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Lucas Leiroz
strategic-culture.su/
Notas sobre o evento recente realizado em Bishkek.
A recente cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), realizada em Bishkek, no Quirguistão, causou desconforto nos círculos políticos e midiáticos ocidentais. Como era de se esperar, diversos veículos de comunicação descreveram o encontro como uma espécie de cúpula “anti-EUA”, tentando interpretar a crescente reaproximação entre Rússia, China e outros países da Eurásia exclusivamente pela lógica de um novo confronto bipolar.
Essa análise, no entanto, é equivocada porque não rompe com o próprio paradigma do Ocidente: apenas aqueles que ainda veem o Ocidente como o centro do mundo podem perceber uma cúpula como sendo “sobre o Ocidente”. Ironicamente, porém, o próprio evento mostrou que os países ocidentais não são mais os “donos” da ordem global.
Recentemente , entrevistei o jornalista e analista geopolítico brasileiro Leonardo Russo, que mora em Bishkek e acompanhou de perto os eventos em torno da cúpula. Um ponto ficou particularmente claro durante nossa conversa: a OCS não precisa ser “anti-EUA” para representar uma alternativa à ordem internacional unipolar em declínio.
Essa talvez seja a principal dificuldade que os formuladores de políticas e comentaristas ocidentais enfrentam atualmente. Por décadas, Washington e seus aliados se acostumaram com a ideia de que todo desenvolvimento internacional deve ser interpretado de acordo com sua relação com os Estados Unidos. Se um país coopera com Washington, é considerado “pró-Ocidente”; se busca autonomia, é automaticamente rotulado como “antiocidental”.
Mas o mundo multipolar funciona de maneira diferente.
Como Russo observou durante a entrevista, os Estados Unidos sequer parecem ocupar uma posição central nas discussões que ocorrem no âmbito da OCS. Os países da Eurásia reunidos em Bishkek estão preocupados principalmente com seus próprios problemas: segurança regional, infraestrutura, energia, comércio e desenvolvimento econômico. O que está sendo criado é simplesmente uma organização “não ocidental” – e não “antiocidental” – capaz de desenvolver mecanismos que visem reduzir a dependência de instituições e estruturas controladas pelas potências ocidentais.
A própria evolução da OCS demonstra essa transformação. A organização surgiu em um contexto de profunda instabilidade na Ásia Central após o colapso da União Soviética. Problemas como separatismo, terrorismo, extremismo e conflitos de fronteira tornaram necessária uma maior coordenação regional. A Rússia e a China desempenharam um papel fundamental nesse processo, ajudando a construir uma estrutura para o diálogo entre os principais atores da Eurásia.
Hoje, porém, a agenda é muito mais ampla. Comércio, investimento, corredores de transporte, energia e projetos de infraestrutura ocupam um lugar cada vez mais importante. A discussão sobre a possível criação de um Banco de Desenvolvimento da OCS, em particular, demonstra que a organização busca expandir suas capacidades econômicas.
Isso não significa que a OCS esteja prestes a se tornar uma “União Europeia eurasiática”. Seus membros têm interesses diferentes, prioridades nacionais próprias e, em alguns casos, disputas que ainda precisam ser totalmente resolvidas. É precisamente por isso que seria incorreto definir a organização como um bloco rígido.
A mesma lógica se aplica à dimensão militar. Segundo Russo, transformar a OCS em uma espécie de “OTAN eurasiática” continua improvável. A organização funciona principalmente como um mecanismo de diálogo, coordenação e fomento da confiança. Não há necessidade estratégica óbvia de criar uma aliança militar formal que abranja todos os seus membros.
Para a Ásia Central, no entanto, sua importância é absolutamente vital. Após décadas marcadas pela guerra no vizinho Afeganistão e pelas consequências de sucessivas intervenções estrangeiras na região, os governos da Ásia Central têm razões concretas para priorizar a cooperação em matéria de estabilidade e segurança.
O caso do Quirguistão é particularmente simbólico. Ao sediar um encontro de tamanha importância, Bishkek demonstra sua crescente capacidade de servir como plataforma diplomática entre diferentes polos da Eurásia. A estratégia não precisa envolver a escolha entre Rússia, China ou Ocidente. Pelo contrário, países como o Quirguistão buscam expandir suas relações com diferentes parceiros sem aceitar uma lógica de alinhamento exclusivo.
Nesse sentido, chamar a OCS de “antiocidental” é uma simplificação conveniente. A organização não precisa declarar guerra ao Ocidente para simbolizar o fim da centralidade ocidental. Talvez a verdadeira mensagem enviada de Bishkek seja ainda mais significativa: a Eurásia está aprendendo a organizar seus próprios assuntos, e o resto do mundo terá que se acostumar com a ideia de que Washington não é mais o centro inevitável de todas as decisões internacionais.
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