A vitória contra o avanço neofascista e imperialista na América Latina exige a consolidação da soberania digital, a desmilitarização das instituições e a permanente mobilização popular
1.
As eleições brasileiras de outubro de 2026 se deram em um contexto global marcado pela estratégia estadunidense de recolonização da América Latina sob a alcunha da vergonhosa Doutrina Donroe (Donald + Monroe) ou, mais precisamente, de indução violenta de uma regressão do padrão de dominação externa-interna caracterizado como capitalismo dependente – atingido por poucas economias latino-americanas – para o imperialismo total.[i]
Contexto, igualmente, de disputa global de hegemonia – nos mais diversos níveis – sobretudo com a China, que se tornou a principal parceira comercial do Brasil e após um tarifaço que foi um tiro no pé para os EUA. Os conceitos de imperialismo, neocolonialismo e dependência – contra os modismos das ciências sociais produzidas nos anos 1980 e 1990 – revelam uma brutal atualidade e a história recente da América Latina tem demonstrado que os EUA estão dispostos a qualquer método – do sequestro de Maduro à violência virtual das Big Techs – para recolonizar a Nossa América.
A vitória de Lula no segundo turno foi um belíssimo não, um categórico basta, a tal estratégia de recolonização e de imposição do imperialismo total. É importantíssima a resistência de México, Brasil e Uruguai – sem nunca esquecer a histórica resistência de Cuba – em um processo tendencial, a ver nos próximos dias, de corrosão política e moral da extrema direita em toda a América.
As eleições de meio de mandato nos EUA serão um importante termômetro político e poderemos ver nos anos vindouros uma nova onda, não rosa, mas bem mais encarnada tomando conta do subcontinente e, oxalá, um fortalecimento das forças realmente democratas nos próprios EUA, haja vista o prestígio de Bernie Sanders e o que ele representa e de uma nova liderança como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani.
No entanto, frente ao grau de regressão da indústria de transformação e da moderníssima reprimarização da economia brasileira, pode-se afirmar que não vivemos exatamente o que nos anos 1960 e principalmente 1970 foi definido como capitalismo dependente ou situação de dependência, tipo conceitual mobilizado para tratar de economias com um grau significativo de industrialização – com forte presença estatal – e internalização da estrutura de tomada de decisões (mesmo que a decisão fosse reproduzir a dependência).
É necessário refundar um nacional-desenvolvimentismo em que a dimensão ecológica seja uma variável central e que se estabeleça por meio do progressivo fortalecimento das parcerias Sul-Sul em todas as esferas, não só econômica. Um nacional-desenvolvimentismo que articule de modo equilibrado o econômico, o social, o cultural e o político, contra o mito de uma primazia da economia que levaria a reboque as outras instâncias. Como nos ensinou Florestan Fernandes, crescimento econômico não pode ser pensado desatrelado de redistribuição crescente de riqueza (renda, recursos materiais), prestígio (reconhecimento social) e poder (participação política efetiva das classes subalternas).
2.
As redes sociais digitais são tão concretas, tangíveis, materiais, quanto as ruas. A criação de uma rede de comunicação e mobilização permanente ligando indivíduos e grupos que incorporam a democracia e a pluralidade ideológica como valores vitais da vida social de uma nação é uma das maiores conquistas das últimas semanas, entre o primeiro e segundo turno.
A ampliação e aprimoramento dessa rede em um sentido de maior horizontalidade – dado que a missão de segundo turno exigiu efetivamente uma economia informacional de guerra que André Janones conseguiu gerir de um modo realmente heroico e brilhante – é a base para contrarrestar o arbítrio de um parlamento extremamente elitista e reacionário.
A vitória contra a escala 6 x 1 deve ser tomada como paradigma nesse aspecto. A dialética rua-rede foi o instrumento central para pressionar o parlamento e impor a eles um “não há alternativa” – à esquerda – a não ser votar contra a escala.
Devemos usar esse modelo nas mais diversas decisões, mas sobretudo no que se refere à garantia de direitos já conquistados e, em especial, à criação de direitos sociais efetivos, orientados para a construção de um Estado de bem-estar social real no Brasil, levado a cabo pela organização e mobilização permanentes das classes subalternas aliadas aos setores progressistas das classes médias e consciente da importância da ciência e da educação nesse processo.
Para isso, a sacrossanta conciliação de classes dos governos petistas deve ser frontalmente enfrentada. Pela milésima vez a lição se repete: as nossas classes dominantes – os casos são raros, são exceções que confirmam a regra – não têm qualquer compromisso fundamental com a democracia e com um desenvolvimento nacional soberano e autônomo.
Desbolsonarizar o Brasil significa muitas coisas, mas um aspecto central é criar mecanismos legais para que qualquer defesa da ditadura empresarial-militar da parte de representantes políticos eleitos implique imediatamente em cassação e prisão.
Desbolsonarizar o Brasil é desmilitarizar inteiramente a nossa Constituição. Submeter sem ambiguidades o poder militar ao poder civil. Desbolsonarizar o Brasil é também desmilitarizar as escolas e a formação das nossas crianças e jovens.
Desbolsonarizar o Brasil é laicizar o Estado, fortalecer em todos os níveis a separação entre o religioso (como esfera íntima e privada) e o político-estatal. É um absurdo que se normalize a existência de uma bancada da bíblia, bem como do boi e da bala, em um parlamento. Essas expressões que se tornaram triviais significam efetivamente: monopolização religiosa, econômica e fascista do poder e do Estado de direito. Economicização, moralização e fascistização da política.
3.
Vários estudos já apontavam, mas a atuação da Meta na eleição escancarou até para quem faz questão de vendar os olhos: a forma (algorítmica) e o conteúdo (os interesses em jogo) das Big techs são moldados pela lógica de mercado ou, para usar um jargão, da governamentalidade neoliberal. O caráter autoritário dessa racionalidade de governo não é fortuito ou casual, mas intrínseco a ela.
Contra isso, é necessário criar um amplo projeto de soberania digital, envolvendo expertise técnico-científica, política e amplo debate democrático, englobando toda a sociedade. Atrelado a isso está a necessidade de um vigoroso projeto de regulamentação e proteção social de trabalhadoras/es ligadas/os ao capitalismo de plataforma, capaz de fazer frente aos modos invisíveis de espoliação algorítmica do trabalho.
O orçamento secreto é uma abominação e deve ser eliminado. Evidentemente, o principal fator para a diferença de votos em Lula do primeiro para o segundo turno foi a maior mobilização popular que esse país já viveu, mas o sucesso da extrema direita e de um “centrão” que a adotou – ou por ela foi adotado, difícil definir quem é ovo e quem é serpente – no primeiro turno tem um nome: orçamento secreto.
É necessário fundar um projeto nacional baseado em uma concepção de cidadania fundada em direitos (materiais e imateriais) e serviços públicos universais e não entendida como inserção precária no mercado por meio de crédito e endividamento progressivo. Crédito e mera distribuição de renda não cria uma adesão incorporada à democracia, serviços públicos universalizados e de qualidade, sim.
O primeiro grande ato de Lula no segundo turno foi no Alecrim, um bairro popular e comercial de Natal, Rio Grande do Norte. Lá estava a menina segurando a Constituição e toda a multidão exprimia na face e no suor a mesma disposição e o mesmo desejo: um estilo democrático de vida. É isso que pulsa na potência plebeia nordestina, muito mais do que o preconceito do Sul-Sudeste (presente inclusive na intelectualidade de esquerda) de que se trata, sobretudo e exclusivamente, dos miseráveis mais assistidos pelos programas sociais dos governos petistas.
O que temos no Nordeste é uma subjetividade política em formação com suas diversas contradições e ambiguidades e não apenas uma massa movida pela necessidade. E é essa subjetividade que tem revelado, consistentemente, a maturidade e a responsabilidade políticas para nos livrar da barbárie neofascista miliciana.
Diferente dos diagnósticos sobre o individualismo ultra-egoísta da juventude contemporânea, as redes e as ruas mostraram o contrário: uma juventude profundamente consciente, orientada – intelectual e/ou praticamente – por uma concepção de liberdade essencialmente ligada à garantia de condições de igualdade e liberdade para o outro. Uma juventude que pensa a necessidade de garantir futuro – e sonho – para as próximas gerações.[ii]
*Lucas Trindade é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Notas
[i] Ver FERNANDES, Florestan. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. São Paulo: Global, 2009.
[ii] Agradeço a Hansel Soto, Susana van der Ploeg e Diogo Valença pela leitura e pelas sugestões.


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