Para considerar a Região Nordeste e respeitar os nordestinos


Nonato Menezes

Primeiro, é bom e necessário recorrer à História quando o argumento é sobre Regiões, sociedades e, em casos específicos, quando se trata de pessoas, aquelas que a própria História faz questão de avisar: não esqueçam delas!

Aqui, convido quem está disposto ou disposta a me acompanhar nesta curta caminhada, e conversar sobre uma Região específica, sociedade especifica e, se houver tempo, de pessoas específicas. Específicas, não melhores ou piores, específicas.

Por incitação política, quase sempre ouvimos, vemos e lemos argumentos sobre nós, o povo nordestino. São palavras, às vezes imagens pejorativas, desrespeitosas com ódio estampado, seja nos gestos, no tom de voz ou no semblante que não consegue esconder carência, estupidez ou, para ser mais sutil, burrice mesmo.

O Brasil começou historicamente pelo Nordeste. Foi aqui que o europeu aportou seus barcos, despejou arrogância, matou nativos e começou a saquear riquezas das “novas” terras, processo que ainda não terminou.

Como atividade planejada e lucrativa, o invasor começou a extrair pau-brasil, planta que além de servir como madeira para fabricar móveis, pura e simples, oferecia uma resina, a brasilina, líquido colorido a ser usado, também, para tingir os colarinhos das “madames ostentação” da nobreza europeia. Essa atividade durou mais ou menos trinta anos.

Com essa extração exaurida, por se tornar pouco lucrativa, veio a cultura da Cana-de-açúcar. Uma cultura que exigiu muita mão-de-obra, principalmente para o serviço pesado, aquele serviço que os europeus nunca foram de fazer, porque jamais foram de trabalhar mesmo, menos ainda naquela atividade que exige esforço físico, resistência e coragem. Foi este motivo que levou os europeus recorrerem aos africanos, catando-os em suas terras como animais e tratando-os, nos canaviais, como enxadas, facões, foices e picaretas. Como simples ferramentas, por assim dizer.

Somados aos nativos que não se subjugaram à escravidão, os preguiçosos europeus e os africanos deram os fundamentos da sociedade a qual somos hoje.

Esse período, que poderíamos chama-lo de o mais infame da nossa História, durou cerca de trezentos anos: do Século XVI ao Século XVIII.

Esgotado esse ciclo, começa o período da extração mineral, principalmente nos que são hoje o Estado de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. Agora advinha quem, majoritariamente, foi usado para remover pedras, cascalho, cavar buracos etc., em busca dos minerais preciosos? Claro, o nordestino, escravos e não escravos.

Esse período durou menos de um Século e sua economia veio a se somar à produção de algodão, principalmente o cultivado no Maranhão.

Somados os lucros dessas duas culturas, o ciclo se deslocou e se concentrou no Vale do Paraíba e no Oeste da região paulista, período compreendido entre os Séculos XIX e XX. E, de novo, advinha qual foi a mão-de-obra, majoritariamente, usada para plantar, catar, carregar, secar e moer café? Adivinhou! O nordestino, claro. Dessa vez misturado a muitos europeus que vieram para cá, fugindo da pobreza e das guerras, isto que eles – os europeus – sempre fizeram tão bem.

Também, nesse período, com ênfase entre 1879–1912 e 1942–1945, a extração da borracha na Amazônia ganhou destaque. E, mais uma vez, advinha quem foi riscar árvore para extrair a resina para produção da borracha, se expor a picadas de mosquitos, cobras e sujeito à malária e outras doenças? Advinha quem mais esteve presente naquele quase inferno? “Sei não”, acho que foi o nordestino.

A cultura do café foi extremamente lucrativa. Foi ela que impulsionou o processo industrial brasileiro, cuja concentração se deu no Estado de São Paulo. E hoje o Estado de São Paulo é o mais rico do Brasil. Abriga a maior cidade do País e, por favor não se aborreça com a repetição, mas qual o Estado, fora do Nordeste, mais abriga nordestino? Óbvio, São Paulo! São, aproximadamente, 5 milhões. E não são nordestinos fazendo turismo, presentes em Shows, provas de Fórmula1, ou noutro evento qualquer. A maioria dos nordestinos que hoje habita São Paulo está trabalhando, produzindo. De empregada doméstica a engenheiro civil. De motorista de Táxi a professor, inclusive na USP. No campo e na cidade, onde quer que você vá, encontra nordestino, usando sua força física, sua inteligência, criatividade e sua cordialidade nos entretenimentos e na produção.

E não é só. Vamos a Manaus, Porto Alegre, Cuiabá, Belo Horizonte, Brasília etc. Onde quer que vá neste país, você encontra nordestino, produzindo, vivendo e ajudando os outros a viverem, inclusive os otários que rosnam contra os nordestinos, porque não conseguem falar.

Como se pode ver, e a História é quem revela, o Brasil é o Brasil de hoje porque, em boa parte, tem a participação do nordestino. Por isso, o nordestino em geral e aquele que saiu de sua região, seja por vontade própria ou por força das circunstâncias, tem o dever de exigir respeito e reconhecimento, senão dos idiotas, dos burros que acham que o nordestino é inferior e a Região Nordeste representa o atraso, mas dos que enxergam além da ponta do nariz, dos que percebem que nosso desenvolvimento não teria sido possível, em grande medida, sem os nordestinos. De todos aqueles e aquelas que tem ao alcance do olhar montanhas lindas, mas não tem praias com água morna o ano inteiro. Daqueles que se encantam com zero grau de temperatura pelo menos uma vez por ano, mas não tem uma cidade com 38 graus de vez em quando, distante 70km dela tem outra que em seu dia mais quente a tempera não ultrapassa os 28 graus célsius. Daqueles que numa fila de padaria não dão um bom dia, talvez por preferirem o silêncio, mas, possivelmente, sintam falta de quem não ensina o caminho, mas vai com quem está perdido.

Por fim, e aqui faço um pedido e revelo um desejo em particular. Que todo brasileiro de bom senso, que ame nosso país, nossa gente de todas as cores e credos, nossa fauna, nossa flora, praias e montanhas, usem suas palavras contra o ódio e a estupidez. Usem a força de suas palavras contra a miséria, o roubo do dinheiro público, o analfabetismo, inclusive político, em defesa de um país mais justo e plural. E acrescente o grito pelo respeito às crianças desprotegidas, às mulheres, aos idosos. E não esqueça de dizer BASTA ao nazi-fascismo, porque é ele que choca os monstros.



Comentários

  1. Vivas aí Nordeste! Vivas aí pô o nordestino, pois desde os primórdios fizeram, fazem e farão o Brasil sempre!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

12