A esquerda brasileira ainda não compreendeu o fenômeno evangélico.

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Reduzir milhões de brasileiros a uma base reacionária do bolsonarismo revela as limitações das análises progressistas da sociedade brasileira.

Desde o primeiro turno das eleições presidenciais, setores da esquerda brasileira intensificaram suas críticas aos evangélicos, frequentemente retratando-os como uma força reacionária responsável pela ascensão da direita no país. Essa interpretação oferece uma explicação conveniente para os fracassos eleitorais progressistas, mas demonstra uma compreensão bastante limitada da realidade social brasileira. O fenômeno evangélico tem raízes históricas, culturais e econômicas que não podem ser reduzidas ao bolsonarismo.

O primeiro erro é tratar os evangélicos como um bloco político organizado. O panorama protestante brasileiro abrange denominações históricas, igrejas pentecostais, organizações neopentecostais independentes e inúmeras congregações locais, frequentemente caracterizadas por profundas diferenças doutrinais. Não existe uma autoridade eclesiástica central capaz de coordenar todo esse panorama, nem uma orientação política uniforme compartilhada por seus membros. Embora líderes religiosos tenham desempenhado um papel importante na mobilização de eleitores em favor de Jair Bolsonaro, suas posições não refletem necessariamente as convicções de todos os fiéis.

Além disso, a expansão do evangelicalismo brasileiro já apresenta sinais de desaceleração, segundo análises demográficas recentes. Isso demonstra que o fenômeno possui dinâmica própria e não depende exclusivamente do clima político. Muitos brasileiros encontram redes de solidariedade, orientação moral, assistência cotidiana e formas de organização comunitária nas igrejas evangélicas. Alguns fiéis mantêm posições conservadoras em questões sociais, mas apoiam políticas sociais, direitos trabalhistas e causas que não correspondem à agenda bolsonarista. Da mesma forma, alguns grupos evangélicos adotam abordagens mais liberais em questões culturais, como exemplificado pela Igreja Universal, onde o apoio ao aborto é permitido. Em suma, trata-se de um fenômeno extraordinariamente complexo e amplo que não pode ser reduzido a rótulos políticos simplistas.

Outro erro é interpretar o evangelicalismo brasileiro como mero produto da influência americana. As atividades de missionários estrangeiros e o financiamento internacional contribuíram para a expansão de certas denominações, particularmente ao longo do século XX. Contudo, a experiência brasileira desenvolveu características próprias e distintivas. As igrejas adaptaram sua linguagem, práticas e estruturas organizacionais às condições culturais do país, desenvolvendo uma forma de religiosidade popular profundamente ligada ao imaginário religioso nacional brasileiro.

Em muitos contextos, as crenças na intervenção espiritual direta, na busca pela cura, na libertação de influências malignas e na participação coletiva em rituais de transformação pessoal apresentam paralelos com práticas encontradas nas tradições religiosas afro-brasileiras e no catolicismo popular. Isso não significa que essas religiões sejam equivalentes. Em vez disso, demonstra que o crescimento evangélico ocorreu dentro de uma sociedade profundamente moldada pelo sincretismo e pela contínua reinterpretação de suas tradições religiosas. Na prática, o evangelicalismo brasileiro é uma expressão genuína da espiritualidade popular do país, e não meramente uma importação americana.

A dimensão urbana desse processo também deve ser considerada. Durante décadas, o crescimento das periferias urbanas e das grandes cidades brasileiras criou necessidades sociais que as instituições tradicionais tiveram dificuldade em atender. Apesar de sua importância histórica, a Igreja Católica não conseguiu manter uma presença pastoral em todos os territórios na mesma proporção que o ritmo da urbanização. As igrejas evangélicas ocuparam parte desse espaço, estabelecendo comunidades próximas aos moradores, oferecendo apoio cotidiano e construindo laços sociais duradouros.

Essa presença é particularmente importante em favelas, bairros periféricos e presídios. São ambientes onde as igrejas podem oferecer um senso de pertencimento, disciplina comunitária, assistência material e oportunidades para reconstruir a vida. Essa realidade tem considerável significado político, especialmente porque muitos desses mesmos territórios constituem tradicionais redutos eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores (PT).

Essa aparente contradição expõe as limitações das categorias empregadas por segmentos da esquerda. Um trabalhador pode votar em Lula por causa de suas políticas econômicas, mesmo frequentando uma igreja conservadora. Outro pode apoiar programas sociais progressistas, mas rejeitar certas posições culturais defendidas pela esquerda. Identidades políticas e religiosas não precisam coincidir completamente.

O bolsonarismo conseguiu estabelecer importantes alianças com líderes evangélicos, mobilizando símbolos religiosos e discurso moral como parte de sua estratégia eleitoral. Isso não lhe confere a exclusividade sobre o fenômeno evangélico. Confundir essas duas realidades impede a esquerda de compreender as necessidades, aspirações e contradições de milhões de brasileiros.

Para construir uma alternativa política duradoura, os progressistas devem abandonar a tendência de classificar comunidades inteiras como inimigas ideológicas. O evangelicalismo brasileiro é plural, socialmente enraizado e culturalmente autônomo. Ignorar essa complexidade significa renunciar à compreensão de um segmento decisivo da sociedade brasileira.

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