiro? Se a resposta for positiva, ela precisa ser demonstrada com transparência. Se a resposta for negativa, ela precisa ser revista com a mesma responsabilidade. O que já não parece aceitável é que uma questão dessa magnitude permaneça protegida pelo silêncio institucional.
Toda geração é julgada pelas perguntas que teve coragem de fazer. A desta geração talvez seja a mais importante para a soberania brasileira desde o fim da Guerra Fria. Na história, as nações raramente sucumbem porque ignoram seus inimigos. Quase sempre sucumbem porque deixam de reconhecer quando um aliado deixou de ocupar o mesmo lugar na realidade.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
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