Relatório
aponta que conjuntura econômica e transferência de renda afastaram
trabalhadores rurais das ocupações de terra. Como consequência, assentamentos
apresentam queda
por Tadeu Breda, da RBA
São Paulo – A conjuntura econômica favorável dos últimos
anos, com baixos índices de desemprego, e os programas assistenciais do governo
federal têm desestimulado os trabalhadores rurais brasileiros a embarcarem na
luta pela reforma agrária. Essa é uma das principais conclusões do Relatório
Dataluta 2012, que será publicado na próxima segunda-feira (6).
“Há disponibilidade de formas de aquisição de renda por meio
do trabalho. Mesmo que não seja emprego formal, bem remunerado, há
disponibilidade de trabalho no país. As pessoas passam a ter alternativas para
obter pelo menos o mínimo. Isso desmobiliza a luta pela terra”, explica Eduardo
Girardi, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Presidente
Prudente (SP) e um dos coordenadores do estudo.
Em entrevista à RBA, Girardi explica que a possibilidade de
sobreviver, ainda que seja com o pouco dinheiro distribuído pelo Bolsa Família,
é uma das principais responsáveis pela redução no número de ocupações de terras
no país. Em 2012 foram registrados 253 episódios. É um número baixo, se
comparado com os índices de 1999, quando houve 856 ocupações, mas demonstra
crescimento se observarmos os números de 2010, com 184.
O baixo número de ocupações reflete no baixo número de novos
assentamentos construídos no país em 2012: apenas 117. De acordo com o
Relatório Dataluta, o auge da destinação de terras para a reforma agrária
ocorreu em 2005, com 879 novos assentamentos. “Podemos afirmar que a partir de
então tem havido um decréscimo constante no número”, explica Girardi. “O Estado
faz assentamento mediante pressão dos movimentos sociais.”
O estudo aponta ainda que no ano passado 436 mil pessoas se
envolveram em manifestações que pediam acesso à terra no país. Apesar de ter se
afastado do noticiário, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
ainda é o grupo que mais promove ocupações no país, seguido pela Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). No total, há 116 movimentos
sociais organizados no campo brasileiro. Apenas 23 organizaram ocupações em
2012.
Girardi aponta que o país destina cada vez mais terras à
agricultura, mas ressalva que o crescimento da estrutura fundiária ocorre de
maneira concentrada. “A maior disponibilidade de terras ocorre paralelamente à
manutenção dos níveis de concentração”, pontua. “Ou seja, novas terras estão
indo para as mãos das mesmas pessoas que já são proprietárias.”
O relatório apontou um crescimento de 6,3 milhões de
hectares na estrutura fundiária brasileira. A que se deve esse aumento?
Basicamente, à expansão da fronteira agrícola, regularização
fundiária e grilagem de terras. Esse número não é obtido por detecção via
satélite, mas por novas terras registradas pelo Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária (Incra), e que passaram a ter documentos legais
ou pessoas que se declaram como suas donas. O avanço da fronteira agrícola não
significa necessariamente desmatamento imediato. A pessoa pode se declarar
posseira de uma área que ainda é floresta, mas, a partir do momento em que ela
consegue a propriedade da terra, ela vai desmatá-la para transformá-la em
capital. Porque a agricultura tradicional ainda é predominante.
O relatório mostra que as ocupações de terra diminuíram no
país. Isso está relacionado a uma possível perda de força política dos
movimentos do campo, como MST?
Essa é uma questão que inclusive discutimos no último
encontro da Rede Dataluta. Uma das razões para essa diminuição é a própria
conjuntura econômica do país. Há disponibilidade de formas de aquisição de renda
por meio do trabalho. Mesmo que não seja emprego formal, bem remunerado, há
disponibilidade de trabalho no país. As pessoas passam a ter alternativas para
obter pelo menos o mínimo. Isso desmobiliza a luta pela terra.
Ou seja, tem a ver com as conquistas sociais dos últimos dez
anos?
Não sei se seriam conquistas sociais, mas há possibilidade
de obtenção de renda via trabalho. A maior parte desses empregos paga apenas um
salário mínimo. E a gente sabe que um salário mínimo não supre todas as
necessidades de uma família. Outra razão para a queda no número de ocupações
tem a ver com os programas de assistência social, que servem para que as
pessoas pelo menos não passem fome, porque o valor também é muito baixo. Também
é outro fator que contribuiu para a diminuição do número de pessoas dispostas a
se sujeitar à luta pela terra – porque a luta pela terra é árdua. Fazer
acampamentos por anos, em condições precárias, enfrentar pessoas armadas etc.
Acaba que essa situação toda desencoraja as pessoas a participarem das
ocupações.
Houve uma espécie de pacificação da luta pela terra no país?
Pacificação tem a ver também com redução da violência. E não
trabalhamos com dados de violência. A violência normalmente recai sobre os
movimentos de resistência. Mas o fato é que o número de ocupações diminui
bastante a partir dessa conjuntura de crescimento econômico. Isso não quer
dizer que os problemas no campo foram solucionados: concentração, exploração do
trabalhador rural etc. Também não quer dizer que as ocupações possam voltar a
crescer. Em um cenário em que não haja essa conjuntura econômica favorável,
podemos ter um novo momento de crescimento das ocupações no campo.
A redução no número de ocupações também se relaciona à
redução no número de assentamentos?
Justamente. O Estado faz assentamento mediante... se
pegarmos a partir da década de 1990, temos a criação de assentamentos mediante
pressão dos movimentos sociais. Diminuindo a pressão, também diminui o ritmo de
criação de assentamentos. Uma coisa está relacionada à outra. O auge do número
de assentamentos ocorreu em 2005. Podemos afirmar que a partir de então houve
um decréscimo constante no número de assentamentos. Foram de 879 em 2005 para
117 em 2012.
Houve alguma mudança de orientação no governo para essa redução?
A principal explicação é mesmo a redução no número de
ocupações e de reivindicações dos movimentos. Criar assentamento tem
implicações em relações de poder, orçamento, tudo isso. Mas a presidenta Dilma
Rousseff declaradamente disse que preferia dar melhores condições aos
assentamentos existentes em vez de criar novos assentamentos e deixá-los nas
mesmas condições dos atuais. Mas a gente não está vendo nenhum tipo de melhoria
nos assentamentos que já existem.
A criminalização da luta pela terra também contribuiu para a
redução dos assentamentos?
Os movimentos têm atribuído à ação judicial um peso muito
importante para que a luta se tornasse mais tímida. Em conversa com os membros
dos movimentos, dizem que essa maior atuação do Judiciário com relação à luta
pela terra é um dos motivos para explicar o número de ocupações e, por
consequência, de assentamentos.
O MST ainda é o principal movimento no campo. Qual é seu
papel hoje?
O MST está sofrendo com a diminuição do número de pessoas
dispostas a lutar pela terra. Seu impacto e sua visibilidade pública também
acabam diminuindo, porque o número de ações diminui. O MST foi uma grande
referência para os movimentos sociais no período em que o número de ocupações
era bastante significativo. Talvez, no futuro, com uma possível retomada das
ocupações, o MST retome essa dimensão.
Como o sr. avalia a política agrária do governo Lula e
Dilma?
Eu esperaria algo mais reformador.
Quantas famílias se estima que sejam a clientela da reforma
agrária no país?
Mas não é possível conhecer esse número, porque, afinal,
quem seria a clientela da reforma agrária? Essa pessoa que vive com salário
mínimo e Bolsa Família, por exemplo, é cliente da reforma agrária? É um cliente
em potencial? Se a conjuntura econômica favorável desaparece, ela vai ser
novamente um potencial beneficiário? Difícil saber. Outra questão: os
potenciais beneficiários são apenas aqueles que lutam, que fazem ocupação, ou
aqueles que podem jamais ter feito ocupação, mas que se enquadram nas
características socioeconômicas? Temos nos assentamentos brasileiros 933.836
famílias. Esse número, na verdade, é a capacidade dos assentamentos. Pode haver
mais ou menos. Há lotes com assentados e agregados. E há lotes vazios.
No relatório também entram dados sobre a luta pela terra dos
indígenas?
Sim, entra o número de ocupações de terra feitas por
indígenas, que tem aumentado. Primeiro, aumentou o conflito porque o
agronegócio, principalmente com a expansão do setor sucroalcooleiro e
madeireiro, está avançando sobre as terras indígenas, e os indígenas passaram
então a requerer demarcação, porque as áreas não estavam demarcadas. Aí você
tem o surgimento de ocupações de terras por indígenas. Chamamos de ocupações de
terras, mas na verdade são retomadas, que ocorrem sobretudo no Mato Grosso do
Sul, noroeste do Paraná e algumas regiões do Nordeste, como o sul da Bahia.
Uma análise geral do relatório apontaria que a reforma
agrária e a distribuição de terras está avançando ou retrocedendo no país?
Está paralisada. Tanto a concentração, quanto a luta, quanto
os assentamentos. Estão todos paralisados, mas paralisados no contexto
brasileiro: 400 mil pessoas lutando pela terra é significativo. Mas não é tão
significativo quanto já foi no passado.
Quando foi o auge de mobilização?
Começamos a fazer o levantamento em 2000. O maior número
entre 2000 e 2012 foi em 2007, quando havia 629.029 pessoas envolvidas em
manifestações no campo. Antes de 2000, não temos os dados. Mas, provavelmente,
nos momentos de pico das ocupações de terras tivemos efetivos de pessoas maior
do que esse.

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