A árvore genealógica da extrema-direita deu seus frutos mais recentes, envenenados pela ignorância e pelo ódio, na forma de Eduarda Campopiano e Lucas Pavanato, que estiveram entre os candidatos mais votados nas eleições brasileiras de 4 de outubro. Eles seguem, em ordem cronológica inversa, o transfóbico e delinquente da desinformação, Nikolas Ferreira; o ator Juliano Cazarré, transfóbico, evangélico, defensor dos valores cristãos e mestre da desinformação (que afirmou que mais homens são mortos por mulheres no Brasil do que o contrário); os membros violentos e tóxicos do Movimento Brasil Livre (MBL), “liberal na economia, conservador nos hábitos”, e outras iniciativas políticas que surgiram após o golpe contra Dilma Rousseff em 2016; o abominável “Igreja Militante” Allan dos Santos; o estrategista do golpe, Paulo Figueiredo; o humorista sem graça e flagelo da esquerda, Danilo Gentili; e o clã Bolsonaro, conhecido por sua violência. e o vociferante guru charlatão de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho.
Mas as linhagens são muito mais antigas. Elas estão enraizadas na ideologia fascista europeia do final do século XIX (rejeição da democracia liberal, antirracionalismo, darwinismo social, antissocialismo, protonacionalismo e autoritarismo bismarckiano e napoleônico), que sobreviveu à derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial, estendendo-se às brutais ditaduras de Franco e Salazar na Espanha e em Portugal. “Fanáticos insossos”, como usado no título do livro de Pankaj Mishra, “Fanáticos Insossos: Liberais, Raça e Império”, é uma forma de descrever esses malfeitores, e é uma expressão que remonta ao livro do teólogo americano Reinhold Niebuhr, “A Estrutura das Nações e dos Impérios” (1959), no qual ele alerta sobre os “fanáticos insossos da civilização ocidental que consideram as conquistas altamente contingentes de nossa cultura como a forma e a norma final da existência humana”.
Antes de analisar mais detalhadamente essa genealogia específica do desarranjo fascista, devo esclarecer que utilizo o conceito de “genealogia” no sentido atribuído por Michel Foucault, cuja “genealogia do sujeito” dá conta da “constituição dos saberes, discursos, domínios dos objetos, etc., sem ter que fazer referência a um sujeito que seja transcendental em relação ao campo dos acontecimentos ou que percorra a história em sua vacuidade e mesmice”. Em outras palavras, trata-se de uma forma de estudar a formação histórica de ideias, valores, instituições e relações de poder, mostrando que elas não derivam de uma essência imutável nem de uma inevitável evolução linear.
Para voltar à árvore genealógica dos reacionários de São Paulo, podemos começar com Campopiano e Pavanato, que estão entre as figuras mais recentes de uma tendência política amplamente impulsionada por homens brancos raivosos que se rebaixam a qualquer coisa para defender seus privilégios. Estreitamente ligado ao suposto filósofo Olavo de Carvalho, articulador dos movimentos de direita no Brasil e guru dos homens Bolsonaro, pai e filhos, o canadense Jordan Peterson, tradicionalista de direita, propagador de teorias da conspiração e que manipula os fatos, agora possui, desde a morte de Carvalho em 2022, um grande número de seguidores na política de direita brasileira e nos movimentos tradicionalistas. Popularizando a reação cultural na América do Norte, seu livro de autoajuda 12 Regras para a Vida: Um Antídoto para o Caos oferece um compêndio de slogans e clichês semelhante ao execrável livro de Carvalho, O Mínimo que Você Precisa Saber para não Ser um Idiota. Carvalho — embora tenha feito a afirmação bizarra de que “os Beatles eram semianalfabetos em música, mal sabiam tocar violão. Quem compôs suas músicas foi Theodor Adorno” — também foi o mentor reverenciado dos militantes do MBL, os instigadores da Lava Jato contra Lula e celebridades rancorosas e descontentes como Danilo Gentili .
Peterson e Carvalho aplicam sua própria versão do conceito de “arquétipos” de Carl Jung ao argumentarem que a cultura simbólica é essencialmente masculina, de modo que resistir à hegemonia masculina significaria desafiar a natureza. Essa é também a tese de Juliano Cazarré, discípulo de Carvalho, que recentemente organizou o seminário de título pomposo “O Farol e a Forja” (O Farol e a Forja), com mais de vinte palestrantes sobre espiritualidade cristã, liderança, paternidade, família e papéis masculinos tradicionais para homens inseguros.
Embora invoquem tradições ancestrais e mitos, Peterson e Carvalho estão simplesmente reciclando ideias reacionárias dos inúmeros charlatães intelectuais e emocionais do século XIX que prometiam redenção e purificação em meio às crises econômicas e políticas do capitalismo, ao desencanto com a democracia e ao medo da mudança social, com discursos que contribuíram para preparar o terreno para a ascensão de sociopatas como Mussolini, Hitler e Franco. Qualquer semelhança com o que temos visto desde o início do século atual não é mera coincidência.
O sucesso eleitoral de figuras de discurso inflamado é uma expressão da insegurança sentida por um grande número de eleitores diante de um mundo em profunda transformação, com o colapso das hierarquias tradicionais e a imposição de novos modos de vida. O apoio a esses vigaristas profissionais, e o sucesso do influenciador picareta Pablo Marçal (apesar da expedição insana que liderou ao Pico dos Marins, na qual expôs 32 pessoas a riscos tão graves que precisaram ser resgatadas pelos bombeiros) e do autor de livros de autoajuda Augusto Cury, deriva de um antigo desejo de restaurar uma ordem e privilégios que são vistos como ameaçados. Isso também revela a ruptura entre o conhecimento construído nas universidades — que exige leitura, experimentação, testes, hipóteses, argumentação, memória e consenso baseado na honestidade intelectual — e a doutrinação promovida por aproveitadores do YouTube e do TikTok que se fazem passar por intelectuais. Em 1910, Romain Rolland descreveu o espírito protomodernista de sua época e, de forma profética, o mundo dos gurus de hoje e seus discípulos: “A razão da humanidade estava esgotada. Ela acabara de fazer um esforço gigantesco… O portão dos sonhos se reabriu; no rastro da religião, pequenas rajadas de teosofia, misticismo, fé esotérica e ocultismo visitaram os recônditos da mente ocidental.”
Um dos ideólogos populares da época era Julius Evola, simpatizante nazista, mentor ideológico da extrema-direita neofascista italiana e — com premeditação — abraçado por Steve Bannon. Outro reacionário com verniz intelectual era o professor de literatura Joseph Campbell, defensor da universalização, essencialismo e etnocentrismo (abominado por folcloristas sérios), um dos favoritos entre certos pseudo-intelectuais radicais. A "Pílula Vermelha", uma comunidade online de homens anônimos que acreditam ter descoberto a verdade oculta sobre a perfídia das mulheres e a necessidade de puni-las, é uma versão distorcida da pílula vermelha de Matrix (que permitia encarar as verdades do mundo real), e eu diria que a manipulação aqui é comparável ao uso de arquétipos junguianos para justificar hierarquias sociais.
Ao construir sua imagem, Donald Trump aderiu a essa tradição de charlatães e “fanáticos insossos”. Ele ganhou milhões em direitos autorais com seu livro A Arte da Negociação (1987), escrito por Tony Schwartz — que mais tarde reconheceu seu papel na construção do que era literalmente uma história inventada —, apresentando Trump como um empresário extraordinário e um negociador brilhante. Na verdade, na época da publicação, Trump havia perdido dezenas de milhões de dólares no que o New York Times chamou, com ironia, de “negócios problemáticos” . Com essa operação em particular, o empresário incompetente foi transformado em uma figura mítica: um vencedor, um homem abençoado por Deus, defensor da nação, da família e dos valores tradicionais. A máquina de autopromoção transformou a falsificação e o exagero em sua marca pessoal.
Com a ajuda da Meta e de outras grandes empresas de tecnologia, esses golpistas de longa linhagem visam manipular a opinião pública e, consequentemente, as condições da disputa eleitoral brasileira em favor do projeto neonazista-fascista associado a Trump e Netanyahu. Algoritmos, publicidade direcionada e uma sobrecarga massiva de desinformação favorecem forças autoritárias e minam o deliberação democrática. Não é preciso imaginar uma única conspiração bem coordenada para reconhecer o perigo político representado por plataformas que lucram com a polarização e se recusam a oferecer salvaguardas contra a manipulação. Eleições democráticas exigem transparência, prestação de contas e limites ao poder (atualmente irrestrito) dessas empresas.
A genealogia dos reacionários misóginos, racistas e homofóbicos de hoje remonta às tradições políticas que deram origem ao Holocausto, à Guerra Civil Espanhola e às atrocidades cometidas com a ascensão do fascismo. Alguns membros da esquerda também estão usando as redes sociais como sua principal fonte de "conhecimento" e como vitrine política. Estamos testemunhando o triunfo da mistificação digital de praticamente tudo, até mesmo das relações humanas mais básicas.
Devemos temer, mas também resistir a esse espetáculo de vigaristas mentirosos e grosseiros cujos projetos levam a campos de concentração, câmaras de gás, valas comuns, genocídio e ecocídio. Os eleitores devem ser responsáveis pela escolha que fazem. O mundo de morte, destruição e riqueza para poucos criado pelos charlatães está próximo. E é preciso impedir que chegue ao ponto sem retorno.
Tradução por Julie Wark.


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