mapa dos conflitos e interesses em território ucraniano
História, cultura, economia, estratégia, geografia: para
tentar compreender uma crise, é preciso integrar a esses dados as percepções
concorrentes de todos os atores implicados. Sem exclusão. Nas chancelarias
ocidentais, porém, a essas considerações, parece preferir-se o simplismo das
proclamações morais
por Olivier Zajec
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O tratamento midiático dos acontecimentos recentes na
Ucrânia veio confirmar que, para uma parte da diplomacia ocidental, as crises
não trazem mais uma assimetria entre os interesses e as percepções de atores
dotados de razão, mas se constituem como a batalha final em que o Bem e o Mal
disputam o sentido da história. A Rússia se presta maravilhosamente a essa
encenação, que tem o mérito da simplicidade. Para vários comentaristas,
trata-se de um Estado bárbaro governado por cossacos sustentados por
descendentes da KGB, os quais planejam complôs sombrios a serviço de czares
neuróticos que chafurdam nas águas geladas de um cinismo egoísta.1
Reclusos, extirpados de sua época, esses autocratas
lentamente deslocam os peões sobre grandes tabuleiros de marfim em vez de ler
The Economist. De tempos em tempos, lançam um submarino nuclear pelo prazer de
poluir o Mar Branco, esperando suscitar um referendo ilegal no seu “estrangeiro
próximo” para reconstituir a União Soviética.
Se empreendermos uma síntese dos lugares-comuns surgidos
sobre esse tema na imprensa ocidental – não apenas depois do início da crise
ucraniana, mas há quinze anos −, essa imagem folclórica será bem próxima da que
o leitor comum vai reter da política da atual Federação Russa. Essa percepção
globalmente negativa, que degenera numa caricatura, revela uma tradição bem
estabelecida.
Ela se apoia tanto nas análises que sublinham a compulsão
totalitária e “enganadora” da cultura russa2 como na suposta continuidade entre
Joseph Stalin e Vladimir Putin – um tema popular entre editorialistas franceses
e think tanksneoconservadores norte-americanos3 − e tem sua origem nos relatos
dos viajantes europeus no Renascimento, que já estabeleciam uma aproximação
entre os russos “bárbaros” e as ferozes cidadelas da Antiguidade.4
Os acontecimentos da Praça Maidan, em Kiev, exemplificam
inconvenientes analíticos a que essa demonologia persistente induz. Dividida
linguística e culturalmente entre leste e oeste, a Ucrânia só consegue garantir
suas fronteiras atuais mantendo um eterno equilíbrio entre Lviv e Donetsk,
respectivamente, símbolos de seu polo europeu e de seu polo russo. Casar-se com
um ou com outro a levaria a negar o que lhe dá a base e, portanto, a validar o
mecanismo sem volta de uma separação à tchecoslovaca.5 A Ucrânia é uma eterna
noiva geopolítica.
Ela não saberia “escolher”. Ela se contenta, assim, em receber
anéis caros: US$ 15 bilhões prometidos pela Rússia em dezembro de 2013 e US$ 3
bilhões pela União Europeia ao mesmo tempo para acompanhar o acordo de
associação abortado. Com cada pretendente, ela combina algumas garantias
revogáveis: os acordos de Kharkov, que, em 2010, prolongaram até 2042 a locação
para a Rússia da base naval de Sebastopol, ou, ainda, o aluguel de terras
aráveis para os magnatas da agricultura europeia. Ao reduzir esse triângulo
amoroso geocultural a um casamento forçado com Moscou, os experts que sucumbem
ao que pode perfeitamente ser chamado de obsessão antirrussa revelam uma grave
insuficiência analítica. Eles, que acusam Putin de se limitar ao campo estreito
da política de força, mostram uma paralisia mental não menos condenável ao
limitar seu horizonte narrativo à absorção libertadora da Ucrânia na comunidade
euroatlântica.
Ao contrário do que foi escrito, a ruptura dos equilíbrios
internos dessa nação frágil não aconteceu em 27 de fevereiro de 2014, a data da
tomada de controle do Parlamento e do governo da Crimeia por homens armados –
uma encenação teatral que seria a réplica de Putin à fuga do presidente
ucraniano Viktor Yanukovich em 22 de fevereiro. Na realidade, a oscilação se
deu entreesses dois acontecimentos, precisamente o dia 23 de fevereiro, com a
decisão absurda dos novos dirigentes da Ucrânia de abolir o status do russo
como segunda língua oficial nas regiões do leste do país – um texto que o
presidente interino até agora se recusou a assinar. Alguém já viu um condenado
ao esquartejamento açoitar ele mesmo os cavalos que o puxarão?
Putin não poderia sonhar com algo melhor do que essa
estupidez para empreender sua manobra crimeniana. A revolução que levou à queda
de Yanukovich (eleito em 2010) e depois à saída da Crimeia russófona do colo de
Kiev não passa, assim, da última manifestação datada da tragédia cultural
consubstancial dessa Bélgica oriental que é a Ucrânia.
Em Donetsk e em Simferopol, os ucranianos russófonos são em
geral menos sensíveis do que se diz à propaganda do grande irmão russo. Sua
aspiração a um verdadeiro Estado de direito e ao fim da corrupção é a mesma de
qualquer outro cidadão. Putin sabe de tudo isso. Também sabe que essas
populações, que valorizam sua língua, não trocarão Puchkin e as lembranças da
“grande guerra patriótica” – nome soviético da Segunda Guerra Mundial – pela
assinatura de uma revista ocidental. Em 2011, 38% dos ucranianos falavam russo
em casa. Ora, a decisão aventureira e revanchista de 23 de fevereiro de repente
tornou verídico o discurso de Moscou: para o leste ucraniano, o problema não é
que o novo governo do país tenha chegado ao poder com a queda do presidente
eleito, e sim que sua primeira decisão tenha sido fazer metade de seus cidadãos
baixar a cabeça.
Fantasmas bipolares e romances de espionagem
Foi nesse dia que Maidan perdeu a Crimeia, e ninguém nunca
esqueceu que ela tinha sido “oferecida” por Nikita Kruschev à Ucrânia em 1954.
Daí o comentário de Mikhail Gorbatchev em 17 de março, depois do plebiscito
feito pela população da Crimeia sobre uma unificação com aRússia: “Se, naquela
época, a Crimeia foi anexada à Ucrânia segundo as leis soviéticas [...], sem
pedir a opinião do povo, hoje esse povo decidiu corrigir esse erro. É preciso
saudar isso, e não anunciar sanções”.6 Essas observações caíram como uma ducha
de água fria em Bruxelas, onde se preparava, juntamente com Washington, uma
série de medidas de retaliação a Moscou (restrições ao direito de viajar e o
congelamento de bens de 21 dirigentes ucranianos e russos).
Se o que a Rússia deseja não é justificável, seria
interessante compreender os motivos antes de condená-la, caso necessário. A
Ucrânia poderia perder mais do que a Crimeia se porventura a visita prolongada
da gentil Victoria Nuland7 a pressionasse a aderir à Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan). Alguns homens fortes do novo governo, no qual se
encontram quatro ministros do partido nacionalista Svoboda,8 foram conquistados
por essa ideia.
Talvez seja a hora de banir a expressão “Guerra Fria” dos
artigos consagrados à Rússia. Historicamente inoperante, essa simplificação
serve, sobretudo, para justificar a expressão pavloviana de fantasmas bipolares
requentados. John McCain, ex-candidato republicano à Casa Branca e expert
internacional reconhecido do Arizona, deu um exemplo notável disso ao fustigar
Putin nas colunas do New York Times, chamando-o de “imperialista russo e
apparatchik da KGB”, encorajado pela “fraqueza” de Barack Obama. Este,
supostamente ocupado demais com o seguro-saúde de seus cidadãos, não percebe
que “a agressão na Crimeia [...] insufla a audácia em outros agressores, dos
nacionalistas chineses aos terroristas da Al-Qaeda e aos teocratas iranianos”.9
O que fazer? “Devemos nos rearmar moral e intelectualmente”, responde o antigo
companheiro de chapa de Sarah Palin, “para impedir que as trevas do mundo de
Putin se abatam sobre a humanidade.” Discurso que, para denunciar os teocratas,
não deixa de abusar do registro teológico.
Em Washington e em Bruxelas, num estilo próximo, parece ter
havido um acordo para soprar sem parar as brasas da crise ucraniana em vez de
apagá-las.
Passando ao largo desses exageros, a impávida Angela Merkel
telefona (em russo) para Putin. Os dois fazem mais do que entrar em acordo:
eles se compreendem. Suas posições são radicalmente opostas? Eles veem isso
como uma oportunidade não de se insultar, mas de dialogar e negociar.
Em Londres, Paris e Washington, contudo, são relidos os
romances de espionagem de Tom Clancy. Em Berlim e em Moscou, capitais “frias”
ligadas pela economia, pela energia (40% do gás alemão é russo) e pela
lembrança do ordálio militar da frente do Leste, os governantes consultam os mapas
de uma Mitteleuropa, cujas linhas de transmissão de energia hoje, de fato,
apenas eles dominam. As palavras duras da chancelaria em relação a Moscou não
impedem de perceber de um lado as razões objetivas do nervosismo de Putin e de
outro a realidade de suas capacidades de manobra.
Nisso, Merkel difere de Yanukovich, que não compreendeu
grande coisa da psicologia de seu “protetor”: “A Rússia deve agir”, trovejava o
exilado em 28 de fevereiro. “E, conhecendo o caráter de Vladimir Putin, eu me
pergunto por que ele está tão reservado e por que mantém o silêncio.” O fundo
do problema está aí: o presidente ucraniano deposto age e fala sem se munir de
informações, sem levar em conta o longo prazo nem se perguntar o que pensam os
cidadãos de seu país. Portanto, ele não consegue entender que Putin, cuja marca
registrada, sob uma aparência brutal, é saber até onde ir – ao contrário de
Yanukovich e dos partidários da extensão infinita da Otan e da União Europeia.
O presidente russo só jogou a carta militar indiretamente,
por meio da infiltração dissuasiva, sem uniformes, das tropas russas na
Crimeia, combinada às manobras fronteiriças para melhor se locomover depois de
sua contraofensiva no território da controvérsia jurídica. Com o referendo de
16 de março de 2014, a questão do separatismo da península é agora um aspecto
do direito internacional sobre o qual pesa a sombra jurisprudencial de Kosovo,
pecado original que coloca os ocidentais diante de suas próprias
contradições.10
Dois pesos, duas medidas
A urgência é medir os equilíbrios geopolíticos de longo
prazo para controlar neles “os efeitos de mudança”. Em outras palavras,
trata-se de concordar em pensar a noção de interação (wechselwirkung) que o
estrategista Carl von Clausewitz considerava a marca de todos os duelos lógicos
regulados pela força ou pela ameaça de se recorrer a ela. Há na logomaquia
ocidental uma recusa assustada das “variáveis instáveis”11 que denota uma
prática diplomática hoje reduzida a um estado de espasmo-reflexo. A Rússia
julga que há dois pesos e duas medidas nas relações internacionais. A China faz
uma análise semelhante e se absteve então do voto no Conselho de Segurança da
ONU, em 16 de março, de uma resolução condenando a política russa na Crimeia.
O Afeganistão em 2001, o Iraque em 2003 e a Líbia em 2011
seriam a obra altruísta de potências visionárias da qual só se poderia censurar
um desajeitado ardor libertário. Os outros atores, ao contrário, só defenderiam
seus interesses ao preço de agressões condenáveis. Para François Hollande, o
referendo de 16 de março é parte de uma “pseudoconsulta, pois não está de
acordo com o direito interno ucraniano nem com o direito internacional”
(declaração de 17 de março). Em 17 de fevereiro de 2008, nove anos depois de
uma operação militar decidida sem o aval da ONU, o parlamento albanês votava a
independência da província autônoma sérvia de Kosovo, contra a vontade de
Belgrado, com o apoio da França e dos Estados Unidos. Rússia e Espanha se
recusaram – e ainda se recusam – a reconhecer esse desvio do direito
internacional. Exatamente como... a Ucrânia.
Três projetos prioritários esperam os ucranianos: o
equilíbrio geopolítico entre a Rússia e a Europa; a igualdade cultural e
linguística entre cidadãos do leste e do oeste; e o fim da corrupção das
elites. Sejam elas “democratas” ou “pró-russas”, elas têm mamado nos mesmos
cofres, consultado os mesmos assessores de comunicação.12 A esse preço, apenas,
se tornará “intangível” uma integridade territorial que, apesar das afirmações
de diplomatas de memória curta, não é hoje mais do que aquela da Sérvia em 1999,
da Tchecoslováquia em 1992 ou do Sudão em 2011.
O desafio ucraniano não é externo, mas interno. Como notou o
sociólogo Georg Simmel, “a fronteira não é um fato espacial, que implica
consequências sociológicas, mas um fato sociológico que se exprime sob forma
espacial”.13 A questão não é saber se Putin é a reencarnação de Ivã, o
Terrível, e sim se as “elites” ucranianas se mostrarão à altura de sua tarefa e
saberão se transformar em engenheiros sociais para restabelecer a unidade de um
país plural. Nesse dia então, pelo qual devemos ansiar, a Ucrânia merecerá
enfim suas fronteiras.
Olivier Zajec é encarregado de estudos da Companhia
Européia e Inteligência Estratégica (Paris).
Ilustração: Agnès Stienne
1 Bernard-Henry
Lévy, “L’honneur des Ukrainiens” [A honra dos ucranianos], Le Point, Paris, 27
fev. 2014.
2 Alain
Besançon, Sainte Russie [Santa Rússia], De Fallois, Paris, 2014.
3 Steven P.
Bucci, Nile Gardiner e Luke Coffey, “Russia, the West, and Ukraine: time for a
strategy – not hope” [A Rússia, o Ocidente e a Ucrânia: tempo para uma
estratégia – não para esperança], Issue Brief, Washington, n.4159, 4 mar. 2014.
Os signatários exigem a retirada de Washington do novo tratado Start,
“favorável demais aos russos” e acusado de atrapalhar o desenvolvimento do
escudo antimíssil norte-americano.
4 Cf.
Stéphane Mund, Orbis Russiarum. Genèse et développement de la représentation du
monde “russe” en Occident à la Renaissance[Orbis russiarum. Gênese e
desenvolvimento da representação do mundo “russo” no Ocidente no Renascimento],
Droz, Genebra, 2003, e Marshall T. Poe, A people born to slavery: Russia in
Early Modern European ethnography, 1476-1748[Um povo nascido para a escravidão:
a Rússia na etnografia europeia moderna, 1476-1748], Cornell University Press,
Ithaca, 2000.
5 A “revolução
de veludo” de 1989 conduziu em 1992 à cisão do Estado em duas entidades, sobre
uma base etnolinguística.
6 Declaração à
agência Interfax, 17 fev. 2014.
7 Durante uma
conversa telefônica com o embaixador norte-americano na Ucrânia tornada pública
em fevereiro, a subsecretária do departamento de Estado encarregada da Europa
exclamou: “Que a União Europeia se f...!”.
8 Ler Emmanuel
Dreyfus, “Extrema direita ucraniana, entre o nacionalismo e a desordem”, Le Monde
Diplomatique, mar. 2014.
9 John McCain,
“Obama has made America look weak” [Obama fez os Estados Unidos parecer
fracos], The New York Times, 14 mar. 2014.
10 Ler Jean-Arnault Dérens, “Indépendance du Kosovo,
une bombe à retardement” [Independência do Kosovo, uma bomba de efeito
retardado], Le Monde Diplomatique, mar. 2007.
11 Ver os
trabalhos de Robert O. Kehoane, de K. Boulding e de A. Wendt sobre a importância
das percepções na teoria das relações internacionais.
12 O
norte-americano Paul Manafort foi conselheiro de Yanukovich de 2004 a 2013.
Antes, ele tinha trabalhado para Ronald Reagan, George W. Bush... e John
McCain. Cf. Alexander Burns e Maggie Haberman, “Mystery man: Ukraine’s US
political fixer” [Homem misterioso: reparador político norte-americano da
Ucrânia], Politico, 5 mar. 2014. Disponível em: .
13 Cf. Georg
Simmel, “Soziologie des Raumes”. In: Jahrbuch für Gesetzgebung, Verwaltung und
Volkswirtschaft, XXVII, Leipzig, 1903.
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