Segundo o presidente
Barack Obama, em nome de sua autodefesa, os EUA precisam da CIA - ou seja, uma
força paramilitar -, dos ataques com drones - que, em essência, são missões de
assassinatos internacionais -, e da espionagem em todos os cantos do mundo e
dentro do país. Mas por que será que ainda nos sentimos tão inseguro com tanta
segurança? Por David Brooks, do La Jornada
David Brooks – La Jornada
Carta Maior
A CIA se converteu em um "serviço
paramilitar", onde mais da metade dos agentes que ingressaram depois de
2001 se dedicam exclusivamente a operações militares da "guerra contra o
terror", informa o New York Times. A agência de inteligência se encarregou
de realizar centenas de ataques com drones, as aeronaves a controle remoto que
se tornaram a arma moderna mais destacada da política bélica do governo de
Barack Obama. Além disso, a CIA agora tem estações grandes em Cabul e Bagdá,
com centenas de agentes clandestinos no que se continua considerando
"zonas de guerra".
Por sua vez, as agências de segurança nacional, no contexto da guerra contra o
terror, também contemplam os Estados Unidos como possível terreno de operações
"inimigas", e falcões dessa guerra afirmam que, apesar de
acontecimentos trágicos como os de Boston, vários complôs foram freados dentro
deste país graças, dizem, às operações clandestinas para descobrir, vigiar e
atacar possíveis "terroristas". Não por nada se multiplicou o uso de
câmaras de vigilância por todas as partes: metrôs, bancos, ruas, edifícios
importantes e outros. De fato, há alguns anos, a empresa de moda Kenneth Cole
usou este fato para sua campanha de publicidade, ao lembrar que um cidadão é
fotografado em média 75 vezes durante um dia, e sugere que o sujeito pelo menos
"apareça bem" diante dessa situação.
Entretanto, a vigilância oficial de comunicações pessoais – telefone, correio
eletrônico, redes sociais e outras – continua ampliando-se. O escândalo que
estourou recentemente com a revelação de que o Departamento de Justiça, ao
investigar possíveis filtrações de informação "secreta" por
funcionários oficiais, obteve de maneira clandestina os registros de
comunicações telefônicas de uns 100 jornalistas e editores da principal agência
de notícias do país, a Associated Press, é só um exemplo da nova
"vigilância" cujo alcance e dimensões são secretos.
Tudo isso se justifica por uma "ameaça" constante que vem de fora,
mas que já está aqui dentro: a criação de uma força paramilitar, os ataques com
drones, que, em essência, são missões de assassinatos internacionais com
controle remoto, a espionagem em todos os cantos do mundo e dentro dos Estados
Unidos. Mesmo os erros de inteligência (incluídas milhares e milhares de vidas
em "danos colaterais") são interpretados com esta justificativa de
que os Estados Unidos fazem o necessário para sua "autodefesa", como
disse Obama na semana passada, diante desse inimigo que quer fazer dano a todos
os estadunidenses. Tudo para defender a "liberdade" mundial e o
próprio guardião autoproclamado deste mundo: os Estados Unidos.
Frente esse ambiente de ameaça permanente – algo alimentado diariamente pelos
políticos, autoridades, meios de comunicação, "especialistas" e toda
uma indústria de relações públicas dedicadas a isso –, a sensação é de um país
sitiado.
Isto favorece todo o tipo de interesses como, por exemplo, os defensores do
"direito" sagrado às armas. Wayne La Pierre, principal porta-voz da
Associação Nacional do Rifle insiste que, se todos os cidadãos estivessem
armados poderiam deter atos como os que ocorreram na maratona de Boston, e que
a tentativa de controlar este direito é nada menos que uma ameaça à liberdade.
Na luta contra o controle de armas, insistiu recentemente na convenção desta
poderosa agrupação: "temos uma oportunidade de assegurar nossa liberdade
por uma geração, ou perde-la para sempre".
Enquanto isso, há alguns dias foi dada a notícia de que um menino de 5 anos
havia disparado e matado sua irmã, de 2 anos de idade. Pior ainda, havia
utilizado seu próprio rifle, um de calibre .22, manufaturado justamente para
crianças, que lhe haviam presenteado no seu aniversário e que se comercializa
com o lema "meu primeiro rifle". O setor de menores de idade foi um
dos de teve maior crescimento na indústria de armas de fogo, já que em muitos
estados não existem leis que imponham um limite de idade para os usuários.
Mas, diante das ameaças, mesmo as representadas pelos que realizam chacinas de
estudantes e professores em escolas, como em Connecticut, Colorado, Oregon e
tantos lugares mais, toda tentativa de reduzir ou limitar as armas e, claro, as
guerras, são consideradas não só antipatrióticas, mas até traidoras.
Na investigação e ação penal contra qualquer que se atreva a botar frente à luz
os segredos oficiais necessários para levar a cabo estas guerras de sombras se
destaca, claro, o caso do Wikileaks, com o julgamento do soldado Bradley
Manning programado para o começo de junho, acusado de, entre outras suspeitas,
"ajudar o inimigo" ao tornar públicos segredos sobre as guerras dos
Estados Unidos. Muitos outros funcionários e jornalistas estão sendo
investigados por filtrar informação "oficial" secreta ao público, com
as mesmas acusações; de fato, nenhum outro governo na história moderna do país
realizou tantas investigações nesse item que o de Obama.
E quem se oponha publicamente também é suspeito e tem que ser castigado. Há
algumas semanas, Megan Rice, uma freira de 83 anos, foi condenada penalmente,
junto com Michael Walli, de 64 e Greg Boertje-Obed, de 56, por "invasão de
uma instalação nuclear", e agora enfrentam uma possível sentença de até 20
anos de cadeia. Seu delito: o ingresso dos três ativistas de paz na única
instalação do país que armazena armas convencionais radioativas, onde
salpicaram sangue humano como símbolo do sangue que corre nas guerras (nunca
chegaram perto do material nuclear). Rice comentou ao jurado, pouco antes de
ser condenada, que só se arrepende de não ter realizado mais ações diretas em
seus primeiros 70 anos de vida.
Por que será que nos sentimos tão inseguro com tanta segurança?
Tradução: Liborio Júnior
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