Por DANIEL AARÃO REIS*
A firme condenação das pressões imperialistas estadunidenses e a defesa enfática da democracia global projetam uma postura de estadista, embora a retórica esbarre em silêncios táticos sobre tiranias aliadas e conflitos internacionais
1.
A 81a. Assembleia Geral da ONU, realizada entre 22 e 28 de setembro na cidade de Nova York, como de costume, abriu-se com uma intervenção do representante do Brasil. Lula, evidentemente, não podia perder a oportunidade de falar para o mundo e, sobretudo, considerando a conjuntura eleitoral, para o Brasil. Foi o seu décimo discurso proferido naquela assembleia e ele apareceu em grande forma.
Na análise da situação internacional não evitou temas polêmicos e acertou em quase todos. Criticou os “desmandos das superpotências”, a tentativa de dividir o mundo em “áreas de influência e investidas neocoloniais”, as guerras infindáveis, consumindo recursos descomunais (“trilhões de dólares”) que deveriam estar direcionados à saúde, à educação, à crise climática, à diminuição das desigualdades sociais e ao combate à pobreza. Em determinado momento, o presidente brasileiro citou expressamente a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e o Painel Internacional sobre Desigualdades como instâncias a merecerem atenção prioritária.
A crítica às guerras foi perfeita. Ao contrário do que dizia um general e teórico prussiano da guerra, Claus Von Clausewitz, a guerra não é a política conduzida por outros meios (os partidários da guerra, à direita e à esquerda gostam muito da fórmula). Inspirando-se em diferentes pensadores, em particular Hanna Arendt, que sustentava que a guerra é a negação ou o fracasso da política, Lula acertou o alvo quando disse: “A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política”. E defendeu o exercício da diplomacia como método para resolver conflitos de qualquer natureza.
Em seguida permitiu-se criticar a ONU. Trata-se de uma tendência geral e equivocada. Porque a ONU só faz (ou não faz) o que as lideranças de todo o mundo, em particular, as das grandes potências, querem (ou não querem). É verdade que a credibilidade da instituição está em baixa, talvez nunca esteve tão em baixa. Mas a que se deve isso senão aos “desmandos das grandes potências”? Que querem restabelecer “áreas de influência”?
Em vez das lideranças se dedicarem a identificar “químicas” que as aproximem, deveriam dirigir-se com mais frequência à ONU, discutir suas diferenças e fazer votar suas resoluções nos recintos internacionais, exercitando o diálogo e a arte das concessões mútuas, indispensáveis ao fazer política. De pouco adiantam críticas à ONU, pois a ONU, para recorrer a uma antiga palavra de ordem do movimento estudantil referindo-se à UNE, a ONU somos nós, nós todos, que habitamos este planeta cada vez mais desgovernado.
Prosseguindo suas observações sobre o mundo, Lula fez críticas pertinentes ao “genocídio praticado pelo governo de Benjamin Netanyahu” e aos “atos terroristas do Hamas”, evitando a cilada de certas direitas que só lembram do “terrorismo” do Hamas e de certas esquerdas que só discutem o “genocídio” do governo israelense.
Também foi certeiro ao se referir à guerra em curso no Oriente Médio: “ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para a região”, uma alusão clara aos “desmandos” de Donald Trump. Faltou, entretanto, uma referência à tirania brutal dos ayatollahs. Infelizmente, não apareceram críticas à invasão da Ucrânia pela Rússia e à destruição impiedosa deste país por Moscou. Talvez chegue o dia em que a diplomacia brasileira venha a se arrepender desta conciliação com a invasão de uma nação soberana por uma superpotência.
2.
No giro pela América Latina, lamentou a indiferença sobre o Haiti, conclamou a Nicarágua a “respeitar a oposição” (uma alusão quase caridosa, considerando-se a ditadura violenta exercida pelo ex-revolucionário, Daniel Ortega), sustentou que o “povo venezuelano deve decidir o seu destino”, passando como gato sobre brasas sobre o inominável sequestro do presidente-ditador Nicolás Maduro, mas denunciou acertadamente o “cerco estratégico e embargo ilegais” exercidos pelos EUA contra Cuba.
Mas o prato de resistência foi quando Lula se estendeu sobre a defesa da soberania brasileira face às “ingerências externas” (leia-se: do atual governo dos Estados Unidos). O presidente brasileiro não teve meias palavras: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. E batendo na cabeça do prego: “não queremos porta-aviões, mas cooperação”. E ainda deixou claro que o Brasil não aceitará “tarifas como armas de coerção e chantagem”. Na mosca.
Referindo-se à articulação liderada por Donald Trump com governos de direita no continente para viabilizar intervenções armadas sob pretexto de aniquilar facções criminosas, Lula foi claro: “não vamos terceirizar a responsabilidade de garantir à população o direito de viver sem medo”. E reafirmou, em grande estilo, o controle brasileiro sobre as riquezas naturais do país e sobre dispositivos financeiros (pix) considerados positivos pelos brasileiros, embora contrários aos interesses de corporações financeiras estadunidenses.
Na questão da corrupção, convenhamos, o autoelogio soou um pouco falso: “o combate à corrupção continuará implacável”. Considerando a gangrena que tritura a ilha da fantasia (Brasília), seria talvez mais razoável dizer que “o combate vai começar”, pois não pode continuar algo que ainda mal começou.
Na afirmação da soberania nacional, Lula enalteceu a democracia (“democracia pertence aos brasileiros”) e a orientação favorável a medidas para reduzir as desigualdades sociais. O presidente brasileiro tem toda a razão. O perigo ronda e como ele disse, a “democracia está em xeque”, ameaçada pelo retorno do “negacionismo”e, dizemos todos nós, pela volta da extrema-direita. Em grande medida, é um “retorno dos que não foram”, haja vista a força remanescente de lideranças e de forças de extrema-direita que continuam bem vivas e sonhando, nostálgicas, com o advento de uma nova ditadura.
Por outro lado, reduzir as desigualdades sociais é um imperativo no processo de democratização da democracia. Os governos Lula fizeram muito a respeito disso. Mas poderiam ter feito muito mais e a ausência de autocrítica sobre este ponto sensível (“fazer os ricos pagarem a conta e cortar privilégios”) está custando caro. Contudo, alguém conhece algum dirigente político que seja chegado a uma autocrítica? E, ainda por cima, no contexto de uma campanha eleitoral? Se souberem, não esqueçam de me avisar para que eu possa efetuar o respectivo registro.
No final, Lula foi novamente assertivo: “Ninguém nos afastará desse caminho” (o caminho de uma democracia soberana e social). E enfático: “essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos”. E completou: “é o que se espera de um estadista”.
É verdade, é isto mesmo que se espera de um estadista.
Quanto aos objetivos, estão claros. Ele mesmo não deixou de esclarecê-los. A ver se não faltarão coragem e vontade política, duas virtudes para lá de escassas entre nossas lideranças. Talvez por isso seja tão difícil distinguir hoje em dia um estadista.
*Daniel Aarão Reis é professor titular de história contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor, entre outros livros, de A Revolução que mudou o mundo: Rússia, 1917 (Companhia das Letras). [https://amzn.to/3QBroUD]
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