Aprender nunca é tarde


Omar dos Santos

Depois da apuração de 1º turno das eleições, recebi uma mensagem do meu filho, na qual ele expõe um dilema tão falso que o comparo ao da antiga propaganda de um biscoito, que dizia: "Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?". No texto ele reclama que ao votar no 2º turno para a escolha do presidente os brasileiros não terão uma alternativa qualificada e até usa a velha máxima popular de que estamos no mato sem cachorro, pois qualquer um dos candidatos que vencer o pleito seremos governados pelo cão ou pelo capeta. Como acredito que muitos de nossos leitores têm ouvido este tipo de conversa, ela é sempre a “muleta” de amparo para justificar uma decisão dos que gostam de ser enganados e que se recusam a enxergar a verdade, vou reproduzir minha resposta a dele.

 Inicialmente afirmo a você com toda segurança que não vivo seu paradoxo, já superei, e de há muito, o falso sectarismo de que o mundo da política está dividido entra anjos e demônios. Ela, a política, é coisa do homem e como tal carrega suas virtudes e seus defeitos, embora reconheça que estamos vivendo tempos do império da imoralidade e da corrupção, não só no Brasil, mas no mundo, como nunca antes visto.

Aos 82 anos, venho me defrontado com a dúvida de escolha entre três opiniões sobre a natureza humana. A de Rousseau, que defende que o homem nasce bom, a de Tomaz Hobbes, para quem o homem nasce ruim, sendo, em suas palavras, seu próprio lobo e a de John Locke, que afirma que o homem ao nascer não é bom e nem ruim, nasce como uma tábula rasa. Meu problema é que conforme a caminhada, minha crença vagueia entre uma ou outra destas hipóteses. Hoje, por exemplo, penso que não tem remédio, o lobo está a solta.

Outra questão. Durante a campanha eleitoral tenho pensado muito no livro de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt “Como as Democracias Morrem” e, às vezes, acredito que esses pensadores estão assistindo, in loco, à situação em que vivemos atualmente. Quando afirmo que não vivo seu “drama” é porque em caso de se confirmar a eleição de Flávio Bolsonaro, o que é possível, já que a grande imprensa quer, o Trump quer, pequena burguesia quer e a elite brasileira exige, a construção da soberania do país, seja econômica, política ou cultural, deixa de existir em poucos meses e o Brasil voltará a ser contado como uma “republiqueta de bananas”, um tantinho mais que um pária. Se alguém ainda tem dúvidas é só lembrar o que ele, o Flávio Bolsonaro, afirmou publicamente. Uma vez eleito chamará o governo americano para fazer a transição de governos. E mais, por exigência dos cartões Visa e Master Card, o Pix será transformado em outra forma de pagamento, taxada obviamente. Haverá a entrega, incondicional, dos minerais e terras raras, isto já foi resolvido entre o candidato e autoridades americanas durante suas visitas à América como ele anunciou. O petróleo da foz amazônica será requisitado para suprir o problema de custos para a economia americana causados por sua guerra contra o Irã. A Petrobras será “vendida” pelo mesmo preço que o “mito” vendeu nossa refinaria, um relógio Patek Philippe e outras bugigangas. Os capitalistas já não aguentam mais o custo da mão-de-obra no Brasil, então o remédio é parar o crescimento para causar desemprego e provocar o aumento do Exército de Reserva dela, estratégia mais eficiente de reduzir salários. Uma das primeiras medidas que Flávio tomará, caso seja eleito, será retirar o Brasil dos Brics, pois esta é a exigência mais cara ao Trump, seu guia. Teremos então de novo o FMI dando as cartas em nossa economia. Se alguém já se esqueceu o que isto representou para nós em outros tempos, pergunte aos hermanos portenhos que estão passando por isto. Nosso país será reconhecido mundo afora porque seu presidente tem pai preso e irmão condenado foragido e procurado pela Interpol. Não entrarei aqui na seara das qualidades morais da família Bolsonaro, isto você sabe até mais que eu.

O que mais me preocupa é que a “pequena burguesia”, que pensa que sabe tudo, que acredita que atrás da montanha tem um pote de ouro, que acha que a História é peça de museu e que nada tem para ensinar a ela junto com uma juventude elitizada, que já encontrou o pão amassado e assado não querem ver este claro enigma.

Concluindo, repito aqui o que aprendi com Gramsci e cansei de ensinar: A consciência crítica se pressupõe dominada, a consciência ingênua se pressupõe dominadora.  

A vantagem de ter a clareza de que o fim da vida está logo ali, é que não temos que nos preocuparmos conosco e só nos preocupamos com os que vão ficar neste trem por mais tempo. Mas isto também traz, aos mais velhos, grandes amarguras.

No dia da eleição do 2º turno, o povo brasileiro vai decidir muitas coisas, mas indubitavelmente a mais decisiva delas é que decidiremos se somos uma nação independente ou se queremos ser colônia. O resto é conversa de sonsos e mal-intencionados.

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