Só o UOL acha que ninguém notou o
tratamento desigual dado a iguais (arte Carta Maior)
N° Edição: 2280 | 26.Jul.13
Trens e Metrô superfaturados em
30%
Ao analisar documentos da
Siemens, empresa integrante do cartel que drenou recursos do Metrô e trens de
São Paulo, o Cade e o MP concluíram que os cofres paulistas foram lesados em
pelo menos R$ 425 milhões
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes
de Moura e Sérgio Pardellas, na revista IstoÉ
Segundo integrantes do MP e do
Cade, seis projetos de
trem e metrô
investigados apresentaram sobrepreço de 30%
Na última semana, ISTOÉ publicou
documentos inéditos e trouxe à tona o depoimento voluntário de um
ex-funcionário da multinacional alemã Siemens ao Ministério Público. Segundo as
revelações, o esquema montado por empresas da área de transporte sobre trilhos
em São Paulo para vencer e lucrar com licitações públicas durante os sucessivos
governos do PSDB nos últimos 20 anos contou com a participação de autoridades e
servidores públicos e abasteceu um propinoduto milionário que desviou dinheiro
das obras para políticos tucanos.
Toda a documentação, inclusive um
relatório do que foi revelado pelo ex-funcionário da empresa alemã, está em
poder do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), para quem a
Siemens – ré confessa por formação de cartel – vem denunciando desde maio de
2012 as falcatruas no Metrô e nos trens paulistas, em troca de imunidade civil
e criminal para si e seus executivos. Até semana passada, porém, não se sabia
quão rentável era este cartel.
Ao se aprofundarem, nos últimos
dias, na análise da papelada e depoimentos colhidos até agora, integrantes do
Cade e do Ministério Público se surpreenderam com a quantidade de
irregularidades encontradas nos acordos firmados entre os governos tucanos de
São Paulo e as companhias encarregadas da manutenção e aquisição de trens e da
construção de linhas do Metrô e de trens.
Uma das autoridades envolvidas na
investigação chegou a se referir ao esquema como uma fabulosa história de
achaque aos cofres públicos, num enredo formado por pessoas-chaves da
administração – entre eles diretores do metrô e da Companhia Paulista de Trens
Metropolitanos (CPTM) –, com participação especial de políticos do PSDB, os
principais beneficiários da tramoia.
Durante a apuração, ficou
evidente que o desenlace dessa trama é amargo para os contribuintes paulistas.
A investigação revela que o cartel superfaturou cada obra em 30%.
É o mesmo que dizer que os
governantes tucanos jogaram nos trilhos R$ 3 de cada R$ 10 desembolsado com o
dinheiro arrecadado dos impostos.
Foram analisados 16 contratos
correspondentes a seis projetos. De acordo com o MP e o Cade, os prejuízos aos
cofres públicos somente nesses negócios chegaram a RS 425,1 milhões.
Os valores, dizem fontes ligadas
à investigação ouvidas por ISTOÉ, ainda devem se ampliar com o detalhamento de
outros certames vencidos em São Paulo pelas empresas integrantes do cartel
nesses e em outros projetos.
Entre os contratos em que o Cade
detectou flagrante sobrepreço está o de fornecimento e instalação de sistemas
para transporte sobre trilhos da fase 1 da Linha 5 Lilás do metrô paulista. A
licitação foi vencida pelo consórcio Sistrem, formado pela empresa francesa
Alstom, pela alemã Siemens juntamente com a ADtranz (da canadense Bombardier) e
a espanhola CAF.
Os serviços foram orçados em R$
615 milhões. De acordo com testemunhos oferecidos ao Cade e ao Ministério
Público, esse contrato rendeu uma comissão de 7,5% a políticos do PSDB e
dirigentes da estatal. Isso significa algo em torno de R$ 46 milhões só em
propina.
“A Alstom coordenou um grande
acordo entre várias empresas, possibilitando dessa forma um superfaturamento do
projeto”, revelou um funcionário da Siemens ao MP. Antes da licitação, a
Alstom, a ADtranz, a CAF, a Siemens, a TTrans e a Mitsui definiram a estratégia
para obter o maior lucro possível. As companhias que se associaram para a
prática criminosa são as principais detentoras da tecnologia dos serviços
contratados.
O responsável por estabelecer o
escopo de fornecimento e os preços a serem praticados pelas empresas nesse
contrato era o executivo Masao Suzuki, da Mitsui. Sua empresa, no entanto, não
foi a principal beneficiária do certame.
Quem ficou com a maior parte dos
valores recebidos no contrato da fase 1 da Linha 5 Lilás do Metrô paulista foi
a Alstom, que comandou a ação do cartel durante a licitação. Mas todas as
participantes entraram no caixa da propina.
Cada empresa tinha sua própria
forma de pagar a comissão combinada com integrantes do PSDB paulista, segundo
relato do delator e ex-funcionário da Siemens revelado por ISTOÉ em sua última
edição.
Nesse contrato específico, a
multinacional francesa Alstom e a alemã Siemens recorreram à consultoria dos
lobistas Arthur Teixeira e Sérgio Teixeira.
Documentos apresentados por ISTOÉ
na semana passada mostraram que eles operam por meio de duas offshores
localizadas no Uruguai, a Leraway Consulting S/A e Gantown Consulting S/A. Para
não deixar rastro do suborno, ambos também se valem de contas em bancos na Suíça,
de acordo a investigação.
No contrato da Linha 2 do Metrô,
o superfaturamento identificado até agora causou um prejuízo estimado em R$
67,5 milhões ao erário paulista. As licitações investigadas foram vencidas pela
dupla Alstom/Siemens e pelo consórcio Metrosist, do qual a Alstom também fez parte.
O contrato executado previa a prestação de serviços de engenharia, o
fornecimento, a montagem e a instalação de sistemas destinados à extensão oeste
da Linha 2 Verde.
Orçado inicialmente em R$ 81,7
milhões, só esse contrato recebeu 13 reajustes desde que foi assinado, em
outubro de 1997. As multinacionais francesa e alemã ficaram responsáveis pelo
projeto executivo para fornecimento e implantação de sistemas para o trecho Ana
Rosa/ Ipiranga. A Asltom e a Siemens receberam pelo menos R$ 143,6 milhões para
executar esse serviço.
O sobrepreço de 30% foi
estabelecido também em contratos celebrados entre as empresas pertencentes ao
cartel e à estatal paulista CPTM. Entre eles, o firmado em 2002 para prestação
de serviços de manutenção preventiva e corretiva de dez trens da série 3000.
A Siemens ganhou o certame por um
valor original de R$ 33,7 milhões. Em seguida, o conglomerado alemão
subcontratou a MGE Transportes para serviços que nunca foram realizados. A MGE,
na verdade, serviu de ponte para que a Siemens pudesse efetuar o pagamento da
propina de 5% acertada com autoridades e dirigentes do Metrô e da CPTM.
O dinheiro da comissão – cerca de
R$ 1,7 milhão só nessa negociata, segundo os investigadores – mais uma vez
tinha como destino final a alta cúpula da estatal e políticos ligados ao PSDB.
A propina seria distribuída, segundo depoimento ao Cade ao qual ISTOÉ teve
acesso, pelo diretor da CPTM, Luiz Lavorente.
Além da MGE, a Siemens também
recorreu à companhia japonesa Mitsui para intermediar pagamentos de propina em
outras transações. O que mais uma vez demonstra o quão próxima eram as relações
das empresas do cartel que, na teoria, deveriam concorrer entre si pelos
milionários contratos públicos no setor de transportes sobre trilhos.
O resultado da parceria criminosa
entre as gigantes do setor pareceu claro em outros 12 contratos celebrados com
a CPTM referentes às manutenções dos trens das séries 2000 e 2100 e o Projeto
Boa Viagem, que já foram analisados pelo CADE.
Neles, foi contabilizado um
sobrepreço de aproximadamente R$ 163 milhões.
Não é por acaso que as autoridades
responsáveis por investigar o caso referem-se ao
esquema dos governos do PSDB em São Paulo
como uma “fabulosa história”.
O superfaturamento constatado nos
contratos de serviços e oferta de produtos às estatais paulistanas Metrô e a
Companhia Paulista de Trens Metropolitanos [CPTM] supera até mesmo os índices
médios calculados internacionalmente durante a prática deste crime.
Cálculos da Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, por exemplo, apontam que os
cartéis ocasionam um prejuízo aos cofres públicos de 10% a 20%. No caso destes
16 contratos, a combinação de preços e direcionamentos realizados pelas
companhias participantes da prática criminosa levaram a um surpreendente rombo
de 30% aos cofres paulistas.
Diante das denúncias, na última
semana o PT e outros partidos oposicionistas em São Paulo passaram a se movimentar
para tentar aprovar a instalação de uma CPI.
“O governador Geraldo Alckmin diz
querer que as denúncias do Metrô e da CPTM sejam apuradas. Então, que oriente a
sua bancada a protocolar o pedido de CPI, pelo menos, desta vez”, propôs o
líder do PT na Assembleia paulista, Luiz Cláudio Marcolino.
“É flagrante que os contratos
precisam ser revisados. Temos de ter transparência com o dinheiro público
independente de partido”, diz ele. Caso a bancada estadual do PT não consiga
aprovar o pedido, por ter minoria, a sigla tentará abrir uma investigação na
Câmara Federal.
“Não podemos deixar um assunto
desta gravidade sem esclarecimentos. Ainda mais quando se trato de acusações
tão contundentes de desvios de verbas públicas”, afirmou o deputado Devanir
Ribeiro (PT-SP).
O que se sabe até agora já é
suficiente para ensejar um inquérito. Afinal, trata-se de um desvio milionário
de uma das principais obras da cidade mais populosa do País e onde se concentra
o maior orçamento nacional. Se investigada a fundo, a história do achaque de
30% aos cofres públicos pode trazer ainda mais revelações fabulosas.
Queima de arquivo
Uma pasta amarela com cerca de
200 páginas guardada na 1ª Vara Criminal do Fórum da cidade de Itu, interior
paulista, expõe um lado ainda mais sombrio das investigações que apuram o
desvio milionário das obras do metrô e trens metropolitanos durante governos do
PSDB em São Paulo nos últimos 20 anos.
Trata-se do processo judicial
9900.98.2012 que investiga um incêndio criminoso que consumiu durante cinco
horas 15.339 caixas de documentos e 3.001 tubos de desenhos técnicos.
A papelada fazia parte dos
arquivos do metrô armazenados havia três décadas. Entre os papeis que viraram
cinzas estão contratos assinados entre 1977 e 2011, laudos técnicos, processos
de contratação, de incidentes, propostas, empenhos, além de relatórios de
acompanhamento de contratos de 1968 até 2009. Sob segredo de Justiça, a
investigação que poderá ser reaberta pelo Ministério Público, diante das novas
revelações sobre o caso feitas por ISTOÉ, acrescenta novos ingredientes às já
contundentes denúncias feitas ao Cade pelos empresários da Siemens a respeito do
escândalo do metrô paulista.
Afinal, a ação dos bandidos pode
ter acobertado a distribuição de propina, superfaturamento das obras, serviços
e a compra e manutenção de equipamentos para o metrô paulista.
Segundo o processo, na madrugada
do dia 9 de julho do ano passado, nove homens encapuzados e armados invadiram o
galpão da empresa PA Arquivos Ltda, na cidade de Itu, distante 110 km da
capital paulista, renderam os dois vigias, roubaram 10 computadores usados,
espalharam gasolina pelo prédio de 5 mil m² e atearam fogo. Não sobrou nada.
Quatro meses depois de lavrado o
boletim de ocorrência, nº 1435/2012, a polícia paulista concluiu que o incêndio
não passou de um crime comum.
“As investigações não deram em
nada”, admite a delegada de Policia Civil Milena, que insistiu em se identificar
apenas pelo primeiro nome. “Os homens estavam encapuzados e não foram identificados”,
diz a policial.
Investigado basicamente como
sumiço de papéis velhos, o incêndio agora ganha ares de queima de arquivo. O
incidente ocorreu 50 dias depois de entrar em vigor a Lei do Acesso à
Informação, que obriga os órgãos públicos a fornecerem cópias a quem solicitar
de qualquer documento que não seja coberto por sigilo legal, e quatro meses
depois de começarem as negociações entre o Cade e a Siemens para a assinatura
do acordo de leniência, que vem denunciando as falcatruas no metrô e trens
paulistas.
“Não podemos descartar que a
intenção desse crime era esconder provas da corrupção”, entende o deputado Luiz
Cláudio Marcolino, líder do PT na Assembleia Legislativa do Estado.
Além das circunstâncias mais do
que suspeitas do incêndio, documentos oficiais do governo, elaborados pela
gerência de Auditoria e Segurança da Informação (GAD), nº 360, em 19 de
setembro passado, deixam claro que o galpão para onde foi levado todo o arquivo
do metrô não tinha as mínimas condições para a guarda do material.
Cravado em plena zona rural de
Itu, entre uma criação de coelhos e um pasto com cocheiras de gado, o galpão
onde estavam armazenados os documentos não tinha qualquer segurança.
Poderia ser facilmente acessado
pelas laterais e fundos da construção.
De acordo com os
documentos aos quais ISTOÉ teve acesso, o governo estadual
sabia exatamente da precariedade da construção
quando transferiu os arquivos para o local.
O relatório de auditoria afirma
que em 20 de abril de 2012 — portanto, três dias depois da assinatura do
contrato entre a PA Arquivos e o governo de Geraldo Alckmin — o galpão
permanecia em obras e “a empresa não estava preparada para receber as caixas do
Metrô”.
A comunicação interna do governo
diz mais. Segundo o laudo técnico do GAD, “a empresa não possuía instalações
adequadas para garantir a preservação do acervo documental”. Não havia sequer a
climatização do ambiente, item fundamental para serviços deste tipo.
O prédio foi incendiado poucos
dias depois da migração do material para o espaço. “Não quero falar sobre esse
crime”, disse um dos proprietários da empresa, na época do incêndio, Carlos
Ulderico Botelho.
“Briguei com o meu sócio, sai da
sociedade e tomei muito prejuízo. Esse incêndio foi estranho. Por isso, prefiro
ficar em silêncio”. Outra excentricidade do crime é que o fato só foi
confirmado oficialmente pelo governo seis meses depois do ocorrido.
Em 16 páginas do Diário do Diário
Oficial, falou-se em “sumiço” da papelada. Logo depois da divulgação do
sinistro, o deputado estadual do PT, Simão Pedro, hoje secretário de Serviços
da Prefeitura de São Paulo, representou contra o Governo do Estado no
Ministério Público Estadual.
“Acredita-se que os bandidos
tenham provocado o incêndio devido o lugar abrigar vários documentos”. Para o
parlamentar, “esse fato sairia da hipótese de crime de roubo com o agravante de
causar incêndio, para outro crime, de deliberada destruição de documentos
públicos”, disse Simão, em dezembro passado.
Procurados por ISTOÉ, dirigentes
do Metrô de SP não quiseram se posicionar.

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