Religiosos dentro de partidos ou
apenas representando correntes sacras conseguem a mágica de transformar
fervorosos progressistas em pios conservadores.
Jacques Gruman – Carta Maior
Deus existe. Mas é ateu.
(Millôr
Fernandes)
Época eleitoral, promiscuidade
concorrencial. No Brasil, foi dada a largada para negociações na penumbra, onde
todos os gatos são pardos. Entre os grupos mais cortejados, estão os
religiosos. Organizados dentro de partidos ou apenas representando correntes
sacras em templos e púlpitos eletrônicos, conseguem a mágica de transformar
fervorosos progressistas em pios conservadores. Socialistas se recusam a apoiar
o direito das mulheres à interrupção da gravidez, em aberta contradição com o
pensamento libertário que os originou. Neodesenvolvimentistas não se
envergonham de ficar em cima do muro quando se trata de defender as pesquisas
com células-tronco. Todos comparecem a cultos variados, onde aparecem
compenetrados (sic), com evidente hipocrisia. Nenhum deles se atreve a condenar
o ensino de religião em escolas públicas. Tudo para não enfurecer o bispo
fulano ou o cardeal sicrano, que poderiam roubar-lhes preciosos segundos na
televisão ou influenciar o voto de muita gente. Renunciam à coerência para
prestar vassalagem ao atraso. De onde vem tanto poder ?
Quando trata de religião, nosso
país é cínico. Embora o artigo 19 da Constituição brasileira garanta a
laicidade do Estado, o Preâmbulo da nossa Carta Magna pede a “proteção de Deus”
para os representantes do povo que elaboraram o documento. A pergunta óbvia é:
a que Deus se referiam os nobres parlamentares ? Conto, a propósito, uma
historinha, citada no livro Pimentas, do Rubem Alves, entre outras coisas
teólogo cristão heterodoxo. Ela aparece no livro de Juízes. Guerreavam as
tribos de Guilad e Efraim. Derrotados, os efraimitas temeram ser exterminados.
Imaginaram um artifício. Tentariam atravessar a fronteira à noite, juntando-se
aos guiladitas. Os guardas fronteiriços desconfiaram e pediram que aquela gente
falasse a palavra Shiboleth. Sabiam que os efraimitas não conseguiam pronunciar
o som “sh”. Dito e feito. Os espertinhos foram flagrados e, diz o texto
sagrado, exterminados. Cerca de 42 mil deles foram decapitados e seu sangue
“misturado com as águas do Jordão”. Não existe no texto sagrado, inspirado por
Deus para exemplo, nenhuma condenação dessa matança, a despeito do mandamento
“Não matarás”. O que prova, segundo Alves, “que o povo de Deus não dava muita
bola para os mandamentos de Jeová. E parece que ele mesmo não levava a sério os
mandamentos que ele mesmo promulgara, porque os morticínios, por sua ordem, são
assombrosos”. É a esse Deus que o pessoal em Brasília pediu proteção ? Se não a
ele, a qual ? Ao que sugeriu que pais e mães apedrejassem filhos rebeldes até a
morte (Deuteronômio XXI, 18-21) ? Como ficaram os ateus, igualmente cidadãos
com plenos direitos, que não precisam desse expediente para inspirar-se ?
Nossos espaços públicos são
invadidos por símbolos religiosos, agredindo a neutralidade que os deveria
caracterizar, e a coisa passa por normal. Crucifixos estão pendurados em
tribunais de todas as alçadas. Praças exibem imagens de santos e símbolos de
religiões não-cristãs (como uma grande Chanukiá, na praça Cardeal Arcoverde, em
Copacabana). A Assembleia Legislativa do Rio cede espaço para cultos
evangélicos. É uma ocupação absolutamente indevida, que poucos ousam contestar.
A invasão sacra chega a parecer
menor quando se compara aos feriados religiosos. Qual é o sentido de se
decretar feriado nacional para se homenagear personagens ou referências da
mística religiosa ? Qual é, por exemplo, o significado do feriado de São Jorge
ou da Sexta-feira da Paixão para um muçulmano, um budista, um judeu ou um ateu
? Todos com iguais direitos constitucionais, mas uns mais iguais que os outros.
As correntes hegemônicas se impõem, garantindo predominância no mercado da fé e
influência na vida política. Foi exatamente isso que aconteceu ano passado,
quando a prefeitura do Rio decretou feriado municipal durante a visita do papa
Francisco à cidade. Parou-se tudo para homenagear o líder de um segmento
religioso, não por acaso o mais numeroso em nosso país (embora esteja perdendo
espaço, cada vez mais, para outras denominações cristãs). Cruzamento venenoso entre
os espaços público e privado.
Ser religioso e participar da
política não é, em si, negativo. A História tem exemplos para todos os gostos.
A Igreja católica espanhola, associada ao grande latifúndio e à monarquia
reacionária, foi punida pelos camponeses durante a Guerra Civil dos anos 1930.
Imagens de santos foram fuziladas por milícias camponesas, partes do clero
foram submetidas a tribunais revolucionários. Na América Latina, o padre
colombiano Camilo Torres pegou em armas contra as oligarquias de seu país. Dom
Helder Câmara e o padre Peyton pertenciam ao mesmo tronco, mas nada tinham em
comum. O problema, me parece, são os lobbies, que retiram a fé do âmbito
pessoal e a utilizam como ferramenta para impor agendas conservadoras a toda a
sociedade. Não raro com expedientes terroristas. Nas campanhas eleitorais,
subvertem o discurso político, mascarando-o com citações religiosas e
confundindo o eleitor, que parece estar votando no clérigo e não no
representante de uma corrente de ideias.
Já mencionei antes a imensa
dificuldade que boa parte das religiões tem ao lidar com as questões do sexo e
do desejo. Preferem reprimir, sublimar, punir, discriminar. Está em cartaz um
belo filme do John Turturro, com um impecável Woody Allen no elenco. Em Amante
a domicílio, que se passa num bairro novaiorquino com maciça população judaica
ultraortodoxa, há uma cena inesquecível. A viúva de um rabino cai na rede do
falso garoto de programa vivido por Turturro, que se faz passar por curandeiro
espiritual. O acaso entra em cena. O “negócio” cai por terra quando ele se
apaixona pela viúva. Ao encontrá-la e começar uma “massagem terapêutica”, ela
começa a chorar convulsivamente. Perplexo, ele a ouve dizer que nunca tinha
sido tocada. Reparem bem: tinha uma penca de filhos e jamais tinha se sentido
tocada ! O finado marido a usava apenas para cumprir uma ordem divina, sem
carinho, sem amor, sem direito à comunhão do sentimento com o prazer. Não
pensem que isso é ficção. Tanto faz casamento para procriação ou proibição de
casamento. Ambos são vestibulares para a melancolia e a solidão. Um monumental
desserviço de religiões à ligeira passagem de todos nós pela Vida.
A tudo isso, prefiro a beleza da
dúvida, que a ciência estimulou. Como bem lembrou Marcelo Gleiser, o físico poeta,
“vivemos dentro de um útero azul, um oásis de vida em um Cosmo destituído de
vida, frio e hostil”. Trazemos carimbadas em nossos corpos poeiras de estrelas,
memórias viajantes de bilhões de anos. Um quintanar: Se as coisas são
inatingíveis ... ora ! Não é motivo para não querê-las. Que tristes os
caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas. Aproveitemos a chama
fugaz, sem superstições ou aflições herdadas dos antepassados que tinham medo
das tempestades. É essa a parte que nos cabe neste latifúndio.
Créditos da foto: Eric Drooker
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