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Há vinte e cinco anos, na manhã de 11 de setembro de 2001, eu tinha acabado de terminar a revisão de um artigo quando atendi uma ligação no telefone do meu apartamento: era Fred Goldstein, meu camarada do Workers World Party (WWP). Ao meu “alô”, ele respondeu: “Você trabalha no World Trade Center, não trabalha? Você ainda está em casa. Que bom.”
“Sim, por quê — alguém explodiu o prédio?”, respondi, porque alguém já havia colocado uma bomba na Torre 1 do WTC em 1993. Quando minha empregadora se mudou para lá em 1998, nem mesmo a vista panorâmica do porto de Nova York a partir do refeitório no 78º andar era um grande consolo.
Repetindo a notícia, Goldstein me disse que um avião comercial havia atingido a Torre 1. Droga, pensei.
Era uma bela terça-feira de início de setembro, com o céu limpo. Em vez de sair cedo para caminhar os cinco quilômetros ao longo do rio Hudson até o escritório, eu tinha ficado em casa para terminar a revisão. Eu era editor-chefe adjunto do Workers World (órgão do WWP) desde 1982. Como tinha ficado no escritório da seguradora até as 21h de segunda-feira esperando passar uma tempestade, achei que me deviam algumas horas.
Nosso departamento ficava no 31º andar [do WTC]. O horário oficial de entrada era 8h45, então, oficialmente, eu deveria estar lá quando o avião atingiu o 96º andar da Torre 1 às 8h46.
Ninguém atendeu no escritório
Liguei para minha supervisora para perguntar se deveria ir trabalhar, mas nem ela nem ninguém mais atendeu. Comecei a ligar para minha mãe, meu irmão, meu filho e minha irmã para garantir a eles que eu estava seguro em casa. Nunca consegui falar com minha esposa no hospital nem com minha filha na escola onde ela lecionava. O rádio noticiou então que um segundo avião havia atingido a Torre 2 e um terceiro, o Pentágono. Mais tarde, um quarto avião caiu num campo rural da Pensilvânia. Merda!
Percebi imediatamente que aquilo não era um acidente e que o governo de George W. Bush usaria os atentados como pretexto para entrar em guerra. É o pensamento inevitável depois de trinta e oito anos de militância num partido marxista — e um pensamento sobre o qual era preciso agir.
Telefonei para nossa editora-chefe, Deirdre Griswold, e disse que precisávamos convocar uma reunião para mudar o conteúdo da próxima edição e decidir o que fazer em seguida. Ela concordou.
Caminhando para leste pela Rua 25 a caminho dessa reunião, pouco antes das 10h, ao me aproximar da Oitava Avenida, ouvi um gemido coletivo vindo da interminável fila de trabalhadores do sul de Manhattan subindo em direção ao norte. A Torre 2, a torre sul, havia desabado.
Segundo relatos oficiais, cerca de 3 000 pessoas morreram nos atentados naquele dia. Isso incluiu cerca de 265 passageiros dos quatro aviões, além de 350 bombeiros e de 60 a 70 policiais que estavam nas duas torres do WTC quando elas desabaram. Também 125 pessoas no Pentágono e mais cerca de 800 pessoas dentro ou nas proximidades da Torre 2, e 1 600 dentro ou nas proximidades da Torre 1. A maioria das mortes no WTC ocorreu entre pessoas nos andares acima daqueles atingidos pelos aviões.
Para efeito de comparação, na primavera de 1999, bombas e mísseis dos EUA atingiram centenas de alvos civis na antiga Jugoslávia, atingindo escolas, hospitais, pontes e uma pequena cidade a leste de Belgrado, Pancevo, que era o centro da indústria química sérvia. Antes disso, na Coreia e no Vietname, ou depois, no Iraque, bombas americanas mataram milhões de civis.
Para a população dos EUA, no entanto, um ataque vindo “do exterior” foi um soco no estômago. As vítimas do 11 de Setembro deram ao governo Bush a oportunidade de travar uma guerra de agressão com apoio popular inicial. A transmissão televisiva incessante do desabamento das torres espalhou o trauma por todo o país.
A seguradora nos pagou por algumas semanas enquanto a direção procurava um escritório para trabalharmos. Continuei revisando textos e organizando o sindicato. Ofereceram-nos um espaço em Newark, Nova Jersey, e retomei o trabalho em outubro, em meio a uma crise ao mesmo tempo pessoal e política.
Trauma no escritório
Cerca de 1 800 pessoas trabalhavam na seguradora de saúde. Dessas, cerca de metade já tinha chegado ao escritório quando aconteceu. Treze morreram, e delas eu conhecia pelo nome apenas uma. Eu tinha que enviar dados a ele a cada três meses.
Três colegas meus que estavam trabalhando naquela manhã tiveram que fugir descendo 31 andares de escadas cheias de fumaça, com o rosto coberto por lenços de seda.
Um dos meus colegas mais próximos estava do lado de fora, olhando para o incêndio na Torre 1, quando o segundo avião atingiu a Torre 2. Ao lado dele estava uma mulher que foi atingida e morta por uma roda que caiu do avião. Ele teve que pular por cima do corpo dela para escapar. A lembrança foi pesada demais para ele, que se demitiu pouco depois de retomarmos o trabalho.
Outro colega, de quem depois descobri que estava trabalhando num projeto para me substituir, adoeceu e nunca mais voltou. A direção demitiu duas secretárias do departamento, cujas principais tarefas tinham sido substituídas por processadores de texto. Também aqui os patrões souberam usar o desastre como pretexto. A luta de classes continuou.
Apesar dessas demissões, alguém da direção me disse que o procedimento padrão após um desastre é reconstruir tudo exatamente como era antes, e não migrar para algo não testado. Para mim, isso significava reprogramar a aplicação sob minha responsabilidade para que funcionasse em linhas telefônicas de má qualidade, onde quer que fôssemos parar.
Também aprendi que, ao conversar com pessoas que passaram por uma experiência horrível, podemos contrair uma espécie de trauma induzido. E como meus colegas precisavam que eu terminasse minha parte do trabalho antes de poderem voltar à rotina diária normal deles — que era o que realmente queriam —, comecei a trabalhar arduamente.
Com exceção do grande chefe do nosso departamento, eu era o primeiro a chegar ao escritório de manhã e o último a sair, seis dias por semana, em cada uma das dez semanas em que fomos hóspedes em Newark. Enquanto isso, a direção procurava um endereço em Nova York. O clima de trabalho voltou ao normal, exceto depois que um avião caiu em Rockaway e retraumatizou o escritório, e uma vez quando um estrondo sônico quebrou uma janela no corredor.
Guerra imperialista
Tudo mudou politicamente depois de 11 de setembro de 2001. E mudou exatamente como nós, no Workers World, tínhamos previsto.
O vice-presidente Dick Cheney tomou conta do bunker da Casa Branca e começou a arquitetar as próximas guerras antes mesmo que Bush filho descesse do Air Force One. Seus colaboradores eram o guru neocon e vice-secretário de Defesa Paul Wolfowitz, e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, promotor do “shock and awe” — ou seja, o uso de um ataque devastador de mísseis e bombas para atordoar a população e as forças armadas do Iraque até forçá-las a se render.
Eles arquitetaram e ordenaram as invasões do Afeganistão em 7 de outubro de 2001, e do Iraque em março de 2003. Assim como o regime MAGA de hoje, a gangue de Bush tirou proveito pessoal de suas guerras, mas foi mais discreta a respeito. Eles se preocupavam mais em disfarçar essas guerras com um propósito superior — o combate ao “terror”. Membros do gabinete de Bush, como o secretário do Tesouro Paul O’Neill e o principal conselheiro da Casa Branca sobre terrorismo, Richard Clarke, escreveram livros que revelam essas tramas.
Na preparação para a invasão do Iraque, Bush e o secretário de Estado Colin Powell mentiram ao público centenas de vezes sobre as falsas “armas de destruição em massa”. Tudo isso está documentado.
A camarilha de Cheney tentava reconquistar as partes do mundo que haviam obtido ao menos alguma independência na época em que a mera existência da União Soviética fortalecia a posição das antigas colônias. Em 2001, a URSS já havia desaparecido, a Rússia estava enfraquecida, e a China ainda não havia se tornado uma rival econômica em rápida ascensão frente aos EUA.
Os poderes dominantes dentro dos EUA e sua mídia apoiaram os planos de guerra a 100%, e pouquíssimas vozes dentro do governo Bush ou entre os eleitos se manifestaram contra. A classe dominante era unanimemente a favor da guerra.
O sentimento antiguerra de massa permaneceu forte
Apesar da febre belicista após o 11 de Setembro, era possível, na época, mobilizar as pessoas contra a guerra. Foram as pessoas de esquerda, a ala anti-imperialista do movimento progressista, junto com pacifistas e ligados a igrejas progressistas, que se reuniram para protestar em setembro e outubro de 2001.
Houve vigílias noturnas todas as noites em Nova York. Até parentes de vítimas do 11 de Setembro protestaram contra o uso que o governo fazia dessas vítimas para justificar a guerra. Uma dessas parentes era irmã de uma pessoa, na empresa onde eu trabalhava, que não conseguira caminhar para escapar.
No fim de setembro, aconteceu um evento importante para o WWP e para o movimento antiguerra. Havia sido planejada uma manifestação em Washington, D.C., organizada por uma ampla coligação para se opor aos aspectos reacionários da globalização. Alguns dos grupos da coligação, principalmente os social-democratas orientados ao reformismo e ao trabalho com setores do Partido Democrata, se retiraram da manifestação de Washington após os atentados de 11 de Setembro e as ameaças do governo.
Os grupos com quem o WWP trabalhava, como o International Action Center, aceitaram o desafio e seguiram com a manifestação. Em 29 de setembro, cerca de 7 000 pessoas disseram não à guerra contra o Afeganistão e se opuseram ao uso dos atentados de 11 de Setembro como pretexto para a militarização do país e para a aprovação de todo tipo de medidas “antiterroristas”.
Ao contrário do que alguns esperavam, ainda era possível manifestar-se nas ruas, desde que se estivesse disposto a correr o risco do isolamento político. Essas condições ofereceram aos grupos anti-imperialistas mais determinados — como o International Action Center e a nova coligação que chamamos de International ANSWER (Act Now to Stop War and End Racism) — um espaço para orientar quem se perguntava seriamente: “O que os EUA fizeram para se tornar o alvo?”
Como resultado da ousadia do WWP naquele setembro e da experiência organizativa dos militantes do partido, por mais de dois anos uma organização de orientação anti-imperialista e internacionalista teve um papel de destaque nas ações antiguerra de massa nos EUA.
Nos dezesseis meses seguintes, enquanto se preparava a invasão do Iraque de março de 2003, o movimento antiguerra atingiu seu auge em número de participantes. Os grupos mais social-democratas e pacifistas também se organizaram, e no mundo todo, cerca de 10 milhões de pessoas participaram de manifestações em janeiro e fevereiro de 2003, nos sete continentes, incluindo um protesto entre cientistas na Antártida.
Ainda assim, o imperialismo dos EUA lançou a guerra. Ela causou um sofrimento enorme para o Iraque — mas os EUA não conseguiram conquistar totalmente o país — e para o Afeganistão, de onde as forças militares dos EUA se retiraram em 2021.
É nisso que vou pensar, junto com aquela mulher que não conseguiu caminhar para escapar, neste 25º aniversário do 11 de Setembro: em como impedir a próxima guerra, e fazer isso melhor.
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